A BREVIDADE BUNDADA DE NENA BIÁ

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Postado por LuDiasBH

brevidade
Este causo aconteceu lá pelos lados das Oropas, lugarejo fincado num dos rincões do Vale do Mucuri. E quem me contou tal história goza da mais alta reputação, nunca tendo permitido que uma bazófia batesse à sua porta. Portanto, qualquer suspeição por parte do leitor, será um enfiamento à reputação de tão conspícuo cidadão.

Oropas era conhecida em toda a região por sua famosa brevidade (bolo feito de polvilho, ovos, açúcar…). Acorria gente de longe para adquirir tão afamada iguaria, que derretia ao mais leve toque da língua. Nada se comparava ao sabor e à maciez daquele bolinho. Só o fato de vê-lo já tapulhava a boca do observador com uma enxurrada de água. Hum!!! Sua fama era tamanha, que grandes mestres da culinária francesa e japonesa, através de enviados especiais, tentaram comprar a receita de dona Nena Biá, que dela não se desfazia por abastamento algum. Dizia não precisar de nada, pois, com sua brevidade, tinha gaita e reputação em folgança. E ela não era abilolada para deixar seu resguardo partir para terras estrangeiras, para encher os bofes de quem nem conhecia a graça.

Miserável raça humana, sempre tão avolumada pela cobiça. O que não tem, ousa roubar. O fato é que o olho grande de um concorrente, Ramiro Pezão, cresceu em cima do lavor da abelha-mestra da brevidade. E, como ela acoitava a receita debaixo de sete chaves, era sua incumbência farejá-la através de outros meios, embora esconsos. Sempre soubera que, para ficar fofa, a massa de tal bolo demandava que fosse bem esmocada. Mas isso ele fazia, de modo a doer os muques dos braços, mas nem assim chegava aos pés da brevidade de Nena Biá. E foi aí que o dito partiu para a atalaia.

Na cidade havia um molecote de nome Jadenilson, mais esfogueteado do que corisco. Quando um vinha com o milho, ele já estava voltando com a broa quentinha. O maroto oferecia seus obséquios por qualquer trocado. E foi o dito o escolhido para ficar à espreita de Nena Biá. O endiabrado montou guarda no telhado, sob um sol de rachar até asfalto, bisbilhotando o que se passava dentro da casa.

Durante o dia, nada aconteceu de novo na casa da “madame” da brevidade. Agora era preciso espiar durante a noite. Mas a fome acochou e o maroto teve que descer feito um gato, esgueirando-se para não quebrar as telhas e fazer bataria. Ele não dilatou nem duas horas no banho e na janta. Até carregou consigo uma velha coberta, caso carecesse ficar ali até o sol raiar. Mas, para sua estranheza, quando chegou ao posto de espionagem viu que mais de trezentas forminhas já estavam cheias de massa, prontinhas para irem ao forno. No dia seguinte, resolveu mudar o esquema. Não desceria do telhado nem que chovesse canivete. Para tanto, levou a matula e a coberta de uma vez. E ali se amoitou feito uma cobra, pronta para dar o bote no esconso alheio.

Quando o silêncio da noite já tinha amordaçando tudo e o sino da igrejinha badalou doze vezes, o curioso viu Nena Biá encher uma gamela avantajada com os ingredientes necessários à brevidade. Até aí não viu empecimento algum. Tanto é que descambou num inesperado cochilo. Mas, com a laúza que se começou a fazer lá embaixo, acabou acordando azoretado. E o que viu? Nem o mais sagaz leitor, acostumado com toda sorte de sucedimento, poderá imaginar.

Nena Biá havia se despido da indumentária toda, ficando do jeito que veio ao mundo e, com sua bundana, a matrona repoltreara-se sobre os ingredientes ajuntados na gamela. Uma vez bem acomodada, o marido, um sujeito parrudo de forte, cujo ofício era torar lenha, pegava a desvelada pelos braços e ia socando a bundaça da distinta de encontro à massa, até a meleca ficar no ponto. Quando a pasta ficou nos conformes, os dois acabaram num forte amasso, ali mesmo dentro da gamela, para festejar mais uma bem sucedida produção. Estava aí o porquê de a brevidade desmilinguir-se na boca.

Jadenilson não só recebeu o bagorote do invejoso Ramiro Gato pelo serviço prestado, como aceitou outra incumbência, dessa vez com preço redobrado: esparralhar a feitura da brevidade a quatro ventos. Bocudo como era o pirralho, não ficou buraco sem que levasse o seu mexinflório. E assim foi.

Ninguém mais comprou a brevidade fofinha que desmanchava a um leve roçar da língua. Ninguém mais quis comer os bolinhos “bundados”, feitos com o maior amor. Que danação das brabas! Coitada de Nena Biá com seu profícuo ganha-pão! O que a inveja não faz, meu amigo leitor?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *