Arquivos da categoria: Cinema

Artigos variados sobre cinema e a análise de filmes que se tornaram clássicos.

Filme – O FILME DA MINHA VIDA

Autoria de Glaucia Pinheiro

Sinopse:

O filme é situado na década de 1960, na Serra Gaúcha, no sul do Brasil. O jovem Tony Terranova (Johnny Massaro), filho de um francês com uma brasileira, decide retornar a Remanso, na Serra Gaúcha, sua cidade natal, depois de passar um tempo estudando na capital. Ao ali chegar, ele descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, voltou para a França, sob a alegação de que sente falta de seus amigos e de seu país de origem, deixando para trás ele e sua mãe Sofia (Ondina Clais). Tony acaba se tornando professor, e vê-se em meio aos conflitos e inexperiências juvenis, pois a vida perfeita, que pensava ter, mudara totalmente.

O Filme da Minha Vida é um longa-metragem, dirigido e estrelado por Selton Mello. Trata-se de uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármet (autor de O Carteiro e o Poeta). Narra uma sucessão de acontecimentos na vida de Tony Terranova, mas que acaba contribuindo para o seu amadurecimento. O jovem torna-se professor de francês no colégio da cidade, e vê-se envolvido com seus alunos adolescentes. Ele faz do amor e do cinema seus objetivos de vida, mas, quando a verdade sobre seu pai surge, sente que é preciso trilhar seus próprios caminhos, ou seja, assumir sua própria vida.

O filme é um primor de história, com cenas e diálogos construídos com sutilezas e delicadezas, para tocar a alma do espectador. O enredo envolve relações familiares e afetivas, desde a separação de um pai até o encontro de um amor, passando pela descoberta do sexo e pela frustração com os amigos. Mostra que a vida, ainda que bela, é muitas vezes difícil de ser vivida. Além de ser um primor de história, o filme ainda traz um belíssimo cenário e uma contagiante trilha sonora.

O personagem de Selton Mello (Paco) é secundário, mas é, sem dúvida, o mais tocante. Ele se encontra sempre ao lado, participando sem participar, querendo viver uma vida que não alcança, esbarrando entre a ética, o ingênuo e o mal. Transitando entre a humanidade e a bestialidade que habita em todos nós. 

O garoto Tony (Johnny Massaro), que protagoniza o filme, preenche a tela com o seu olhar, expressão viva das emoções que alegram e/ou atormentam. A presença  do ator dispensa palavras em vários momentos. É uma delícia a mais, e não pressentimos o politicamente correto atravessar nossas emoções, apesar de o filme se passar em uma época em que isto não era ainda tão enfatizado.

Outros temas são delicadamente abordados, como o tempo que não passa no relógio e, às vezes, também parece que para na vida. A pergunta que o personagem de Selton Mello faz no filme ainda ecoa em meus ouvidos e invade meus pensamentos: “Eu sou um homem ou um porco?” O que nos distancia e nos separa de sermos porcos? Apenas a humanidade tangível e intangível de cada um de nós!

O filme viaja mais pela fantasia do que propriamente pela noção de realidade. O final parece ingênuo e insatisfatório, mas achei coerente com a proposta de leveza no pensar e menos seriedade na ordem dos conflitos, como um tempo para respirar diante de tamanha realidade opressiva.

