A MULHER QUE NÃO FALAVA COM GENTE

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Autoria de LuDiasBH

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Ninguém jamais conseguiu entender o motivo que levou Maria Rosa a se emudecer para as gentes e passar horas e horas falando com os bichos, embora não faltassem proposições. Alguns asseveravam que a mulher estava fraca da cabeça; outros, que se tratava de mundrunga; e mais outros, que ela vira algum ser do além. Mas na verdade tudo não passava de uma busca por respostas que as pessoas jamais viriam a ter.

Se por isso ou aquilo, o fato é que Maria Rosa ignorava a presença humana, enquanto doava todo o seu acolhimento aos animais do pequeno sítio. Ela permanecia sempre atenta ao cacarejar das galinhas, ao grunhir dos porcos, ao gorjear dos pássaros, ao relinchar dos cavalos, ao grasnar dos patos e gansos, ao berrar das cabras, ao mugir das reses, ao zumbir dos insetos, ao zurrar do velho burro Tião, ao ladrar de Teimoso, Trabuco e Labareda, ao palrar de Mustafá, ao grugulejar dos três perus, ao miar de Tonico, Branquelo e Ladino, ao pupilar de meia dúzia de pavões, assim como às vozes de outros animais dos quais acabei me esquecendo do nome. Ela falava na língua dela e eles falavam na língua deles. E ainda assim pareciam se entender divinamente, tamanha era a atenção que os bichos devotavam-lhe, mirando-a através de seus olhos acastanhados.

Maria Rosa, antes das transformações sofridas, fora uma mulher extremamente sociável e generosa. Nunca negara nada a um vivente ou fora rude nas palavras. Se um vizinho precisava de auxílio, era a primeira a chegar, jamais diferenciando as pessoas na acolhida. Sua benevolência era extensiva a tudo que tivesse vida: gentes, plantas e animais. Não podia ver um bicho mancando que já lhe punha uma tala no pezinho machucado. Era ela quem tratava das bicheiras do gado, das ovelhas, do cavalo, do velho burro e dos quatro cães. E, se via algum dos animais dos vizinhos doentes, logo mandava Manelzinho, seu neto, levar uma panaceia de ervas machucadas para botar na ferida ou para o bicho beber. Até mesmo um galho de planta que quebrasse, ela passava esparadrapo em volta, com a maior delicadeza, para o danadinho não morrer. No outro dia ele aparecia vivinho, em agradecimento.

Dos três filhos de Maria Rosa: Lindolfo, Raimundo e Rosália, o primeiro era o que mais se parecia com ela no jeito de ser. As gentes do lugar até diziam que ele era igualzinho à mãe nas coisas do coração, e que não podia ver gente ou bicho sofrendo que corria para socorrer. Portanto, foi Lindolfo quem foi capaz de interpretar o que estava acontecendo na mente e no coração de sua mãe, embora as pessoas nele não acreditassem. Assim principiou:

– Não é de hoje que venho observando que minha mãe anda cada vez mais distante das pessoas, fechando-se num casulo. No princípio, ainda havia algumas janelas, através das quais era possível comunicar-se com ela, mas agora todas elas estão fechadas, até mesmo para nós, seus filhos. Minha mãe já suportou muita ingratidão das gentes que ajudou ao longo da vida. Mas foi passando por cima, com a ilusão de que toda pessoa é boa e que não pensa em maldade e, se fazia uma coisa ou outra de ruim, era sem querer, pois Deus estava no coração de todas elas. Assim pensando, ela só fazia perdoar e perdoar. E nos induzia a fazer o mesmo. Mas algo, além de suas forças e muito além da capacidade de seu perdão, aconteceu, de modo que minha mãe enclausurou-se dentro de si mesma, abandonando o mundo dos homens. Por algum motivo ela perdeu a crença na humanidade. Em contrapartida, redobrou seu amor pelas outras formas de vida, talvez por julgá-las inocentes. E, se ela estiver feliz assim, que assim permaneça até o fim de seus dias.

Maria Rosa agora não apenas falava com os animais, mas também com as árvores, flores e plantas rasteiras. Depois principiou a falar com o sol, a lua, o arco-íris, o vento e as estrelas. Havia quem jurasse ter visto uma árvore debruçar-se sobre ela para ouvi-la melhor, ou uma víbora passar sobre seus pés, sem os picar, ou peixes dançando em volta dela, enquanto se banhava no rio. Dentre todas as coisas surpreendentes que se falava sobre aquela mulher estranha, nenhuma poderia ser mais sublime do que a contada por seu neto Manelzinho, que a seguia por todos os lugares, com a finalidade de protegê-la na sua caminhada por aquele mundo tão desconhecido e mágico, em que passara a viver, e ao qual sabia não pertencer:

– Ontem, a noite estava muito quente e eu me deitei com minha avó sobre uma esteira, no terreiro, em busca de uma aragem que nos aliviasse daquele esquentamento. A noite estava escura e o céu todo pontilhado de lumeeiros piscando feito um exército de vagalumes. Foi então que vovó começou a jogar beijos para as estrelas, e elas foram se juntando, bem no meio do céu, até formarem uma enorme rosa reluzente. Outras estrelas vieram de mais longe, ajuntaram-se e escreveram debaixo da rosa: “Nós te amamos, Maria Rosa!”. Eu saí correndo chamando as pessoas para verem, mas, quando elas chegaram, as estrelas já estavam em seus lugares de antes.

