ADORO VOCÊ!

Autoria de Edward Chaddad

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Vossa Mercê,
Vaidoso, rico, poderoso,
Déspota, prepotente, opressor,
Dono da verdade e da justiça,
Culto, brilhante e inteligente,
Reverências vos prestavam,
Pelo temor que sentiam
De vosso ódio e rancor.

Vossa Mercê,
Não tínheis ninguém ao lado,
Para segredar angústias,
Repartir tristezas e amarguras
Pois sentíeis  inseguro e desconfiado,
Podíeis ser traído, mesmo em família.

Vossa Mercê,
Não amado, infeliz.
O tempo, porém, vos transformou,
Na convivência diária com vossos servos,
Na cozinha da vossa casa,
Devagar fostes,
Tão pomposo, que éreis,
Membro honorário da Corte,
da segunda pessoa do plural.
Agora, mais próximo de todos,
Acabou na terceira do singular,
Transformado em Vosmecê.

Vosmecê,
Ó milagre da metamorfose,
Era vosmecê daqui, vosmecê dali,
Como lhe chamavam, afetuosamente,
Seus escravos, tão sofridos,
Mas amando-o ternamente,
Como se fizessem parte de sua família.

Vosmecê
Conseguiu se transformar,
Sentindo-se querido,
Percebendo que também podia amar,
E por incrível que pareça com o amor
Daqueles que tinham muitas razões,
Bastante mesmo, para lhe odiar.

Vosmecê, com o tempo,
O povo assimilou o seu novo nome,
E de tanto repetir o tratamento,
Historicamente a Língua o adotou,
Ora Vancê,  ora Vossamessê,
Nunca se esquecendo de Vosmecê.
E, agora,  a Luz lhe abençoou.

Mas o tempo passou ainda mais,
Aquela segunda pessoa esnobe
Consagrou-se em terceira,
Simplificaram seu nome,
E, de novo, Vosmecê se transformou,
Nascia Você.

Você,
Que já foi nobre,
Com tratamento pomposo
Pela Alteza Real,
Evoluiu do orgulhoso
Para o humilde,
Do distante prepotente
Para o amigo mais íntimo,
Hoje terceira pessoa,
Adotada pela Língua,
Como se segunda pessoa fosse,
Que o estrangeiro não entende,
Mas o brasileiro gosta de lhe usar,
Quando fala ao seu amigo,
Conversa com mãe e com o pai,
Chama seu filho
E se dirige ao seu amor
Com a ternura e o carinho,
Diante da transformação,
Do orgulho em humildade,
Do ódio em amor.

Com reconhecimento,
Adoro você!

Nota: pintura de Leonid Afremov

6 comentários sobre “ADORO VOCÊ!

  1. Eliana Pulini

    Adorei a sua poesia tão bem escrita. Que idéia brilhante você teve, fazendo um jogo de palavras com pronomes de tratamento até chegar no pronome mais comumente usado por nós, quando falamos com nossos amigos, conversamos com nossos pais ou com o nosso melhor amigo (a)! Poesia inspirada por “você” que nos mostrou os significados de épocas diferentes com um alto grau de sabedoria e conhecimento da nossa Língua. E com reconhecimento, adoro você!

    Abraços e beijos de sua irmã Eliana.

    Responder
    1. Edward Chaddad

      Querida irmã

      Obrigado! Adorei também seu comentário. Dentro do contexto dos tempos, a origem do pronome “Você” demonstra que humanizamos o tratamento, como nosso espírito, evoluímos, portanto: como versei:

      “Com tratamento pomposo
      Pela Alteza Real,
      Evoluiu do orgulhoso
      Para o humilde,
      Do distante prepotente
      Para o amigo mais íntimo”.

      Abraços

      Responder
    1. Edward Chaddad

      Leila

      Obrigado pelo seu comentário.

      Como disse a LuDias, “Esta poesia inspirei-a, conhecendo o nascedouro da palavra “você”. E logo me veio à mente o que fora e o que hoje é, os significados de épocas, mostrando, no fundo, que podemos superar, inclusive, nossos defeitos, quando nos despimos da arrogante nobreza no coração, e conseguimos encontrar a maravilhosa pureza da compaixão e a humildade, em que podemos nos converter”. Penso que, mesmo que haja controvérsias, a humanidade está se aperfeiçoando e se mostrando mais solidária, mais amiga, com maior compaixão, sentimentos oriundos do amor.

      Abraços

      Responder
  2. LuDiasBH Autor do post

    Edward

    Muito interessante este jogo que faz com o pronome de tramento (Você) personificando-o e contando sua história através dos tempos.

    Abraços,

    Lu

    Responder
    1. Edward Chaddad

      LuDias

      Esta poesia inspirei-a, conhecendo o nascedouro da palavra “você”. E logo me veio à mente o que fora e o que hoje é, os significados de épocas, mostrando, no fundo, que podemos superar, inclusive, nossos defeitos, quando nos despimos da arrogante nobreza no coração, e conseguimos encontrar a maravilhosa pureza da compaixão e a humildade, em que podemos nos converter.

      Muito obrigado.

      Responder

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