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Textos sobre variados tipos de arte

Arnold Böcklin – A ILHA DOS MORTOS

Autoria de LuDiasBH

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Aqui está, como desejaram, um quadro para sonhar. Ele terá de parecer tão silencioso que nos assustamos se alguém bater à porta. (Arnold Böcklin)

O simbolista suíço Arnold Böcklin (1827-1901) começou como pintor de paisagens, mas em contato com a arte renascentista, acabou seduzido pelas figuras mitológicas e alegóricas, introduzindo-as em sua obra. Foi o percursor do surrealismo, tendo exercido influência sobre vários artistas, dentre os quais podemos citar Max Ernst, Salvador Dalí, Giorgio de Chirico, Otto Weisert, Roger Dean, Paul Harvey, Rachmaninov, Heinrich Schülz-Beuthen, Max Reger, etc.

Uma das características mais interessantes do pintor é o fato de que ele não gostava de dar nome às suas obras, achando que o título interferia no espírito do observador. A Ilha dos Mortos, por exemplo, apresentada em cinco versões de um mesmo quadro, e também a sua obra mais famosa, recebeu este título do galerista alemão Fritz Gurlitt, em 1883. Böcklin também não deixou explicações sobre o significado da obra, o que leva a algumas especulações e muitas indagações, embora ele a tenha descrito como uma “pintura de sonhos”.

Alguns críticos de arte interpretam A Ilha dos Mortos como sendo a travessia do rio Stix, da mitologia grega. O barqueiro é Caronte, responsável por atravessar as almas para o outro lado do rio, e a figura de branco seria uma alma recém-chegada, possivelmente. A composição mostra uma ilha lúgubre, dentro de um lago. Inúmeros ciprestes (árvore associada a cemitérios e ao luto) levantam-se ultrapassando os rochedos. Segundo alguns estudiosos, o pintor era impressionado com a morte.

No primeiro plano da composição, um pequeno barco segue em direção à ilha. Dentro dele encontram-se um barqueiro e uma figura humana, toda de branco. No interior do barco está, possivelmente, um sarcófago. A rocha mostra portais de sepulcros e janelas. O mais interessante neste quadro é que se trata de uma obra muito apreciada por pessoas conhecidas:

  • Adolf Hitler, o ditador alemão, comprou a terceira versão e a postou em seu estúdio. Mesmo quando viajava, levava-a consigo. Inclusive o quadro encontrava-se no seu bunker, onde foi encontrado morto.
  • Vladimir Lenin, o revolucionário comunista, trazia uma versão da obra bem acima de sua cama.
  • Sigmund Freud, médico e psicanalista, detinha 22 cópias da obra decorando seu estúdio.
  • Salvador Dalí, pintor surrealista, dizia que era apaixonado pelo quadro.
  • Strindberg, inspirado no quadro, fez a “Sonata dos Espectros”.
  • Rachmaninov compôs o poema sinfônico “A Ilha dos Mortos”, inspirado na obra.

Ficha técnica
Data: 1880

Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 111 x 115 cm
Localização: Kunstmuseum, Basiléia, Suíça

Fonte de pesquisa:
www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis

Tião Paineira: O MUNDO COMEÇOU COM O BARRO

Autoria de Luiz Cruz

Sebastião Augusto de Freitas nasceu em Tiradentes, em 23 de abril de 1928. É homem privilegiado, pois tem dois santos guerreiros como protetores: São Sebastião e São Jorge. É o nosso querido Tião Paineira – Paineira é apelido de família. No quintal de seu bisavô existia uma gigantesca árvore de paina e desde essa época todos se referem aos “Paineira”. Casou-se com Maria José de Freitas, que nascera em Barroso. Ela foi o amor de sua vida e nos conta que a “conheceu quando passeava se agradou do Tião, que era bom das vistas, andava arrumadinho e ela achou graça em mim.”. Tiveram nove filhos e agora têm oito netos.

