AS MÃOS BONDOSAS DE MINHA MÃE

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH bela

As primeiras chuvas dissolveram a poeira
de longos meses de uma seca prolongada.
O dia amanheceu claro, de banho tomado,
saudando a vida com desvairada alegria.

O capim inda estava molhado e nas folhas
pingos de água reluziam como pingentes.
Os céus encheram-se de festivos pássaros,
numa festa de muitas cores e cantorias.

Porém, minha alma continuava agoniada,
acabrunhada por um entorpecimento cruel,
como se a estiagem inda rondasse meu ser,
que se retorcia numa desvairada agonia.

Eu me exauria num vórtice de lembranças,
imagens reclusas há muito dentro de mim,
cobertas por mil e um véus de sofrimento,
tão doídas quanto o cantar da cotovia.

Saudades e saudades, sem tempo definido,
lembranças mais lembranças, sem ano certo.
Tudo doendo em mim qual ferida sangrenta
apesar da minha aparente letargia.

Vieram à tona fatos perdidos na memória, e
diálogos mal adormecidos na consciência, e
rostos queridos, sumidos por tantas razões,
como num filme de dolorida melancolia.

Eu me transformei num saco de amargor,
vazando raiva e aflição por todos os poros.
Chorei dias e noites tão pungente desdita,
buscando imergir nas águas da eupatia.

Certa noite, minha mãe veio me visitar, e
suas mãos bondosas tomaram-me o rosto.
Ao alvorar, senti o olor de capim molhado,
e meu ser apaziguado voltou à calmaria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *