A CALMA DE QUEM SE SENTE FORTE

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Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos ensina sobre a importância do contentamento.

A palavra Santosha quer dizer contentamento. Ela cura impotência, úlceras, insônia, hipertensão, prisão de ventre, asma. . . enfim, toda doença originária do nervosismo, da insatisfação, da ansiedade e da apreensão. Contentar-se é acomodar-se com o que se tem, inclusive mesmo uma úlcera, a qual, todos já sabem, agrava-se com a tensão psicossomática. Se o doente, conversar com ela e disser-lhe: “até ontem pudeste amedrontar-me, manter-me em estado de alarma ou sofrimento, mas hoje, está bem, eu a aceito, não significa grande coisa para mim”, ela infalivelmente vai melhorar.

Esta atitude psíquica alivia a tensão. A estratégia para vencer a coisa (crise de pânico) é também esta. Contentar-se até mesmo com a situação da carência, falência, queda, crise… é estratégia para libertar-se de tudo isto. Usar santosha vale por assinar um tratado de paz e, portanto, desmoralizar o “inimigo”. Contentamento é desafogo, pois liberta-nos da ânsia de obter cura ou triunfar. Veja bem: não é capitulação de covarde. É a calma de quem se sente forte.

Se, para vencer uma carência, o contentamento é valioso, para a manutenção de um estado de razoável tranquilidade o é ainda mais. Aliás, não haverá paz enquanto cobiçarmos algo, mesmo que seja a própria paz. Não alcança o céu quem por ele se consome de ansiedade. Uma forma de cair no inferno é tornar-se ansioso por ganhar o céu. Há um querer sereno, sem luta, sem tensões que abre a porta da vitória. Aprenda isto. Não há riqueza maior do que o sentimento de ter bastante, de contentar-se com o que se é, bem como com o que ainda não se é, ou ainda não se conseguiu ser. Tenho sabido de muita gente que perdeu a saúde exatamente pela ânsia de ser sadio e forte. Tenho conhecido quem se perdeu vencido exatamente pela luta por fazer-se santo e perfeito.

Estar contente, embora tendo mazelas, é o caminho certo para delas se libertar. Não se perturbe com as inferioridades que descobrir a seu respeito. Não permita que defeitos, sintomas e carências façam de você um ansioso ou um abatido. Lembre-se de nossa conversa sobre os “normais” e a normalidade em nível baixo. Ser “normal” não é ser perfeito. A vontade de ter o último modelo de carro ou de usar as roupas mais em moda, ou de ver o nome nas colunas sociais tem criado muitos problemas de nervosismo. Se a pessoa tem meios materiais para alcançar o objeto de seus desejos seria de esperar que se desse por satisfeita depois de atendê-los. E por que, ainda assim, surpreende-se terrivelmente infeliz e decepcionada?

Não é satisfazer a insatisfação o que nos faz felizes. O não ter a insatisfação, sim. Se você não descobrir um meio de sentir-se satisfeito com o que você faz, com seu trabalho, por exemplo, continuará irremediavelmente infeliz neste aspecto da vida. Nunca haverá tranquilidade para o comandante do navio que, a custo, suporta seu posto, enquanto almeja estar num hospital operando enfermos. É infeliz por não ser médico. É infeliz por ser um navegante frustrado. . .

Um advogado muito bem colocado chegou a tal ponto de ojeriza pelo escritório que, quando me procurou, estava há quase um mês sem voltar lá. O ambiente e a função davam-lhe náuseas, tonteira, angústia. . . Não procurei saber se o que desejava era ser banqueiro ou barqueiro, peão ou militar, mas vi que, sem dúvida, gostaria de ser outra coisa. Felizmente, no dia seguinte voltou sorrindo: tinha assinado um tratado de paz com a função. Estava contente. Seus sintomas haviam passado.

Qualquer que seja sua atual profissão, embora com seus mil defeitos, se você quiser, descobrirá que tem mil atrativos. A profissão que você desejaria ter, esteja certo, além dos mil encantos que você vê, oculta mil desvantagens que você não quer ver. Nenhuma profissão deixa de ser útil a milhares de milhões de seres humanos. Seja eficiente em sua profissão, desempenhando-a a serviço de Deus e dos homens. Mas, se o caso for de absoluta inadequação e você estiver sendo negociante por erro, ou necessidade, quando realmente nasceu para a arte, procure trocar, mas, por favor, faça-o sem ansiedade, sem aflição, sem precipitação.

Não confunda satisfação com covardia. Não confunda santosha com o conformismo dos fracos nem com a indiferença dos tolos. Se tal confusão todos fizessem, a civilização pararia e impossível seria o progresso. Satisfação não é contrária ao querer firme, constante e sereno dos sábios, mas é antítese da apressada, febril, rajásica, traumática, tensa e ansiosa caça ao sucesso em qualquer de seus aspectos. Não é bom negócio conquistar poderes, posses e posições e, em troca, perder a saúde e a paz.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF.

Nota: Gato Azul, Aldemir Martins

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