ABDUZIDA POR FORÇAS ESTRANHAS

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Autoria de LuDiasBH

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Não sei que nome dar, tampouco quais são os processos que desencadeiam em nós, pobres humanos, uma mudança súbita no temperamento, transformando a nossa alegria em tristeza ou a nossa confiança em total desalento. Deitamo-nos alegres, em perfeita sintonia com a vida e acordamos insatisfeitos e depressivos, como se os demônios da noite tivessem dormindo conosco. Ou saímos para um passeio com o espírito cheio de vitalidade e voltamos com a alma esfrangalhada. Ou a mesma alegria que nos encheu o dia, não tem importância alguma no dia seguinte. E, se perguntam a um de nós a razão de assim nos encontrarmos, a resposta prontamente se mostra:

– Não sei!

Nada sabemos sobre as emoções que se apoderam de nós sem consentimento ou causa. Nada sabemos sobre as influências misteriosas que nos cercam. Nada sabemos sobre o mistério do invisível que nos acorrenta em seu âmago. São tantos os fatos estranhos, inexplicáveis e incompreensíveis que nos cercam, embora finjamos que nada esteja acontecendo, pois os levar a sério poderia nos deixar tresvariados. A verdade é que somos bem mais ignorantes do que aparentamos ser, apesar de toda a nossa prepotência e empáfia.

Existem determinados lugares e determinadas pessoas que exercem sobre o nosso corpo físico e mental mudanças inesperadas, como se tirassem de nós todo o alento de viver. Agem como se fossem seres de um mundo invisível, com forças capazes de nos transformar em seus vassalos mentais. Somos abduzidos por um contágio mental inexplicável, tendo que aceitar que mente e corpo processem ações involuntárias, imunes à lógica e ao espírito crítico que julgamos ter.

O que me proponho a relatar ficou guardado comigo por muito tempo, pois tive receio de que os céticos viessem a zombar de mim e me tomassem por demente. Ou que os crédulos não me deixassem em paz, cobrando-me respostas impossíveis de serem dadas. Mas agora, vamos aos fatos para os crentes que acreditam nos mistérios, e aos devaneios para os incrédulos, que só aceitam aquilo que é oriundo da razão. Não quero mais postergar o acontecido.

Há cerca de dois anos, fui visitar uma amiga de faculdade que havia parido um novo rebento numa cidade próxima à minha. Comumente, no interior do país, muitas mulheres ficam na casa da mãe, usufruindo de seus cuidados, até passar a quarentena pós-parto, esbaldando-se no pirão de galinha e eliminando qualquer possibilidade de que o marido busque um acasalamento extemporâneo. De modo que a minha visitação se deu na casa dos pais de Violeta. Eu não estava preparada para o que viria a seguir.

Mal adentrei na casa em questão, comecei a bocejar sem parar enquanto lágrimas escorriam abundantemente pela minha face. Em vão tentava escamotear o meu vexame, olhando as fotografias postadas sobre o aparador ou tentando brincar com o bebezinho. A seguir, tomei água, lavei o rosto no banheiro, rezei o Credo e nada de melhorar. Uma força estranha e desproposital que deveria estar servindo a algum fim pré-determinado, transformava-me num joguete. Senti o coração recolher e a sensação de que deveria sair dali o mais rápido possível, pois minhas pernas estavam fraquejando, a ponto de não aguentar o peso de meu corpo que parecia se avolumar. Olhei para os dois amigos que me acompanhavam e nada percebi neles de extraordinário. Conversavam e riam como se estivessem imune àquela fatídica inquietação que me impregnava corpo e alma. Pelo visto, todos os fluidos negativos daquele lugar haviam se apoderado de mim, como se fora eu um fosso de captação de excrementos. Teriam as minhas pernas forças suficientes para abandonar aquele local sinistro que aparentemente afetava só a mim?

Sempre soube que os sentimentos, sejam bons ou maus, são contagiosos. Mas não entendo porque os vis perduram por anos a fio em certos lugares ou pessoas, para depois lancetarem quem nada tem a ver com a história. Não me refiro ao contágio mental, oriundo da mídia ou de qualquer outra fonte coletiva, como acontece nas revoluções, quando o inconsciente coletivo é totalmente manipulado. Refiro-me ao uso do próprio corpo, como captador de energias desconhecidas e inoperantes para alguns mas efetivas para outros. Por que seria eu a única pessoa a se encontrar em apuros naquela casa? O que havia em mim, capaz de despertar aquela sensação tão ruim que defino hoje como furiosa e malévola?

Naquele dia, eu não carregava qualquer forma aflitiva de emoção como o medo, tampouco estava acometida por algum tipo de aborrecimento. Logo, não tinha que atuar como um portal para as forças obscuras. Encontrava-me exaurindo, como se todo o oxigênio em volta de mim estivesse sendo sugado por uma boca macabra. Meu mal-estar não tinha uma razão determinante. Tratava-se de uma perturbação que percorria desde os fios dos cabelos às solas dos pés, sem se deter em um órgão especificamente. Não conseguia me recompor. Ao pressentir que estava prestes a desmaiar, pedi licença para ir à farmácia, comprar um remédio para azia com a desculpa de que o almoço me fizera mal. Ofereceram-me bicarbonato de sódio com chá de boldo e, mais uma vez me desculpei, dizendo que tinha alergia à erva. Um dos amigos, assustado com a minha palidez, acompanhou-me. Assentamo-nos perto de uma lagoa e, um pouco melhor, passei a lhe narrar o ocorrido.

Contei-lhe que estava sendo absorvida por uma força descomunal que havia dentro daquela casa. Sentia que todo o meu corpo estava entrando num processo de falência. E que, guardadas as devidas proporções, sabia que até os animais podem servir às forças invisíveis do mal. Eles eriçam o pelo, levantam as orelhas e põem-se de guarda. Mas logo voltam ao normal, pois, na sua inocência, são mais fortes do que as tais que neles não encontram abrigo. Mas o que estaria eu captando ali?

Após me ouvir atentamente, meu amigo, professor de História naquela cidade, relatou- me que, tempos atrás, naquela mesma casa, houve um crime bárbaro. O marido, um comerciante próspero no lugar, sofrendo de mania de perseguição, matou a mulher, os três filhos, um deles ainda bebê, e dois criados, sob a alegação de que esses planejavam sua morte, suicidando-se logo depois na cadeia local. E que existem relatos de pessoas que, ao passarem em frente à casa, em certas madrugadas, dizem ouvir gemidos e lamentações saindo dali de dentro.

Tais lembranças trouxeram à minha mente uma curiosa passagem de um dos escritos de Guy Maupassant, onde ele assim se expressa:

“Como é profundo esse mistério do Invisível! Não conseguimos sondá-lo com nossos sentidos miseráveis, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno nem o muito grande, nem o muito perto nem o muito longe, nem os habitantes de uma estrela, nem os habitantes de uma gota d`água…”

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