Arquivos da categoria: Arte Cristã

Pinturas relativas ao cristianismo, abrangendo os mais diferentes pintores, estilos e épocas.

William Blake – A NATIVIDADE

Autoria de LuDiasBH

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A Natividade, obra do pintor William Blake, é sem dúvida uma das pinturas mais diferentes dentre as conhecidas com a mesma temática. A cena do nascimento de Jesus acontece num estábulo, com a presença de Maria, José, Isabel, João Batista e de dois bois.

A Virgem encontra-se sentada, aparentemente desfalecida, tendo o corpo seguro pelos braços de seu esposo José que a ampara com cuidado, para que possa parir o fruto de seu ventre. Ao fundo, uma pequena janela deixa entrar uma luz dourada, iluminando a cena. À direita, atrás das costas de Isabel, vê-se – ainda que estilizada – a estrebaria com seus animais. Os chifres mostram-se bem delineados.

À frente de Maria está a sua prima Isabel, esposa de Zacarias, com seu filho João Batista no colo.  Isabel abre os braços para receber o Salvador que parece voar em sua direção. Jesus não parece nascer do ventre de Maria, mas descer de uma outra dimensão, atraído pelos braços de Isabel. A sua divindade é assim apresentada pelo artista.

Ao pintar sua natividade, o pintor não quis mostrar uma visão naturalista, mas simplesmente trazer uma concepção simbólica do nascimento de Jesus. William Blake foi um poeta e pintor. Era seguidor de doutrinas esotéricas, onde se misturavam as tradições judaicas, gregas e cristãs.

Ficha técnica:
Ano: c. 1799
Técnica: têmpera sobre cobre
Dimensões: 27 x 38,2 cm
Localização: Philadelfia Museum of Art, Filadélfia, EUA.

Fonte de pesquisa:
Cristo na arte/ Manuel Jover

OS PRESÉPIOS E O NATAL DE OUTRORA

Autoria de LuDiasBH

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Nada me encantava mais do que passar o Natal na cidadezinha onde viviam meus avós. Mal entrava dezembro já começava a azucrinar meus pais para que me dessem a data exata de nossa viagem. Se a demora era muita, implorava para que me deixassem ir à frente, coisa que nunca acontecia, mas que não me custava tentar. Não pensem os leitores que o meu desassossego devia-se à comilança que se instalava naquele mês, ou por ficar encarapitada com os primos nas árvores frutíferas do pomar ou à beira do forno de biscoitos, provando cada leva que saía fumegando, ou ainda em volta dos tachos de cobre, borbulhantes de doces  das mais diferentes qualidades. O meu encantamento estava bem além do paladar.

A minha fascinação desmedida era pelos presépios. Começava desde a hora em que se preparava o material até o momento em que eram armados. Havia um ritual próprio:

  • Primeiro, preparavam-se as rochas: folhas de jornal eram dispersas pelo chão e sobre elas era passado um grude feito de farinha de mandioca..
  • Imediatamente vinham com o carvão e a malacacheta (mica) moídos e espalhados sobre as folhas. Algumas pessoas, em vez de carvão, costumavam usar borra de café. A diferença ficava apenas na cor das rochas: com carvão ficavam bem pretinhas, com borra de café ficavam ocras. O mais importante era a malacacheta que dava o toque final às supostas pedras que faiscavam como se verdadeiras fossem.
  • As folhas eram colocadas ao sol. Devia-se ter o cuidado de revirá-las de um lado para o outro, para que ficassem bem secas e resistentes.
  • Tendo tudo preparado, vinha a armação do presépio propriamente dita. A sustentação era feita com caixotes ou caixas de papelão.
  • Em volta e subindo pelas paredes (normalmente o presépio era feito tomando-se o ângulo entre duas paredes) vinham as rochas que eram feitas afofando – com a mão fechada por dentro – as folhas de jornal pintadas de modo a tomar o formato de pedras.
  • As pedras simuladas eram colocadas – uma a uma – bem juntinhas, com pregos ocultos, de modo que se tinha a impressão de estar diante de um rochedo.
  • No ponto mais alto era instalada a estrela Dalva que tinha por finalidade guiar os três reis magos: Belchior, Baltazar e Gaspar.

A segunda parte do presépio era a mais primorosa: arrumar o local da gruta onde nasceria o Menino Jesus.

