AS IDADES DO HOMEM E A MORTE

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Autoria de LuDiasBH

asidmor

Contam os antigos que, nos tempos dos grandes filósofos, o poder vinha com a sabedoria, pois, ser sábio era por definição viver em comunhão com os homens e a natureza. E o acúmulo desordenado de bens materiais denegria a imagem do homem que era tido como tolo e incapaz de compreender a finitude da vida. O sábio tinha prazer em dividir seu conhecimento com as pessoas que o procuravam, acalmando-lhes as angústias provenientes do sentimento de mortalidade, bem ao contrário de nossos dias, onde os homens vivem com se imortais fossem, tamanha é a busca pelo acúmulo de riquezas.

Contou-me meu avô a história que ora narro, e que vem acompanhando várias gerações de nossa família. Seria de bom alvitre que o leitor a levasse adiante. Quem sabe assim poderíamos construir uma ponte entre nós e as gerações futuras, de modo a exaurir o poder auferido pela ambição material, retornando a pertença aos sábios de coração e mente.

Nos tempos idos de 1718, ao sul de Antrarca, vivia o tirano Asdrúbal Hawazin, cuja ambição desmedida não deixava nenhuma nesga para o bom senso. Sua ganância ultrapassava as fronteiras de todas as nações existentes, assim como a sua tola postura em relação à vida. Não satisfeito com as riquezas acumuladas, o que é próprio dos somíticos, Asdrúbal Hawazin foi aos poucos endividando os camponeses de uma aldeia vizinha a seu império, até se apossar do pouco que possuíam. Desalojadas de suas terras, as famílias passaram a mendigar pelas ruas da cidade vizinha, sendo que muitas pessoas foram vitimadas pelo inverno rigoroso, principalmente crianças e idosos.

Ao tomar conhecimento da situação de miserabilidade dos outrora camponeses, um velho sábio pôs-se na estrada, levando um presente para o tirano. Como já era conhecido pelos servos do vilão, já tendo ajudado muitos deles com suas sábias palavras, adentrou com facilidade na herdade do desalmado, que aceitou recebê-lo após o jantar, avaliando o presente que receberia. E assim aconteceu.

O sábio humildemente dirigiu-se a ao tirano, dizendo-lhe que lhe trazia o seu mais importante tesouro: uma tela do pintor Hans Baldung Grien, datada de 1540, denominada As Três Idades do Homem e a Morte. Nem é preciso que eu diga ao leitor que o assoberbado contabilizou mentalmente, em moedas de ouro, o valor do presente. Ele já ia despachando o velho sábio, quando esse lhe pediu que interpretasse a pintura. Asdrúbal Hawazin olhou-a sob todos os ângulos e calou-se empertigado. O sábio, então, pôs-se a explicar:

– A cidade em ruínas, meu senhor, representa a transitoriedade da vida. Observe o solo ressecado, a árvore seca, tudo numa desolação absoluta, lembrando-nos que nada é eterno. As figuras humanas mostram as três fases da vida humana sobre a Terra. O bebê representa a infância; a jovem – a maturidade; a senhora idosa – a velhice.

O tirano, pensando pegar o sábio sem respostas, perguntou-lhe:

– O que representa este ser cadavérico? O senhor nada disse sobre ele.

O sábio concluiu, contemplando a pintura:

– Eu já esperava que me fizesse tal pergunta, portanto, quero me tornar o mais cristalino possível, meu senhor. O ser de que fala é a morte. Observe que ela traz nas mãos uma ampulheta que mede o nosso breve tempo na Terra. A vida é fugaz e, como a areia, vai aos poucos escapando através de nossos dedos. Morremos um pouco a cada dia. Observe que a infância está segurando a ponta da foice da morte. O que significa que já nascemos carregando a semente mortal, condenados a ter uma vida breve. A maturidade traz os olhos voltados para longe, sem notar que a velhice está ao seu lado, puxando-a para si. Assunte agora a velhice. A morte já está tão ligada a ela, que a enlaça com força. A distância entre a maturidade e a velhice é um pouco maior, enquanto a velhice e a morte se ombreiam. Basta nascer para estar ligado inexoravelmente à morte. A coruja significa a sabedoria que devemos ter, desapegando-nos dos bens materiais, se quisermos viver, ainda que brevemente, com alegria. A escolha é de cada um de nós.

Ao direcionar os seus olhos para Asdrúbal Hawazin, o ancião percebeu que ele chorava. Tomou as mãos dele entre as suas, e deixou que pranteasse copiosamente a sua desventura de não ter sido um homem sábio, mas apenas um colecionador de matéria. Ainda havia tempo, embora pouco, para a sua redenção.

Nota:  As Três Idades do Homem e A Morte (1539) – Habs Baldung Grien

4 comentários sobre “AS IDADES DO HOMEM E A MORTE

  1. Karlla

    Lu,

    O interessante é alguns conseguem acordar e perceber para retomar um novo caminho enquanto outros
    são eternos escravos de um vazio que jamais é preenchido. A felicidade é sermpre relativa, muito embora existam pessoas ricas e plenas de sabedoria, rico duas vezes!

    Grande abraço, Lu,

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Karlla

      Nós somos mesmos passageiros do tempo.
      E isso temos que aceitar, queiramos ou não.
      A felicidade é mesmo muito relativa, pois cada um enxerga a vida de um jeito.
      E a maneira como vemos a vida, é que nos deixa mais infelizes ou menos.

      Beijos,

      Lu

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  2. Rosalí Amaral

    Lu,

    O tempo passa, mas é incrível como vemos ínúmeros Asbrúbals por aí!
    Na verdade, a ganância foi e sempre será a raiz de todos os males
    dessa vida. E o excelente texto obriga-nos a analisar e perguntar:
    _ O que estamos fazendo de nossas vidas?
    Como o tempo está mais que abreviado, é melhor colocarmos as
    “barbas de molho”.

    Abraços,
    Rosalí.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Rose

      Também não entendo como o homem se deixa levar por tanta ganância.
      Para que tudo isso, meu Deus?
      Nossa vida é tão breve na Terra que não precisamos de acumular bens materiais.
      Nossa maior riqueza é mental e espiritual.
      O resto é pura bobagem.

      Beijos,

      Lu

      Responder

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