A COZINHA DE MINHA VOVÓ OTÍLIA

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Autoria de LuDiasBH

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A labutação na cozinha de minha vovó Otília
era um mexe-mexe, entrava noite e partia dia.
Lá ficavam: padre, prefeito, delegado, parteira,
oito filhos, netos e muitos amigos da família.

É claro que não eram todos ao mesmo tempo;
a singular peça nem competia tanta turbulência.
Uns vinham pro café matinal, almoço ou jantar;
outros, pra uma prosa ou encher a paciência.

O fogão a lenha trabalhava feito um escravo;
não parava nem pra esfriar um pouco do fardo.
Línguas de fogo subiam em sua boca fervente,
era difícil achar tempo pra limpar o borralho.

Na trempe ficava a chaleira com a água quente.
A “esculateira” era ua peça constante na chapa,
com o café retinto pelando a língua das pessoas,
que ousassem sorver aquele líquido fervente.

O fazer do café desafiava qualquer alquimista.
O ritual era seguido com rigor no feitio da obra:
o coador de pano no tripé de madeira esperava
as três colheres do pó torrado e moído na hora.

Com maestria e agilidade pegava-se a chaleira
com um trapo sem cor definida, na quente alça.
A água era jogada dentro do encardido coador,
sempre pronto, na boca da “esculateira” de lata.

Quando chegava à casa uma figura importante,
servia-se o café no bule  com copos esmaltados,
enquanto os canecos de alumínio bem areados,
dormiam na parede, em tornos, dependurados.

Uma bandeja robusta, feita de folha de flandre,
com uma toalha de algodão e babado de crochê,
farta de bolo, biscoito, brevidade, cuscuz e beiju,
era pilotada pelo aposento em mãos sem brevê.

Os adultos ainda podiam contar com os licores:
jenipapo, umbu, figo, pequi, laranja e maracujá,
bebidas divinas que a nós, contristadas crianças,
tratadas nos trâmites legais, só cabiam cheirar.

Dindinha Otília partiu cedo nas asas do tempo e
levou consigo todo aquele grupo de bons amigos.
A casa foi vendida e jogada ao chão, sem piedade,
mas a saudade doendo o peito inda mora comigo.

Nota: Imagem copiada de construdeia.com

4 comentários sobre “A COZINHA DE MINHA VOVÓ OTÍLIA

  1. Adevaldo R Souza

    Lu,

    Quanto se fala em fogão à lenha até dá na água na boca.
    Tempos de fazenda, tempos de infância.
    No preparo do requeijão meu pai era o tal, eu ficava atento do início até o final.
    Na rapa do requeijão com um pouco de açúcar não tem igual.
    Eu, como caçula, tinha a preferência de tamanha gostosura.

    Formidável sua descrição sobre a parte mais importante da casa.

    Abraço,

    Devas

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Devas

      E os biscoitos fritos?
      E as batatas e os milhos assados?
      E o bolo feito com brasas dentro um prato de esmalte, como tampa?
      A rapa de requeijão… ai que delícia!

      Quanta saudade!

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Beto

    Lu,

    Aguenta coração!Recordei a minha infância. Na casa dos meus avôs existia um fogão a lenha. Eu ajudava carregando a lenha deixada na calçada pelo fornecedor, com sua carroça puxada por um belo cavalo, para dentro de casa. Como recompensa sempre havia um bifinho na chapa do fogão na hora do almoço!

    Ainda mato a saudade daqueles tempos quando viajo. Principalmente, ao Estado de Minas Gerais onde vários restaurantes típicos dispõem de fogões a lenha para a delícia do comensais. Não resisto ao um tutu a mineira!

    Comida regional também é cultura!

    Parabéns!

    Beto

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Beto

      Você também nem imagina a saudade que sinto…

      Realmente temos muitos fogões à lenha aqui nas Minas Gerais, tanto no interior quanto na capital.
      Nós somos chegados numa comidinha ao pé do fogão… risos.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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