  • Cerca de 10 dias antes o arroz já tinha sido plantado em pequenas vasilhas de jeito que, ao armar o presépio, ele já se encontrava grandinho e verdejante. Os pequeninos vasos eram belamente organizados entre as rochas, como se o arroz ali tivesse nascido.
  • Bacias de musgo também enfeitavam a gruta.
  • Areia fininha e branca era colocada em toda a entrada.
  • No meio da gruta, punha-se uma vasilha com água e, dentro dela, um espelho dando a impressão de um lago.
  • Dentro do lago eram colocados sapos, peixes, cisnes, patos e outros bichinhos aquáticos.
  • Fora, na areia, espalhavam-se bois, vacas, carneiros, pombinhos e tudo o mais que fosse bicho. Alguns presépios tinham até dinossauros.

A manjedoura não podia faltar no presépio, sendo uma peça de fundamental importância. Em volta dela – além dos animaizinhos – havia imagens de Maria, José, os Reis Magos e todos os santos que tivessem na casa. Alguns presépios eram bem ecumênicos, pois traziam Iemanjá, Buda, Shiva, Super-Homem e outros mais. O Menino Jesus só era colocado depois da Missa do Galo, ou seja, depois da meia-noite, quando a família reunida rezava o terço e fechava a cerimônia cantando Noite Feliz.

Durante o período em que os presépios ficavam montados, grupos da comunidade saíam tocando e cantando de casa em casa, visitando o Menino Jesus. Após a cantoria, saudando o real dono da festa, havia um gostoso café, acompanhado de queijo, requeijão, biscoitos variados, bolos, broas, queijadinhas, beijus e pão de queijo. Para os chegados aos aperitivos, não faltava uma branquinha, assim como quinados e licores. Da casa mais modesta à mais rica, todos eram recebidos com imensa alegria, como se formassem uma só família. Também é impossível esquecer-me das pastorinhas que animavam as noites de dezembro e início de janeiro, não apenas na cidade, mas nas roças e sítios.

Quando o desmanche do presépio aproximava-se, os reis magos eram colocados de frente para a saída da gruta, ou seja, de costas para a manjedoura. Para minha tristeza, dia 6 de janeiro era o prazo para que todo aquele encantamento se evaporasse e a vida voltasse ao normal. Restava-me o consolo de que outros natais viriam pela frente. Mas era preciso esperar muito tempo. A tristeza só não era maior, porque começavam os preparativos para o Ano Novo, embora eu me revoltasse com a morte de alguns dos animaizinhos representados nos presépios. Minha cabeça de criança não conseguia entender, como podiam matar os bichinhos do Menino Jesus. Achava que Ele ficava muito triste com as pessoas. E ainda acho! Em protesto, passei a não comer carne.

Nota:
Agradeço a participação do meu tio Antônio Avelino e da minha tia Davina que me ajudaram a reviver estas lembranças, ao detalharem todo o processo do Natal de tempos idos.

Nota: Cerâmica do Vale do Jequitinhonha

DOCE DE FIGO NO NATAL

Autoria de Luiz Cruz

 

Os preparativos para o Natal são muitos e um deles é fazer o famoso doce de figo, que não pode faltar na mesa das fartas ceias natalinas mineiras. É muito saboroso, mas também trabalhoso para se fazer. Trata-se de uma verdadeira obra de arte. Vale a pena todo o trabalho que se tem para fazê-lo.

Vamos à receita da tiradentina Dona Nica, moradora da Rua Direita, que acabou de completar os seus 90 anos, e ao longo de sua vida fez inúmeros tachos de doce de figo para a família numerosa se deliciar:

– vestir luvas para colher os figos (deve ter cuidado, pois o leite do figo pode causar queimadura);
– fazer um corte no figo;
– limpar o seu talo ajuda a tirar o leite;
– preparar o tacho de cobre, que deve ser lavado com sal e limão capeta;
– colocar os figos em um saco plástico grosso e esfregar com sal, para tirar os pelos, e em seguida lavar bem;
– colocar uma trouxinha de cinzas no fundo do tacho, para ajudar a tirar os pelos do figo;
– colocar para cozinhar, coberto com pano branco, deixar de um dia para o outro e trocar a água, pelo menos, três vezes ao dia, durante três dias;
– cobrir com folhas da figueira para não encroar e realçar o sabor;
– experimentar com um garfo o cozimento, se estiver macio escorrer a água toda;
– fazer uma calda fria de açúcar e adicionar;
– levar ao fogo novamente, adicionar cravo e canela a gosto;
– deixar ferver até chegar o ponto ideal de cozimento.

Servir gelado, acompanhado com o saboroso queijo mineiro.

  • Chico Doceiro, um dos mais tradicionais doceiros de Tiradentes, prepara também o figo cristalizado e o figo recheado com doce de leite cremoso. Sua loja “Chico Doceiro” localiza-se na Rua Francisco Pereira de Morais, nº 74.
  • Rute Ramalho é doceira e em sua loja “Doces Caseiros e Artesanatos”, na Rua do Chafariz, 26, no Centro Histórico, oferece o delicioso doce de figo em calda e cristalizado.
  • Vicente Muniz, filho da antiga doceira Florinda Muniz, aposentou-se e atualmente dedica-se a fazer doces e um deles é o de figo. Vicente montou um carrinho de doces e circula pela cidade vendendo seus deliciosos doces.

Nota: Fotografias do autor.

PRESÉPIOS – 300 ANOS DA CIDADE DE TIRADENTES

Autoria de Luiz Cruz

                   

 Por volta de 1702, a primeira ocupação da região do Rio das Mortes foi o Arraial de Santo Antônio, logo fortalecido pelos recursos advindos das atividades auríferas.  Após a instalação do Arraial de Nossa Senhora do Pilar – o Arraial Novo, Santo Antônio passou a ser chamado de Arraial Velho.  Em 19 de janeiro de 1718, o local foi promovido à categoria de vila com o topônimo São José, vindo a ser mais conhecida como São José do Rio das Mortes e em seguida São José del-Rei.  Em 07 de outubro de 1860, obteve nova promoção, com o nome de “cidade e município de São José del-Rei”. Após a proclamação da República, através do Decreto Nº 3, de 6 de dezembro de 1889, passou a ser chamada de “município e cidade de Tiradentes”. Ao longo do século XVIII, a categoria “vila” equivalia ao título de cidade, portanto, em 2018, a localidade completa 300 anos de emancipação política e administrativa.

Para celebrar a efeméride, o Centro Cultural Yves Alves-CCYA realiza a exposição Presépios – 300 Anos da Cidade de Tiradentes. O CCYA recebeu como doação o presépio do artista Antônio Ferreira Gomes (1895-1978). Esse era um dos presépios mais emblemáticos da cidade. O artista e sua esposa, Dona Anésia, sempre o montavam na sala de visitas da casa, na Rua Direita, 111. Esse ritual se iniciava em novembro, com a plantação de arroz e alpiste em latinhas de goiabada, sardinha e outras. Nos primeiros dias de dezembro, após as primeiras chuvas, o casal e a meninada subiam a Serra de São José, com os balaios, para buscar enfeites: musgos, bromélias, líquens, murta e areia branca. A armação do presépio atraia a atenção de muitos e ao ficar pronto causava deslumbramento a todos. À noite recebia visitas de grupos de Folias de Reis. Era uma grande mobilização e um encantamento!

O Presépio de Antônio Gomes é de cerâmica, algumas peças cozidas e outras em barro cru. Ele copiou as principais do antigo presépio de Antônio Veloso (do século XVIII) e acrescentou outras de sua criação, como o flautista, a paralítica, a camponesa, o pedidor de esmolas e o pescador, colocadas junto às peças tradicionais, no cenário emoldurado por uma serra feita com pó de minério e ao fundo uma paisagem com edificações antigas, pintada sobre tecido.

Antônio Gomes foi um artista de muitas habilidades: santeiro, restaurador, pintor, fogueteiro, pedreiro, sapateiro, agricultor – aquela pessoa que se interessava por tudo e por todos. Como fogueteiro coloria os céus com fogos de artifícios em todas festas e fazia o “Judas” que era arrebentado no Domingo de Aleluia, após a leitura do “Testamento”, que deixava  coisas inusitadas para o povo. Sofrera um acidente em sua foguetaria que teve consequência para o resto da vida, mas mesmo com problemas na coluna vertebral, sempre enfrentou longas jornadas de trabalho e procurava atender a todos que o procuravam por suas habilidades peculiares. Após sua morte e a de Dona Anésia, o Presépio foi vendido para o casal Dalma e Yves, que o emprestou para ser armado em diversos locais. Depois, a família o doou para o CCYA, onde tem sido montado todos os anos. Como se trata do presépio mais tradicional da cidade, por iniciativa do Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio foi restaurado pela Anima Conservação e Restauro e será tombado pela municipalidade como patrimônio cultural.

