A TRAIÇÃO E O SOBRENATURAL

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Autoria de LuDiasBH

lua

Meu avô era um homem simples que nunca ouviu falar de Confúcio, Platão, Kant ou de qualquer outro filósofo, mas tinha uma sabedoria empírica para neguinho algum botar defeito. Sempre que os netos visitavam-no com histórias mirabolantes, ele dizia:

Cuidado com a imaginação, meus pirralhos. Quando ela é muito grande, acaba por bater asas e levar a razão junto.

Só muitos anos depois, foi que compreendi aquilo que o meu vovô queria ensinar à sua descendência. Se o meu entendimento tivesse vindo antes, com certeza teria me poupado de tanto sofrimento. Pois o fato, meu caro leitor, é que muita coisa atroz e sanhuda é fruto de nossa imaginação que extrapola nossos sentidos e nos torna refém do medo, sem que o real tenha participação alguma no enredo construído pelo nosso desvario. E, quando vistos sob a luz da razão, os monstros do pavor acabam por se transformar em inocentes cordeirinhos. Permita que eu lhe conte a minha história.

Nos idos de 2001, meu marido, médico brilhante e conceituado, já caminhando para a terceira idade, onde se supõe que a sabedoria faça ninho, caiu de amores por uma auxiliar do hospital em que trabalhava. Como sempre acontece, só fui tomar conhecimento do romance, seis meses depois, quando o infiel avisou-me que estava saindo de casa e me deixando com os três filhos adolescentes. O leitor poderá questionar: Como uma mulher não percebe que o marido está tendo uma relação amorosa fora de casa? Digo-lhe que o fato de um médico ter uma vida tumultuada, sem horários fixos, mascara o seu comportamento. Não é tão fácil como se pensa, meu amigo.

A verdade é que me vi desesperada, como se o mundo tivesse desabado sobre mim. Só pensava em como seria a vida de meus filhos daí para frente. A qualidade de vida não seria a mesma, sem falar nos problemas que adviriam. O fato é que entrei num estresse profundo. Descabelava-me, sobretudo, ao me encontrar com as pessoas na rua, que despejam sobre mim uma falsa solidariedade que mais parecia sarcasmo:

– Estou morrendo de pena de você, amiga. Não esperava que o Dr. Y fosse fazer isso.
Seus filhos vão sofrer muito, mas, com o tempo tudo se arruma.

O certo é que me despenquei para a capital com meus rebentos, tentando me livrar dos olhares de deboche às minhas costas. Sei que algumas pessoas eram sinceras, mas eu as coloquei no mesmo balaio, pois a dor, quando é grande demais, turva a nossa capacidade de estabelecer comparações.

Depois de emagrecer onze quilos resolvi ir à luta. Mas escolhi as armas mais erradas que poderia buscar: o sobrenatural. Peregrinei por cartomantes, jogadores de búzios, mães-de-santo, xamãs, benzedeiros, adeptos do demo e muitos outros charlatões a quem ficam vulneráveis as pessoas em desespero extremo. Queria o meu vilão de volta, não me importando o custo. Viajava para vários lugares, onde me dissessem que havia um salvador. Deixava meus parcos ganhos com essa gente e voltava cheia de promessas. Cada um deles me dava um tempo diferente de espera. Em um desses locais, pediram-me uma peça de roupa do distinto. Levei a última camisa que ele usara, antes de sair de casa e que eu, tolamente, não quisera lavar. Depois de um ritual propício ao meu estado mental, a charlatã “tirou” da camisa um bolo de linha com alfinetes e me disse:

O seu marido está todo amarrado pela mulher com quem está. Ela botou um feitiço dentro da barra da calça dele. Necessito de comprar algumas coisas, pois com elas vou fazer o desmanche, para que a senhora o tenha de volta no prazo em que se queimam duas velas de sete dias, uma após a outra.

Eu, uma mulher supostamente hábil e com formação superior, deixei nas mãos da espertalhona o equivalente a dois salários mínimos. Voltei para casa acreditando que tudo estaria resolvido dentro de duas semanas, conforme ela me prometera. Esperei em vão, como esperam os tolos que não acreditam que toda força só pode ser encontrada dentro de si.

Ele, o conceituado e brilhante médico, foi posto na rua pela nova mulher, assim que os indícios de sua doença começaram a ser notados, dois anos após ter deixado sua família. Meus filhos condoeram-se do pai e o levaram para morar com eles. Ótima oportunidade para que eu os deixasse e me dedicasse a meu trabalho de pesquisa para uma organização estrangeira. Numa dessas viagens, arranjei um namorado com quem vivo atualmente.

Hoje, vejo que a força hostil e insidiosa que tentava me atraiçoar, estava sob meu comandado, ou seja, era gerada pela minha imaginação fantasiosa. Era eu quem a alimentava para que me devorasse. Dentre todos os charlatões encontrados, o mais voraz jazia em mim, como um ectoplasma gerado por meu próprio ser.

Meu avô tinha razão. É preciso domar os laços da imaginação, pois coisa alguma tem poder sobre qualquer um de nós, sem a nossa permissão. Foi na crença de que era inferior ou incapaz é que se condensou todo o meu sofrimento naqueles anos. Em mim, morava o pior dos meus inimigos: eu mesma. Por isso, meu caro leitor, muito cuidado com as peças que a imaginação pode pregar. Traga-a no cabresto, sob a custódia da razão. Não se descuide!

Sempre que meus filhos não podem fazê-lo, eu levo meu ex-marido ao médico. Vez ou outra eu me pego rindo por dentro, não da doença que lhe rouba a capacidade de raciocínio, mas por ter visto nele um super-homem capaz de me salvar da minha própria destruição amorosa.

 

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