Filme – PONTE PARA TERABÍTIA

Autoria de Lúcio Escobar*

Em vários anos de conhecimento e estudo sobre a clínica psicanalítica, confesso impressionado que ainda não tinha visto um filme que explanasse com riqueza de detalhes os processos decorrentes da clínica psicanalítica. Utilizando a linguagem cinematográfica, Gabor Csupo, diretor da segunda adaptação para o cinema, deu vida a um clássico da literatura americana, da autora Katherine Paterson, Ponte para Terabítia (2007). Trata-se de um filme que fala sobre a amizade de Leslie Burke e Jesse Aarons, dois estudantes do quinto ano, que criam um bosque mágico, ao qual dão o nome de Terabítia, e onde vivem muitas aventuras. Esse filme é na realidade o relato extraordinário de um caso clínico, demonstrando, através de seu enredo de forma sintetizada, todo o processo analítico de crianças e adolescentes, iniciando-se na solicitação do tratamento, a autorização e início, as resistências, interpretações,  direcionando-se para o reconhecimento pelo analisando do final da análise, rumo a uma postura mais segura e confiante diante das adversidades da vida. Todos aqueles que estiverem se dedicando ao estudo sério da psicanálise, irão poder observar os referidos processos de uma forma tocante, que os marcará profundamente, deixando claro o grande objetivo do tratamento, que é trazer novamente o brilho da vida e o potencial criativo, dando assim a possibilidade da continuação da existência de forma mais plena.

Para facilitar o entendimento do filme e a visualização dos processos, eu vou intercalar o enredo (EN) com as observações clínicas (OC) em itálico. É importante que o filme tenha sido assistido pelo menos uma vez, para que fique mais claro o entendimento.

(EN) – “Ponte para Terabítia” conta a história de Jesse Aarons, um garoto do interior dos Estados Unidos, muito tímido e solitário, que sofre “bullying” na escola, meio rejeitado pelo pai e o único garoto de uma família pobre de cinco filhos. May Belle, sua segunda irmã mais nova, parece ser a única pessoa que gosta dele.

(OC) – Jesse é um garoto com sérios problemas emocionais, que adoeceu devido a grande confusão e desorganização familiar, onde os pais, por focarem nos problemas financeiros e na sobrevivência vegetativa, estavam sempre ausentes emocionalmente. O pai severo está sempre cobrando dos filhos responsabilidades e ajudas nas tarefas da casa. A mãe, juntamente com o pai, está sempre cansada demais para prestar atenção em outra coisa que não o básico para a manutenção.

Timidez e solidão são os sintomas externos além do que hoje poderia ser diagnosticado como o famoso “déficit de atenção” que na realidade escondia outros problemas estruturais mais sérios, que tinham como causa principal a negação da subjetividade e da autoexpressão de Jesse que, perante o “bullyng” sofrido na escola, era sempre passiva, aceitando sem reclamar ou revidar as agressões sofridas, buscando a evitação das situações e, quando não podia, a fuga era sempre a melhor escolha. Desenvolveu por isso a habilidade de correr, sempre vencedor dessa modalidade de esporte, destacando-se como um momento raro em que se sentia bem, e quando se podia notar um resquício de prazer, mesmo por pouco tempo. Seu adoecimento não deixava que nem ao menos distinguisse no seu lar as pessoas que ligavam ou não para ele, sendo incapaz de demonstrar sentimentos. Gostava de desenhar, porém, seus desenhos eram ligados a figuras do fundo do mar, representando sua vida num mundo afastado das pessoas. Desenhava peixes e tubarões, porém seus desenhos não tinham um fundo, estavam isolados no papel, demonstrando a falta de contexto, as relações com o meio e as inter-relações.

(EN) – Leslie Burke era uma garota bem moderna, filha única de escritores, aos quais era muito ligada. Antes morava numa cidade grande, mas mudou-se para o campo e acabou vizinha de Jesse. Ela nunca assistira à televisão, pois seus pais achavam que tevê fazia mal ao cérebro.

(OC) – Leslie era uma garota que rompia com os padrões comuns, era autêntica, tinha uma imaginação ativa e herdara dos pais a habilidade da escrita. Possuía uma vida familiar saudável, com demonstração de afetos e valorização da expressão artística e autônoma. Não trazia a alienação legada pela televisão e era bem claro que sua vida não estava embutida na vida de seus pais ou vice-versa. Na trama, ela assume o papel do analista (domínio da linguagem do inconsciente), que após a solicitação de tratamento por parte de Jesse (momento em que ele, na corrida, defende-a, demonstrando interesse pela pessoa dela, que ele juga como possuidora do suposto saber, após ela demonstrar uma possibilidade de aproximação com seu mundo oceânico através de sua redação). Leslie então dá início a uma aproximação que tem como primeira resposta dele a recusa (quando não aperta a mão dela), demonstrando assim os processos de resistência à análise que estaria preste a iniciar.

