A MERETRIZ DÁ ADEUS À VIDA

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Autoria de LuDiasBH  prostituta

A mulher dispara o olhar ferido ao longe;
carrega os olhos de lágrimas encharcados,
e a linguagem acanhada de pouco sentido,
igual a seu viver húmile de significado.

Perdido no silêncio seu corpo é túmulo, e
as lembranças um excruciante travesseiro,
enquanto a teagem de aranha do passado
aprisiona na mente recusa e desespero.

As mãos magras, como galhos retorcidos,
vergam secas sobre o peito amarfanhado;
os agrores da desesperança e do desamor
pelo ódio estão juntos e nela costurados.

A tristeza infiltrou em si, como um verme,
devorando espírito, alma, mente e coração;
corpo e alma estão chagados pelos golpes:
servilismo, impotência e humilhação.

A vergonha espalha em si como esterco, e
recordações fazem algazarra nos ouvidos;
cansada de seu viver incerto busca saída:
salvá-lo ou agora mesmo destruí-lo.

Busca no fundo de si um naco de lenimento,
mas as mãos voltam tão vazias como foram.
Entrelaçados, ressentimentos e amarguras
compõem o ato final de seus tormentos.

Seu mundo é podre, sarjetas de ruas pobres,
estômago prostituído por repulsivas iguarias,
alimento de cães vadios, perdidos no tempo,
véu de ódio, correnteza de raiva, putaria.

Pensara, já acostumada coa solidão da vida,
ter anestesiado seus sentimentos retesados.
Seus pensamentos, como cobras rastejantes,
navegam em águas turbulentas, represados.

Sua miséria é aos olhos bem mais cruenta.
A escuridão não deixou um só naco de luz.
Na existência foi sempre obrigada a ceder,
carcomida pela ferocidade dos abutres.

A amargura sobe-lhe em ondas intrépidas.
Seus pensamentos, hematófagos morcegos,
bebem seus fracos e cobardes sentimentos,
composto perverso, infausto e malfazejo.

A revolta adeja como pipas acinzentadas,
à mercê da traição e angústia deslocadas.
Corpo e alma desmancham-se em sangue,
como se portassem uma adaga enfiada.

Logo à frente, a mulher vislumbra o poço.
O escavado lúgubre e silencioso a convida.
Chega de lutar e perder, num eterno ciclo.
A meretriz, desesperada, dá adeus à vida.

Nota: Senhorita Rosa (ou Nu Sentado), de Eugène Delacroix

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