Alvimar Cury – MENINA CHUPANDO CANA

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Autoria de LuDiasBH

mac123

Alvimar Cury Júnior é um publicitário, nascido em Belo Horizonte, que se dedica à pintura em seu tempo livre. O primeiro desenho do qual se lembra foi feito foi aos cinco anos. A partir daí, tem clarões rápidos de memória em que sempre se vê desenhando em paredes, carteiras e papel, como todo menino já fez. É um autodidata em sua arte, já que nunca estudou pintura ou desenho. Em suma, nunca esteve em nenhuma instituição artística de ensino. Contudo, sente que todos os grandes mestres da pintura, com seus diferentes estilos, foram e são importantes para ele. Possui um carinho especial por Van Gogh, por ter lhe provocado um choque com sua maneira especial e particular de representar a realidade. Admira a maestria de Leonardo e nutre grande interesse pela obra de Bosch e Dalí, dentre tantos outros.

O artista diz que não possui um estilo específico porque acredita que todos são importantes. Ele não se permite ficar preso a um só estilo, embora tenha uma inevitável queda para o realismo e o surrealismo. E, segundo ele, se não tomar cuidado, poderá acabar se tornando um pintor clássico, talvez por causa do desenho, pois acha que desenha melhor do que pinta.

Alvimar Cury não vive da pintura. E imagina que não gostaria, pois, para ele, “pintar é um ato de amor e um quadro não pertence a ninguém, a não ser àquele que o admira. Um quadro é de quem o vê, naquele momento. Vender algo que não te pertence é significante. Ao mesmo tempo em que um quadro é como um filho para o artista, é também um filho para o mundo.”. Alvimar critica o momento por que passa a arte: “Vivemos em um tempo de banalização da arte. Pintores deixam de fazer o que realmente querem, com a finalidade de abastecer e atender as exigências de um mercado. Então não deve ser uma arte sincera. E o artista, mais do que ninguém, precisa ser sincero consigo mesmo.”.

Não foi o autor que deu um nome a este quadro. As pessoas que o viam, referiam-se a ele como Menina Chupando Cana, e assim ficou. Alvimar lembra-se de que, quando fez esta composição, estava muito envolvido com o problema da miséria. Lembra-se de ter identificado no Brasil uma tendência manipuladora de opinião, que objetivava a aceitação da miséria, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, quase lírica. O slogan usado era: “O brasileiro não tem dinheiro, mas é feliz”. Ele não aceitava esse pensamento comodista, que reduzia a capacidade do indivíduo de desejar mudanças. Era a pura exaltação da miséria. E, como estivesse muito triste com isso tudo, resolveu fazer uma série de quadros, evidenciando a pobreza, mas sob uma ótica reversa.

Para o pintor, o olhar da menina é o segredo da composição. Ela está perdendo a infância diante de uma vida desprovida de sonhos e calcada na miséria. Na sua ingenuidade, a garotinha não está olhando para fora, mas para dentro de si mesma. Talvez esteja no momento em que seus primeiros questionamentos sobre a vida surgem. Como criança, ela tenta negar a própria realidade, enquanto sujeito, da forma que consegue e que alcança. Seu olhar perdido é uma tentativa do artista de captar “aquele instante em que nos perdemos no raciocínio, paramos de pensar, e ficamos em um estado meio que de transe e, que não queremos voltar, acordar.”. É o momento em que a menina pode ir para longe e ficar suspensa em seu transe, numa espécie de alienação permitida, momentânea.

Todo quadro é uma imagem que pertence aos olhos de que a capta, não ao artista que a pintou. Toda composição pertence a nós no momento em que a vemos, portanto, a imagem desta menina é sua, meu caro leitor. Analise-a de acordo com o seu entendimento e as suas emoções.

Oberservação do pintor: Eu gostaria de acrescentar que este quadro nasceu de uma foto. O nome do fotógrafo é Nagel Medeiros. Como a foto era em preto e branco foi desafiador imaginar estas cores. Uma foto que muito me impressionou. A única coisa que eu realmente fiz foi enfatizar o olhar da menina. Então, todo o crédito por esta realização deveria ser dado a Nagel. Sem a foto não existiria o quadro. E eu agradeço a esse homem por um dia atentar para essa questão, e me proporcionar a chance de pintar o quadro. Obrigado, Nagel Medeiros!

Ficha técnica
Ano: 2007
Técnica: acrílico sobre madeira
Dimensões: 50 x 56 cm
Localização: coleção particular

15 comentários sobre “Alvimar Cury – MENINA CHUPANDO CANA

  1. Marcos Antonio Moreira Vidinha

    Alvimar
    “Menina Chupando Cana” é uma belíssima pintura! As cores são perfeitas. Você foi muito feliz na escolha do tema que abordou, pois é humano e social. A menina pobre transmite para mim, ao mesmo tempo, muita meiguice e muita coragem (parece querer enfrentar a vida, desafiar o seu destino, quer sonhar sonhos de criança, embora não saiba como fazer isso…). Há uma mágica nos olhos grandes e claros da menina (são os pontos focais dessa obra, pela enorme expressão que têm). Quando os vi fiquei hipnotizado durante um bom tempo, como se estivesse compartilhando com ela aquele olhar perdido no horizonte, mas voltado para dentro de si, para as suas dores, para as suas tristezas, para as suas incertezas, para sei lá o que…o fato é que compartilhei com ela esses sentimentos. Depois de algum tempo é que olhei para os demais detalhes do seu rosto, de menina pobre e triste.

