AS VISITAS NOTURNAS DO ÍNCUBO

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Autoria de LuDiasBH

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Não sei precisar quando aquela desdita apareceu, ou qual era a distância entre uma visita e outra. Só sei que após o encontro, quase sempre no meio da madrugada, eu amanhecia um molambo, com o corpo todo dolorido. A coisa açambarcava-me corpo e alma. Sugava-me todas as energias. Toda a sua malvadeza concentrava-se na minha boca. Os lábios inchavam, as gengivas sangravam e se desfaziam em pequenas tiras de nervos, como se fossem raízes de capim-gordura. Quanto mais tentava ficar livre daquelas malditas raízes, mais elas cresciam, umas dando vida às outras. Depois vinha a sensação de que todos os meus dentes estavam bamboleando, prestes a tombar.

A primeira explicação veio de uma amiga, extremamente ligada ao sobrenatural que, sem pestanejar, diagnosticou a coisa. Eu estava sendo visitada por um íncubo (demônio masculino que, segundo uma velha crença popular, vem pela noite copular com uma mulher, perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos). Fiquei estarrecida. Com tanta gostosona por aí, por que seria eu a despertar a atenção de ser tão vil? Além de não ser boazuda, já caía na cama sem glamour algum, tamanho era o meu cansaço depois de 10 a 12 horas de trabalho diário. Aquela criatura era masoquista, ou tinha um mau gosto do cão. Portanto, caro leitor, botei em dúvida o veredito de minha amiga Alice, assim como as suas sobrenaturais elucubrações.

A situação estava ficando tão caótica, que passei a ter medo de dormir. Mas, como não conseguia domar o sono por muito tempo, acordava mais azeda de que limão galego. Se já era um graveto ambulante, comecei a definhar mais e mais. De uma feita, o coisa me visitou quatro vezes na mesma semana. Aí já era exploração das grandes. Deveria estar bem precisado. Diante do cansaço e vitimada por tamanho ardor sobrenatural, acabei desmaiando no trabalho. Foi aí que tomei uma decisão: ou eu acabava com aquela danura, ou aquela danação acabava comigo. Optei por procurar um psiquiatra, sob os protestos de Alice, que há muito vinha me sugerindo seu guia espiritual.

Doutor Honestino Barbosa, compadecido com a minha magreza e com a fundura de minhas órbitas oculares, mergulhadas em sinistras olheiras, num sfumato total, fez-se todo ouvidos, sem se preocupar com o tempo. Blá-blá-blá-blá! Contei-lhe, inclusive, que havia pensado em dormir pilecada toda noite, mas a tal amiga advertira-me de que poderia ser pior, pois, como “aquilo de bêbado não tem dono”, o íncubo poderia deitar e rolar. Extenuada de tanto falar, disse-lhe que não mais queria me deitar com “um coisa” contra a minha vontade, ainda se fosse um Richard Gare ou um William Shatner nos seus velhos tempos de Star Trek… Foi aí que doutor Honestino Barbosa, com certa piedade nos olhos e um meio sorriso de incredulidade, pausadamente começou a me explicar:

– Minha filha, saiba que 2% a 6% da população mundial têm pesadelos recorrentes. Mais de 50% das crianças possuem-nos com constância, porque o cérebro delas é mais delicado e desprovido de vivências. Mas são as mulheres as maiores vítimas na vida adulta, sendo os hormônios os responsáveis pelos sonhos ruins. Eles lhes causam instabilidades mensais, gerando ansiedade e variação de humor. E a instabilidade no cérebro pode se transformar em pesadelos.

Meu Santo Expedito, a mulher além de passar pela dor do parto, arrumar a casa, dar conta da comida e dos filhos, trabalhar fora e carregar todo a tribulação  do mundo nas costas, ainda não tem descanso nem para dormir! – pensava eu, dividida entre as minhas reflexões e as palavras do médico – Deveria ter nascido com uma vara de pescar entre os membros inferiores, para ter menos aborrecimentos. Mas, não sei se seria a solução, pois minha amiga Alice disse-me que também existe o súcubo (demônio feminino que, segundo velha crença popular, vem pela noite copular com um homem, perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos). Danou tudo! Sem opção!

