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Causos abrangendo diversos aspectos da cultura brasileira.

O HOMEM, O CÃO E A NOITE DE NATAL

Autoria de LuDias BH

Este texto é uma homenagem aos leitores do blog Vírus da Arte & Cia. Desejo-lhes um Feliz Natal com muita saúde, paz e prosperidade, ao lado de seus entes queridos.          

O homem chegou, ninguém sabe de onde, com sua visível pobreza. Trazia nas costas apenas um saco de estopa, com um pedaço de uma manta velha, um saquinho para depositar as esmolas e jornais velhos. Um velho cão manco seguia-o por toda parte. Num monturo encontrou um ursinho velho e um pedaço de uma corneta infantil e guardou-os para seu acompanhante. Pegou numa lixeira, próxima a uma lanchonete, um pratinho e um copo de plástico . Depois vagaram, o homem e o cão, por algumas horas, em meio à turbulência das ruas apinhadas de pessoas que se preparavam para o Natal. Todos pareciam apressados. Ele e sua miséria tornaram-se ainda mais invisíveis em meio ao corre-corre reinante.

 Cansados, homem e cão sentaram-se próximos à porta de uma loja. Imediatamente o dono do estabelecimento pediu-lhe que se retirasse, enxotando o cão, para que não incomodassem seus clientes. O homem humildemente obedeceu  e dirigiu-se com o animal para o Parque Municipal da cidade, onde permaneceu até o seu fechamento. Procurou um lugar mais oculto, perto de um edifício, mas o porteiro advertiu-o de que deveria sair dali, para não atrapalhar as visitas que chegariam para a ceia de Natal. Assentou-se no banco de uma igreja católica e pediram-lhe para sair com o cão, pois estava amedrontando as pessoas. Dirigiu-se a uma igreja evangélica, assentou-se no último banco, deixando o cão a seus pés, e também lá lhe pediram para deixar o recinto, pois ele e o cão fediam muito, e aquela era uma noite de festas, com as pessoas bem vestidas para aclamar o nascimento do Salvador.

O homem dirigiu-se com o cão manco a uma casa térrea, tocou a campainha e pediu água e um pedaço de pão velho para seu cachorro faminto. Alguém gritou de dentro que ele fosse trabalhar. Fez o mesmo pedido num bar e lhe disseram que não eram do Serviço Social, que quando tivesse dinheiro voltasse. Esbarrou-se com uma mulher e uma criança. Ela puxou a filha para perto de si, de modo a não se encostar nele e no cão. Um sujeito bem apessoado empurrou-o de seu caminho e chutou as pernas traseiras do animal, que emitiu gemidos pungentes.

Cansado, homem e cão assentaram-se em frente a uma casa abandonada, onde se encontravam outros mendigos, que os receberam com alegria. Ali poderiam descansar, pois não incomodariam ninguém. Mesmo assim, ao passar pelo local, a polícia revistou-o, dizendo que estava de olho nele e nos marginais do local. Uma senhora idosa passou por ali, deu-lhes alguns salgadinhos, umas roupas usadas, alguns trocados, e desejou-lhes um feliz Natal, pegando na mão de cada um deles. Ela até fez um afago na cabeça do cãozinho. Aquele fora o único gesto de carinho que  recebera na noite de Natal. Com o dinheiro comprou uma garrafa de água mineral e pão para o cachorro que não saía de seu lado.

A noite natalina estava muito fria. Seus companheiros de miséria dormiam, fatigados pelo cansaço e pelo menosprezo de não se sentirem ninguém. Sentindo que o amigo tremia, o cão subiu até seu colo e deitou-se em seus braços para aquecê-lo. Homem e cão passaram a noite unidos num belo gesto de amor, enquanto no mundo que não lhes pertencia e ao qual não tinham acesso, as pessoas comiam e bebiam festejando o nascimento do Salvador do mundo, que tanto pregara o amor aos humildes e esquecidos.

Antes que o dia raiasse, o homem com seu cão nos braços transformou-se num facho de luz resplandecente e, lentamente, começou a flutuar em direção ao céu, iluminando grande parte da cidade. Todos os que se encontravam acordados, ainda em seus festejos, acorreram às portas, janelas, sacadas e terraços, pensando se tratar de um cometa. Outros se aproximaram do casarão abandonado, onde a luz era ainda mais brilhante. Os mendigos lhes contaram o acontecido. Da calçada, onde ficaram o homem e o cão, subiam raios fulgurantes. E todos compreenderam que ali estivera Jesus Cristo.

