A BELA ADORMECIDA E SUA LÍNGUA MORDAZ

Autoria de LuDiasBH

a bela

Há muitos e muitos anos, num reino bem distante, que fica bem além do oceano Índico, e onde cantam bem-te-vis e sabiás, seus soberanos ficaram muito felizes com a chegada de mais uma princesinha, não sei se loira ou morena, dados os recursos da cosmetologia, uma vez que aquele reino figurava em segundo lugar no mundo, na compra de produtos embelezadores. O certo é que, quanto mais crescia, mais os cachos loiros da menina saracoteavam para frente e para trás, principalmente quando ela se via sobre um palco cantando, local que muito a encantava e seduzia.

Ao completar 15 anos, os pais da bela preparam-lhe uma grande festa, com convite para todas as figuras mais importantes do reino. Contudo, não sei se por preconceito ou esquecimento, acabaram se esquecendo de convidar a fada Malvina, presidente de honra do LGBT daquelas plagas. Fato que deixou a distinta dama por demais contrariada. E, como vingança é um prato que se come frio, a fada em questão esperou o momento para dar o troco.

As outras fadas, pertencentes às mais variadas denominações, fizeram fila para cumprimentar a adolescente. Cada uma que passava ofertava-lhe um dom, pelo menos era isso o que diziam, pois nada carregavam nas mãos, e, em se tratando de crença, cada um fala o que bem quer, sem que haja qualquer possibilidade de medir a veracidade das palavras jogadas ao vento da credulidade humana.

A fada Malvina era a última da fila. Esperava educadamente sua vez, pois para tudo há o seu tempo. Ao aproximar-se da princesa cantora, ela tratou de ir à desforra. Jogou-lhe a maldição de que, ao chegar aos 20 anos, ela espetaria sua língua, e não o dedo, no fuso de uma roca, falaria um monte de asneiras, de modo que seu nome seria mal falado em todo o reino, pois, quem fala o que quer, acaba ouvindo o que não quer, e ficaria muda por um longo tempo, até que as pessoas dali tivessem se esquecido de suas palavras cruéis. E, para que sua voz voltasse a soltar trinados, seria necessário o beijo de um príncipe de bom coração.

E assim aconteceu, conforme a predição da fada do LGBT, apesar de todos os cuidados da família real, ao tentar banir todos os fusos e rocas do reino, assim como toda a mídia. De modo que a princesa, até então muito querida pelos súditos, principalmente os do LGBT, não que seus trilos fossem lá aquele mel, feriu a língua num fuso, encontrado no microfone de um entrevistador e, nervosa, perdeu a noção das palavras, pondo-se a falar cobras e lagartos de certos súditos do reino, taxando-os de doentes e coisa e tal, só porque eles tinham uma maneira diferente de sentir e viver a vida. Além do mais, quem ela pensava que era, se andava insuflando os casais a viverem entre tapas e beijos? Por que queria dar uma de moralista em cima deles? Isso, não iria ficar barato!

O fato é que a princesa, antes de adormecer a língua, tentou aliviar sua barra, falando que o povo do reino havia entendido tudo errado e que não era aquilo que ela dissera. Em suma, tentou dar o dito por não dito. Mas tudo estava lá, o preto no branco e no timbre de sua voz gravada. Não havia como fugir da crua realidade de suas palavras preconceituosas e tampouco as engolir de volta. O estrago estava feito e ponto final. Assim, a princesa emudeceu, e as gentes tampouco queriam ouvir sua voz.

A esperança do casal real era a de que um príncipe viesse liberar a voz da filha cantora com um beijo, mas sem tapas. Mas estava muito difícil encontrar um, pois o único príncipe da seara, antes seu fã ardoroso, andava muito chateado e depressivo com a atitude da moçoila. Ele mesmo achou que ela havia falado demais, jogando por terra todos os sonhos dos dois. Andava tão sorumbático e macambúzio o pobre moço, que não tinha forças nem para lhe dar o beijo, que lhe restituiria a voz. Então, ele a aconselhou a dormir, dormir e dormir, até que as coisas no reino se aquietassem e ele melhorasse o seu estado de espírito.

O que sei, meu caro leitor, é que a princesa continua dormindo, depois de amargar muito choro e ranger de dentes. E o príncipe ainda continua em tratamento. Só o tempo dirá se ela voltará a soltar seus trinados como dantes. E, como a minha avó dizia, “A língua é o castigo do corpo.” , ao que meu avô arrematava: “Em boca fechada não entra mosca.”, e eu complemento: “Quem fala demais dá bom dia ao cavalo.”.

Nota: Imagem copiada de cinefilosunivos.blogspot.com

2 comentários sobre “A BELA ADORMECIDA E SUA LÍNGUA MORDAZ

    1. LuDiasBH Autor do post

      Valquíria

      Nada como transformar certos casos reais em ficção. Imagino que você deva ter captado os verdadeiros personagens. Muito obrigada pela sua visita e comentário. Volte sempre!

      Abraços,

      Lu

      Responder

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