A REVOLTA DO FIOFÓ ENJEITADO

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Autoria de LuDiasBH

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O acontecido que aqui vou relatar é causo da mais absoluta veridicidade, pois me foi transmitido por meu dileto avô Joaquim Valentim, tropeiro notório nas terras das Minas Gerais e, como o nome alvitra, nunca conheceu o medo em suas andaduras, quer fosse do bicho-homem ou do bicho-bicho. Assim foi o sucedido sem mais delongas.

Já corriam uns noventa dias que os cinco homens e suas mulas timbrosas estavam na estrada, vencendo sol e chuva, pedra e poeira, sereno e bochorno. Poucas pessoas são capazes de imaginar como esses animais de temperamento dócil são resistentes para transportar cargas, e como são capazes de vencer desfiladeiros como se andassem nas planuras. Por isso, eram as diletas dos tropeiros em questão.

Já ia meando o dia, muito chuvoso por sinal, de modo que nem as grossas capas de feltro seguravam o aguaçal, e muito menos o frio, quando o grupo resolveu apear numa bitaca à beira da estrada para engolir a gororoba e esquentar os ossos. O vendeiro, sujeito amigueiro e de bom recebimento, lamentou que só tivesse cachaça e ovos cozidos no seu estabelecimento, naquele dia. Mas a branquinha era das boas, vinda da região de Salinas, norte de Minas, capaz de botar qualquer outra baronesa na sola das chinelas. Ele desafiava quem apresentasse alguma melhor.

A falta de comedoria não era empacho para os tropeiros, pois seus alforjes se encontravam bem fornidos com paçoca de carne de sol, rapadura e outras coisas que careciam de cozimento. Podiam completar a esculência com os ovos e a caiana, que além de enxotar a friagem, ainda abria a apetência. O que não se fazia imperioso, em se tratando do segundo pretexto, pois esgana era o que não lhes faltava. E, em meio aos goles de canjebrina e aos punhados de paçoca, com um ovo aqui e outro acolá, o grupo, agora dilatado pelo vendeiro, entabulou conversa de tudo quanto é assunto que pudesse existir na boca do mundo. E, para que ninguém venha a duvidar da sabença daqueles homens, tagarelaram até sobre o fuxico de que o bicho-homem havia ido à Lua. Anuindo todos eles que aquilo era invenção dos americanos para dominar as gentes do mundo, pois, se São Jorge foi capaz de matar um dragão, seria mais abalizado ainda para escorraçar uns branquelos metidos a sabichões. Potoqueiros e astutos, isso é que os gringos eram.

Conversa vai, conversa vem, o assunto foi parar nas partes do corpo humano. Qual delas seria a mais prestigiosa? Zé do Rego foi logo dizendo que era a “alma”, mas o resto do grupo foi unânime em colocar a resposta do companheiro fora do baralho. Tinha de ser coisa que qualquer um pudesse pegar e na “alma” quem botava a mão era Deus ou o diabo, dependendo do proceder de cada um no itinerário da vivência.

Segundo dindinho Valentim, cada homem nomeou a sua parte dileta, o que aqui não me cabe dar ciência, para que o caso não delate mais do que o pertinente. Por isso, vou direto ao assunto que acalorou a rezinga.

No entremeio da verbiagem, Aniba de Sá Jovena, mulato risonho, amancebado com as coisas prazenteiras da vida, só para apimentar o papo, questionou o fato de ninguém ter se lembrado do fiofó. Mas João Leite, danado de metido a biscoito de sebo, empertigado como um cabo de vassoura, e cujas feições traziam sempre um ar malicioso, especulando pecaminosidade em tudo, não gostou da menção. Logo tratou de desancar o confrade, dizendo que a boca era a parte mais importante do corpo, pois nela entrava o pão de cada dia e que aquela parte citada nem deveria existir. Ela era tão escusada, que se mandasse alguém tomar em qualquer outro lugar, não havia desavença alguma, mas, se fosse naquele, era motivo de briga e até de morte. Portanto, aquela dita parte era de pertencimento do demo.

Todos riram, sem levar a sério os palavrórios de João Leite, pois o mundo é território para todo pensar, e morre esbodegado quem acha que só carrega sabença na sua lucubração.

Já modorrados pela abastança da mundureba, entupidos de paçoca e ovo até à goela, e ainda com os quartos latejando de tanto escanchar no lombo das mulas, o grupo achou por bem resfolegar. E assim foi feito. Não sabiam eles que teriam de levantar os ossos antes do cantar do galo. Se imaginassem, com certeza, teriam continuado a prosear.

Meu avô foi o primeiro a matinar com a lamentação de João Leite. O homem estava empanzinado. Tudo estava paralisado. Nada saía nem para baixo e nem para cima. De modo que, com a gemedeira, todos espertaram. E foram copadas e mais copadas de chá de boldo+hortelã+carqueja e bicarbonato de sódio. E nada! Alguém sugeriu um clister ou um supositório, coisas que, mesmo se existissem na venda, meu avô duvidava que alguém o fizesse, por causa da macheza besta de tudo quanto é homem.

Apesar da noite gélida, o doente suava em bicas. Ele urrava e guinchava, mordendo os beiços de tanta dor. Suas feições derrubadas já pediam o fim do martírio. Os olhos de piedade que João Leite jogava nos companheiros eram de cortar o coração de qualquer vivente.  O vendeiro, muito prestativo, anunciou que tinha uma vela nova, em caso de necessidade. O fato é que ninguém sabia mais o que fazer, enquanto S. Pedro despejava um aguaceiro dos diabos.

Meu caro leitor, já está passando da hora de dar cabo ao sofrimento do assistido, de uma maneira ou de outra. E foi então que a causa do mal se revelou. Peço a maior sisudez e consideração com os “finalmentes” do acontecido. Todos se encontravam acocorados em volta do afeiçoado, quando uma voz medonha, saindo de dentro dele, embora de sua boca só fossem distintos os gemidos, começou a dizer:

– João Leite, por que tu me desprezas se sou o teu servo mais fiel, embora me delegues os serviços mais repugnantes? Por que eu não deveria existir, se faço por ti o que os meus coirmãos não ousam fazer? Por que dizes que pertenço ao demo, quando te ajudo a liberar a carga pesada de tua gula? Mal agradecido, ingrato, moralista de uma figa. Eu sou parte de teu corpo. Embora minúsculo, sirvo-te com humildade, sem nunca reclamar do trabalho feito. Sou tão útil quanto a tua boca. Se ela recebe o alimento que te dá vida, eu expulso os resíduos que te levariam à morte. Portanto, somos iguais na essência. O que difere é a função de nosso trabalho. Miserável, haverás de padecer até que me digas uma palavra de agradecimento.

Meu avô e o restante do grupo, aterrados, pediram ao enfermo que atendesse ao pedido da voz. João Leite reuniu a última força de alento que ainda carregava e murmurou:

– Meu amigo, eu lhe peço perdão. E lhe agradeço por tudo que tem feito por mim. Sou mesmo um arrenegado, um mal agradecido.

Dito isso, a barriga do doente inchou mais ainda, ronquejou, bravateou, e tudo que ali fora botado, tomou o rumo das pernas numa laúza de meter medo. O fueiro abriu-se, dando passagem a um mar de titica, para desgosto de todos que não tiveram tempo para correr, ou não se safaram com a devida diligência. E, se quem está na chuva é para molhar, o ditado caiu como se fora uma luva para o grupo, pois teve que retardar a viagem em dois dias, tempo necessário para lavar e secar as roupas e as capas de feltro, e despachar a catinga.

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