A senhora, que alimentara os mendigos e tocara-lhe as mãos, acordou com sua casa banhada por uma intensa luminosidade e por um cheiro doce de rosas. Em frente à sua cama estava a Virgem Mãe que lhe disse:

– Mulher, obrigada por teres alimentado e matado a sede de meu Filho, do animalzinho e de seus companheiros na Terra. Embora todos festejassem em seu nome, somente tu o recebeste. Não me esquecerei de ti, mulher!

Nota: imagem copiada de sociedadedospensadores.blogspot.com

O MENININHO URINOU NA MANJEDOURA

Autoria de LuDiasBH

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Nos meus mais tenros anos, considerava a casa de minha avó paterna como o lugar mais santificado do mundo por agregar, em um dos seus quartos, um pedaço do Paraíso. Todos ali entravam na mais profunda reverência e postavam-se diante do altar por horas a fio. Naquele local, ninguém nos chamava a atenção e tampouco puxava as nossas orelhas. Todos os olhares ficavam voltados apenas para as divindades ali presentes.

Minha avó era extremamente devotada a Deus e a seus mensageiros. O quarto era um lugar especial para toda a esfera celestial, que ali se fazia representar nos mais diferentes tipos de material: cerâmica, louça, resina, vidro, papelão, cera, etc. Cada um era mais bonito do que o outro. Eu me sentia fascinada por aqueles que tinham luz própria, ou seja, uma lâmpada embutida por dentro. Passava horas e horas perdida na minha contemplação, pensando que o paraíso ficasse ali, com aquelas belezuras.

Dentre as muitas divindades existentes no quarto paradisíaco, estavam os soberanos, os senhores supremos do mundo: dois quadros separados, sendo um do Sagrado Coração de Jesus e o outro do Sagrado Coração de Maria. A eles eram feitas todas as nossas reverências infantis. Mas o chefão de todos era o quadro da Sagrada Família que, segundo a minha avó, era o responsável por olhar toda a sua família e tudo que tinha vida no mundo. A ele prestávamos a maior veneração. Nunca saímos daquele quarto, sem encher os nossos protetores de beijos e pedidos. Nenhuma das nossas diabruras era realizada naquele lugar. Tínhamos receio de ser observados por tantos olhares.

Havia um quadro naquele quarto, no entanto, que era objeto de nossa curiosidade e admiração constante. Ele ficava na parede, acima do portal da porta de entrada que nos levava ao paraíso. Se a gente ficasse de um lado, via a figura de Jesus; se ficasse do outro, via a de Maria. Aquilo era para nós a quinta essência da beleza. Saíamos de lá com o pescoço doendo de tanto virar de um lado para outro, sem que ninguém nos explicasse como tal milagre acontecia. Contudo, o mais encantador era o quadro do “Cristo que tudo vê”. Seja lá qual fosse a nossa posição no ambiente, ele estava sempre de olhos em cada um de nós. E, como sempre, ninguém sabia nos explicar o porquê. No muito diziam:

– É para ficar de olho em todos aqueles que não obedecem os Mandamentos do Senhor.

E cá para nós, a gente nem sabia quais eram os tais Mandamentos e nem se preocupava em sabê-los. Ainda tínhamos muito tempo pela frente para preocuparmo-nos com as coisas das gentes grandes. Elas que tratassem de cumpri-los, pois encontravam-se muito distante de nós, pirralhos ainda cheirando a leite.

Não consigo me esquecer do rosário de “muitos metros”, penso eu, pois é assim que eu ainda o vejo diante da minha pequenina figura, à época, fixado em uma das paredes do “quarto do paraíso”. Duas contas dele dariam para encher uma de minhas mãos. Eu ficava ali imaginando um monte de anjinhos subindo e descendo por ele. Nossa reverência era tamanha, que nunca ousamos tirá-lo da parede. Tudo no ambiente exalava  santidade. Até mesmo nós!

O presépio natalino de vovó, armado naquele quarto, era uma magia à parte. Era feito com jornal, cola de farinha de mandioca, borra de café e pó de malacacheta, também conhecida por mica, para imitar as pedras de uma gruta. Dentro, havia bichinhos de todos os tipos, e em volta da manjedoura um espelho enterrado na areia, imitando um lago, onde peixes e cisnes nadavam de mentirinha. Em volta, caixas com arroz germinando e outros tipos de plantas.

Certo dia, um bando de netos, incomodados com aquele Menino Jesus estático, resolveu trocá-lo por nosso priminho recém–nascido, bem mirradinho, que acabou deixando a manjedoura toda molhada de xixi, pois havíamos tirado a sua roupinha para dar mais veracidade ao fato. Não chegamos a levar umas boas chineladas por isso, pois vovó explicou a nossos pais que éramos muito inocentes ainda, mas o bebezinho carregou, por muitos anos, o apelido de “Menino Jesus”. Doces lembranças!

Nota: Imagem copiada de http://www.redevida.com.br

UM CONTO PARA CASTRO ALVES

Autoria de LuDiasBH

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Os navios negreiros aportavam-se nas costas de meu país – infeliz.
Os comerciantes de escravos davam aos negros rações de milho – escarros.
Pra que recuperassem a força perdida nos porões dos cargueiros – negreiros.
E lhes besuntavam os corpos rígidos de ébano com óleo de coco – reboco,
Pra conquistar a atenção dos dinheirosos compradores – os tais senhores.
Quanto mais reluzissem os corpos negros e mais brilhassem,
Destaques dariam aos músculos rijos e à carnadura perfeita.
No entanto, ó ventura desfeita, ó tamanha desdita, lá longe…

Naquela noite de lua cheia era festa na aldeia dos Marsupiais. Celebrariam o casamento de 20 jovens casais que mal haviam deixado a adolescência. Altos e fortes, os homens resplandeciam mostrando uma fiação de pérolas brancas cada vez que sorriam. As mulheres vestiam tecidos multicores e traziam na cabeça guirlandas de flores. Os idosos e as crianças, ao ritmo dos tambores, cantavam canções da terra. Tudo estava preparado para a entrada triunfal dos noivos.

De repente, a lua cobriu-se de sangue e dor. A aldeia foi invadida por homens da mesma raça e da mesma cor. Indefensos, os jovens casais, ainda com as roupas festivas, tornaram-se uma presa fácil para o caçador voraz. Cruelmente amarrados, eles foram entocados em rústicas canoas, enquanto rumavam para muito além do cais.

Dois ferrugentos navios esperavam-nos lá adiante, na costa africana. Deu-se a infame separação. As mulheres seriam enviadas a um destino para servirem às senhorinhas brancas. Os homens seriam levados a outro lugar para servirem nas plantações e nos engenhos de cana-de-açúcar. E assim, partiram as duas naus, cada qual em busca de um mar diferente.

A viagem era monótona e penosa. Não que isso fizesse alguma diferença, pois os jovens, tanto num navio quanto no outro, já se encontravam dilacerados pela agrura da segregação. Não mais nutriam amor pela existência. A morte era a única libertação possível. Para que viver, quando não se tem mais crença e, se a esperança é a única bússola que norteia a vida? Sem ela, qualquer túmulo serve para enterrar o corpo oco e a alma de felicidade despida.

E veio rápido o banzo que tomou conta do respirar de cada um dos amantes. Mussitavam em desespero nomes queridos. Os tumbeiros indolentemente carregavam seus mortos-vivos por entre as ondas compadecidas. Ia um atrás do outro até que chegasse o momento de tomar caminhos diferentes. Caminhos desprovidos de qualquer vislumbre de esperança. Triste e cruel sentença. Morte em vida.

Conta uma testemunha ocular, a quem prometi guardar o nome em segredo, para que não a tomassem como louca, que, antes de os dois velhos navios deixarem as águas africanas, quando um navegaria a noroeste e outro a sudeste, algo inusitado aconteceu, mal o sol começou a beijar as águas marinhas.

Os mastros desceram repentinamente e não havia força que os levantasse. Os navios estagnaram-se. Um cheiro de mirra e alecrim tomou conta do ar. As conchas, corais e as estrelas-do-mar começaram a flutuar em meio a uma espuma branca, que fazia bicos de crochê em volta das ondas azuis como safira. Das entranhas do mar subiu o som do repicar alegre dos tambores junto com uma cantoria de crianças. O céu encheu-se de centenas de arco-íris e era possível ver anjos com trombetas sobre eles. Esperança!