Outros presépios curiosos existiram em Tiradentes e chamavam a atenção pela singularidade. Um deles era o de Antônio Veloso, na Rua Padre Toledo, 13. Com as peças em terracota, ficava o ano todo montado na sala. O da família Lopes da Cruz, na Rua Padre Toledo, 106, passava o ano inteiro armado na alcova e destacava-se pela quantidade de peças, inclusive de casinhas, sobrados e capelas. Muitas delas eram de papelão e havia peças em  celuloide, bem leves e fininhas. Até o presente diversas famílias tiradentinas mantém a tradição de montar os presépios, inaugurá-los no dia 8 de dezembro e desmontá-los somente depois do dia 20 de janeiro, após as visitas das Folias de São Sebastião.

A exposição Presépios – 300 Anos da Cidade de Tiradentes tem curadoria de Luiz Cruz e Pepe de Córdoba e apresenta o Presépio de Antônio Gomes restaurado e outras obras do século XVIII ao XXI referentes ao tema. Será inaugurada no dia 8 de dezembro e ficará até o dia 22 de dezembro, quando o CCYA terá recesso. Depois retornará de 6 a 14 de janeiro. A exposição celebra os 300 anos da cidade e comemora, também, os 20 anos de atividades do Centro Cultural Yves Alves. Além da exposição, outros presépios são montados na cidade, na Matriz de Santo Antônio, no Santuário da Santíssima Trindade e nas capelas de Nossa Senhora do Rosário, de São João Evangelista, de Nossa Senhora das Mercês e no Museu da Liturgia.

*Professor, sócio-fundador e presidente do Conselho Deliberativo do CCYA

Créditos:
Realização: Centro Cultural Yves Alves

Luiz Cruz e  Pepe de Córdoba
Pesquisa, texto, e fotografia: Luiz Cruz
Fotografias dos pastores do Presépio de Aleijadinho, acervo Museu da Inconfidência: Eugênio Sávio
Montagem: Luiz Cruz, Pepe de Córdoba e Alberto Lopes
Equipe do CCYA: Gláucia Vitor, Regina Carvalho, Eliseu Cruz, Alberto Lopes, Ricardo Ribeiro, Gina Valéria, Haydee Trindade, Nathália V. Souza

Apoio: Centro Cultural SESIMINAS Yves Alves, Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio, Paróquia de Santo Antônio, Arquiconfraria da Santíssima Trindade, Anima Conservação e Restauro, IPHAN, UFMG, ICBO, Renato Diniz, Alexandre Mascarenha, Família Costa, Antiquário Nobre Decadência, Solar da Ponte, Nícia Braga, Luciana Braga Giovannini, Dorothé Lenner, Bolão Divino, Ulisses Passarelli, Sérgio Carvalho, Jango Silva, Lucas Silva, Rita Gomes,  Brasileirinho, João Elias, Felipe Callipo

Robert Campin – TRÍPTICO DA ANUNCIAÇÃO

Autoria de LuDiasBH

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O Tríptico da Anunciação, também denominado Retábulo de Mérode, obra do pintor flamengo Robert Campin, apresenta três ambientes: um jardim murado, uma sala  e uma oficina. Esta peça não foi projetada para ser exposta numa igreja, mas num lar, em razão de suas pequenas dimensões. As cenas deste tríptico (obra constituída de um painel central e de duas meias-portas laterais capazes de fecharem-se sobre ele, recobrindo-o completamente) acontecem em um ambiente relativamente rico.

O painel central apresenta Maria e o anjo no interior de uma sala, onde se destacam uma mesa, um banco com almofadas azuis, duas pequenas janelas redondas e uma janela de madeira, semiaberta, através da qual se vê o céu com nuvens brancas. As duas figuras estão ricamente vestidas, sendo as dobras de suas vestes um espetáculo à parte. A presença de uma cena da Anunciação em um ambiente burguês foge à tradição da época, assim como a ausência de auréola nas duas figuras divinas. Mas a presença das asas no anjo e a de uma pequenina figura nua, acima da cabeça desse, demonstram a divindade das personagens.

A pequenina figura, entrando por uma das janelas circulares, carregando uma minúscula cruz, e deslizando-se sobre sete raios que incidem sobre Maria, é Jesus Cristo, em miniatura. Sua presença significa que salvará todos os homens através do sofrimento pelo qual passará. Ao contrário de outras pinturas da Anunciação, esta não apresenta o Espírito Santo em forma de pomba.

O artista reproduz os objetos com tamanha precisão que é possível notar os mínimos detalhes, com destaque para o banco, o telhado e as dobras das vestes, na parte central do tríptico. Há também muitos detalhes que aludem à pureza de Maria e sua vida de orações: os lírios brancos dentro de um vaso de cerâmica sobre a mesa, a toalha branca e a bacia; o ambiente sem portas e a janela aberta aludem à vida caseira que a Virgem levava; o fato de ela se sentar no chão diz respeito à sua humildade; ao segurar a Sagrada Escritura com um pano, ao invés de tocá-la com as mãos, a Virgem demonstra seu respeito pelo livro; os quatro pequenos leões nas extremidades do banco, sendo dois de cada lado, aludem ao trono de Salomão e, portanto, à sabedoria; a vela sobre a mesa acaba de ser apagada, como mostra a fumaça, provavelmente por um lampejo de vento, como uma alusão ao sopro divino.

A meia-porta da direita do tríptico apresenta a figura de São José, o artesão, pai putativo de Jesus, trabalhando na sua oficina de madeira. Próximas a ele estão inúmeras ferramentas e cravos, feitas com muita precisão. Ele está concentrado, usando a broca num pedaço de madeira. Do interior da oficina, através da janela entreaberta, é possível enxergar uma vista da cidade com praça e ruas, e com as mulheres vestindo casacos pretos com capuz e saias vermelhas, e os homens usando chapéus altos à moda da época. É inverno.

A meia-porta da esquerda mostra três figuras: um homem e uma mulher em primeiro plano, e um homem barbudo com um chapéu de palha na mão e uma carta na outra, em segundo. A mulher, possivelmente, é a esposa do cliente do tríptico. Ela traz o cabelo e o pescoço cobertos, como convinha às mulheres casadas, à época. Encontra-se ajoelhada atrás do marido e traz nas mãos um rosário feito de contas de coral vermelho. O casal está ajoelhado diante de uma porta entreaberta, como se observassem o encontro entre Maria e o anjo Gabriel.

Ficha técnica
Ano: entre 1422 e1430
Técnica: óleo sobre carvalho
Dimensões: trípitico com 120 x 64 cm
Localização: Coleção Os Claustros

Fonte de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Editora Taschen

PLANTAS DA SEMANA SANTA

Autoria de Luiz Cruz

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O roxo invadiu a Serra de São José. Os cristãos encontram-se na Quaresma e as quaresmeiras explodem em flores. São diversos tons de roxo, tamanhos e formas curiosas. Partindo do roxo purpurado escuro, há uma variedade de cores para encher os olhos e a alma. Tons rosa, vermelho, branco, amarelo e até o laranja forte da Cambessedesia tiradentensis, planta endêmica criticamente ameaçada de extinção. A combinação é perfeita, enquanto os altares das igrejas setecentistas são encobertos por tecidos roxos do tempo quaresmal, a serra também se colore com o roxo dessas flores.