Doutor Honestino Barbosa continuou:

– Mas tudo na vida possui um lado bom e um lado ruim. Vamos falar sobre o lado bom do pesadelo.

Eu não conseguia imaginar uma isquinha de comprazimento num pesadelo. O meu interlocutor teria que tirar leite de cabras, digo, pedras para me convencer.

– Os sonhos ruins são necessários à vida. As pessoas que convivem com pesadelos estão em vantagem na escala evolutiva, pois eles funcionam como uma espécie de treino para as situações de perigo na vida real. Só para você ter uma ideia, o neuropsicólogo americano Patrick McNamara afirma que “Quem passa a vida tendo pesadelos, tem tendências artísticas e criativas que não são encontradas em outros grupos.”.

Aí ele levantou a minha autoestima. Logo pensei em contar para todos que tinha pesadelos todas as noites. Ou seja, eu fazia parte do rol dos artistas, diferindo-me dos mortais comuns. Seria eu a reencarnação de Clarice Lispector, Virgínia Woolf, Jane Austen ou quiçá Shakespeare? Nem tanto, mestra, vá devagar com o pote, que ele é de barro, dizia a minha razão já bem envergonhada. Até que veio a parte espinhosa:

– Se o pesadelo é recorrente, ele passa a ser um transtorno, ou seja, torna-se algo que está fazendo mal para quem o tem ou para terceiros. Logo, precisa ser tratado. – continuou o especialista.

Diante de meus olhos esbugalhados e, para dar mais glamour a seus ensinamentos, doutor Honestino Barbosa contou-me dois segredinhos.

– Lady Gaga sofre com terríveis pesadelos suicidas. Um demônio está sempre a lhe pedir que corte os pulsos para salvar a vida de pessoas de sua família. E o galã Leonardo de Caprio também vive às turras com seus pesadelos.

E, para arrematar:

– Sigmund Freud, o pai da psicanálise, dizia que “o pesadelo nada mais é do que a realização de um desejo que não está em consonância com as vontades da consciência”. O indivíduo, em sã consciência, acredita não querer, não desejar. Mas, em algum momento quis, pensou, mas a vontade ficou reprimida. Ao dormir, suas defesas e desejos ficam à vontade e, aí, bons e maus desejos fazem a festa. Como está ligado às nossas punições morais, o pesadelo é mais violento. Para minimizá-los é bom que ao se deitar, evite bebidas estimulantes (café, chá preto e refrigerante), situações excitantes, TV ligada, luz acesa, estresse e ansiedade.

Doutor – perguntei eu – o que farei então, para lidar com tantos desejos reprimidos que me apoquentam a vida, muitos dos quais nem tenho consciência?

– De acordo com a psicanálise, você deve tentar entender por que alguns de seus desejos são contrários à sua consciência. Na sua maioria, eles são infantis, perversos e de cunho sexual. Eles devem ser entendidos, para que sejam aceitos pelo ego e, desse modo, não se escoem em forma de pesadelo.

Revoltosa, insurreta e refratária às explicações do doutor Honestino Barbosa, e já acreditando no surrealismo (ou seria expressionismo?) da minha amiga Alice, fechei nossa conversa em alto e bom tom:

– E o maldito íncubo, o que farei com ele?

Doutor Honestino fez ouvidos moucos e deu as costas como resposta.

Ainda hoje sou uma presa contumaz dos pesadelos. Mas já os aceito com mais condescendência. Alguns são impressões do dia a dia. Outros possuem suas raízes no passado. Alguns outros derivam de desejos ocultos não satisfeitos. E os não catalogados aqui, deixo para os estudiosos do assunto, pois ninguém é de ferro, além de ter que viver às turras com um íncubo.

