A AVAREZA DA PRIMA ZITA

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de  LuDiasBH

TIA ZITA

 É difícil ser avaro, quando se acha que se tem mais do que merece. Portanto, esse pecado jamais choverá na minha horta, embora tantos outros nasçam em abundância. E, antes que eu me detenha num caso específico de minha distinta família, acredito que vivemos uma época de muita avareza, em que o ser vai dando cada vez mais espaço para o ter.

 O muquirana é dono de uma infelicidade de fazer dó, pois o passado foi para ele um tempo de frustrações, por ter menos do que desejava; o presente não lhe pertence, pois julga ainda não ter ajuntado aquilo a que tem direito, e o futuro jamais chegará, pois a sua insaciabilidade o jogará sempre para além de seu tempo, numa mesquinhez que gruda nele com seus fétidos tentáculos.

 O somítico tem a sensação de que aquilo que tem é sempre pouco e precisa de mais, muito mais, para encher a sua vida corroída pela sovinice. É um eterno desagradado. Quer bem mais do que pode usufruir em sua miserável vida. Falta-lhe a certeza da finitude ou, quem sabe, seja essa uma maneira de negá-la. E, como dizem os antigos, é incapaz de dar água pinto.

 A esganação vem se alastrando em nossos dias. Fazer um bom negócio hoje significa passar o outro para trás. E o acúmulo de bens passou a ser sinônimo de status, contrapondo-se à busca pelo conhecimento. As religiões, grandes mestras, têm se transformado num campo fértil para a avareza. Técnicas de convencimento vêm deixando os desfavorecidos bem mais miseráveis do que quando acorreram a elas. Os vendilhões do templo estão a se multiplicarem.

E por falar em cainheza, a minha prima Zita está entre as pessoas mais avarentas que conheço. É a personificação do muquirana elevado ao infinito. O seu guarda-roupa é recheado de peças de sua infância, adolescência e maturidade. Vê tudo como uma recordação de um determinado tempo de sua vida. Para cada coisa tem uma história sentimentaloide que a impossibilita de fazer uma doação, por mais insignificante que seja o bem. Sua pieguice não passa de uma máscara para o seu agarramento às quinquilharias materiais. A minha prima Zita parece ter nascido com o gene da tacanharia, pois Tio Patinhas perderia para ela.

 Lembro-me de que, quando pequenos, nós, os primos, íamos a pé para o sítio de um dos nossos tios, a poucos quilômetros da cidade. Levávamos biscoitos, bolos, beijus, pães e limonadas para a viagem, enquanto a prima Nena sempre levava refrigerante e uma caixa de bombons – nosso sonho de consumo. Cada um carregava uma pequena parte. A certa altura do caminho, se a necessidade de esvaziar intestinos ou bexiga pegasse a prima unha-de-vaca, ela ia para trás de uma das moitas mais próximas e exigia que nós ficássemos cantando “Ciranda, cirandinha…” em voz alta, repetidas vezes, até que retornasse ao grupo, pois assim ninguém poderia comer sem a sua presença. E, para nosso desalento, conhecia o timbre de voz de cada elemento da turma. Vez ou outra gritava:

 – Fulano ou sicrana, eu não estou ouvindo a sua voz! Olhe que não vou lhe dar nem um bombom e nem um gole de refrigerante.

 Isso era a mais terrível das ameaças que um de nós poderia ouvir. E, se o apressadinho ou apressadinha estivesse burlando a lei da prima migalheira, tinha que cuspir fora a guloseima e dar conta de sua cantoria, sem saltar uma nota.

 De uma feita, a prima Nena aplicou o mesmo estratagema, mas, para nossa infelicidade, estava com os intestinos constipados. E nada de retornar ao grupo. Já estávamos roucos de tanto cantar “Ciranda, cirandinha”. Então combinamos, com gestos, sair em debandada. Com os dedos marcamos o momento da fuga. No número três, caímos na estrada. Chegamos à casa de nosso tio, uma hora antes dela e com a barriga cheia. Fato que nos premiou com sua raiva durante duas viagens e sem direito a um bombom ou a um gole de refrigerante. Ela não poderia ter nos dado um castigo maior.

Nota: Imagem copiada de http://joicepaula.blogspot.com.br/2012/04/palavra-do-dia-hebreus-135-palabra-del.html

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *