A ARTE E O PRECONCEITO

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Autoria de LuDiasBH

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Não existe maior obstáculo à fruição de grandes obras de arte do que a nossa relutância em descartar hábitos e preconceitos. (E. H. Gombrich)

A imagem de Cristo com seus cabelos longos e loiros, pele branca e grandes olhos azuis, mesmo sendo um galileu, está tão enraizada na mente dos cristãos, que a grande maioria deles se esquece de que nada se encontra na Bíblia que se refira à aparência física de Jesus. As imagens conhecidas tratam, na verdade, de meras criações dos artistas do passado, que tiveram como fonte unicamente a imaginação. Apesar disso, qualquer mudança nas imagens tradicionais leva muitas pessoas a qualificar o artista como ímpio e profanador. Por isso,  é nas pinturas bíblicas que residem os mais arraigados preconceitos. Não se aceita que outros artistas possam ter uma visão diferenciada da que tiveram os artistas do passado, num impiedoso conservadorismo.

O grande mestre italiano Caravaggio (1571–1610) foi vítima de uma dessas formas de preconceito que ocasionou, à época, um grande escândalo, quando recebeu a encomenda de um quadro de São Mateus, um dos quatro evangelistas, que deveria ornamentar o altar de uma igreja romana. Na composição, o santo deveria ser representado enquanto escrevia o Evangelho. E, para passar o ensinamento de que os Evangelhos eram a palavra de Deus, um anjo também deveria estar representado, como fonte de inspiração para a escrita do evangelista.

Caravaggio representou S. Mateus como se fosse um velho e pobre trabalhador (ver quadro em preto e branco), já com a cabeça calva, a testa enrugada denotando preocupação e dificuldade na escrita, com os pés descalços e sujos de terra, ou seja, em sua real condição humana, inclusive sem o uso da auréola que denotaria sua santidade. Ele escreve com o caderno escorado sobre a perna esquerda na falta de uma mesa. A seu lado, o artista pintou um anjo que docemente conduz a mão do santo, ajudando-o a contornar a dificuldade encontrada na transposição do Evangelho para o papel, tarefa  que lhe parece árdua. Observem que o anjo não desce do céu, mas se encontra no chão, recostado ao santo, numa atitude bem infantil.

Após a entrega da obra, Caravaggio foi duramente criticado pelas pessoas, que viram na sua pintura uma total falta de respeito para com a Igreja e para com o evangelista. A obra foi devolvida ao pintor, cabendo-lhe a incumbência de pintar outra com a mesma temática. O artista prontamente obedeceu, pois precisava do dinheiro.

Na segunda pintura, São Mateus encontra-se bem vestido, embora descalço, empunhando com facilidade a pena, e um pouco surpreso com o anjo que vem do alto e que não o toca. Agora escreve sobre uma enorme mesa, tendo a perna esquerda recostada num banco. Sua cabeça está cinginda por um halo, para demonstrar a sua divindade. Enquanto o anjo do primeiro quadro parece ensinar ao santo escrever, o segundo parece apenas lhe explicar os assuntos teológicos, enumerando-os com os dedos.

Para mim, a humildade e a compaixão estão bem visíveis na primeira composição de Caravaggio, enquanto na segunda, o que se destaca é a surpresa com a chegada do anjo. Portanto, o primeiro quadro suplanta o segundo em energia, amor e verdade.

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich

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