A NASCENÇA DO ET DE VARGINHA

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Autoria de LuDiasBH

et

A cidade entrou em polvorosa como nunca tinha acontecido em toda a sua existência. As pessoas acorriam afoitas para o pequeno hospital a fim de ver o bizarro natimorto. Algumas chegavam com a língua de fora, tamanha era a pressa. Outras, bisbilhoteiras, vinham pelos caminhos fazendo conjeturas. O fato é que somente as crianças de colo e os entrevados permaneciam em casa, enquanto toda a população, literalmente, tomava o rumo da maternidade. A polícia tentava, em vão, conter a balbúrdia. Coscuvilhices já se espalhavam, contando que muitos doentes à beira da morte haviam se levantado, após a chegada do funambulesco ser. E, que o médico que acompanhara a parturiente, encontrava-se em estado de choque, pois o pequenino mirara-o com um olhar de piedade, antes de dar seu último alento.

O único telégrafo da cidade não parava de mandar sinais para a capital. Os sabichões diziam que o fato já chegara ao exterior e que o governo brasileiro já estava negociando o corpinho com os Estados Unidos por uma soma fabulosa. Padre, pastores, mães-de-santo e benzedeiros disputavam a primazia dos rituais. A diretora do grupo escolar dizia ter recebido um telegrama da irmã, funcionária federal, onde dizia que uma comitiva nacional e internacional estava se dirigindo para a cidade de Varginha. Vendedores de pastel, coxinha, pamonha, broa, refresco e cachaça alojavam-se nas calçadas, pois as mulheres pareciam não ter interesse algum em fazer o almoço naquele dia.

Peço desculpas ao leitor, se me delonguei na descrição do acontecimento, deixando a mãe da cria, responsável mor pelo acontecido, relegada a um segundo plano. Retorno-me a Iracilda, para não o deixar ainda mais curioso e irritado com meu palanfrório. Mas vamos aos finalmentes.

Jovaldison vivia com Iracilda há cerca de cinco anos. A cidade inteira dava conta do afeiçoamento que ela devotava ao moço, como se nada mais lhe importasse no mundo. Os vizinhos cochichavam entre si, falando sobre os miados de gata no cio que da casa subiam todas as noites, embora jamais fosse visto por ali algum felino. A mulher carregava um chamego arreitado por seu homem. Era um embeleco que deixava muita gente de olho gordo. Deve ser por isso que Jovaldison aceitou o convite para trabalhar nas Arábias, deixando Iracilda chorosa, mas com muitas promessas de riqueza e xodó dobrado e redobrado na volta.

Um ano se passou, e mais outro e mais outro e nada de Jovaldison cumprir a promessa feita. Iracilda já estava prestes a escalar o Pico da Bandeira, tamanha era a sua premente necessidade de um sumbaré mais afervorado. E foi numa noite de lua cheia, quando ela suava por todos os poros, não sei se por isso ou por aquilo, que resolveu dormir desvelada como viera ao mundo. A cidade jazia num silêncio lúgubre. Um ou outro cão uivava na madrugada morna enquanto as corujas piavam notas fúnebres. Mesmo assim, Iracilda dormia com um sorriso zombeteiro, sonhando com os braços roliços de seu homem e com sua enguia serpenteforme.

Dois meses depois, Iracilda passou a estranhar a falta da escorrência, antes tão certeira quanto caxaramba num boteco. Aos quatro, teve certeza de que a barriga engrossava. Aos cinco, percebera que estava prenhe, como confirmara posteriormente uma velha parteira. Mas, como poderia dar luz a um rebento sem a que a semente de um homem tivesse sido implantada em sua caverna? Ela sempre fora uma mulher honesta, com os pensamentos voltados só para seu macho. Não encontrava resposta para seu desatino. Na rua era chamada de quenga, rameira e puta. Como ninguém acreditava em sua honradez e nem ela mesma sabia por que estava embarrigada, Iracilda acabou enlouquecendo.

A posição do bebê e seu peso impossibilitaram um parto normal. Para salvar a pobre louca e sua cria, era preciso uma cesariana de urgência. Foi depois de aberto o útero de Iracilda que a cidade veio abaixo: ali estava uma criança cor de jambo, com dois olhos vermelhos como rubi; no alto da testa encontravam-se dois tenros cornos; uma cauda cheia de uma penugem aveludada prolongava sua coluna vertebral e os pezinhos tinham a forma de dois cascos de bode. Apesar de tudo, a criança esquipática parecia sorrir.

Depois do nascimento do esdrúxulo rebento, as línguas viperinas, comuns em todo lugar, passaram a acreditar que Iracilda falara a verdade, quando dizia não ter fornicado com cambondo algum. E danaram a espalhar que ela havia se acasalado com o tinhoso, o maligno, o excomungado, o coisa ruim.

Faz sete anos que o corpo do pequenino foi transportado secretamente pelo SNI para um local ultrassecreto. Iranilda passou a vagar pelas ruas com um boneco nos braços. O médico fundou uma seita, onde diz ter testemunhado a chegada do anticristo e encontra-se podre de rico com os dízimos. O hospital virou um hotel para turistas em busca de mistérios. Jovaldison morreu num acidente de trabalho em Dubai, muito antes do ocorrido. As línguas peçonhentas continuam retransmitindo o acontecido. A cidade é visitada por ufólogos e místicos de todas as partes do mundo.

A fatídica história acabaria por aqui, meu caro leitor, se fontes da mais alta credibilidade da Segurança Nacional deste país não tivessem deixado vazar que o filho de Iranilda com o íncubo está vivinho da silva, tendo fugido de um local de segurança máxima das nossas Forças Armadas e voltado para o lugar onde nasceu – Varginha. O internacionalmente conhecido ET de Varginha é, portanto, o filho da pobre mulher. Quem quiser mais informações, busquem-nas na cidade mineira em questão.

Nota: imagem copiada de http://leolopes108.multiply.com

5 comentários sobre “A NASCENÇA DO ET DE VARGINHA

  1. Patrícia

    Kkkkkk Lu
    Você é ótima. Uma cidade antes desconhecida agora repleta de causos para contar.
    Um grande abraço

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  2. Julmar M. Barbosa

    Esta é o segunda vez que leio algo sobre uma mulher engravidar sem a colaboração de um homem. RSRSRS
    Hilária sua narrativa.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ju

      Já temos a gravidez sem a presença física de um homem, indiretamente: a inseminação.
      Mas com um íncubo… risos… só mesmo nos contos.

      Abraços,

      Lu

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  3. LuDiasBH Autor do post

    Mário

    Fico feliz quando meus escritos fazem as pessoas rirem.
    Não há pagamento maior.

    Penso que ainda há pessoas que acreditam no famoso Et de Varginha.
    O bom é que a cidade tornou-se conhecida nacional e internacionalmente, como bem diz você.
    E eu agora provo que ele existiu mesmo.
    Dou até a sua filiação… risos.

    Abraços,

    Lu

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  4. Mário Mendonça

    Querida Lu Dias
    Bom dia
    Como não gostar de sua bela narrativa, cheia de palavrório, incomum para uma simples e bela crônica. Gostei… “amanhã era a sua premente necessidade de um sumbaré mais afervorado”; que criatividade, escriba maravilhosa.

    Quanto à Varginha, quem criou esta história do Et, merece um grandioso prêmio, pois tornou a cidade conhecida mundialmente e trouxe um enorme impacto econômico de desenvolvimento.

    Abração

    Mário Mendonça

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