Então, aconteceu o maior de todos os milagres já vistos sobre a Terra, prosseguiu a testemunha. Pelas vigias dos porões, vinte corpos masculinos saíam como se fossem voláteis, tamanha era a facilidade com que se esgueiravam para fora. Feixes de raios dourados sustentavam-nos na horizontal. Quando se encontravam todos milimetricamente perfilados, a alma de cada um deles emergiu de seu corpo, em forma de bailarina, com tiara de flores nativas da África. E os corpos, apenas os corpos, mergulharam-se nas profundezas do mar, enquanto as bailarinas punham-se a postos, esperando algo que estaria por vir.

E o que aconteceu às mulheres? Perguntará o leitor mais encantado com o milagre. Eu também fiz esta mesma pergunta à testemunha. E ela me contou que o mesmo ritual mágico aconteceu a elas. Só que as almas que de seus corpos saíram, emergiram em forma de bailarinos tão brilhantes como as facetas de um diamante negro. E seus corpos, apenas seus corpos, desceram suavemente e foram sepultados pelo mar.

A seguir, os feixes de luz ficaram ainda mais brilhantes, transformando a abóbada celeste no mais resplandecente dos cenários. Os querubins fizeram soar suas trombetas, enquanto os arcanjos e os serafins cantavam Hosana nas Alturas. Bailarinas e bailarinos delicadamente enlaçados voaram em direção ao horizonte, até parecerem quarenta pontinhos luzentes rumando para as terras africanas. Só então os navios voltaram a singrar.

Sentindo que eu ainda estava ávida por maiores explicações, a testemunha contou-me o porquê de o masculino gerar o feminino e vice-versa:

“A nossa alma toma a forma daquilo que se passa em nosso corpo físico. Se nós estamos felizes, nossa alma se rejubila, mas se estamos sofridos ela sangra. Criamos alma nova quando recobramos o entusiasmo de viver, mas a mortificamos quando perdemos o amor pela vida. É na alma que se encontram as manifestações de nossa sensibilidade e se expandem as nossas emoções. As palavras, embora expelidas pelo corpo físico, têm a sua ressonância na alma. Você já deve ter ouvido alguém dizer: ‘Isto me doeu na alma!’. E foi isso, minha amiga, o que aconteceu aos jovens negros. O amor, que lhes foi roubado ainda na flor dos anos, ultrapassou os limites do corpo físico e tomou-lhes a alma com tanta veemência, que ela se expandiu e criou um corpo próprio, ainda que etéreo. E o que era a alma senão o amado ou a amada tão bruscamente despedaçado fisicamente, mas conservado mais vívido do que o coração, dentro de cada um deles?”

Não entendo o porquê de sermos chamados de humanos – ledo engano,
Se homens tiranizam outros homens, pela ambição desmedida – em vida,
Como pranteia em seus versos o poeta baiano Castro Alves – dos escravos.
Por que é assim que deve caminhar a humanidade – em sua insanidade?
Até hoje procuro respostas, mas não as encontro. Arimã! – busca vã.
Debrucei-me sobre a areia e chorei por mim,
E por aqueles que vieram antes de mim – como escravizadores.
E por aqueles que ainda virão depois – como escravos.

Nota: Imagem copiada de http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista

SÁ GERONILDA E A LEGIÃO DO MAL

Autoria de LuDiasBH

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Quelé e Dasdores poderiam ser considerados um casal comum, iguais a tantos outros que encontramos pelo sertão mineiro, se não fosse pelo destemor que carregavam pelo sobrenatural. Não havia caso de assombração que levantasse um fio de cabelo dos dois. Enquanto os demais presentes se benziam, sobre certas histórias tidas como verdadeiras, eles se estouravam em sonoras gargalhadas. Algumas gentes chegavam a dizer que eles eram assim, desprovidos de respeito pelas forças do mal, porque tinham apadrinhamento com o demo.

Sá Geronilda, irmã mais velha de Quelé, vivia com o casal desde a morte da mãe. Havia oito anos que a coitadinha apanhara um ar de estupor, de modo que perdera o jogo das pernas, tão finas quanto as de uma saracura. Mesmo assim, trabalhava o dia todo, debulhando milho, catando feijão, ralando mandioca, picando verdura ou qualquer outro serviço que não demandasse o uso de forças nos cambitos. Jamais se queixava da vida terrena, mas vivia às turras com aquela que existia além de sua parca razão. A estuporada tinha medo da própria sombra. Um pio de coruja já era um aviso de mau agouro. Portanto, orava dia e noite pelo irmão e pela cunhada, que andavam por aí desafiando as forças do coisa-ruim.

