ALICE NO PAÍS SEM MARAVILHAS

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Autoria de LuDiasBH

alice

Alice sempre foi uma moça enxerida, metendo o nariz onde não era chamada e, que mais se parecia um detetive, dando conta da vida de todo mundo, apesar de sua mãe chamar a sua atenção dia sim e outro também:

– Filha, você ainda vai se dar mal com essa sua curiosidade. A qualquer hora irá quebrar a cara e eu não vou estar por perto para socorrê-la. Preocupe-se apenas com a sua vida e deixe a dos outros em paz.

Recomendação essa que entrava por um ouvido e saía pelo outro, pois a bisbilhotice de Alice só fazia aumentar. Ela queria mais era descobrir os segredos da vida das pessoas, seja lá onde se encontrassem. E a possibilidade de quebrar a cara, como lhe aconselhava a mãe, não lhe incomodava nem um pouquinho, ainda mais que mães são sempre exageradas. O fato é que a moçoila era o terror da vizinhança na indiscrição.

Certo dia, em que o calor trazia uma lombeira das bravas, e como havia comido mais do que a barriga podia acomodar, Alice não se sentiu encorajada a perambular pela freguesia. Recostou-se numa das árvores do quintal para aquietar o estômago que parecia querer explodir. Virava de um lado para outro, sem achar uma posição que lhe acalmasse a ânsia de vomitar. Já com a vista turvada pelo mal-estar, partiu em busca de umas folhas de hortelã, para aliviar o incômodo que sentia. Mal terminou de comer duas delas, caiu num estado diferente de consciência. Viu um coelho branco, muito abonecado, passar por ela gritando esbaforido:

– É tarde! É tarde!

Essa foi a deixa para que a moça esmiuçadora saísse no encalço do coelho janota, para saber aonde o animal se dirigia com tanto afobamento. E foi nessa que acabou tropeçando e caindo na toca do emperiquitado, buraco esse que parecia não ter fundo. Finalmente, a enxerida aterrissou numa sala em que tudo era pequenino. E ficou ali, entalada, esperneando, sem poder sair. Só conseguiu deixar aquela armadilha depois de tomar um líquido que encontrou numa certa garrafa, pensando que fosse um licor, que a fez minguar de tamanho, até  ficar proporcional às coisas da tal sala.

Um escalafobético jardim esperava por Alice do lado de fora. E ali estava ninguém menos que o coelho pimpão, a quem encheu de perguntas, coisa que lhe era bem peculiar, mas não recebeu nenhuma resposta por parte do pintalegrete. Começou então a se lembrar dos conselhos de sua mãe, mas agora era tarde para qualquer tipo de arrependimento. Mas como existe sempre um pouco de complacência neste mundo de meu Deus, uma lagarta se predispôs a ajudar a rapariga, dando-lhe algo que a fez crescer, ou melhor, voltar a seu tamanho anterior.

Alice pôs-se a caminho, em busca de uma saída, pois a enrascada era grande. Na sua andança, encontrou certa Lebre de Março, que passava o ano celebrando seu “desaniversário”, pois assim ganhava presente todos os dias do ano. Mais adiante, ela penetrou no jardim da rainha de Copas, que se encolerizava por qualquer coisa, de modo que seus soldados-cartas já ficavam à sua disposição para cortar a cabeça de quem a contrariasse. Foi convidada para jogar cartas com a dita, mas ao ver que ela trapaceava descaradamente, gritou Alice:

A rainha é trapaceira!

O que lhe valeu uma sentença de morte. Por isso, teve que fugir tresloucadamente, procurando uma saída daquele lugar horroroso. Quando imaginava que estava perdida para sempre, uma noz caiu sobre sua cabeça, trazendo-a à realidade.

A verdade é que Alice, incomodada com a perturbação estomacal, e já quase desmaiando, pegou três cogumelos alucinógenos, pensando que fossem folhas de hortelã. Ela não dormiu e tampouco sonhou, como apregoam certos escritores ao contar a sua história para criancinhas, mas teve um surto psicótico. E o que mais a deixa chateada é o fato de terem dado à sua história o título de “Alice no País das Maravilhas”. Que gente maluca! Na verdade, ela esteve no país das (des) maravilhas, com um coelho metido a biscoito de sebo, uma lagarta abilolada, uma lebre com mania de grandeza e uma rainha paranoica. O que não fazem esses escritores para ganhar dinheiro!

O fato é que Alice é hoje uma senhora bem diferente daquilo que foi em sua juventude. Tornou-se uma das mais fervorosas militantes do Exército da Discrição, embora continue trocando folhas de hortelã por cogumelos. Engano esse cometido pela vista cansada, conforme explica a matrona.

Nota: Imagem copiada de mastudopassa.blogspot.com

10 comentários sobre “ALICE NO PAÍS SEM MARAVILHAS

  1. Patricia

    Rsrsrsrsrs Lu,

    você acabou com Alice e seu país maravilhoso e eu adorei isto.
    Perfeito os cogumelos. rsrsrsr.

    Bjos.

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  2. Edward Chaddad

    LuDias

    Quanta imaginação.
    Fiquei curioso para ver como ela iria sair-se desta, mas tudo foi um sonho, acordou!
    Na verdade, a curiosidade pode até matar. Buscar a discrição e comportar-se dentro de nossa sociedade, não querendo se meter na vida dos outros, é importante.

    Abraços

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      Apesar de todos os problemas que trazem a vida numa cidade grande, o que mais me encanta é a liberdade de viver a própria vida sem intromissão de terceiros.
      Embora não pareça, sou uma pessoa tímida, portanto, não gosto de prestar contas da minha vida a ninguém, coisa impossível de acontecer no interior.

      E Alice metia o nariz em tudo.
      Até que aprendeu a lição… risos.

      Abraços,

      Lu

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  3. Beto

    Lu,

    Eu sempre desconfiei que essa estória estivesse muito mal contada! E você, magistralmente, matou a charada: a doce Alice deve, na realidade, ter inspirado a música dos Beatles “Lucy In The Sky With Diamonds”.

    Muito bom!

    Beto

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Beto

      Aquela curiosidade de Alice sempre me incomodou… risos.
      Eta menina danada, sô!
      Vivia sempre a meter o bedelho em tudo.
      Com os tais cogumelos, acredito que continua no céu “with the diamonds”.

      Beijos,

      Lu

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  4. Alfredo Domingos

    Lu,
    Você encontrou um boa maneira de contar esta história. Ficou bem agradável!
    Parabéns!
    Alfredo Domingos.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Alf

      Matei toda a ingenuidade de Alice… risos.
      Mas agora que ela é uma matrona, não tem mais importância.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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