BANCÁRIO: SONHO OU PESADELO?

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

BB

Embora me dissessem que não deveria estudar na semana em que antecedem as provas, tempo necessário para descansar a mente, ignorei tal conselho. Eu carecia de passar no concurso do Banco do Brasil, ter um emprego fixo, que me garantisse constituir uma família com segurança. Após três anos de namoro e dois de noivado, estava farto das indiretas do futuro sogro, achando que eu já fizera muito serão em sua varanda. Estudei como louco, se é que loucos perdem noites e noites de sono, debruçados sobre livros e apostilas, tomando café e chá-preto para vencer a letargia, enquanto metade do mundo se entregava prazerosamente aos braços de Morfeu.

Meia-noite de quinta feira. As provas seriam realizadas no sábado e domingo. Poucas horas separavam-me da testilha. Ainda iria revisar toda a matéria de Matemática e Raciocínio Lógico. Precisava varar a noite queimando as pestanas. Tiraria a sexta-feira para um descanso total antes dos exames. Imbuído de tal intento, fui até à cozinha em busca de café. A garrafa estava vazia. O sono dava sinais de que estava à espreita. Era preciso ser bom guerreiro para vencê-lo. Minha arma era café e chá preto. Revezando entre um e outro.

Liguei o gás e pus na cafeteira italiana mais pó do que deveria. O café saiu grosso como petróleo. Poderia ser cortado com um facão. Sonâmbulo, desliguei o gás. Comecei a caminhar em direção á porta da cozinha, com a xícara na mão. Bummm! Fui sacudido por um estrondo que me jogou longe. A chama da trempe havia se apagado, mas o gás ficara ligado. Ao apagar a luz veio a faísca, o estrondo e o fogo com sua língua voraz engolindo tudo. E eu descabeçado no meio!

No chão, tentei abrir os olhos que ardiam desgraçadamente, mas a fumaça dos objetos queimando não me permitia. Às cegas, lutei para me levantar. As pernas não me obedeciam. Talvez, ao cair, tivesse quebrado as duas coitadinhas. Tudo bem, contanto que não fosse a mão direita, pois dela precisaria para fazer as provas para o concurso do Banco do Brasil. Para piorar, eu me encontrava sozinho na casa. Minha família fora para o sítio, alegando não querer me perturbar naquele fatídico final de semana. A casa era só minha. As labaredas também. Assim como a morte que se avizinhava.

Mesmo sem forças, pedi a Deus que me desse só mais três dias para fazer o concurso. Necessitava provar que valeram a pena tantos dias e noites enfadonhos, trancafiado num quarto entre livros, apostilhas e xícaras vazias. Morrer sem fazer as provas do concurso mataria minha autoestima. Precisava chegar à outra vida, confiante, sabedor de que, pelo menos, poderia ter sido um funcionário do glorioso Banco do Brasil.

O calor era cada vez mais forte. O fogo se aproximando. Sede. Sufocamento. Desespero. E ainda a matéria para revisar. Ouvi a porta de entrada sendo arrobada. Não reconheci a pessoa que me tomou nos braços. Talvez um vizinho, um bombeiro ou Santo Expedito, protetor das causas impossíveis. E, não sendo nenhum desses, seria São Pedro levando-me para o céu. Depois de tanto sofrimento para passar no concurso do Banco do Brasil, só me restava o paraíso. Todos os meus pecados já estavam purgados na Terra.

Fui levado ao hospital, apesar de dizer insistentemente que estava bem. Não conseguia abrir os olhos. O corpo todo chamuscado. Talvez estivesse cego. Talvez tivesse queimado a mão direita. E o concurso, meu Deus? O que diria o pai de minha noiva? Aquele mastodonte ficaria possesso. Diria que tudo não passava de um truque meu, para continuar na boa vida. Precisava passar no concurso do Banco do Brasil ou meu futuro sentimental e econômico estaria arruinado ad eternum.

Ainda hospital. Cheiros esquisitos. Passos apressados. Barulho de instrumentos. Vozes estranhas. Olhos ainda fechados. Não enxergava uma réstia de luz. Mão direita imobilizada. Poderia fazer as provas com a esquerda. Qualquer um é capaz de fazer um X com a sinistra. Gravaria a redação num CD com autorização judicial. Passaria naquele concurso, nem que fosse a última coisa a fazer na vida. Seria mais um bancário do glorioso Banco do Brasil. Ainda que totalmente mutilado.

Diagnóstico nu e cru: lesão nas pupilas e pulso direito quebrado. É verdade que a mão esquerda ainda mexia, mas eu não enxergava, logo não adiantava nada. Arrematando: havia queimaduras de terceiro grau nas solas dos pés, estava cego, maneta e paralítico. Como faria as provas? Precisava passar no Concurso do Banco do Brasil. Consternação geral. Perdi a fala. Além de cego, maneta e paralítico, ainda estava mudo.

Visitas. Minha mãe chorando. Meu pai sussurrando com o médico. Minha irmã alisando meus cabelos tiçonados. E eu todo arregaçado, mas pensando no concurso do Banco do Brasil. Iria me recuperar a tempo? As provas poderiam ser feitas ali, com uma ordem judicial. Poderia usar o polegar da mão esquerda, como resposta positiva ou negativa para o aplicador. Pessoas escreveram livros só piscando os olhos. Ainda tinha esperanças de fazer o concurso para o Banco do Brasil.

No vai e vem que se instalou naquele maldito quarto, ouvi a voz de Norma, minha noiva, pranteando-me. Despejava suas lágrimas salgadas sobre meu dorso chamuscado. Ardia! E, como desgraça pouca é bobagem, seu Herodias, meu-ex ou futuro sogro, já nem sabia eu, entrou no quarto com a delicadeza de um rinoceronte e um hipopótamo, juntos. E berrou, isso mesmo, berrou:

– Sem o concurso do Banco do Brasil não há emprego. Sem emprego não há casamento. En-ten-dido?!?!?!

Meu caro leitor, a verdade é que não fui um guerreiro capaz de derrotar o sono, apesar do café cortado a facão. Mal tomei o primeiro gole, tombei desmaiado sobre os livros e apostilas. Fui tomado por esse bizarro pesadelo, que ora acabo de narrar. Acordei ao meio-dia com a minha irmã chamando-me para o almoço. Portanto, foram 12 horas do mais afligente, consumptivo, doloroso, funesto e torturante pavor.

Tenho a certeza de que o meu generoso amigo está curioso, para saber se me tornei funcionário do Banco do Brasil. Sim!!! Fiquei entre os primeiros colocados. Para minha sorte o tema da redação foi Profissão de Bancário: Sonho ou Pesadelo? Tirei de letra, é claro. Casei-me com Norma e tenho dois filhos. Um deles já está se preparando para seguir a profissão do pai. Salve-me a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão! BB, não!

Nota:
Conto dedicado a meu amigo Gleison do BB.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *