POEMA PARA OS OPERÁRIOS DA CONST. CIVIL

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Autoria de LuDiasBH

CIVIL

Eu me levanto assim que raia a aurora,
quando orvalho da madrugada inda chora.
Meu corpo vai balançando no frio lotação,
junto a dezenas de outros pobres irmãos,
todos nós partindo em busca de migalhas,
minguados trocados para comprar o pão,
numa batalha sem sentido, vã e inglória.

De segunda a sábado a tralha carrego.
Na velha marmita, a matula de cada dia.
Depois de cinco horas de serviço pesado,
dão pausa pro rango de pouca sustança,
dieta insossa de um trabalhador braçal.
Mal engulo o grude, vem o irritante sinal.
É preciso dar continuidade à dura labuta,
sinta-me bem ou mal, chova ou faça sol.

Na construção obro de tudo:
Faço proteção
Levanto andaime
Amasso bolo
Varo prego
Faço paginação
Amoleço massa
Levanto paredes
Espalho reboco
Talho mármore
Trabalho granito
Deixo vãos.

Tenho as mãos calejadas.
Tosse advinda do cimento.
Pulmão inflamado pelo pó.
Músculos talhados pelo peso.
Corpo moído pela argamassa.

Depois do serviço pronto, sou esquecido.
Impedido de entrar nas casas e edifícios,
onde deixei minha indelével marca
feita de sacrifício, suor e dor,
em cada tijolo da construção.

De tanto esconder o lamento,
desacredito em patrão ou amigo.
Desconfio de tudo que se move.
Até da velha e surrada gaiola que sobe,
aos trancos, nos esqueletos das paredes.
Só ando com um pé na frente e outro atrás.
Penso que no fundo empregador é tudo igual.

Eu também sou:
o oleiro da vida,
o artista filho da terra
que dá vida ao que talha,
que dá forma ao que toca,
que ergue palácios e choças,
maternidades e cemitérios.

Sou o dedicado ourives,
que trabalha o ouro.
Sou homem e gente.
Permanência e infinito.
O eterno e o agora.

Tenho mãos grossas e calejadas,
mas bem densas são minhas idéias.
Com elas construo parte do mundo:
casas, muros estradas e pontes,
escolas, aeroportos e prédios,
hospitais, cadeias e shoppings,
que minguadinhos saem do chão,
e depois, quase tocam os céus,
desafiando a gravitação.

Sou um democrata nato, pois
ergo a casa dos bons e dos maus,
dos arrogantes e dos humildes,
dos letrados e dos analfabetos,
dos crentes e dos ateus,
sem nenhuma distinção.
Ainda que em casa, a família
viva num inacabado barraco,
bem coladinho ao chão.

Sou eterno.
Viverei nas coisas que construo.
Em cada parede que levanto
minha marca fica gravada.
Ainda que nenhuma geração,
venha a conhecer o meu nome,
permanecerei neste planeta.

Escravos ergueram pirâmides no Egito e
elas permanecem após milhares de anos,
mas foram-se os reis num curto tempo.

Carrego dentro de mim o dom divino,
recebido através do sopro de Deus.
Os diplomados ditam-me as normas,
mas quem molda a massa sou eu.

Eu sou o filho amado da mãe Terra.
Acaricio-a todos os dias com as mãos,
inda que rudes, suadas e cheias de calo.
Gosto de tocá-la e senti-la junto a mim,
pois, um dia, eu me juntarei a ela, que,
com certeza, irá se lembrar de seu filho,
caboclo feio, tosco e modesto, que dela
nunca sentiu vergonha ou se apartou.

A Terra me dará de presente um naco de seu torrão,
para que nele meus ossos adormeçam eternamente,
bem coladinhos ao seu coração.

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