A PEQUENA LILICA E SEU PAI

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

peli

É engraçado como em meio a tantos rostos de nossa infância, o tempo não consegue apagar alguns, que continuam vívidos como uma manhã de céu azul, sem um taco de nuvem. E foi o mesmo céu azul de raios dourados entrando pela minha janela, que me levou para longe, lá pelas bandas do Vale do Jequitinhonha, para a companhia de minha coleguinha Lilica de Daia, sua casa grande de varanda, onde eu meus colegas marcávamos o ponto todos os dias, com as nossas traquinagens.

Fazíamos o quarto ano primário num velho grupo, com suas janelonas de madeira escancaradas para a vida e para as mangueiras com suas frutas apetitosas, às margens do rio Araçuaí. A vida não tinha muita importância para nós, mas as mangueiras eram uma suculenta perdição. Nas nossas cabecinhas, o mundo resumia-se apenas aos arredores da cidade e seus pequeninos municípios. Toda aquela lenga-lenga de ensinamentos geográficos, em que a Terra girava em torno do sol, e históricos, onde Cabral, Colombo, Dom Pedro I e sua turma haviam feito isso e aquilo, tinham o mesmo significado de São Jorge na lua com seu cavalo. Era tudo tão abstrato, que nossa mente pueril não conseguia captar, ficando apenas na decoreba para as provas.

Lilica de Daia era uma branquelinha toda sardenta, mais acesa do que a cor esfogueada de seus cabelos. Filha única de uma família de sete moleques, era os dengues da mãe que enchia os alforjes da pequena de gulodices, para suprimir o seu corpinho escanzelado, mas que eram repartidas com dona Maroca e toda a turma. Nós, os mais desprovidos de querença e posses, vivíamos na sombra de Lilica, atendendo-lhe os menores desejos, como o de fazer folhas e folhas de deveres de casa. Tarefa que recebíamos de bom grado, uma vez que a recompensa era substancial para as nossas necessidades mais prementes: comer e comer.

Ir à casa de Lilica de Daia era um dos nossos passatempos prediletos, embora Seu Pai sempre nos recebesse com caras de poucos amigos e ficasse de olho grande em tudo que comíamos. Era o tipo mais sovina de toda a freguesia. Ele nutria por Lilica tamanha afeição que nós, seus amigos, éramos vistos como seus inimigos mortais. Não nos era permitido tocar num fio do cabelo de nossa amiga. Nutríamos por ele a mesma raiva e tudo fazíamos para deixá-lo mais encolerizado. Lilica tentava ocultar a má receptividade de Seu Pai, brigando com ele e nos enchendo de doces dos mais variados tipos. Descobrimos que as oferendas eram proporcionalmente superiores ao enfezamento de Seu Pai, o que nos levava a fazer caretas e xingamentos, sempre que a branquelinha não estivesse olhando. O dito ficava morrudo de ódio, com ímpeto de nos esmagar, mas ficava de olho em Lilica, com medo de que ela ficasse zangada com ele.

Lilica e Seu Pai eram conhecidos em toda a cidade. Aonde um ia, o outro estava por perto. Mal a dupla despontava, quem podia, ia saindo de banda, com medo da rudeza do valentão. Os coleguinhas de escola nem ousavam passar na mesma calçada. Na família, só dona Daia não aceitava a impolidez da figura, que escorraçava suas amigas que ali iam para um dedo de prosa. Certa vez, ameaçou botá-lo para fora de casa, mas Lilica chorou tanto, que ela deu o dito por não dito, dizendo que ia pedir ao padre Matias para benzê-lo. Quem sabe assim acabasse tomando tenência e respeitando as pessoas. Mas tudo foi em vão. O incivilizado não tinha jeito.

De uma feita, Lilica ficou doente com sarampo e faltou às aulas por uma semana. Nós passávamos pela calçada de sua casa, rua acima e rua abaixo, e não entrávamos, pois sem a presença dela não ousávamos enfrentar o brutamontes de Seu Pai. E, indignados, jogávamos gravetos e seixos na varanda, onde ele ficava sentado feito uma sentinela, com sua cara medonha. E mais malquerença ele tomava pela turma.

A volta da branquelinha às aulas foi um Deus nos acuda. Estávamos perdidos em alto mar, navegando com Dom João VI e sua comitiva de volta a Portugal, quando dona Maroca dirigiu-se à porta. Ao abri-la, lá estavam dona Daia, Lilica e Seu Pai. O susto foi tamanho, que quarenta e cinco alunos esguicharam-se pelos dois janelões, em questão de segundos, correndo em direção às mangueiras, com os uniformes rasgados e corpos escalavrados. Foi um custo para que a pequena boiada voltasse ao curral.

Lembro-me de como fosse hoje. A notícia correu a cidade de ponta a ponta: Seu Pai morreu. Todos nós saímos correndo pelas ruas até a casa de Lilica para nos certificarmos da verdade. O chororô era grande. Lilica e seus irmãos estavam molhados pelo pranto, e nós nos ajuntamos ao carpido, esquecendo-nos das desavenças passadas e dando à cena um ar maior de tragédia. Dona Daia, embora com os olhos vermelhos, tentava dar um pouco de calmaria à procela, falando-nos de que tudo na vida tem começo, início e fim. Seu Pai foi enterrado com pompas e nós, crianças, depositamos muitas flores e lágrimas sobre seu túmulo.

Dois dias depois, Lilica voltou às aulas como uma pombinha murcha com as asas quebradas. Não tinha mais o mesmo ar brincalhão e os alforjes cheios de guloseimas. Sua casa também não apresentava a mesma emoção de antes, quando Seu Pai recebia-nos descomprazido. Isso durou até o dia em que o senhor Euclides Tolentino, pai de Lilica e tropeiro renomado, retornou a casa depois de seis meses viajando pelas trilhas do sertão mineiro, trazendo uma linda cadela vira-lata, de olhos amendoados e pelo preto e branco, a quem imediatamente batizamos de Sua Mãe.

Será que o leitor descobriu que Seu Pai era o nome do cachorro?

(*) Retrato de Jovem Mulher (c. 1465)/ Antonio del Pollaiuolo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *