A PARIDEIRA NO SERTÃO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

    Autoria de LuDiasBH         parideira                              

Sinuosos rios azuis correm pelas carnes e
erram pela carnadura inchada e brilhante,
desde as coxas disformes aos pés roliços,
que mal sustentam aquele corpo vacilante.

A barriga, pontuda e estriada, já desceu.
O rebento põe-se em posição pra eclodir.
O fogo crepita no ínfimo fogão de barro.
A água no velho pote entra em ebulição.

A mulher se apronta pra parir seu broto,
sozinha e Deus, no seu casebre de taipa.
Precisa de coragem na chegada do fruto,
pois a franzina muda irá nascer na raça.

Ela já sobreviveu a duas outras parições:
na primeira, teve a presença da parteira;
na segunda, ela e seu velho cão mirrado.
Agora geme sozinha, dobrada na esteira.

O padecimento é cada vez mais violento.
Ela trinca os dentes infectos pra não gritar.
Não quer amedrontar suas duas filhinhas,
brincando ingênuas debaixo do pé de juá.

Ali, a lata de querosene com água quente;
acolá, pedaços de lençol velho e tesoura.
Precisa desajuntar da placenta o novo ser,
prestes a brotar de seu ventre em agrura.

O sangue quente goteja dos quartos dela,
e uma cabecinha escorre seguindo o fluxo.
Ela dobra o corpo e acaba de tirar o broto
já inerte, mal acabara de chegar ao mundo.

A dor maior é a ausência do companheiro.
Juntos no catre, eles plantaram a semente.
Ele esteve distante no maturar do grão, e
ora continua ausente no expelir do fruto.

Sem choro ou alarido, a mulher dobra-se e
enrola o corpinho paralisado, bem devagar.
Aceita a vida, como presume que seja, pois
“Tudo deve ser como Deus assim mandar!”

Nota: Madona com Menino, de Ambrogio Lorenzetti

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *