AÇÚCAR MATA MAIS QUE CIGARRO

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Autoria de William Ecenbarger e Mary S. Aikins *

Há um setor que vende um produto que faz mal à saúde. Uma geração atrás, era o setor fumageiro, e o produto era o cigarro. Hoje é o alimentício e o produto é o açúcar. O Dr. Aseem Malhotra, cardiologista em Londres, é um dos líderes da campanha contra o açúcar na Europa. Afirma que a indústria de alimentos imitou o “roteiro corporativo” da fumageira para rejeitar a regulamentação. “A única diferença é que, enquanto o fumo era evitável, o açúcar atualmente é quase inevitável.”.

O açúcar adicionado – não o açúcar natural que existe em frutas e legumes – está em tudo. Uma das maiores fontes são bebidas como refrigerantes, energéticos e sucos. No supermercado há açúcar adicionado aos pães, iogurtes, manteiga de amendoim, sopas, vinhos, salsichas –, em quase todos os alimentos industrializados. Uma única colher de sopa de Ketchup pode conter uma colher de chá de açúcar. Helen Bond, nutricionista da Associação Dietética Britânica, diz: “É um marketing inteligente: palavras como ‘frutose’ fazem pensar que estamos reduzindo o açúcar adicionado, mas o fato é que estamos polvilhando açúcar branco sobre a comida.” “Esse açúcar a mais é completamente desnecessário”, diz o Dr. Malhotra. “Ao contrário do que a indústria alimentícia quer que acreditemos, o organismo não precisa da energia de nenhum açúcar adicionado.” O Dr. Robert Lustig, endocrinologista pediátrico do campus de San Francisco da Universidade da Califórnia e líder mundial da campanha contra o açúcar, observa que o consumo mundial de açúcar per capta aumentou 50%.

No Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o açúcar adicionado representa 19% da ingestão total de açúcar do brasileiro, e o excesso de açúcar na dieta é fator de risco para o desenvolvimento da obesidade, além de doenças como o diabetes. Mais da metade da população brasileira (53,9%) está acima do peso. Entre as crianças de 5 a 9 anos, um terço delas está com sobrepeso. “Hoje, nossa alimentação tem tanto açúcar adicionado, que o sistema metabólico (que processa a energia) simplesmente não aguenta”, diz Lustig. “Nosso corpo faz coisas diferentes com tipos diferentes de calorias. Na quantidade ingerida hoje, a frutose (açúcar adicionado) é armazenada principalmente como gordura. Em geral, essa gordura vai para a barriga.” O perigo para a saúde não é só a obesidade: há indícios que ligam o açúcar a doenças hepáticas, diabetes tipo 2, cardiopatias e cáries. O setor de bebidas e alimentos continua a promover o açúcar, com muita publicidade de seus produtos açucarados.

No ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reafirmou a recomendação anterior de que, num parâmetro ideal, a ingestão de açúcar, fora aquele que existe naturalmente em frutas e legumes, não deveria exceder 10% da ingestão total de energia (no Brasil, o consumo médio é de 16,3%). Na alimentação média, 10% da ingestão total de energia corresponderiam a umas 12 de colheres de chá de açúcar por dia. Uma única lata de 330 ml de refrigerante pode conter até 10 colheres de açúcar adicionado. “Temos provas de que manter no limite de 10% a ingestão de açúcar livre reduz o risco de sobrepeso, obesidade e cárie”, disse o Dr. Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para a Saúde e o desenvolvimento, da OMS, no comunicado em que apresentou o relatório à imprensa mundial. O Conselho Internacional de Associações de Fabricantes de Bebidas, um grupo de pressão do setor, rejeitou o relatório da OMS e fez o seguinte comentário: “Quanto à obesidade, não há qualquer base científica para tratar o açúcar livre de forma diferente do açúcar intrínseco (não adicionado).” O Dr. Malhotra contesta: “Isso não é verdade. É preciso levar em conta a qualidade dessas calorias. O açúcar intrínseco ocorre em alimentos que trazem outros benefícios nutricionais.”

O sobrepeso e a obesidade em crianças e a quantidade de alimentos açucarados que consomem são uma preocupação dos profissionais da saúde. Uma medida que, segundo especialistas, pode fazer a diferença é a redução ou a suspensão da publicidade desses alimentos durante a programação infantil. A província canadense do Quebec restringe esses anúncios de junk food na TV desde 1978. Hoje tem taxas de obesidade bem mais baixas que o resto do Canadá. Outros países que restringiram os comerciais de bebidas e flocos de milhos açucarados e outros alimentos nocivos nos horários em que as crianças assistem à TV são Noruega, Suécia, Dinamarca, México e o Reino Unido. No entanto, uma análise constatou que, no Reino Unido, os fabricantes anunciam alimentos nocivos às crianças: na internet, em merchandising durante programas populares e em videogames. Na Europa, uma iniciativa estimulante para limitar a publicidade para crianças é o EU Pledge. As principais fábricas de alimentos concordaram voluntariamente em limitar a publicidade de alimentos açucarados para crianças até 12 anos. Elas não fazem comerciais de TV nem anúncios na internet para essa faixa etária e não vendem seus produtos em escolas primárias, o que representa uma mudança significativa da maneira como esses alimentos são vendidos a crianças.

Marlene Schwartz é diretora do Centro Rudd para Políticas Alimentares e Obesidade, organização sem fins lucrativos, sediada nos EUA, e dedicada a encontrar soluções na pesquisa e na política para a obesidade, a má alimentação e o preconceito ligado ao peso durante a infância. Ela diz que as diretrizes do EU Pledge “não vão suficientemente longe. O ideal seria ampliá-las para crianças até 14 anos.” Outra área da publicidade de alimentos e bebidas à qual o Dr. Malhotra se opõe é a associação entre produtos e atletas, tática usada pela indústria fumageira há apenas 50 anos, quando atletas e celebridade eram contratados para endossar os cigarros. Ele questiona a permissão à Coca-Cola para patrocinar as Olimpíadas. A parceria da empresa com as Olimpíadas começou em 1928 e foi estendida até 2020. “A Coca-Cola (…) associa seus produtos ao esporte, sugerindo que não há problema em consumir suas bebidas desde que se pratiquem exercícios”, escreveu o Dr. Malhotra recentemente na revista British Journal of Sports Medicine. “Mas não dá para vencer a má alimentação com corrida.”

Os defensores da saúde pública dizem que duas abordagens bem-sucedidas na redução do hábito de fumar – educação do consumidor e tributação – são necessárias no combate ao consumo excessivo de açúcar. O México criou um imposto de 10% sobre bebidas açucaradas, e sua venda caiu 12% no primeiro ano. Na França, um imposto sobre refrigerantes criado em 2012 resultou no declínio gradual do consumo. A Noruega tributa alimentos e bebidas açucarados e divulga informações há muitos anos, com bons resultados. Em março deste ano, o chanceler britânico George Osborne anunciou a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas a ser cobrado de produtores e importadores de refrigerantes. Embora tenha havido algum sucesso com a tributação, o setor de alimentos e bebidas continua a fazer pressão contra informar sobre o açúcar adicionado ao consumidor – exatamente como fizeram as empresas fumageiras ao combaterem as tentativas do governo de pôr nas embalagens de cigarros mensagens alertando para o perigo de fumar (medida adotada também no Brasil).

Uma abordagem proposta para solucionar a questão foi pôr nos rótulos “sinais de trânsito” – círculos vermelhos, amarelos e verdes – para indicar a “salubridade” dos produtos alimentícios. Esse esquema, atualmente um programa voluntário bem-sucedido no Reino Unido, foi rejeitado pela maioria dos membros do Parlamento Europeu. “As pessoas não fazem ideia de quanto açúcar ingerem”, diz Ilaria Passarani, chefe do Departamento de Alimentação e Saúde, uma entidade com sede em Bruxelas. Na esteira das preocupações em relação ao açúcar, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) anunciaram recentemente que estudam um acordo para reduzir a quantidade de açúcar nos alimentos processados, semelhante ao que é feito com o sal. A primeira etapa deve começar em 2017, com análise das principais fontes de açúcar na dieta dos brasileiros.

