ALLÁHU AKBAR! – O FILHO PRÓDIGO

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Autoria de LuDiasBH

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Nem sempre trago vívidas as lembranças da infância. Vez ou outra, um vislumbre de um acontecido chega até mim e, aos poucos vai ganhando nitidez, como se o fato tivesse ocorrido ontem. É exatamente assim, que me chega o sucedimento de um causo que ora passo a narrar, com as minudências que me foram repassadas por minha avó.

Qualquer leitor que tenha passado a infância no interior aquiesce comigo quanto à credulidade das gentes das pequenas cidades e vilas, onde fé e superstição misturam-se num caldeirão de ecumenismo. Ali, tanto se acredita na Sagrada Família, São Jorge, Orixás, quanto em lobisomem e curandeiros. De modo que nós, pixotes, vivíamos dentro de todo aquele magnetismo na mais perfeita harmonia.

Sá Rita da Saiona, de quem ninguém jamais vira as pernas compridas como pés de mamão de corda, parira cinco fêmeas e um macho de nome Salustiel de Sá Rita. Percebo agora que ninguém tinha um sobrenome. Todos pertenciam uns aos outros. As mulheres aos maridos. Os maridos às mulheres. Os filhos ao pai ou à mãe e as quengas a seus machos.

Salustiel, assim que começou a ficar taludo, confidenciou aos amigos mais chegados que nascera para correr mundo. E assim o fez, quando chegou à cidade um pequeno picadeiro. Partiu na calada da noite, só deixando as marcas dos pés na poeira das ruelas descalças. Sá Rita não ficou nem um pouco desatinada. Achava que o filho, pela sabença, ia voltar “dotô”. E a vida foi rolando até que um dia ela recebeu uma missiva do heréu, onde contava que estava numa firma de construção em São Paulo e no mês seguinte partiria para trabalhar numa ferrovia no estrangeiro. Passaram-se muitos anos. A cabeleira de Sá Rita branquejou. Três de suas filhas ficaram embarrigadas e as outras duas solteironas. E nada de Salustiel dar ciência de seu paradeiro. Quem sabe já fosse até “dotô” e tivesse se esquecido da procedência deixada no cafundó do Judas? Já estava na hora de buscar notícias do moço.

Num vilarejo próximo, morava um benzedor e adivinho afamado em toda a redondeza. Não havia ser vivente que não tivesse ouvido falar de Inhô Bertulino, capaz de falar, não apenas com gente, mas com almas, bichos, árvores e vegetais. E lá se foi Sá Rita pedir-lhe notícias do filho ausente. O velho solicitou-lhe que lhe trouxesse um retrato do moço e seis anjos (crianças abaixo dos sete anos). Dentre os anjos, encontrávamos minha prima Zazá e eu, que de anjo só tínhamos as asas usadas nas coroações. No casebre do adivinho, recebemos ordem para fazermos um círculo de mãos dadas. Uma gamela com água foi colocada no centro, onde Sá Rita, a mando do mestre adivinho, colocou a foto amarelada do filho. À prima Zazá coube a tarefa de desvendar o mistério, por ser a mais jovem. Teria que, de olho na foto, viajar no tempo e trazer notícias de Salustiel.

Zazá, depois de olhar alguns minutos para o retrato em branco e preto, chegado há cerca de dez anos atrás, e já com uma aparência amarelada e amargurosa, começou a soluçar. Inhô Bertulino pressentiu que era chegada a hora da revelação.

Anjo, o que você está vendo? – pergunta ele.

A cara de um defunto – responde minha prima entre lágrimas.

Ali estava a resposta perseguida. Foi rezada missa pela alma de Salustiel, regada a choros e iluminada por muitas velas. Estava morto o “dotô”.

 2ª parte

Era a primeira vez que um ônibus chegaria à cidade, de modo que tudo era aprazimento. Os moradores acocoravam-se na pracinha onde pararia o veículo. O padre Ambrósio trazia nas mãos um vidro de água benta para santificar o novo transporte. Aos trancos e barrancos o roto ônibus aponta ao longe xumbregando. As pessoas se amontoam mais ainda. Motorista, trambolho e passageiros são recebidos com palmas, assovios e bandeirolas, numa barafunda danada. Padre Ambrósio asperge a água benta.

A primeira dama do burgo, com um ramalhete de flores silvestres, posta-se em frente à saída do veículo. Uma matrona de cabelos cor de gema de ovo, vestindo uma saia de oncinha e botas de cano alto, acompanhada de uma penca de frangotes é a primeira a descer. É tratada com fidalguia, recebendo as honras da cidade. Faltava apenas o marido, o deputado que prometera vir inaugurar tão proeminente avanço.

Um cidadão, cabelos já entressachados de branco e usando um terno de linho amassado, desce solene. Recebe o abraço do prefeito, das autoridades do lugar e o beija-mão do povo. Cansado pela viagem e pelos amassos, consegue bradar:

– Alláhu Akbar!

Toda a gentama se emudece sem entender aquelas palavras estranhas. E o varão prossegue num português cheio de sotaque:

– Onde eu poderia encontrar minha mãe, a senhora Maria Rita Teixeira da Silva?

Para o bem da verdade, os acontecimentos finais persistem em me escapar da memória. O que teria acontecido na vida de Salustiel para que assim chegasse à cidade? O que teria ele dito que ninguém entendeu?

Nota: Imagem tirada de
http://picasaweb.google.com/lh/photo/8gRGz1ZXgc88J2qNEAatOw

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