A MENINA E A SAUDADE

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Autoria de LuDiasBH

Chap12

A sala de visitas de minha doce infância,
que se queda nos braços frios do tempo,
incapaz de ser concebido pelas crianças,
está envolvida em papeis de seda e fitas,
no baú de minhas ternas lembranças.

Ainda trago vivos todos os seus detalhes:
na sala, um banco tosco de pernas tortas,
onde nos sentávamos para ouvir histórias:
casos de assombrações, piratas e glórias,
príncipes, reis, duendes e almas mortas.

A mesa de madeira, peça chique da sala,
conservada por um tecido florido de chita,
situava no centro, orlada por 04 cadeiras.
Ao fundo, um sofá roto com 03 almofadas,
era o assento especial para nossas visitas.

Ornando a entrada, caqueiros de plantas,
já alquebrados pelos anos de boa serventia,
davam boas-vindas aos visitantes e família:
espada-de-são-jorge, comigo-ninguém-pode,
alho e arruda, para espantarem a arrelia.

Nas paredes sem cor, quadros sagrados:
Sagrado Coração de Jesus e Santo Antônio,
Sagrada Família, Sagrado Coração de Maria.
sempre vigilantes, olhavam a nossa família,
dando-lhe saúde, prosperidade e alegria.

Dentro da cristaleira: 01 bule e 06 xícaras,
06 pratos de alumínio, comidos nas beiras,
07 canecas esmaltadas de cor já esquecida,
02 bandejas de latas de querosene, vazias,
o mais fino para oferecer nossas visitas.

01 cabide tosco acolhia chapéus e umbelas
da gente dinheiruda e poderosa da cidade,
e 01 vaso de barro, bem centrado na mesa,
acolhia flores de crepom da maior singeleza.
A cortina acanhada dava o local por acabado.

A Terra girou, girou. A vida deu voltas, voltas,
mas a saudade daquela singela sala de visitas
continua vívida e forte dentro de mim, num
tempo e lugar que se perderam pra sempre.
Doídas, essas lembranças ainda persistem.

Um comentário sobre “A MENINA E A SAUDADE

  1. Edward

    LuDias

    Gostei muito da poesia. Ele me fez recordar coisas que não me pareciam tão importantes. Cada um de nós tem uma imagem similar destes lugares. No meu caso, era o velho depósito da casa de meu avô, situado nos fundos do seu quintal.

    Era um quintal imenso, repleto de árvores – pés de manga, limão, laranja, mamão, até um coqueiro gigante. Havia uma horta em grande parte dele. Outra parte, era coberta por duas parreiras de uvas – uma branca e outra preta. Encostado, uma cozinha, onde era servido café, pão e leite. Do lado, um quartinho, com muitos brinquedos e uma mesa de bilhar. Era tudo que as crianças – seus netos – queriam. Mas eu gostava muito mais do velho depósito. Lá ficava por ora, remexendo aqui, remexendo lá, descobrindo coisas de uma passado mais remoto, objetos que me surpreendiam, embora envolvidos em muito pó, que o tempo depositou.

    Também lá se escondiam os gatos, que gostosamente dormiam ou ficavam caçando ratos. Havia uma enorme messe de objetos antigos, como relógios de parede, despertadores, rádios antigos, muitos repletos de cupins, caixas de madeira, redes de descanso, chuteiras usadas, bolas murchas e usadas, porta-retratos, imagens de santos, camas usadas, móveis usados do século passado, roupas usadas, botinas, uma parafernália de bugigangas interminável, que me atraia pelo descobrir, no dia a dia, abrindo caixas, tirando coisas da frente, revirava, remexia, revolvia, misturava. Coisa de criança traquina – uma travessura atrás da outra. Que gostoso!

    Neste local, porém, comecei a refletir sobre cada um dos objetos, que encontrava e, que mais me atraia. Um deles, lembro-me, foi uma caixa de música. Embora não mais tocasse, vê-la era um momento de refletir. Que prazer teriam tido as pessoas que a utilizaram, muito tempo atrás. Foi um presente que um pai deu para seu filho? Foi um momento inesquecível que se representou na vida das pessoas? Ah, pensei: gostaria de ter uma destas!

    Cada objeto, uma reflexão, um pensamento que voava dentro de mim. Gostava do velho depósito, que vejo agora com mais clareza, que era o passado do que ficara de muitas vidas, que por nós passaram. Talvez por isso mesmo é que era minha grande atração. No quintal, meus primos e amigos brincavam o dia todo. E quando davam por minha falta, já sabiam que estava lá, no velho depósito empoeirado, saciando minha curiosidade infantil, tirando tudo fora do lugar, para o desespero de meus avós.

    E depois, quando furtivamente do depósito saia, chupar umas uvas da parreira de minha avó, sem que ela percebesse, era o prêmio final. Eram uvas gostosas demais. Até hoje, sinto água na boca!

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