A SECA NO SERTÃO MINEIRO

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Autoria de LuDiasBH ccc

O caminhão é deixado à beira da estrada queba.
A porteira encontra-se escancarada ao deus-dará.
Não há mais nada a ser protegido naquela gleba,
a não ser três sopros de vida na atribulação.

O trajeto de pedregulhos amorfos e acinzentados
vara os calçados cobertos por uma camada de pó.
Em derredor, tudo é dificultoso, abrupto, murcho,
cemitério de mortos vivos, cativos, sem dó.

O casebre de dois cômodos rotos tomba pro lado,
com sua textura quebradiça e rugosa como torrão,
bolo de terra seca sobre o chão, prestes a desabar.
Vê-se que a vida pouco ou nada ali importa.

Nossos olhos miram a desesperança nas pessoas.
A dor toma forma no moço junto à cerca de arame.
Sua mãe e irmão saíram de madrugada pra vila, em
busca de um naco de farinha pra matar a fome.

A seca arrasou os frutos delicados do algodão, que
cobrem o chão com suas miúdas flores esturricadas.
Qualquer palavra de consolo soará estúpida e vazia,
pois tudo é irrelevante frente à aridez estampada.

O calor arqueja uma camada de vapor cinza-escuro.
O sol inclemente desvaria qualquer pedaço de vida.
O mundo parece zombar das gentes boas e singelas,
desamparadas e aturdidas em meio à árida terra.

Os animais, inda vivos, jazem caídos pela fome/sede.
Todos se espalham pelo chão seco à espera da morte.
Um silêncio estúpido e doído atravessa meu coração,
ao entregarmos mantimentos e água nas casas.

O rapaz pranteia com a cabeça entre as mãos sujas.
Soluça de aprazimento pelas migalhas ora recebidas.
Nós choramos também, mas sem as lágrimas à vista,
pra não tornar mais cruel a visão da desgraça.

No sertão, o sol alumia tudo com archotes de fogo.
Espalha suas riscas de penúria pela terra queimada.
A vida ali é insuportável para quem tem um pouco,
mas é ainda mais cruel com quem não tem nada.

Nota: poema dedicado ao Cel. Cláudio Teixeira e aos companheiros voluntários da Defesa Civil e da Cruz Vermelha.

Imagem copiada de antonioassiss.blogspot.com

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