A CIGARRA E A FORMIGA PREGUIÇOSA

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Autoria de LuDiasBH

cifor

Cigarrita era popularmente chamada de Maria Chuteira. Não que tivesse nascido num campo de futebol ou que sua família tivesse qualquer ligação com os gramados. Nada disso. O apelido devia-se ao fato de ficar zuruó ao ver as pernocas dos jogadores, com suas veias saltitantes quase desatando do corpo, ou ao ouvir seus nomes gritados nos estádios, ou ao sentir o cheiro do suor que deles desprendia e, sobretudo, ao tomar conhecimento da bolada que os moços recebiam. Não dava bola para qualquer um, é fato. Atleta chinfrim era descartado só pelo nome do time do qual vestia a camisa. Mas, se o neguinho jogasse um bolaço e ganhasse rios de dinheiro, entrava na linha de penalty da sirigaita. A primeira divisão era bola na rede.

Assim como as moçoilas do gênero, Cigarrita vestia o figurino das amantes, não do esporte, mas dos moçoilos que o executavam: roupas justíssimas, decotes generosos, saltos que constituíam verdadeiras armas de perfuração, muito reboco na cara e cabelos lourejantes. Aliava ao figurino um andar provocativo de quem tem muito mais a dar do que se imagina. Sabia que a parada era federal, pois havia muitas concorrentes de olho nos gramados, mas cria piamente no seu poder de sedução. Para isso dava duro, com a agenda sempre lotada: dança de salão, yoga, pilates, encontros sociais, festas, salão de beleza e, sobretudo, presença nos estádios de futebol.

Cigarrita vivia saltitando de norte a sul, de leste a oeste pelos vestiários do país. Olhava para as moças de sua idade que viviam pegando no pesado para sobreviver, e jurava jamais passar por aquilo, enquanto estivesse com a bola cheia, com todos os ângulos de seu corpo bem protegidos, atraindo a atenção das duas equipes, de modo que o troféu escolhido pudesse entrar com bola e tudo em sua vida e estufar a rede.

Formínia, amiga de Cigarrita desde os tempos de grupo, que trabalhava duro numa repartição jurídica de certo clube, viu que a periguete estava vivendo como bola sem manicla, totalmente desvairada. Sentiu que era preciso tirá-la do meio-de-campo, antes que levasse cartão vermelho, tamanha era a sua avidez no ataque aos cobiçados ídolos. Falou-lhe da necessidade de trabalhar, ter carteira assinada, pagar INSS e garantir uma aposentadoria no futuro. Disse-lhe ainda que a vida não era feita só de verões, mas que havia invernos também e que eles chegavam mais cedo do que ela poderia imaginar.

As ponderações da amiga deixaram Cigarrita roxa de raiva, a ponto de responder com azedume que sua filosofia de vida era aproveitar o verão, a primavera, o inverno, o outono e as outras estações que viessem. E, que esse negócio de trabalhar no verão,  guardando para o inverno era coisa de Esopo e La Fontaine, pessoas que nunca vira e nem pretendia ver. Ainda teve a audácia de chamar Fomínia para uma festa que punha as bacanais da Roma Antiga na concentração. Convite que a amiga recusou prontamente, pois não era de ensebar a bola, sem conhecer o gramado primeiro.

A saltitante Cigarrita continuou fazendo valer sua súmula, até que pisou na bola ao agarrar um jogador bonachão de certo time que se encontrava na final do Brasileirão. Achando ter atingido a pequena área e já prestes a fazer gol, a deslumbrada não se preocupou com o ataque inimigo, até descobrir que era a décima primeira na lista do gostosão, ou seja, estava em impedimento e não passava da bola da vez. De modo que a moçoila não demorou a ser colocada de escanteio pelo atleta. E, sem eira e nem beira, começou a passar por todos os tipos de privação, próprios dos que levam a vida sem     responsabilidade, de olho na rede dos outros.

Eis que, já com a bola murcha e sem saber em que posição jogar para reverter a derrota acachapante de seus sonhos, Cigarrita foi bater na porta de sua amiga Formínia, pedindo ajuda. Ao ser questionada sobre o motivo pelo qual insistira em continuar naquela vida, a amante do esporte balbuciou que não tinha bola de cristal para saber que iria levar uma goleada e que sempre esperou, no mínimo, ficar no empate. Já trocando as bolas, arrematou dizendo que a sua derrota acontecera porque todos os juízes em campo eram ladrões e a perseguiam.

Vendo que a amiga estava sofrendo da bola e necessitando de cuidados médicos para a sua “contusão” mental, Formínia deu-lhe sopa quente, agasalho e uma maca para se deitar, prometendo a si mesma que assim que Cigarrita estivesse curada, teria que dar duro no trabalho. Se não quisesse trabalhar, que fosse bater bola em outros campos.

A verdade, meus caros leitores, é que daqui para frente não sei se a Maria Chuteira em questão tomou jeito, aceitando trabalhar. Alguns dizem que ela voltou aos estádios, pegando até perna de pau da terceira divisão. Outros, que optou pela classe política, para onde vão os atletas da bola já caídos do galho. Os falastrões espalharam que ela passou a pegar o que caísse na rede: jogador, gandula, bandeirinha ou torcedor. Mas sua mãe jura que ela está trabalhando com crianças carentes no Morro do Alemão, onde dirige um time mirim. Sei lá, mães costumam beatificar a prole. Tomara que assim seja.

Nota: Imagem copiada de http://www.edneimarx.com.br

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