A MARCHA NUPCIAL DE WAGNER

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Autoria de LuDiasBH

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Um tapete da cor do rubi estende-se da porta principal até o altar. A igreja de Nossa Senhora da Paixão encontra-se ricamente ornada. Familiares e amigos espalham-se pelos bancos da nave decorada com laços dourados de fita. As mães lastimam-se ao ver tão cobiçante rapaz casar-se com uma desconhecida diva, enquanto as filhas suspiram por seus doces olhos amendoados e tão gentil coração.  Lá se vai o mais belo dos príncipes encantados.

João Teodoro, reluzente em seu terno de veludo acastanhado e camisa cor de miosótis, espera, no altar, a noiva impacientemente. Já tivera muitos amores, é verdade, mas este é diferente. Fora-lhe entregue pela mão benfazeja da sorte. Recusaria a maior das honrarias para tornar aquela rapariga eternamente sua. Por ela quebrou o juramento de jamais se deixar aprisionar pelos encantos de dama alguma. Agora está ali, totalmente seduzido e hipnotizado pelos encantos de Florência, sua doce e pequena amada.

O noivo conta os minutos para o início da tão aguardada cerimônia. Seus olhos apaixonados e esplendentes vagam inquietos entre santos e querubins, enquanto os pensamentos trafegam no tempo, ainda que recente, de quando encontrou sua estrela fulgente pela primeira vez, junto a um canteiro de flores azuis no Jardim das Sempre-Vivas. Tudo havia acontecido tão rapidamente, bastando um beijo para lhes unir alma e coração. Sob as bênçãos de Deus Pai e da Virgem Mãe logo estarão unidos para toda a eternidade.

O tardamento é maior do que o esperado. Os minutos transmutaram-se em horas. Os olhos de João Teodoro, inquietos faróis, continuam a alumiar o tapete vermelho. Seu coração parece agora navegar num agitado mar de estranhas emoções. Os músicos, perfilados e silenciosos, aguardam o sinal para iniciarem a Marcha Nupcial de Wagner. As pessoas remexem inquietas nos bancos. As crianças, excitadas, perambulam por todas as alas.

O noivo já não tem o mesmo sorriso arrebatado. Seu coração atravessa o compasso de suas batidas cada vez mais apressadas. João Teodoro volta a flutuar nas lembranças, como evasiva para a dor que se faz presente. Naquele dia, ao ver aquela garota de olhos de esmeraldas e corpo de sílfide, e de voz veludínea como o cantar de um rouxinol, não teve mais dúvidas, faria dela sua rainha. É vero que não se preocupou em buscar-lhe a origem, pois, quando o amor chama, ele deve ser prontamente atendido.

A porta da igreja abre-se com estardalhaço. Sem fôlego, um homem dirige-se ao altar e murmura algo no ouvido do vigário, que se põe a correr em direção à porta principal, com o noivo a acompanhá-lo. Homens, mulheres e crianças precipitam-se atrás, pressentindo uma estranheza no ar. E bem ali, nos primeiros degraus da igreja, em meio a muitos “ais”, um pobre esqueleto traz um anel no dedo anular.

João Teodoro reconhece o mimo dado à noiva, sua diva e meiga cotovia. Em derredor, tudo vai perdendo o encantamento e a poesia. Num átimo de lucidez, sabe que não poderá viver sem Florência, devendo acompanhá-la até ao Jardim das Delícias, onde o amor de ambos florescerá em outra vida. Decidido, ele toma o revólver do policial presente à cena e atira no peito, tombando sobre os ossos de sua sílfide preciosa, a mulher desconhecida que tanto amara em vida.

Os dois amantes, com as vestes do enlace e de mãos dadas, são colocados na mesma cova, sob a sombra de uma frondosa mangueira, enquanto o sol parte levando a tépida tarde. Os músicos, perfilados e serenos, tocam a Marcha Nupcial de Wagner, enquanto os nubentes descem para a sua nova morada na casa do Pai. Pétalas de flores esvoaçam pelos ares e um cheiro de mirra e jasmim sobe da terra em espirais. O amor vence, apesar dos inesperados temporais.

Alguns contam:
– O esqueleto abraçou João Teodoro.

Outros relatam:
– O noivo beijou a noiva ao cair.

Os músicos espalham:
– Nos dois cresceram asas de anjos.

Os coveiros relatam:
– O caixão estava leve como uma pluma.

As crianças exclamam:
– Vimos eles voando pro céu a sorrir.

O séquito pede aos músicos:
– Por favor, toquem para eles, mais uma vez, a Marcha Nupcial de Wagner.

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