Obs.:
Os dados e as explicações médicas encontram-se na revista Star/ Edição 102 de abril de 2011. E todo o caso não passa de ficção.

Nota: Imagem copiada de http://franjericho.deviantart.com/art/Incubo-258870633

24 comentários sobre “AS VISITAS NOTURNAS DO ÍNCUBO

    1. LuDiasBH Autor do post

      Meu prezado íncubo

      Infelizmente só há vaga para o ano 2020, pois a fila anda mais depressa do que imagina.
      E, pelo que parece, você anda muito precisado, o que me corta o coração… risos.
      Havendo desistência, minha secretária entra em contato com você. Não fique tristinho!

      Obrigada pela visita ao blog.

      Abraços,

      Lu

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  1. Moacyr

    Lu, ainda bem que eu não estou nesta história, ou seja, estava nos braços de Morfeu. Mas não estou gostando nada desse íncubo, precisamos acertar umas contas.

    Beijos

    Moacyr

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Moá

      Você está na história, sim!
      O súcubo que é muito esperto.
      Abra os olhos, mocinhos… risos.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Reini Dantas Leal

    Kkkkkkk que forma divertida de falar dos pesadelos! Gostei muito querida prima Lu.
    Beijos no seu coração.

    Responder
  3. Patrícia

    Lu,

    pesadelos são horríveis ainda mais com o coisa ruim e nesta situação. Quem sabe resolve, se você apelar para as benzedeira e coisa e tal.
    E porque não pensar mais no Richard Gere? “Olha” a força o pensamento. Rsrsrs…

    Beijos

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      Já chamei o benzedor do fazendeiro (outro causo).
      Enquanto isso, vou postar uma foto de Richard Gare na minha cabeceira, para espantar o súcubo… risos.

      Abraços,

      Lu

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  4. Antonio Passos

    Desculpe-me mas, em termos de sonhos, Freud foi o grande desbravador, mas Jung foi muito mais longe. Este tipo de sonho é sim uma manifestação normal da natureza, mas não tem nada de saudável, nem de criativo, nem de realização de desejos. A natureza, quando em desequilíbrio, responde da forma adequada, mas isto não significa que seja algo bom. A única coisa realmente inquestionável é que a pessoa precisa urgentemente de tratamento.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Antônio

      Eu tenho uma visão diferente sobre os sonhos.
      Penso que eles não podem ser explicados levando em conta uma única causa.
      Muitas vezes, são uma maneira de realizar algo que não fomos capaz de fazer em vigília.
      Por exemplo, se alguém me magoa, e eu não reajo ao insulto, à noite, eu sonho falando tudo aquilo que deveria ter falado, como uma válvula de escape.

      Quanto ao súcubo, aqui se trata apenas de minha imaginação.
      Eu não acredito em súcubos e íncubos.
      Sonhos e pesadelos são frutos da nossa mente, e só.
      Os pesadelos frequentes atestam que existem coisas que precisam ser resolvidas em nossa vida, não resta dúvida.

      Agradeço a sua visita ao blog.
      Gostei muito do seu comentário.
      Continue passando por este cantinho.

      Grande abraço,

      Lu

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  5. célia

    Lu querida, mas existe solução para você não ser incomodada pelo íncubo. Diz a lenda que a mulher que não quer ser visitada pelo íncubo é só colocar no quarto uma cadeira virada com as pernas para cima. O íncubo chega, vê a cadeira virada, vai embora porque entende que naquela noite sua visita não é bem-vinda. kkkkkkk… Não conheço nenhuma mulher que tenha deixado a cadeira com as pernas para cima. De vez em quando ser um súcubo não é nada mal, imagine visitar o Brad Pitt?
    kkkkkk

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Poxa, amiga, você só me conta isso agora?
      E eu aqui passando tanto sofrimento, virando um fiapo de magreza…
      Já até me recomendaram uma pajelança para me ajudar no contato com o danado.
      Vou comprar um monte de cadeiras, ainda hoje.