Desde muito cedo, com mais ou menos 12 anos, aprendeu o ofício da profissão de ceramista com o pai – que havia aprendido com seu avô.  Morou na Várzea de Baixo durante muitos anos e para fazer suas peças, tirava barro do barreiro da Cerâmica Progresso. Suas peças eram queimadas em um formo feito num barranco. Esse tipo de forno é chamado “crivo” e era assim que os indígenas, seus antepassados, queimavam a cerâmica. Quando se mudou para o Cuiabá, passou a buscar o barro na Várzea do Gualter. Um trabalho pesado, mas foi com ele que conseguiu criar a família. Do barro fez milhares de peças: potes, vasos, bias, moringas, panelas, pratos, bules e apitos, além de obras artísticas.

Homem de cultura simples, mas exímio contador de histórias, com amplo vocabulário e muita criatividade. Tião Paineira recebe estudantes e turistas de várias partes do Brasil, não somente pela cerâmica, mas também para ouvir suas histórias fabulosas recriadas, ou mesmo contando como conseguiu criar seus “barrigudinhos”. Conta com imensurável orgulho os casos dos antepassados indígenas, dos quais herdou o ofício de ceramista.

“Caminhão de um olho só!”, assim se autodenomina, em consequência de um acidente, quando perdeu uma vista, devido a exposição à alta temperatura e ao frio: “Estava queimando as cerâmicas e tive que carregar um caminhão com as minhas mercadorias e com isso perdi uma vista.”. Fica muito orgulhoso quando nos conta que seu filho José Vicente de Freitas aprendeu o ofício da cerâmica e vai manter a tradição familiar.

Gostava de passear em companhia de sua dona, a Maria José, a quem tem imenso amor e profunda admiração, e a levava para todos os lados. Tião ainda nos revela que “ela era muito ciumenta – não dava problema – eu gostava muito daquele ciúme. Me fazia bem, me arrumava mais, cuidava mais do cabelo”. Gostava de dançar em casa com a dona, quando fazia festa nos “janeiros” e a casa enchia de alegria. Teve um terreno no Capote, onde lavrou por muitos anos, mas teve que vender, pois os “janeiros” foram pesando.

Perdeu sua dona e ficou viúvo. É com tristeza que fala: “Os bons ternos vão e vai ficando só o paletó rasgado.”. Mas logo recupera a alegria ao retomar a fala sobre o trabalho: “Com a cerâmica não deu para ficar rico, mas deu para ficar nobre.” e arremata dizendo que “Deus começou o mundo com o barro, a minha matéria-prima.”.

A primeira edição do Festival de Artes e Tradições de Tiradentes homenageia Tião Paineira com uma pequena mostra, na Casa de Cultura da UFMG, Rua Padre Toledo, 158, aberta nos dias 7, 8 e 9 de julho.

 

PAISAGENS ESQUILINAS

Autoria de LuDiasBH

              

A Antiguidade foi estipulada como um período de tempo que compreende cerca de quatro milênios antes de Cristo (a.C.) até o século V. Foram poucas as imagens, criadas nesse período, que chegaram até nossos dias. Através de afrescos, encontrados nas cidades italianas de Pompeia, Herculano e em Roma, é possível ter uma noção da arte daquela época. Os afrescos mostram diversos gêneros de pintura.

As Paisagens Esquilinas, formidável conjunto de paisagens da Antiguidade, encontradas em Roma, na Itália, em 1848, são compostas por sete e meia composições que narram as viagens de Ulisses, personagem grego da Odisseia, um dos mais importantes poemas épicos da Grécia Antiga, que foi creditado a Homero. As Paisagens Esquilinas foram encontradas durante uma escavação na velha via Graziosa, em Roma, no monte Esquilino, uma das sete colinas da capital italiana. Estavam em excelente estado de conservação, sendo removidas depois das paredes e “delicadamente” restauradas por um pintor desconhecido. Segundo Marcos Vitrúvio, arquiteto romano, que viveu no século I a.C., o tema dessas paisagens (paisagens com figuras), era um dos preferidos pelas gerações precedentes, sendo muito usado nas decorações domésticas.

Acima são apresentadas duas cenas: Ulisses na Terra dos Mortos e Ulisses na Terra dos Lestrigões, ambas pertencentes à série Paisagens da Odisseia, achadas no monte Esquilino.

