A OUTRA

Autoria de LuDiasBH

peladona

Minha boca beijava com grande loucura
seus lábios carnudos, quentes e ousados,
e seu corpo abundante e de pele gostosa
era um espetáculo de carnes à mostra.

Extasiado, deixei que os olhos vagassem,
avançando lentos por suas curvas cheias.
Confuso, por tantas ocasiões ali passadas,
chorei, ao ter que deixar minha aldeia.

Um silêncio doído e abafado cobriu-nos.
De um conto triste éramos personagens,
como outros, tristes e sem um final feliz,
que pela vida abruptamente se desfazem.

De seus olhos caiam lágrimas silenciosas,
como se fossem as contas de um rosário.
Dos meus caiam grossos pingos de chuva,
brotando quentes do meu brutal calvário.

Na sua voz triste de palavras esfaceladas,
era possível escutar fragmentos de preces.
Um silêncio maculado e cortante nos cingia,
penetrando corpo e alma em estresse.

Nem partira e a expiação já se avolumava,
em razão daquilo que me subtraía o mundo.
Coa dor vazando, como um rio de angústia,
meu corpo recusava-se a partir, obstinado.

A agonia fazia rachaduras nos sentimentos,
enchendo de fel o doído coração da gente.
Não há razão plausível pra aceitar o adeus,
quando o amor continua vívido e quente.

Outra vez nossos olhares se encontraram,
fitando um ao outro por um longo tempo,
até que um beijo arrebatado e generoso
selou aquela despedida iminente.

Como uma ave em busca de uma gaiola,
optei por voltar pra mãe de meus rebentos.
Aquela paixão sem contrato ganhou forma,
eu tinha que partir, enquanto era tempo.

Nota: Desnudo reclinado com libro – Fernando Botero

2 ideias sobre “A OUTRA

  1. Carlos A. Pimentel

    Lu,

    Muito bom. Versos densos e repletos de significado, como o magnífico quadro de Botero.

    Abraços,

    Beto

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