O pequeno quarto de adobe de Sá Geronilda, caiado do teto ao chão de terra batida, era o seu palácio celestial. As paredes brancas traziam gravuras de santos, enfeitadas com papel crepom e cordões coloridos. Um grande crucifixo de madeira envernizada enfeitava a mesinha de cabeceira, tendo ao lado uma jarra de vidro cheia de flores de plástico vermelhas e, na frente, o rosário feito de sementes de açaí. Ali habitava toda a legião do bem. Como sempre dizia, se um não pudesse dar seu adjutório numa determinada hora, logo outro tomava o lugar. E, se a tribulação fosse muito grande, haveria de ajuntar uma dúzia deles para fazer debandar o esconjuro.

Sá Geronilda tratava seus guerreiros com muita deferência. Conhecia todos pelo nome, feitos e especialidades. Antes de dormir, o “Dorme com Deus!” era individualmente distribuído. Além de extremamente devota, trombeteava pelos quatro ventos que homem algum pousara a mão para baixo de seu ombro, de modo a fomentar o desejo da carne. Por isso, aspirava à santidade, de modo a fazer parte de seus queridos companheiros de quarto.

O caso a seguir, em que tomam parte os personagens acima, contado e recontado pela gente do povoado de Brejaúba, sucedeu numa sexta feira da paixão, momento em que os filhotes de Satã ficam à solta, atazanando as criaturas de Deus. Portanto, que ninguém ouse duvidar de sua veracidade, sob pena de puxar para si a latomia do mal.

Quelé e Dasdores tinham ido visitar uma parenta que se encontrava nas agruras das dores do parto. Sá Geronilda recusou-se a acompanhar o casal, alegando que aquele não era um dia para se sair de casa, mas nela permanecer em oração. Ficaria com a sua legião de santos e com os dois cachorros da família, Lerdeza e Lombeira. E assim aconteceu.

Contou Sá Geronilda que tudo transcorria na mais absoluta calmaria, até que os dois cães começaram a ladrar sem alívio, de um modo nunca antes acontecido. Ela, munida de sua cruz, cai aqui, cai acolá com suas pernas esquecidas, resolveu ver o que se passava. O sol, já frio, ia devagarzinho deixando o céu, de modo que a sua luz ainda lhe permitiu ver com exatidão aqueles seres estranhos em frente à casa. Era uma gente para lá de sombria: não falava, não sorria e nem movia um só músculo do corpo descorado feito vela. Ou eles eram almas penadas, ou habitantes de outros mundos, ou enviados de Lúcifer, lá das profundezas dos infernos. E assim permaneceram por um bom quarto de hora: eles encarando ela e ela encarando eles. De repente, o chefe do submundo pulou na frente e deu o comando para que os demais atacassem a estuporada. Foi quando ela gritou por sua legião de santos. Todos pularam da parede e se puserem a lutar contra os malditos. A luta foi encarniçada. Sá Geronilda chegou a temer por seus amigos, já com suas vestes rasgadas e com o corpo cheio de sangramento. Mas os santos venceram, obrigando a legião do mal a desaparecer, deixando uma fumaça fedida para trás.

Quando Dasdores e Quelé chegaram, depois da parenta ter posto mais um cristão no mundo, encontraram Sá Geronilda desmaiada do lado de fora da casa, ao lado de Lerdeza e Lombeira que dormiam um sono solto. Cuidadosamente levaram-na para dentro de seu quartinho, onde encontraram os retratos dos santos descolados da parede e espalhados pelo chão. Assim que voltou a si, ela contou os fatos acima mencionados. Contudo, o casal, depois de conversar com alguns vizinhos, achou por bem levar a parenta para uma consulta com o doutor Apolônio, que chegou à conclusão de que Sá Geronilda tivera uma crise nervosa e arrancara ela mesma as fotos da parede. Será?

A pobre mulher, indignada com seu irmão e sua cunhada, que não acreditaram no que ela havia presenciado, a ponto de levá-la a um homem, que nada conhece das coisas do além, no seu comento jura por todos os seus santos que a batalha foi deveras acontecida. E, em nome da verdade e do bem, vaticina:

Um dia, Lerdeza e Lombeira vão ser abençoados com o dom da fala para contar todo o acontecido. Os meus dois companheiros não haverão de me deixar como potoqueira nesta história.