Na Quarta-feira de Cinzas é realizada a Missa de Cinzas e os fiéis cristãos vão à igreja para receber a benção e a cruz de cinzas da queima das folhas do coqueirinho, conhecido também como aricanga – Geonoma schottiana. Essa planta ocorria por toda serra e ficou bastante comprometida pelo uso indiscriminado ao longo dos anos. Atualmente são encontrados exemplares em alguns de seus pontos estratégicos e de difícil acesso. O coqueirinho é utilizado na Procissão de Domingo de Ramos. A igreja de onde sai a procissão é toda enfeitada com suas folhas e troncos e a igreja que a recebe também. Cada participante da procissão leva uma folha da planta. Após a cerimônia de saudação a Cristo entrando em Jerusalém, as folhas de aricanga são levadas para casa, onde ficam atrás de quadros de imagens sacras para proteger os lares e são também utilizadas para abrandar tempestades, trovoadas, raios e ventanias fortes. Elas são queimadas e Santa Bárbara é invocada para acalmar o tempo ruim. Uma parte delas fica guardada em um dos cômodos da Matriz de Santo Antônio até o ano seguinte, quando são queimadas e suas cinzas utilizadas na missa de Quarta-feira de Cinzas. Os fiéis são abençoados e recebem a cruz de cinzas na testa. Nos últimos anos houve exagero no uso do coqueirinho, além das folhas, sendo que muitos pés foram cortados. Recentemente, a aricanga, utilizada nas cerimônias de Tiradentes, é colhida na região de Emboabas, distrito de São João del-Rei.

Há pouco tempo, buscar rosmaninho (Hyptis carpinofolia) para as Festas de Passos e para a Semana Santa era um programa imperdível para a meninada de Tiradentes. Fazíamos isso todos os anos, e ainda fazemos este programa com nossos filhos, para manter a tradição. O rosmaninho, que se alastra também em solos pobres e áreas de pastagens, dá um toque mágico no período quaresmal. Suas folhas são colocadas no piso das igrejas, dentro das Capelas de Passos e são atiradas ao chão por onde as procissões passam. Seu perfume deixa-nos mais leves e remete-nos ao tempo da paixão de Cristo. A arnica da serra (Lychnophora passerina) também é uma planta essencial nas cerimônias sacras. Suas flores têm tons roxos e são colocadas nos altares e andores. Os fiéis levam para casa seus galhos e fazem garrafadas com álcool, utilizadas para limpeza de ferimentos, picadas de insetos e contusões – trata-se de um antiinflamatório.

A orquídea Cattleya loddigesii é uma planta que, à primeira vista, faz-nos lembrar a Quaresma. Sua bela e delicada flor em roxo claro é utilizada para enfeitar o andor de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, que percorre as tricentenárias ruas de Tiradentes, perfumadas pelo rosmaninho e ao som fúnebre da Orquestra e Banda Ramalho. A imagem de roca que fica em seu altar lateral da Matriz de Santo Antônio é montada para as procissões do Depósito de Passos e a do Encontro. Após todos os preparos, a imagem recebe em sua mão uma palma feita com a Cattleya loddigesii. Essa é uma planta praticamente extinta na área. As flores, utilizadas para a palma do Senhor dos Passos, são doadas por pessoas que as cultivam especialmente com este objetivo. O pesquisador Ruy José Volka Alves realizou ampla pesquisa sobre essas espécies e publicou o Guia de Campo das Orquídeas da Serra de São José, obra fundamental para se entender a importância das orquidáceas.

O manjericão e o alecrim, cultivados nos quintais, também enfeitam e perfumam os andores de Nossa Senhora das Dores, do Senhor dos Passos e o esquife com a imagem do Senhor Morto, que percorre as ruas em procissão, na Sexta-feira da Paixão, após a cerimônia do Descendimento da Cruz. Essas plantas são amplamente utilizadas em Portugal. Herdamos dos portugueses o uso de tais plantas aromáticas nas cerimônias religiosas.

As plantas da serra contribuem muito para que as cerimônias sacras da Semana Santa de Tiradentes tenham um caráter especial, que envolve nossos sentidos, especialmente o olfato e a visão. Não podemos nos esquecer dos repiques e dobrados fúnebres dos sinos que ecoam pela serra afora. Mas, para que possamos manter este uso tradicional tão antigo e arraigado em nossas memórias, precisamos preservar a Serra de São José, que é um monumento natural e histórico. Além do comércio ilegal, os incêndios florestais e o amplo uso da área como pastagem de gado contribuem para o comprometimento de sua flora e, consequentemente, de sua fauna. Destaque-se que a Serra de São José figura no mapa de “Áreas Prioritárias para Conservação da Flora de Minas Gerais”, da Fundação Biodiversitas, como área de “Importância Biológica Extrema”.

Fotos: detalhes do andor da Procissão de Depósito de Passos e da Procissão do Encontro.

Referência: CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memórias. Tiradentes: IHGT, 2015.