      Celita, você sabe que tudo não passa de um causo, pois não acredito em íncubos ou súcubos.
      Espero não ter sido muito realista no causo… risos.

      Beijo no coração,

      Lu

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    1. LuDiasBH Autor do post

      André

      Celita Linda é uma fonte de sabedoria.
      Eta mulher danada!
      Suas piadas são uma grande fonte para meus causos.

      Abraços,

      Lu

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  6. Hermes M. Lourenço

    Sonhos e pesadelos. Realmente mais um dos mistérios da mente humana.
    Agora por curiosidade… quando tiver tempo, anote seus sonhos. Faça um diário de sonhos. Quando você for ler, terá uma surpresa interessante.
    Forte abraço e parabéns pelo conto.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Hermes

      O meu problema é que não consigo me lembrar, no dia seguinte, do que sonhei.
      Tudo fica confuso e sem sentido.
      A menos que acorde no meio da noite, logo após o sonho.
      Mas deve ser interessante mesmo fazer um diário de nossos sonhos.
      Faremos, com certeza, muitas descobertas.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder
  7. Mário Mendonça

    Lu Dias

    Apesar de discordar de sua amiga, gostei dessa passagem:

    “Contei-lhe, inclusive, que havia pensado em dormir pilecada toda noite, mas a tal amiga advertira-me de que poderia ser pior, pois, como “aquilo de bêbado não tem dono”, o íncubo poderia deitar e rolar”

    Já imaginou ser possuída dormindo?
    Terias dois prazeres, o sono e o coito,
    Nossa psique é mais malvada do que pensamos.
    Como Dizia Hannah Arendt, é a banalização do mal.

    Abração

    Mário Mendonça

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      A minha amiga está coberta de razão.
      Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém.
      Vou lhe enviar um súcubo… risos.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder
  8. Julmar Moreira Barbosa

    O fato de você não se considerar uma GOSTOSONA não significa que nós os seres íncubos não a consideremos como tal, rsrsrs…
    Acontece que na maioria das vezes, os seres íncubos ou súcubos – sendo esses últimos os quais eu prefiro – enxergamos com os olhos da alma as virtudes e o bom gosto que nos atraem.
    Quem sabe o seu caso está ligado ao interesse pelas artes e pela habilidade com as palavras?
    Muito legal e engraçado o “causo”!
    Fique em paz!

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Julmar

      Pelo que estou vendo, você é um íncubo muito especial, chegado ao mundo das artes.
      Assim, dá até para bater um papo antes da coisa e tal… risos.

      Pelo visto, o meu íncubo pertence também ao mundo das letras, ou seja, é um letrado.
      Mas não me lembro do dito ter proferindo uma palavra.
      Ao menos que faça uso da telepatia.
      Já pedi a ele para enviar um súcubo para você… risos.

      Aguarde mais um capítulo deste causo.

      Abraços,

      Lu

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  9. Cezar

    Posso te dar uma dica? Relembre seus pesadelos no outro dia como se fosse um filme antigo, preto e branco, com aqueles chuviscos na tela e que no final pega fogo… parece ser idiota, mas funciona.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Cezar

      Esta é uma boa ideia.
      Mas, no dia seguinte, tenho muita dificuldade em me lembrar deles.
      Se eu acordar logo após o pesadelo, ele fica bem vívido, mas se voltar a dormir, eles ficam tão confusos, que não consigo descrevê-los.
      Vou fazer isso quando eu me acordar após o “terremoto mental”.

      Abraços,

      Lu

      Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Luiz

      Rir é um santo remédio.
      Fico feliz quando desperto o riso nos meus leitores.
      Outros textos estão a caminho.
      Aguarde!

      Abraços,

      Lu

      Responder

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