Conta-se que Maria Rosa permaneceu indiferente aos seres humanos até o final de seus dias. E que foi encontrada morta no meio de uma pequena clareira, ao cair da tarde, rodeada por todos os animais do sítio, da vizinhança e por outros jamais vistos naquelas bandas. E que as árvores entortaram-se todas para lhe fazer sombra. E que, mesmo sendo dia de sol brilhante, a lua e as estrelas apareceram no céu. E que o arco-íris enfeitou seus cabelos. E que as flores deixaram os galhos e saíram dançando pelo ar, até caírem sobre seu corpo. E que, ao ser velado à noite por parentes e vizinhos, o corpo de Maria Rosa flutuou na pequena sala até encontrar a porta, por onde facilmente passou. E depois continuou flutuando e subindo, flutuando e subindo docemente como um balão. E foi se tornando cada vez menor, até sumir de todo. Manelzinho jura que o viu ser rodeado por um monte de estrelas, até se fundir com elas para sempre.

No dia seguinte à morte de Maria Rosa, não houve sol, lua ou estrelas. Somente se ouviu o cacarejar, o grunhir, o gorjear, o relinchar, o grasnar, o berrar, o mugir, o zumbir, o zurrar, o ladrar, o palrar, o grugulejar, o miar e as vozes de outros animais, numa tristeza de cortar o coração de qualquer ser vivente, chamando por Maria Rosa. E todas as plantas vestiram-se de lilás, a cor da compaixão. E as flores murcharam e no chão caíram. Mas as pessoas continuaram as mesmas, inventando mil e um motivos para a morte da mulher, sem que de suas ações dessem conta.

Nota: Imagem copiada de valentimeccel.no.comunidades.net

8 comentários sobre “A MULHER QUE NÃO FALAVA COM GENTE

  1. Patricia

    Lu,

    a cada dia me agrada mais falar com os bichos e plantas do que com o ser humano.
    O lindo conto transmite sua sensibilidade com a natureza e o retrato de muitos em Maria Rosa.

    Bjos.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      É verdade!
      O bicho-humano é tão complexo!
      É preciso muita fé para acreditar na humanidade.

      Beijos,

      Lu

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  2. Maria Tereza

    LU
    você sabe que adoro seu regionalismo. Delícia. Depois alternei o riso com o lirismo do conto.
    Ela tinha partes com São Francisco, sabia atrair os animais, a Natureza. Só não gostei quando você exprime seu desalento. Querida, você é guerreira, “pra cima.”
    Parabéns!

    Beijo

    Maria Tereza

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      MaTê

      Existem momentos em que é tão difícil ser forte, acreditar na humanidade. Dá uma vontade danada de ir morar com os bichos-bichos, lá onde a floresta encontra-se com os rios. E ali ficar para sempre.
      Mas são momentos, apenas.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  3. JOSE LUIZ GOMES

    Lindo conto que nos ensina muita coisa sobre os animais, sobre a natureza das espécies viventes na Terra. Os sons emitidos pelos animais, o farfalhar das folhas secas, significam muitas coisas não traduzidas pelas pessoas que cercavam Maria Rosa. Só ela era capaz de entender as delícias do vocabulário suigenris. Criar esta história tão bonita, só mesmo você Lu, é capaz.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      José Luiz

      Penso que todos nós temos o poder de falar com os bichos e com as plantas.
      Mas, como passamos a falar só com as pessoas, fomos nos esquecendo da linguagem deles.
      E também fomos nos afastando deles.
      Mas ainda é possível reaprender a magia de compreendê-los.

      Muito obrigada por sua presença querida.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  4. Glória Drummond

    Lindo o seu conto Lu… Acho que você e eu temos muito da Maria Rosa. Quando menina eu falava com as plantas, a Lua, as estrelas. Descendente dos Celtas sempre fui ligada à Mãe-Terra. Via até umas mulherzinhas de asas, que mais tarde soube que podiam ser fadas. Como ninguém acreditaria, fui deixando de ver. Hoje, continuo salvando insetos (menos baratas), todos os bichos, plantas, árvores e falando pouco com os humanos. Sou pouco inteligível para eles, cujas auras não escapam à minha percepção. O meu lado Bruxa foi herdado da minha avó, que eu chamava “Vovó Alecrim”. Sem querer, querendo, estou passando-o para minha filha Pat.

    Beijo no focinho, Lu-Maria Rosa !

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    1. LuDiasBH

      Glória

      Este conto tem mesmo um pedaço de mim.
      Você tem um faro muito bom para encontrar outros bichos.

      Como Maria Rosa, sempre acreditei muito nas pessoas.
      Como Maria Rosa, também já fui vítima de muita ingratidão.
      No início a gente não dá muita bola, mas depois se cansa.
      E depois que se cansa, apega-se cada vez mais aos bichos-bichos.
      Enquanto vai deixando as gentes de lado.
      Pois, nem se trata mais de mágoa, mas de desencanto.
      E desencanto afasta mais do que mágoa.

      O focinho retribui o beijo,

      Lu

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