A BOLA DE PRATA DE FULÔ

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Autoria de LuDiasBH

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Os mais velhos contavam que Fulô era bisneta de escravos, que trabalharam na cidade mineira de Ouro Preto para uma família de descendentes da Princesa Isabel, fato que, para crianças tolinhas e ingênuas como nós, deixava Fulô ainda mais misteriosa do que parecia ser. Contavam ainda que ela havia amasiado com um tropeiro e, juntos, viviam correndo mundo, sem parar em lugar algum. Depois de dois anos de ajuntamento, o seu amásio, embelecado por uma cigana, deixou a pobre mulher nos dias de dar cria, mas, por obra de São Benedito, santo protetor dos escravos negros, a criança não vingou, de modo a não ter que sofrer por não ter um pai de sangue.

O fato é que Fulô vivia ali, na cidade de minha avó Otília, pilando arroz e café para toda a família, tão escrava como foram seus bisavós, avós e possivelmente seus pais. Com a diferença de que era amada por todos. Não havia quem não gostasse de seu jeitinho acanhado, de sua fala mansa e de seu desusado linguajar, reminiscências de seu passado. Quando ela nos contava histórias, era interrompida constantemente por nossas perguntas, pois, muitas vezes, era como se nos falasse numa língua desconhecida. Fato que deixava os causos ainda mais aliciantes.

Fulô tinha uma meiágua de quatro peças: cozinha, sala, quarto e banheiro, obsequiada por meu avô, pelos serviços prestados à família. Ali, vivia no maior orgulho, como se habitasse o Castelo de Windsor. Tudo era severamente desembaciado. Todos diziam que na casa de Fulô podia-se comer no chão, tamanho era o seu atilamento com a higiene. As prateleiras eram forradas com panos de saco alvejados, com biquinhos de crochê na barra. O fogão à lenha recebia diariamente uma camada de barro branco, retirada do rio. Os potes de cerâmica, que guardavam água, eram lavados dia sim, dia não. Podia-se ver o rosto nos copos e pratos de alumínio. A madeira dos dois bancos da sala já havia afinado de tanto que era lavada com areia fina do ribeirão. As panelas de barro eram tão limpas que pareciam novas. Ninguém era capaz de avistar um cisquinho no chão, ou encontrar uma mancha, por menor que fosse, em qualquer canto da casa. Toda a casinhola era pura formosura e cheirava à erva-doce que grassava no pequeno quintal.

Havia um lugar na casa de Fulô que era a nossa alucinação e a nossa perdição, pois ali nos esquecíamos dos deveres, de comer e de voltar para casa. O quarto de dormir era encantatório, e foi ali que despertei a minha sensibilidade para a escrita. Era, sobretudo, ecumênico, onde conviviam harmoniosamente o profano e o divino. As paredes caiadas e imaculadamente limpas eram decoradas com gravuras dos mais variados santos, mulheres nuas de folhinhas de oficina, Jesus, Maria e José, jogadores de futebol, vedetes, retratos de nossa família, rainhas do rádio, capas de Manchete e Cruzeiro. Comandando toda aquela gente divinal e mundana estava o papa Pio XII de corpo inteiro, bem acima da cabeceira da cama de nossa protagonista. Ali, naquele quarto, estava toda a história do Brasil e, quiçá, do mundo.

Mas no quarto de Fulô havia um encantamento ainda maior: a bola de prata de cerca de dois quilos, imagino eu na distância do tempo. Nela, havia um pedacinho de cada um de nós, meninos artistas e arteiros. Eu me explico. Tempos atrás, os maços de cigarro possuíam por dentro um papel laminado. Quando a folha era colocada dentro da água, a parte de papel desprendia-se do laminado. Era com essa parte prateada que Fulô fazia a sua bola. Nós perambulávamos pela cidade à procura de maços vazios para presentear a nossa Fulô. E ficávamos em torno dela, enquanto fazia toda a delicada operação: retirava a parte laminada, que era cuidadosamente enxuta e, depois, com mãos de uma exímia cirurgiã, agregava à bola a nova lâmina, sem rasgar um pedacinho que fosse. De modo que a bola de prata só ia crescendo e crescendo para nosso fascínio.

Fulô sempre nos permitia pegar o seu tesouro de prata. Nós o fazíamos, como se estivéssemos segurando uma jóia do mais alto valor. Antes, lavávamos as mãos para não macular tal preciosidade. E, se estávamos num grupo grande, era estabelecido um horário empírico para cada um. De jeito que ninguém saía sem botar a mão na bola de prata de nossa encantadora dama.

Certa vez, depois de trabalhar o dia todo fora, ao chegar na sua morada, Fulô sentiu falta de sua jóia que ficava sobre a mesinha de cabeceira. Alarmada, procurou minha avó para dizer que fora roubada. Nós, crianças, também nos sentimos vítimas de tão doloroso ato. Cada lâmina que compunha aquela preciosidade era um pedaço de nós.Um chororô tomou conta de toda a cidade, pois as crianças, filhas da bola de prata, estavam se sentindo deserdadas. Não havia promessas que nos consolassem. Nossa avó nos prometeu que faria uma bola de prata duas vezes maior do que a de Fulô. Além de não acreditarmos no prometimento, pois meu avô fumava cigarro de palha, sabíamos que tal bola jamais teria magia alguma. Não seria a mesma coisa.

O fato é que, diante de tanto choro e ranger de dentes da criançada, o caso foi levado ao delegado da comarca. Todas as casas seriam revistadas, e o larápio apodreceria na prisão, pelo roubo da joia mais preciosa de nosso pequeno mundo. Logo depois do edital afixado em todas as ruas e ruelas, meu primo, um trocista nato, embora pai de quatro chorosos filhos, procurou a minha avó para entregar o butim, justificando-se,que assim agira para dar um susto na meninada. Depois de uma ensaboadela por parte de minha avó, de um esculacho de meu avô e de um esbregue do delegado, a bola de prata voltou a seu lugar, para nossa suprema felicidade.

Enquanto escrevo estas memórias, eu me ponho a perguntar: Onde anda a bola de prata de Fulô, que tanto encantou a minha infância, já que Fulô comprou uma meiágua no Céu com os dividendos de sua bondade na Terra?

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