 Ficha técnica
Data: c. I a.C.
Altura: 150 cm
Localização: Museus do Vaticano, Roma, Itália

Fontes de pesquisa:
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

O NU FEMININO NA ARTE

Autoria de LuDiasBH

                           

O corpo feminino tem fascinado os artistas de todos os tempos. Tem sido motivo de inspiração em todas as manifestações artísticas, sendo representado das mais diferentes maneiras. Alguns artistas abriram mão das características interiores da modelo nua para centrar em sua feminilidade. Retrataram-na em seu dia a dia, entrando ou saindo do banho, por exemplo, apresentando uma sensualidade natural, dentro de uma situação realista, fazendo com que houvesse uma melhor aceitação em relação ao corpo feminino nu.

 O século XVIII mostrou na arte a imagem natural e erótica da mulher, fruto de uma sociedade em plena decadência. Houve, então, a busca por um novo modelo. O neoclassicismo tentou trazer a imagem de uma mulher privada de qualquer sensualidade, esforço totalmente ilusório, uma vez que tal característica é intrínseca a ela. Nos quadros criados sob a orientação de tal estilo, a sexualidade feminina vem à tona, ainda que enclausurada. Os extremos, portanto, acabaram tirando a naturalidade da arte.

No século XIX, em sua primeira metade, a arte ainda se encontrava amordaçada no que se refere ao nu. Era necessário que o artista justificasse a sua presença na cena, ou seja, que levasse ao observador a compreensão de que se tratava de um nu mitológico. E não poderia ser apresentado em primeiro plano. Caso contrário, teria que ser pintado como uma figura irreal, indefinida, sem nenhum respingo de atrativo sexual. Mas tal proibição só fez com que os trabalhos artísticos, representando o nu feminino, fossem mais desejados e valorizados comercialmente, uma vez que se encontravam proibidos pelos padrões morais da época.

A partir da metade do século XIX, alguns artistas, inconformados com a falta de liberdade na arte, rebelaram-se e passaram a representar o corpo feminino com naturalidade, em atividades corriqueiras, ainda que se mostrassem sensuais. Mandavam a mensagem de que ele era belo por si só, não necessitando de atributos ou significados ao ser representado. E mais, unicamente ao artista cabia o papel da representação, sem, contudo, interferir na sua beleza, ampliando-a ou minimizando-a. No século XX, os artistas não tinham mais que se preocupar com a retratação da modelo, sobrando-lhes tempo para pesquisar sobre as cores e as formas.

Nota: Grande Figura Nua Deitada (Modigliani)/ Sem nome (Di Cavalcanti)

Fontes de pesquisa
Vida a Dois/ Editora Três

O NU MASCULINO NA ARTE

Autoria de LuDiasBH

                                  

Não apenas o nu feminino tem fascinado os artistas, mas também o nu masculino, estando o último presente na arte desde a Grécia Antiga até os dias de hoje. Mesmo em tempos remotos, o nu masculino encontrava-se presente em esculturas, representando, sobretudo, a força. Enquanto a nudez feminina, além da emoção estética também pode fazer aflorar a sensualidade, a nudez masculina chama a atenção por simbolizar a força e as proporções físicas, na maioria das vezes. Raramente o corpo masculino é visto na arte com cunho erótico.

Os artistas greco-romanos tinham por tradição a ideia de que a mulher era inferior ao homem, física e mentalmente, devendo esse, portanto, ser representado com a máxima perfeição possível. Ao retratá-lo, interessavam-se mais por sua anatomia, dando maior ênfase à expressão de seus músculos, veias e ossos, ou seja, à obra como um todo. Na Grécia Antiga, o corpo masculino já era representado em esculturas em pedra, como fruto de um trabalho em cima de cálculos matemáticos, em que se buscava harmonia e perfeição formais. Tais estátuas ficaram conhecidas como “Apolos”. Mas, apesar da perfeição, elas não traziam qualquer naco de sensualidade, pois não eram naturais.

A que se deve a existência dos “Apolos”? Os gregos antigos julgavam que, para que uma obra de arte fosse perfeita bastava trabalhar em cima de cálculos matemáticos, ou seja, o conhecimento intelectual supriria a criatividade.  Para servirem de modelo para os “Apolos”, eram escolhidos os homens mais bem favorecidos anatomicamente, próximos do ideal de beleza da Grécia Antiga.  Essa maneira de ver a arte durou muito tempo, chegando os artistas, para traçar o desenho do corpo humano, a fazer uso de formas geométricas. O estudo de anatomia, por parte dos grandes artistas do Classicismo, tinha por finalidade levá-los à perfeição na composição de suas obras, embora a obra parecesse artificial, tamanha era a precisão dos traços.

