ANJO DA VIDA OU ANJO DA MORTE?

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Autoria de LuDiasBH

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Embora a tarde estivesse ensolarada, saracoteando-se num vai e vem de refrescantes brisas, meus pensamentos estavam desbotados e nevoentos, escaldados por um vapor sinistro da inquietação que muito me atemorizava. Para dar um refresco às minhas ideias sinistras, optei por fazer uma caminhada pela Praça das Palmeiras, antes de tomar uma decisão que poderia me levar ao arrependimento pelo resto da vida, ou quiçá nem mais tivesse vida para me arrepender, pois tão difíceis e tempestuosos eram os caminhos dos meus desatinos.

A praça estava relativamente vazia, como acontece nos feriados prolongados. Pus-me a caminhar, a princípio com sofreguidão, com os passos totalmente harmonizados com a voracidade do turbilhão de pensamentos que me engolia. Depois de muitos círculos vazios e já cansada e suando por todos os poros, resolvi assentar-me, ainda sem ter tomado a fatídica decisão.

Embora a maioria dos bancos estivesse desocupada, aproximou-se de mim um senhor, que me pediu permissão para se assentar a meu lado, com a delicadeza própria dos indivíduos cordiais. Mesmo sabendo que as pessoas nunca se assentam perto de desconhecidos, quando há um lugar desocupado só para elas, não levei o fato em consideração, pois, no momento, aquilo era de somenos importância para mim. Assenti com um leve maneio de cabeça, sem ao menos lhe dirigir o olhar. Não por me sentir incomodada com a sua presença, mas pelo tamanho do envolvimento com as ideias. Para o meu agrado, o meu companheiro de banco permaneceu num extremo mutismo, fato que não me incomodou nem um pouco, já que eu tinha inadiáveis decisões a serem tomadas.

Cerca de dez minutos depois, passei a sentir um perfume adocicado a me envolver. Comecei a ficar tonta. Não sei se desmaiei ou dormi. Lembro-me apenas, com extrema nitidez, que aquele senhor tomou-me pela mão e me conduziu até um amplo local, onde havia dois enormes salões conjugados. No primeiro, encontravam-se dezenas de pessoas espalhadas pelos mais diversos lugares, inertes, com os olhares distantes, como se não carregassem na mente qualquer tipo de pensamento. Quando indaguei do meu acompanhante sobre quem eram, ele mansamente me explicou:

– Esta é uma estação terrena de transição. Neste primeiro compartimento estão os espectros das pessoas, ainda que ilusoriamente com seus corpos físicos, que não souberam aceitar ou contornar os aborrecimentos do cotidiano e acabaram por vindimar o próprio corpo. Provêm de todas as classes sociais, culturas e credos.

A seguir, conduziu-me ao segundo salão, onde encontrei o mesmo tipo de pessoas. Antes que eu lhe fizesse qualquer questionamento, o meu anfitrião apressou-se em me explicar:

– Aqui estão os espectros das pessoas, ainda que ilusoriamente com seus corpos físicos, que não puderam suportar o peso da própria consciência. Também provêm de todas as classes sociais, culturas e credos.

Comovida, perguntei ao meu bondoso guia:

– Qual compartimento detém os espectros mais sofredores?

Ele olhou bem dentro dos meus olhos e tristemente me respondeu:

– Aquele que dá guarida ao segundo grupo, composto por almas que não suportaram carregar o peso da própria consciência. Enquanto os espectros do primeiro compartimento fizeram mal apenas a si próprios, os do segundo afetaram a vida de outros seres em benefício próprio.

Quando dei por mim, descia tranquilamente a Avenida das Acácias, em direção à minha casa, sem nenhum pensamento obsessivo a me conturbar a mente. Encontrei algumas pessoas e sorri para elas. Senti que a noite estava jubilosa com uma lua cheia magnífica nascendo por detrás da Serra do Curral. Contei o ocorrido para meus amigos. Uns me disseram que eu havia tido um encontro com o Anjo da Vida e outros, que eu fora visitada pelo Anjo da Morte.

Nota: Alegoria da Melancolia (1621)- Domenico Fetti

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