AS BICHAS E A EMULSÃO SCOTT

Autoria de LuDiasBH

emulsco

Estava eu com os meus cinco anos de idade, quando descobri como as lombrigas chegam até as nossas barriguinhas inocentes, de modo que as mamães, para combatê-las, tinham que nos fazer tomar um vermífugo horripilante. O bendito lombrigueiro era uma calda aterrorizante de jalapa (planta, cujas partes aéreas são trepadeiras, sendo as flores vistosas e coloridas, e com tubérculos subterrâneos tidos popularmente como purgativos), que descia por nossas gargantas, apesar de conservarmos os dentes trancados com cadeados. Mas não havia empecilho que não cedesse a duas ou três chineladas nos nossos bumbuns ainda sem acolchoamento. Quando abríamos a boca para soltar o choro, entrava, sem ser convidada, a colherada do nauseabundo líquido. Depois tínhamos que ficar em jejum por um tempo, de modo a não vomitar o veneno, até que começasse a fazer efeito.

O lombrigueiro era tomado em jejum, logo ao raiar do dia, quando a barriga estava saindo pelas costelas, ronronando como gato ao sol. As vítimas, inocentes e indefesas, não podiam tomar nem água, de modo a tontear as horrorosas que habitavam as suas entranhas. Se comessem algo, as indesejáveis tornavam-se poderosas e o efeito do remédio de jalapa era totalmente nulo. Submetíamo-nos ao “pós-engulitório” com uma coragem impensável para os nossos tenros anos, nascedoura do medo que tínhamos, em ter que repetir a dose. Sempre imaginávamos que íamos morrer ao lado das invasoras profanas de nossos corpos.

Apesar do horror que nos acometia tal beberagem, havia certo encantamento nesses dias trágicos. Costumávamo-nos reunir, em bandos de três a seis pirralhos, na casa de uma das tias, para o tratamento. Na noite anterior ao envenenamento, sabendo o que nos aguardava no dia seguinte, entupíamo-nos de tudo que fosse comível. Não havia biscoitos, doces e frutas que escapassem de nosso saque. Era uma farra regada a travessuras e a travesseiros. Já que tínhamos que ir para o cadafalso, pelo menos que aproveitássemos a última noite de vida, de modo a não morrermos com a barriga vazia.

O mais interessante naqueles dias fatídicos era o sentimento de solidariedade que se desenvolvia entre nós, esquecendo-nos de todas as rusgas passadas. Ajudávamo-nos mutuamente para que ninguém vomitasse. Embora quase sempre tivéssemos uma ou outra picuinha camuflada por um de nossos pares, não desejávamos aquela purgação nem ao pior de nossos inimigos. Confesso que algumas vezes uma das vítimas sucumbia-se à “vomitança”. Mas a trupe unia-se para esconder as pistas do crime, de modo que nem uma leve inhaca, ou uma tênue catinga, ou um laivo de xexéu não trescalasse no quarto.

Nós, os anjinhos, ainda devíamos passar por uma segunda via-crúcis após expelirmos as lombrigas. Como ficávamos alquebrados com o tratamento de choque, tínhamos que tomar outro infernal remédio, o líquido dos infernos, como o chamávamos, para nos fortalecer. Preferíamos um encontro com a mula-sem-cabeça ou com o Saci-Pererê do que vislumbrar nas mãos do carrasco um vidro que trazia um pobre homem no rótulo, com um peixe enorme às costas. Era a nauseabunda da “emulsão Scott”, aquela meleca medonha com gosto de peixe podre. Pobres alminhas indefesas, sem ninguém com quem contar e entregues às maldades do mundo dos adultos.

Mas, como tudo na vida evolui e a tecnologia sempre anda a passos largos, Sá Comprida apareceu com suas “pilas” (pílulas) milagrosas que combatiam as “bichas”, e que tinham certo respeito para com o nosso paladar sofrido. As “pilas” eram elaboradas com os mais modernos produtos, encontrados na região: sementes torradas de abóbora, goma de mandioca e sementes verdes de mastruço. Colocava-se um pouco de água para dar liga ao “mata-tudo”. A venda se dava através do escambo. Engolíamos cerca de seis “pilas” de cada vez, sem precisar fazer jejum, com um resultado bastante eficiente. Daí para diante nossa vida mudou substancialmente, apesar da falta que sentíamos das travessuras e dos travesseiros.

6 comentários sobre “AS BICHAS E A EMULSÃO SCOTT

  1. Lenilson Takato

    Nossa não consigo parar de rir…. O texto está excelente, muito bem escrito e tratou de forma cômica o terror de nossa infância.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Lenilson

      Criança sofre! Ou melhor, sofria, pois as de hoje não têm nem noção de como era antigamente. Fico feliz que tenha gostado do texto. Muito obrigada pela sua visita e comentário. Volte sempre!

      Abraços,

      Lu

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  2. Celina Telma Hohmann

    Jesus! Passamos por essa tragédia! Eu, sortuda que só,fui dessas crianças que não tinham bichas, não pegavam piolho – digo, inclusive hoje, que meu sangue é tão ruim que nem piolho gosta – não vivia quebrada, e, claro, sentia-me a rainha dentre a criançada, cujas mães pegavam de jeito e aplicavam o tal tratamento. Por curiosidade tomei o tal do remédio. Só a cara do homem do rótulo já assustava, mas quem disse que a curiosidade não me faria experimentar? Ui! Sufoco é pouco. Aquele gosto que não se esquece nunca mais e que, na tal maldade infantil, eu adorava saber que aos amiguinhos e meus dois irmãos continuariam com o tal sabor rodeando-os de tempos em tempos. Havia a lua certa, o tempo certo. O suplício com prazos determinados! Fui sortuda, ou esperta? Aposto na segunda hipótese!

    Escapei disso, mas quem disse que escapei de, em plena crise de tosses – a tal tosse comprida – chupar limas em uma encruzilhada pela madrugada? Não escapei, como não escapei do famoso chá de “jasmim”, esse, é o terror dos terrores, pois não nos contam o que estamos tomando. Como de médico e louco todo mundo tem um pouco, no fundo as mães acabaram dando razão a Fleming e à descoberta da penicilina. O tal do “jasmim”, era o cocô de cachorro, com aquele pozinho por cima (fungos?) que curava qualquer infecção. Fui vítima dessas tresloucadas crendices, e, sei lá, acho que melhorei. Ao menos, estou aqui, relembrando fatos ao deliciar-me com o texto!

    Concordo com a solidariedade entre a turminha na fase do tratamento. Se havia rusgas passadas, naquelas horas apavorantes, havia ,sim, a cooperação. Pecadinho! Mas vamos combinar, que na fase do suplício, tínhamos o alento do Biotônico Fontoura que servia para que ficássemos fortes, gordos, bonitos.Eu devorara um vidro numa única vez se não ficasse escondido! E o tal AAS? Eita gostinho bom!

    Esse foi o tempo ruim que era tão bom! E bom ler um texto que nos remota à fase que ninguém esquece!

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Celina

      A vida não era fácil na cidade pequena, onde às xaropadas juntavam-se as superstições de “isso e aquilo fazem um bem danado”, tudo prescrito pelo rumo, de ouvir falar… E as pobres cobaias ali no matadouro, prontas a serem sacrificadas. Mas nunca fui com a cara do homem carregando o peixe (Emulsão Scott). E pior, ele ainda continua a povoar a vida de nossas crianças. Ainda se encontra garboso nas prateleiras de farmácia. Minha filha tomou um com sabor de morango e achou “uma delícia”. Pode isso? Só que agora não deve existir mais o tal Vermicida Brasil, substituído por comprimidinhos agradáveis.

      Eu também adorava o Biotônico Fontoura, hoje tão caro. Degustava uma garrafinha daquela num piscar de olho, sempre que as possibilidades assim o permitiam, ou seja, encontrasse-a num lugar à vista e sem o olhar de buldogue de terceiros. Ainda que a degustação fosse fechada com umas boas chineladas ou a pirata comesse de concha. O bom é que não dava para sentir muito, meio zonza com o álcool do Biotônico… risos. Bendito seja o tal Fontoura. Que delícia! Merecia ser acompanhado com um queijinho e castanhas.

      O ASS continua na parada. O infantil é mesmo uma delícia. É também usado pelos cardíacos. Devia ser escondido, para que nós, crianças, não o chupássemos como balas doces.

      Amiga, obrigada pelo seu comentário, que traz também muitas lembranças.

      Grande beijo,

      Lu

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      1. Celina Telma Hohmann

        Nunca deixarei de agradecer o dia em que cai de braços abertos nesse site! Faz um bem danado o bichinho! Cada dia descubro uma deliciosa chance de aprender, rir, chorar – mas sem lágrimas, aquele choro que fica escondido e que os dedos, rapidamente dão o jeito de expulsá-los e fazê-los voar para o papel. Epa! A onda agora já é outra. O papel, tadinho, meio que ultrapassado, mas acho que entende o que digo. Seu texto é deliciosamente real! E trouxe saudades. o retorno à infância, onde tínhamos outras formas de malandragens, distração e curas. A bem da verdade nem doente ficávamos! Não dava tempo!
        Abração!

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        1. LuDiasBH Autor do post

          Celina

          É este site o felizardo, por nele ter caído um dia. Quem não haveria de apaixonar-se consigo, já no primeiro encontro? Você nos faz rir e emocionar, com coisas tão lindas que nos diz. Mesmo que algumas sejam doloridas, a maneira como as apresenta, leva-nos ao riso, ainda que rolem lágrimas, junto. É uma grande alegria contar com o seu talento, seu coração do tamanho de mundo, seu desejo de trabalhar por um mundo melhor.

          Eu só ganhei um grande presente: sua colaboração neste blog. Juntas, nós haveremos de construir páginas bem interessantes para os nossos amados leitores. Obrigada, amiga! Muito obrigada!

          Beijos,

          Lu

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