Os indícios contra o açúcar e seus efeitos nocivos à saúde continuam a se acumular, conforme os estudos são publicados. A Dra. Kimber Stanhope, bióloga nutricional da Universidade da Califórnia, completou em 2015 cinco anos de uma pesquisa que ligou o xarope de milho rico em frutose – comum nos Estados Unidos – ao aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral. “Todos deviam perceber que não há perigo nenhum em reduzir a ingestão de açúcar, mas há fatores de risco em continuar a comer grande quantidade, enquanto aguardam mais indícios”. Os pais deveriam afastar-se, e aos filhos, do consumo diário de açúcar e considerá-lo um alimento para ocasiões especiais. Novas pesquisas também indicam que o açúcar, assim como o fumo, pode ser viciante. Eric Stice, neurocientista do Instituto de Pesquisas do Oregon, está usando ressonâncias magnéticas do cérebro de adolescentes para mostrar que “o açúcar ativa o cérebro de um modo que lembra drogas como a cocaína”. Ele acrescenta que as pessoas criam tolerância ao açúcar, como acontece com os fumantes e usuários de drogas: “Isso significa que, quanto mais açúcar se consome, menor a recompensa. O resultado: come-se mais do que nunca.”.

O que fazer para reduzir a ingestão de açúcar adicionado? “Há um jeito fácil de resolver esse problema em casa: chama-se comida de verdade”, diz o Dr. Lustig. Alimentos não industrializados, que nós cozinhamos. Um pedaço de peixe é comida de verdade: nuggets de peixe comprados prontos, não. É assim que temos de alimentarmo-nos e alimentar nossos filhos”. E podemos provocar mudanças na indústria de alimentos e bebidas. “O ativismo de cidadãos comuns tirou o cigarro dos restaurantes, aviões, locais de trabalho e escolas. Temos de fazer o mesmo contra essa avalanche de açúcar em nossa alimentação”, continua o Dr. Lustig. “Se não pararmos de envenenar o nosso organismo com açúcar, nós e nossos filhos só ficaremos mais gordos e mais doentes. E o custo será astronômico.”

Nota: termos usados para o “açúcar adicionado”:  néctar de agave – melado – açúcar de beterraba – xarope de bordo – caldo de cana – sacarose, xarope de arroz – açúcar de confeiteiro – rapadura – xarope de milho – gomme – galactose – açúcar de tâmaras – dextrose – drimol – malte – xarope de arroz integral – dri sweet – adoçante de passas – lactose comestível – kona ame – sucrovert – flomalt – frutose – açúcar invertido – clintose – xarope de sorgo – xarope dourado – isoglicose – muzi amt.

*Revista Seleções Reader’s Digest do mês de setembro/2016, páginas 124 a 131

4 comentários sobre “AÇÚCAR MATA MAIS QUE CIGARRO

  1. Pierre Santos

    Belo artigo, Lu, profundo e verdadeiro, que põe a nu a inevitabilidade de fugirmos desse mal – o açucar – que existe por todos os lugares. Como diria o Rui, estamos todos presos por termos cão e presos por não termos cão. Meu Deus, como agir, se nossos passos sempre nos levam a ele, o gostoso e mortal alimento? Vivermos sem ele é impossível. Vivermos com a diminuição dele é quase de todo impossível nos dias atuais. Como fazer? Tocar um tango argentino e pronto!

    Abraços

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Prof. Pierre

      Por que tudo que gostoso é proibido? Gosto muito de doces caseiros, principalmente do de leite. Há uns doces mineiros, feitos em tachos, que são de tirar o fôlego. Só Jesus para ter piedade! Realmente é difícil lutar essa luta tão desigual… risos.

      Grande abraço,

      Lu

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