O PRIMEIRO HELICÓPTERO DE MURICI

Autoria de LuDiasBH

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Coronel Isidoro Magalhães mandou fazer uma pista para pousar um helicóptero em sua fazenda. Seu filho Cirilo Magalhães havia comprado um modelo antigo para levar pedras preciosas de Murici até Teófilo Otôni, nas Minas Gerais.  Havia mais de mês que um grupo de homens trabalhava no aterramento da pista para o recebimento da nave.

O assunto em todas as bocas da cidadezinha era a chegada do primeiro avião na fazenda do coronel que, espertalhão como sempre, passou a vender ingressos para a visita à nave, que ficaria exposta no hangar durante duas semanas. E, quem quisesse dar uma rodada pelos céus do lugar, teria que pagar uma soma bem maior. Coisa que dois ou três arriscaram a fazer.

O tal Cirilo, cópia fiel do pai, também tinha o rei na barriga e gostava de mostrar ostentação. Saía voando baixinho, para espantar as mulheres no rio, os homens com suas enxadas no eito ou quem estivesse na estrada. Diante do pavor daquelas pessoas simples, ele soltava sonoras gargalhadas e o assunto servia de galhofa na roda de seus amigos ricos.

Quando Seu Brás, um dos moradores da cidadezinha de Murici, adoeceu repentinamente, acometido por um AVC, Cirilo negou levá-lo até o hospital de Teófilo Otôni, acoitado pelo pai, alegando que seu helicóptero não era ambulância da prefeitura para carregar pobre. O doente acabou morrendo por falta de socorro imediato e sua esposa dizia para todo mundo que “aqueles dois miseráveis ainda iriam pagar caro pela falta de caridade”. É certo que a vida dá o troco, de uma forma ou de outra, quando menos se espera. Eles não tardariam por esperar.

O Cel. Isidoro ainda não tinha experimentado o pássaro que levava gente, apelido que ganhara o helicóptero dado pelos mais simplórios, alegando que ainda não sentira vontade de voar, quando na verdade tratava-se de mofineza. Mas o dito sentiu um revertério de uma hora para outra, sendo levado às pressas pelo filho para Valadares, onde morava uma filha. Mas, quando a nave passou perto do Pico de Ibituruna, o coronel grudou no pescoço do filho, dizendo que a nave ia bater na pedra e matar os dois.

Sem controle do piloto, engravatado pelo pai, o helicóptero desceu desconjuntado, cai aqui, cai acolá, até ser amortecido por um pé de eucalipto. Engastalhou lá em cima, sendo os dois passageiros retirados pelos bombeiros, já tarde da noite, diante dos holofotes. O coronel quebrou as duas pernas e o filho os braços. A nave? Só virou lata velha! Assim, cumpriu-se a praga da mulher de Seu Brás, mostrando que a justiça divina tarda, mas não falha.

O ZUMBI E A CARTOMANTE

Autoria de LuDiasBH

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Valdir de Sá Firmina era um dos moços mais bem cotados da cidadinha de São João da Boa Sorte, quer fosse pela belezura de suas feições quer pelos seus modos distintos no tratar as gentes, não diferenciando ricos de pobres e tolos de letrados. Dos mais velhos às crianças de colo, todos tinham afeiçoamento pelo rapaz. Sua fama era tamanha que a cartomante do lugar, dona Eufrosina Borbagato, dizia aos quatro ventos que o destino ainda iria fazer dele um homem proeminente. Mas nem o tal prognóstico mudava o comportamento de Valdir, que não carregava nenhuma afetação. Estava muito satisfeito com seu ofício de escrevente da pequena delegacia, onde atuavam um cabo e três soldados. Assim que algum vagabundo era preso, após lavrar a ocorrência, o escrevente chamava o meliante no aconselhamento, muitas vezes levando o indivíduo às lágrimas e a prometer que nunca mais voltaria a fazer isso ou aquilo.

