AS BANANAS E O MAL-DO-PANAMÁ

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Autoria de LuDiasBH

ban

Se alguém acha que vida de banana é fácil, está muito enganado. Digo isso pensando em todos os revezes pelos quais venho passando ao longo de minha história de vida. É fato que sou o símbolo dos países tropicais, os chamados paraísos, principalmente para os moradores dos países gélidos.

Sou filha da conhecida bananeira e apreciada em todo mundo, o que não me dá o status de estrela, principalmente onde abundo com generosidade. Tempos atrás, antes de ser apreciada por um ser extraterrestre, julgo eu, tamanha é a sua maldade, era motivo de piada. Tudo que não tinha valor era “a preço de banana”. E, mesmo assim, ainda nos dias de hoje, quando alguém não é cônscio de suas responsabilidades ou não tem caráter, recebe a alcunha de “banana”. Vá lá compreender esta tola humanidade, que cospe no prato que come.

A minha família é composta por cerca de 500 membros de classes diferentes, algumas delas bem sisudas e metidas a membros da nobreza, mas eu e a prata somos as mais populares e apreciadas por aqui. De acordo com a região levo um nome diferente: banana-nanica, banana-d’água, banana-da-china, banana-anã ou banana-chorona, o que não vem ao caso, pois sou gostosa de qualquer jeito.

Eu, que lhes falo, nasci aqui no Brasil, embora a origem de meus ancestrais remonte ao Sul da Ásia e da Indonésia. Mas neste país, abençoado por Deus e bonito por natureza (sou fã do Jorge Ben Jor), eles se adaptaram maravilhosamente, transformando-se em um de seus maiores produtos de exportação.

A nossa genitora, a bananeira, é uma planta extremamente simples e de bem com a vida, que não exige lá muito dengo. Ela tem um caule subterrâneo, que se desenvolve em sentido horizontal. Dele crescem para fora suas grandes e vistosas folhas. Como nós, bananas, somos afeitas a mudanças, de modo que cada suposto caule dá apenas um ramo de flores que se transforma num artístico cacho de bananas, formado por pencas e mais pencas, pois a família é muito unida. Nosso caule é removido e outro brota do rizoma subterrâneo. E assim prossegue a nossa existência.

Para que não pensem que estou chorando de barriga cheia, devo lhes dizer que podemos estar com os dias contados neste planeta, se nada for feito para nos salvar. Se vocês estão rindo, tratem de engolir a ironia e vejam o que tenho a lhes narrar.

Foi com pesar que nós, bananas brasileiras, recebemos a notícia de que, no ano passado, 65 mil hectares de nossas parentas chinesas foram aniquiladas por um fungo, um cão chupando manga, um ET de Varginha, um filho do demo, um moleque-do-surrão, um não-sei-que-diga (desculpem-me o desabafo), conhecido por mal-do-panamá, que desde o século XIX vem aterrorizando a minha família ao redor do mundo. Mesmo que corramos dele, como o capeta foge da cruz, ele está sempre no nosso pé. E não digo pé no sentido figurado, pois o manfarrico destrói exatamente as raízes de nossa genitora. E, como se desgraça pouca fosse bobagem, o tisnado voltou ainda mais voraz, numa variedade mais letal para nossa família. Dizem os grandes “pragólogos” do planeta que não existe uma solução para eliminá-lo. Esta espécie de humanoides é capaz de viajar pelo Cosmo, mas incapaz de combater um marrento que, muitas vezes, só tem uma célula.

O Brasil, 30 anos atrás, era o maior exportador de nossos frutos. Viajávamos pelo mundo todo. Hoje é o quarto. Para os EUA e Europa ele exporta apenas a minha prima banana-prata, que sempre se julgou mais nobre do que eu. A gente fica por aqui mesmo e com muito prazer. Já que o mal-de-panamá “ainda” não chegou por estas terras, presumo que estaremos agora na crista da onda, podendo voltar ao primeiro lugar. Mas juro que o pódio não me traz júbilo, quando tantas de minha família vivem um momento de terror. Seria uma estupidez vangloriar com a derrota dos seus.

Outra coisa que tem diminuído a nossa angústia é saber que o Brasil tem tradição em enfrentar pragas, usando de diferentes técnicas e com pesquisadores que já trazem um conhecimento avançado ao lidar com os males do algodão, cacau, laranja e outras culturas. E ele não será agora “um banana” (como dizem os irônicos), para apanhar de um marrentinho metido a dono dos bananais. Inclusive, a Embrapa (Bahia) começará a trabalhar em parceria com laboratórios de pesquisa na Europa, Ásia, África e nos EUA, para tentar combater a peste.

Segundo as últimas notícias obtidas, o mal-de-panamá avança pela Ásia e pela África com sua voracidade. Rogamos ao Criador para que o maligno desconheça os caminhos que levam a nosso país. Soubemos também que essa é a quarta variedade do mal a correr o mundo e, por isso, foi apelidado de Tropical 4. Seus antecessores eram bem mais brandos e mesmo assim deixaram profundos traumas em nossa família.

Não sei se os meus amigos sabem, mas a nossa espécie, hoje, é resultado de milhares de anos de seleção artificial, manipulada pelo dono da Terra – o homem. De modo que nossas sementes são estéreis. Já que somos clones, tornamo-nos mais sensíveis às pragas e, se morrermos todas, não ficará uma sementinha para continuar a nossa linhagem. E adeus bananais, açúcar e sais minerais, principalmente cálcio, fósforo e ferro, e vitaminas A, B1, B2 e C.

Mais informações para os meus admiradores:

  • O fungo Fusarium apareceu pela primeira vez no Panamá, em 1876, e logo chegou à Austrália. A minha antepassada, Gros Michel, foi contaminada e extinta nos anos 50. Foi substituída pela Cavendish, um tipo de nanica, ou seja, minha prima em segundo grau.
  • No início do século XXI surgiu uma nova variedade do fungo, apelidada de Tropical 4 – o mai forte já registrado. A praga se espalhou e atingiu minhas parentas na China, Austrália, Malásia e Filipinas.

Obs.: as informações foram retiradas da revista Época/ nº 665

Nota: Imagem copiada de http://precodebanana.wordpress.com/2010/01/26/banana-nanica-nasceu/banana-andy-3/

2 comentários sobre “AS BANANAS E O MAL-DO-PANAMÁ

  1. Messias

    Lu,
    Muito interessante a abordagem com a nossa deliciosa banana. Também me lembrei da Carmém Miranda com este simbolo na cabeça, o uso da banan como energético dos atletas e por aí vai.

    abs

    Messias

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Messias

      Eu nem posso imaginar o mundo sem bananas.
      Como são deliciosas essas danadinhas.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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