AS PIABINHAS E A NATAÇÃO

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Autoria de LuDiasBH

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Assim como o filósofo, o artista não pode se acostumar completamente com o mundo, para que possa continuar sensível e receptivo às coisas que dele advém, pois a arte não coaduna com a apatia e a indiferença. Exige que o artista possua, mais e mais, a capacidade de admirar e se emocionar com as coisas, desde as mais simples às mais complexas. É daí que se materializa a sua arte e ninguém melhor para nos ensinar sobre isto que a criança, sempre fascinada ou comovida com suas descobertas. E, por falar em criança, ainda me lembro de certas peripécias da minha infância. Dentre essas, algumas que por pouco não me custaram a  minha vida, mas mesmo assim nunca me arrependi de tê-las no meu currículo.

Estava lá com meus seis para sete anos, quando um bando de cinco filhos da desobediência e comida de chinelo, ou seja, meus primos e eu, fomos às escondidas para o caudaloso rio que banhava nossa cidadezinha, cujo nome agora não vem ao caso, até porque foi transformado num fiapo d’água com a canalização, para nos instruirmos no esporte da natação, através do conhecimento empírico e filosófico, uma vez que não havia nenhum adulto entre nós. Como era tempo de eleição na cidade, quando as atenções estão voltadas para o pleito, cada um lutando pela vitória de seu candidato, estávamos como o diabo gosta, livres e soltos, e sem ninguém para nos vigiar. Para nós, eleição deveria ser todo mês, pois pais e tios simplesmente ignoravam a nossa existência.

O método para aprender a nada era facílimo, não demandava nenhum esforço, nenhum cansaço e muito menos sabença. No muito, poderia nos induzir a fazer cara feia ou vomitar, coisa comum para quem ainda está descobrindo os prazeres da vida, e o que não significava coisíssima alguma para as diabruras que tínhamos em mente. Lembro-me de que nos ensinaram (só Deus sabe quem) que, para se aprender a nadar, bastava engolir uma piabinha, que era uma espécie de peixe, cujo tamanho não ultrapassava os 3 centímetros. Alguém levantou a possibilidade de que ela poderia roer nosso estômago e intestinos, informação que não nos demoveu de nosso intento, diante da delícia que era atravessar o mundo a nado. Poderíamos nadar até mesmo de Minas para São Paulo, ou do Brasil para a Bolívia, já que não tínhamos a menor noção de geografia.

Com o ensinamento ainda fresquinho na cachola, partimos sorrateiramente, carregando um caldeirão com uma caneca de farinha de mandioca e o colocamos na beirado do rio, de modo a ficar encoberto pela água. Poucos minutos depois, o recipiente transbordava de peixinhos. Tapamo-lo e o retiramos para fora da água, e nos acercamos caldeirão. Assentados no lajedo, passamos a fazer a distribuição dos peixes, que pareciam se multiplicar na vasilha. A seguir veio a parte mais heróica: engolir uma piabinha viva. Missão que foi cumprida, honrosamente pelos cinco membros da confraria dos futuros exímios nadadores de todo o país, quiçá do mundo. O restante dos peixinhos foi devolvido ao rio e, para não matar as coitadinhas já no estômago, até que conseguíssemos atingir os nossos tão louváveis objetivos, tínhamos que tomar água o tempo todo.

Contudo, meus amigos, esta persona que ora lhes narra tão verídico acontecimento, sempre foi uma pessoinha do capão da coruja, como dizia sua saudosa mãe, parecendo ter um parafuso a mais ou a menos no desenrolar de suas aventuras, sempre enriquecendo suas travessuras, de uma forma ou de outra. E, assim, pensou consigo, diante do caldeirão de piabinhas:

– Se com um peixinho eu aprendo a nadar, com dois eu nadarei bem e com três atravessarei todos os rios, mares e oceanos da Terra.

E lá se foram cinco inocentes piabinhas para o meu estômago. As duas a mais funcionavam como acautelamento, caso duas delas não fossem boas nadadeiras. Como a dosagem era maior, tinha que beber muita água, para manter as pequeninas vítimas vivas. E desce água e mais água. A barriga já estava quase estourando. Mas ainda havia um ritual a cumprir: escolher um lugar mais escondido, para que os bisbilhoteiros de plantão não contassem a nossos pais tais peripécias. Ainda criança, eu já sabia que sempre era preciso contar com as inúmeras possibilidades, para que uma empreitada lograsse êxito.

Após o ritual, quatro elementos, projetos de nadadores e componentes de tal peripécia, pularam na água, mas antes tiveram a preocupação de escolher um lugar onde desse pé. Mas a bacharela aqui, ciente de sua transformação natatória, foi procurar um lugar mais fundo, conhecido como perau, para o teste, uma vez que se encontrava arregimentada com cinco piabinhas no estômago. Mas, como diz um velho ditado, quando a esperteza é muito grande, ela acaba por comer o dono. E foi exatamente isto que aconteceu.

Pulei de cima da pedra e como uma pedra fiquei no fundo arenoso do rio, até que uma lavadeira presente, não me vendo aparecer, caiu na água e me pegou pelas pernas finas. Depois de expelir muita água, os primos e eu, à custa de muitas promessas, selamos um acordo entre nós, que rezava que o caso seria sepultado nas águas mais profundas do rio, que nunca são as mesmas. Mas na nossa preocupação esquecemo-nos de selar o acordo com a lavadeira Nedina, testemunha ocular da façanha.

Resultado: como estafeta da discórdia e da rixa, Nedina contou o feito a cada um de nossos pais, de modo que os louros da façanha foram uma boa surra para cada um dos heroicos membros, e um mês sem colocar os pés no rio, nosso prazer supremo. Judiação pura e abuso de poder. Como eu odiei aqueles juízes do bem e do mal.

Sei que aprendi a nadar, mas não tenho a certeza se foi em função das pobres vítimas engolidas ou pelo empirismo tão presente nos moleques interioranos, bem mais filosóficos do que os da cidade grande. Mas a minha cara metade, que alguns chamam por marido, teve a audácia de me dizer que nado sem técnica alguma. E desde quando piabinhas precisam de técnica? Elas já nascem sabendo o ofício. E tampouco ouvi contar que algum peixinho houvesse se afogado. O importante é não se afogar. E daí?

Nota: Crianças Apiakas nadando no rio.

 

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