A MULHER AMADA

Autoria de Alfredo Domingos mulher amada

A mulher amada precisa, antes de qualquer coisa, ser minha. Gostar das mesmas coisas, talvez nem de tudo… Mas fazer cara de aprovação quando manifesto o gosto.

Deve ficar à vontade para falar de mim, dela mesma e da relação. Falar em relação não significa que precise a todo instante querer discuti-la. Não, não precisa.

Pode ser crítica, fazer comentários picantes, divertidos, até discordar daquilo que penso. Para tal, a alma deve ser leve e arejada. Uma fofoca inocente, vez por outra, até que vai bem, não tira pedaço, vamos combinar.

Gostar de futebol, isso precisa. Afinal, a mídia está no futebol e nas celebridades a ele ligadas. Rende assunto. Curto muito o futebol. Se puder ficar ao meu lado, ouvindo as mesas esportivas no rádio, no escurinho do quarto, melhor ainda.

Deve ter pele macia. Não precisa ser sarada ou marombeira. Caminhar pelas ruas de mãos dadas é tudo de bom. Tanto faz se for despojada ou elegantemente produzida. Pode usar tênis ou saltos altos. Vestido, calças apertadas ou bermudas largas, tudo vai bem.

Fico amarradão se ela é parceira numa noite chuvosa de sábado, em casa, saboreando queijo curtido e vinho honesto. Que não reclame se o copo não é taça sofisticada e se não há faca apropriada de corte infalível.

Que seja companheira nos momentos de aflição. Quando vier aquela dor maluca, que diga chorosa: – Está sofrendo, coitadinho! Em seguida, que me leve ao médico e fique na sala de espera, rente que nem pão quente.

Que não se incomode com as minhas roupas desarrumadas no armário, e quanto aos papéis amontoados na escrivaninha, bagunçados, que não se amofine com eles.

Pode ser inquieta, ansiosa, medrosa, espavorida ou esbaforida, não importa. Tudo isso é suportável e fornece inspiração para histórias. Acaba sendo alvo de pilhéria pelas hilárias situações.

Carece, sim, de ser disposta para o amor. Que tenha disposição para estripulias e aventuras na cama. Que faça, com arte, os movimentos do globo da morte e da mão que balança o berço.

E, principalmente, que me perdoe sempre, em especial ao saber destas exigências de ser isso ou aquilo, deste verdadeiro cardápio egoísta, que aprontei aqui. Que dê risada desdenhando estes tolos requisitos e que de bom humor diga:

– Vá esperando, meu filho!

Nota: Imagem copiada de floresonlinebrasil.com.br

12 comentários sobre “A MULHER AMADA

  1. Glória Drummond

    Huuum… Interessante, Alfredo. Você dá a impressão de um machão enrustido. E para ser moderninho, Novo Homem, no final tira-me a chance de … Deixa prá lá! A minha vingança : escrever O HOMEM AMADO, sem tirar a oportunidade de nenhum varão estrangular-me…

    Um abraço, Fredo

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    1. Alfredo Domingos

      Glória,
      Nós sabemos que o “machão” está fora de moda. O termo, agora, é “parceiro”. Aliás, a mulher nunca deu confiança para a história do machão. Fingia que aceitava, mas no fundo sempre fez o que deu na veneta, não é?
      Obrigado, abraço, Alfredo Domingos.

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  2. Tereza Maria de Magalhaes

    Pois eu jamais diria a um homem que me aceita de salto ou de rasteirinha, feliz e satisfeita numa noite chuvosa bebericando um bom vinho em qualquer copo; sem que eu sofra e chore em academia para ficar sarada; que eu possa ser crítica, reclamar, pisar na bola, dizer besteiras…ufa! Quanto prazer eu teria em dizer a ele: Vem, querido, pode esperar muito, mas muito mais. (meu fiho ???..jamais!)

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    1. Alfredo Domingos

      Tereza Maria,
      O jogo do amor, no fundo mesmo, é exigente e ao mesmo tempo nada exige. Dependendo da onda que passa, aceita-se tudo, ou então até numa marolinha a coisa nenhuma é motivo para disputa e recusa. O outro tido como ideal ou imaginado de uma forma, quase sempre é tiro na água, em vão. As coisas acontecem, assim, do jeito que pintam, ao sabor do momento e do acaso. Obrigado pelo seu comentário. Abraço, Alfredo Domingos.

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    2. Alfredo Domingos

      Tereza Maria,
      Ter um modelo de homem ou de mulher é estar fadado ao insucesso. As coisas acontecem e raramente seguem a um planejamento. Mas sonhar não custa nada ou quase nada, já diz o samba famoso!
      Mas todos nós temos as nossas preferências, mesmo que não se realizem.
      Obrigado a você pela participação. Quem escreve gosta da colaboração do leitor.
      Abração, Alfredo Domingos.

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  3. Ana Lucia

    Alfredo,
    Tenho cá minhas dúvidas se esta mulher amada existe, atualmente. O final é realmente muito bem bolado. Um abraço.
    Ana

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    1. Alfredo Domingos

      Ana, obrigado pelo comentário.
      Todas as mulheres habitam as nossas cabeças. De alguma forma elas existem.
      Legal que você captou o espírito do final do texto!
      Abração, Alfredo Domingos.

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  4. Jovimari

    Isso mesmo, vá esperando, vá esperando!
    Muito bom, gostei do bom humor e do exagero… o mundo amoroso só sobrevive com muita paciência, com humor ou com utopia! hehe
    😉

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    1. Alfredo Domingos

      Jovimar,
      Obrigado pelo contato. Você colocou bem a essência do amor. Ele é feito mesmo de humor e exagero.
      E aparando as arestas, nós vamos vivendo. Abração, Alfredo Domingos.

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    2. Alfredo Domingos

      Jovimari,
      Meu agradecimento pela sua participação. Humor, exagero, ciúme, entrega, exigência e outros traços mais são os ingredientes do amor. Ele tem caras e gostos infindáveis. Talvez esteja aí a sua graça.
      Abração, Alfredo Domingos.

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  5. LuDiasBH Autor do post

    Alfredo

    O seu texto tipificando a mulher amada está ótimo.
    Confesso que dei boas risadas.
    É fato que ela está bem distante da tradicional Amélia, embora tenha que satisfazer o macho em muitos requisitos, coisa da qual você se exime com muita perícia, ao escrever o último parágrafo.
    Sem falar que fecha com chave de ouro:

    “- Vá esperando, meu filho!”

    Abraços,

    Lu

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    1. Alfredo Domingos.

      Lu, legal! Você entendeu perfeitamente o espírito do texto!
      Um amigo disse-me que a sua amada é simplesmente aquela que está com ele no momento, não importando como seja. Então, tá!…
      Obrigado, abração, Alfredo Domingos.

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