Aquele era um dia de muito calor em São João da Boa Sorte, com o sol andando esbaforido no alto do céu. Os bichos, deitados na sombra, só abanavam o rabo vez ou outra. Nenhuma vivalma ousava passar debaixo daquela bacia emborcada de quentura. A delegacia estava com porta e janela escancaradas e Valdir de Sá Firmina ali, sentado à sua mesinha, tiquetaqueando na sua velha Olivetti. O cabo Genivaldo dormia um sono solto no quartinho do fundo. Os três soldados deviam estar descansando numa sombra. A quentura trazia um silêncio inquietante no pensar de dona Eufrosina Borbagato, a cartomante. Mal começara a jogar suas cartas para entreluzir sua agoniação, uma notícia transpassou o coração de São João da Boa Sorte: Valdir de Sá Firmina fora encontrado morto sobre sua máquina de escrever.

Nenhum boassortense jamais veria uma comoção como aquela. Todas as gentes, até mesmo as acamadas, foram à pracinha da delegacia, condoídas com o passamento de tão bom rapaz. Os suspiros de dor tomaram corpo, e chegaram até aos animais e às árvores da cidade. Os animais passaram a gemer e elas tombaram e murcharam suas folhas, como se estivessem desalentadas. O vento zunia de uma forma malincônica, coisa de doer o coração de qualquer vivente. São João da Boa Sorte podia ser chamada agora de São João da Tristeza.

O enterro foi marcado para a manhã do dia seguinte. Tirando as crianças de colo e os idosos, ninguém mais dormiu naquela noite. Como podia uma coisa daquela acontecer com um moço tão bom? Com certeza o Criador estava com falta de pessoas benfazejas no Céu. Mas dona Eufrosina Borbagato não havia falado que no futuro ele iria ser uma pessoa muito importante? Doido varrido é quem acredita em conversa de cartomante, que na verdade deveria ser “cartomente”. Mas era bom deixar a disquisição e o palavrório e rezar pela alma de Valdir, coisa que, a bem da verdade, não se fazia necessária, pois o moço já devia estar ao lado de São Pedro, assim que exalara o último suspiro. Se era um anjo na Terra, no Céu já deveria ter recebido a patente de santo.

O enterro mais parecia a procissão de Senhor Morto, no modo de dizer, de tão silenciosa, sendo seguida até pelos cachorros da cidade. Um vento forte começou a bulir com as pessoas arrancando-lhes os chapéus e os véus. O céu mudou-se de uma hora para a outra. Dona Isidra resmungou baixinho dizendo que “com o perdão da comparação, fora daquele jeito o dia em que Jesus morrera no Horto das Oliveiras”. Já dentro do cemitério, grossos pingos de chuva caíram. O vigário, no seu sermão, disse que até a natureza chorava a falta de Valdir de Sá Firmina. Alguém jogou um véu sobre o caixão, para não molhar o morto.

Mesmo em meio ao barulho da chuva repicando forte, foi possível ouvir um grito e um ranger de unhas, vindos de dentro do esquife. Silêncio geral. Quando o caixão mexeu, foi o sinal para que todos botassem o pé no mundo. O vigário e o cabo Genivaldo foram os primeiros a caírem na capoeira. Só se viam sapatos e chinelos perdidos em direção à saída do cemitério. Somente dona Eufrosina Borbagato não correu. Ela foi até o esquife, abriu-o e deu a mão ao rapaz para que ele se levantasse. Ainda meio atoleimado, Valdir de Sá Firmina não tinha a menor noção do que lhe acontecia. E assim, saiu conduzido pela cartomante, vestido um camisolão marrom, amarrado com o cordão de São Francisco, para sua casa. Sua mãe ao vê-lo, saiu esbaforida porta afora, o que fez com que a cartomante levasse o “santo morto-vivo” para sua própria casa e dele tomasse conta.

Infelizmente, tudo não terminou aí. As gentes presentes ao enterro não queriam voltar para o povoado com a presença de um cazumbi ali, pois, segundo os apedeutos e crendeiros, ele voltara para buscar companheiros para a viagem ao mundo do além. Ninguém mais se lembrava do comprazimento do rapaz. Foi necessário que doutor Honestino Barbosa, médico de Arançandi, fosse até ao povoado para explicar que o rapaz tivera um ataque de catalepsia. Ainda assim, ninguém mais quis saber daquele que passaram a chamar de “Cazumbi Cataléptico”, que acabou se mudando para o estrangeiro com a belezura de suas feições e seus modos distintos no tratar as pessoas.

Dez anos depois, um moço bem apessoado, desceu de helicóptero em São João da Boa Sorte. Viera como enviado da Nasa a seu país de origem, e ali fora fazer uma visita a sua amiga Eufrosina Borbagato.

Nota: imagem copiada de videntesonline.org