A ESCRAVA E O LICOR

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Autoria de LuDiasBH

escra

O senhor das terras adentrou na senzala,
e ordenou que a escrava recém-chegada
fosse, naquela noite, esquentar seu corpo,
ainda moço e pleno de volúpia retesada,
enquanto a sinhá pernoitava noutra plaga.

Ainda coa lembrança da distante África,
a lhe ferir o coração em chagas lacerado,
a jovem lavou-se com água de alfazema,
botou no corpo negro uma túnica branca,
pra servir de agrado ao jovem mancebo.

A negra, divina deusa no ébano talhada,
deixou que suas lembranças vagassem
pelas areias da longínqua terra africana,
e entregou seu corpo a seu rico senhor,
que dele se serviu com fúria indomada.

Rompeu a noite, a madrugada se seguiu.
O sol nasceu e no zênite fez sua morada,
e inda vagou pelo céu até se soltar do dia.
No coito, os dois amantes se entregavam,
achava a gente da Casa Grande e senzala.

Mais uma noite e mais um dia se foram.
Ave Maria! Não há gozo que tanto dure,
nem corpo que não precise de alimento,
sinhá não tardaria em se fazer presente.
No ar já se sentia certo abrenúncio.

Portas foram abertas. Estupor. Correria.
Dois corpos já tumecentes jazem na cama:
o corpo negro da escrava recém-chegada
e o corpo branco de seu amante e senhor.
Não mais patrão e escrava. Apenas corpos.

Causa mortis: licor de Atropa belladonna

Nota: Retrato de Mulher Negra – Marie-Guilhelmine

2 comentários sobre “A ESCRAVA E O LICOR

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