    Essa cena me remeteu para o meu passado, há mais de 50 anos atrás, quando menino, no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, chupando cana no quintal de casa, tirada da touceira que meu pai tinha no fundo do quintal. Meu pai tinha, num pequeno quintal, uma grande variedade de pés de fruta. A minha infância, como a de todas as crianças, alternou momentos de felicidade e de tristeza, e na tristeza me identifiquei no olhar da menina.

    Infelizmente, essa menina triste não é a única no nosso país, há milhões de meninas tristes.

    Alvimar, parabéns por essa obra de arte! Que Deus continue te inspirando a pintar sentimentos e emoções.
    Fique com Deus.

    Abraços
    Marcos Vidinha

    Responder
    1. Alvimar

      Marcos,
      Minha gratidão é grande. Você me deu a honra de tocar sua alma. Permitiu que eu entrasse com a ideia, e me fez muito alegre com suas palavras. Eu quero muito agradecê-lo.

      Da tristeza das crianças do mundo, fazemos a reflexão no peito do homem, e esperamos, com todas nossas forças, que o sonho de igualdade persista, e se torne um grito de vitória.

      Obrigado,
      de pintor para pintor,

      Alvimar

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  2. Alvimar

    Eu me lembro claramente de você! Senti saudades agora. Eu nunca me esqueci de você, e ainda recordo de muitos nomes. Eu quero muito agradecer o comentário e lhe desejar muitas alegrias! Eu digo que sou um “fazedor”, não um artista.
    Um grande abraço ao melhor nadador do Albert Einstein!

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  3. Fabiano Borges

    Prezado Alvimar,
    parabéns pela pintura. Fomos colegas de escola (Albert Einstein) e me lembro perfeitamente que todos nós ficávamos encantados com a sua habilidade no desenho. Já era um grande artista naquela época. Muito embora você atribua os méritos ao grande fotógrafo, você conseguiu trazer emoção e vida ao olhar da menina. Um grande abraço,
    Fabiano

    Responder
  4. Alvimar

    A todos.
    Eu gostaria de acrescentar que este quadro nasceu de uma foto. O nome do fotógrafo é Nagel Medeiros. Como a foto era em preto e branco foi desafiador imaginar estas cores. Uma foto que muito me impressionou. A única coisa que eu realmente fiz foi enfatizar o olhar da menina. Então, todo o crédito por esta realização deveria ser dado a Nagel. Sem a foto não existiria o quadro. E eu agradeço a este homem por um dia atentar para esta questão, e me proporcionar a chance de pintar o quadro. Obrigado Nagel Medeiros.

    Responder
  5. Alvimar

    Matê, eu desejo um bom dia. Agradeço muito por comentar.Os frutos que a arte me proporcionaram são estes. Nunca haverá um prêmio maior que a reação do outro. Seja esta negativa ou positiva, é sempre muito agradável, porque traz emoções à tona, é o real objetivo. O observador é sempre a principal resposta. Obrigado.

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  6. Patrícia

    Alvimar
    Uma bela pintura digna de uma artista. A expressão nos olhos da criança vivaz diz tudo.
    Parabénspelo admirável trabalho.

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    1. Alvimar

      Um bom dia Patrícia. Eu fico grato por você gostar. Isto é uma honra para mim. O objetivo é sempre levar ao questionamento. Obrigado por dizer “artista”, talvez eu não o seja. Fico feliz que tenha visto e sentido a imagem.

      Responder
    1. Alvimar

      Olá Mario. Sim você disse bem. A face reflete uma situação. Os olhos um sentimento. Obrigado pelo comentário, e um bom dia.

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  7. Felipe

    Alvimar

    A primeira impressão que tive ao ver a imagem foi realmente a de uma cena de miséria e profunda pobreza. Os olhos atarracados e a face envelhecida, quase adulta, além do fato de chupar uma cana de açúcar me fizeram pensar assim. Realmente, não dá pra especular além do que o artista expõe. É inegável a feição de alguma coisa que é mistura de medo, raiva e fome, os olhos são vermelhos de angústia, nem a glicose da cana faz a criança sorrir, além do que a cana lembra um lápis, ensino, educação ou falta dela. Adorei o site.

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    1. Alvimar

      Obrigado por comentar. Interessante ver como você interpreta a imagem. Como podem diferentes pessoas agregar um sentimento novo ao olhar. Obrigado. Tenha um bom dia.

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  8. LuDiasBH Autor do post

    Alvimar

    Este seu quadro é de uma ternura que chega a machucar a alma da gente. Você conseguiu captar uma expressão genuína no rostinho dessa menina. O olhar hipnotizante da garotinha leva o observador a entrar através dele e alcançar seus pensamentos e coração. Ao mesmo tempo em que ela se mostra alheia, ela também reflete sobre a pobreza de seu mundo. E até indaga: “Será que viver é isto?”

    Maravilha de composição! Parabéns!

    Meu abraço,

    Lu

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    1. Alvimar

      Lu, eu fico imensamente agradecido. É uma grande honra saber que você gosta. E mais importante ainda é ver que sente o quadro. Agradeço também o belo comentário. E agradeço o Blog, por existir.

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