É possível que Davi, obra do escultor italiano Donatello, seja a primeira representação de um nu masculino. E ainda assim servia a um propósito religioso. Além de ser uma obra pioneira para a sua época, tratava-se também de um trabalho maravilhoso. O artista esculpiu o jovem Davi, como se ele fosse um adolescente frágil, com traços delicados e belos. Não aparentava a força masculina, tão comum às figuras bíblicas, mas parecia estar ciente de sua própria beleza física. Muitos historiadores de arte atribuem à opção de Donatello, o fato de ele ter sido homossexual, estando, portanto, mais propício a ver a formosura do corpo púbere de Davi, ao invés de repassar sua força e coragem. Contudo, Michelangelo, um dos grandes nomes do Renascimento, também era homossexual, e seus desenhos, estátuas e pinturas de nus masculinos são verdadeiras obras-primas, em que chamam a atenção a constituição física do modelo. Foi responsável por outro Davi, que se mostra bem diferente do de Donatello.  Seus músculos retesados parecem aguardar a luta com o gigante Golias.

Nota: pintura de Jean-Louis André Théodore Géricault (à esquerda)/ Davi, escultura de Donatello (à direita).

Fonte de pesquisa
Vida a Dois/ Editora Três

O NU FEMININO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de LuDiasBH

            

Diz uma lenda que, para criar a mulher, Deus fez primeiro um esboço (o homem), observou seus defeitos, e eliminou-os ao dar vida à rainha da criação. Talvez seja por isso que, em todas as épocas da história da humanidade, os artistas tenham estado sempre fascinados pelo corpo da mulher, inspiração presente em todas as manifestações artísticas, e isso até mesmo nas primevas culturas, quando o corpo feminino representava apenas a fertilidade.

O psicólogo suíço Carl Gustav Jung, ao tentar explicar o motivo de tamanha atração pelo corpo feminino, concluiu que todo homem traz consigo a imagem de uma mulher perfeita, à sua maneira, é claro, que ele idealiza para completá-lo. Em assim sendo, cada varão tem uma idealização diferente do outro, pois as qualidades que para uns se mostram insignificantes, para outros podem ser preponderantes. Os artistas em suas obras deixam patente essa busca, criando tipos diferentes de mulher, levando em conta, sobretudo, a época em que vivem. Essa imagem feminina idealizada pode apresentar inúmeras facetas: ingênua ou maliciosa, bondosa ou má, poderosa ou submissa, etc. E assim também é representada na arte.

Olhando as manifestações artísticas sob o ângulo da escultura, ao longo dos tempos, o corpo feminino nu serviu de modelo para representar inúmeras deusas mitológicas, algumas vistas como protetoras da sociedade e outras como portadoras de influências negativas para ela. Foi por isso que, nos períodos puritanos da história da humanidade, a maioria das obras de arte, destruídas em nome da moralidade, retratavam corpos nus de mulheres. Até mesmo a Grécia Antiga, responsável por apresentar as primeiras esculturas mostrando o corpo feminino nu, ao representar seu panteão de divindades, em algum tempo de sua história caiu sob a estupidez dos moralistas, que viam o obsceno e a imoralidade no nu feminino. A nudez só era bem vista quando representava uma figura mitológica, que ainda assim não apresentasse qualquer semelhança com uma pessoa real, ou seja, que fosse um monstrengo.

Os gregos antigos eram por demais perfeccionistas e harmônicos em sua arte escultórica. Eles buscavam uma simetria tamanha em suas esculturas, que destituíam os corpos nus, feitos de mármore, de qualquer erotismo. Essa perfeição inimaginável de ser encontrada num ser humano acabava deixando as obras artificiais e impessoais, apesar da extrema beleza que elas emanavam. Muito tempo depois, tal perfeição na arte foi sendo substituída pelo naturalismo, passando a mulher a ser retratada em sua feminilidade e naquilo que possuía de humano.

Nota: Betsabá com a Carta de Davi (Rembrandt)/ Madame O’Murphy (François Boucher)/

Fontes de pesquisa
Vida a Dois/ Editora Três