(EN) – Jesse e Leslie tornam-se amigos próximos, embora ele não tenha gostado muito dela no começo (principalmente porque ela o venceu numa corrida). Essa amizade se formou pelo fato de ambos viverem bem próximos, e também por serem perseguidos pelos valentões da escola, Janice Avery e Gary Fulcher, considerados “esquisitos”.

(OC) – O início da amizade muito próxima simboliza o tratamento analítico, uma relação bem íntima, que vai trazer à tona seus medo e projeções inconscientes. Ela venceu a corrida e é colocada na posição de um suposto saber por ele.

(EN) – Leslie tinha uma imaginação muito fértil, e Jesse, uma grande paixão secreta por desenho. Com essas duas coisas, acabam criando Terabítia, uma terra apenas para eles dois, onde se nomearam rei e rainha, num bosque próximo à casa deles.

(OC) – Terabithia é o local “diferente”, como disse ela, um campo que não era a escola nem a casa dele ou dela. Era um local que simbolizava o “setting psicanalítico”, um reino onde tudo era possível, e onde o inconsciente de Jesse poderia se expressar sem rejeição, julgamentos ou perigos, um local onde os monstros poderiam surgir sem provocar tantos medos, um lugar apenas deles dois (a dupla analítica), onde se nomearam rei e rainha. Ela mostra pra ele que os dois juntos poderiam enfrentar os monstros simbólicos, nomeando-os e criando possibilidades de enfrentamento.

(EN) – Para chegar lá, Jesse e Leslie atravessam um pequeno riacho, numa corda bem grossa, pendurada numa árvore às margens do riacho. No Natal, ele dá para a amiga um cãozinho, a que ela dá o nome de Príncipe Terian (ou P.T.), para ajudá-los a lutar contra os “monstros” que querem roubar Terabítia deles.

(OC) – Para chegar nesse reino, Jesse e Leslie encontram um obstáculo que é um rio, ou seja, a divisão da consciência para um inconsciente por ele até então desconhecido. A corda, eu vou simbolizá-la como as ferramentas técnicas psicanalíticas, que depois daria lugar a uma ponte construída pelo próprio Jesse. Inicialmente, ele demonstra a angústia do início da análise e não consegue entrar no jogo da associação livre, sendo ajudado por Leslie, que inicia lhe emprestando significantes, trazendo-o para um jogo de imaginação. Inicialmente encontra resistências por parte dele, por ter prejudicada sua capacidade criativa e de simbolizar. Mas assim que ele vai se deixando conduzir, e vai cooperando com o processo, o tesouro do inconsciente começa a aparecer. Então surgem primeiramente os guerreiros amigos, que têm a função de ajudá-los, mostrando que ele não estará sozinho para essa missão.

Os monstros vão aparecendo, trazendo consigo traços dos personagens do enredo, onde se vê claramente que Jesse está simbolizando na análise sua situação problema na escola. Junto com Leslie e um cãozinho caçador de monstros, ele vai enfrentando os monstros sem mais evitar ou fugir. Diante de algumas situações na realidade, Leslie faz interpretações psicanalíticas, fazendo uma ponte (daí o nome do filme), ou seja, ensinando-o a construir essa ponte entre sua realidade e o seu mundo inconsciente, mostrando-lhe que assim como ele enfrentou os monstros em Terabítia, ele poderia enfrentar de forma criativa seus problemas.

(EN) – Jesse tem uma paixão platônica pela sua professora de música, Miss Edmunds, que adora os desenhos que ele faz. Um dia, ela o leva a um museu (ele nunca tinha estado em um antes), mas o desenhista não quis convidar Leslie, que resolve ir a Terabítia sozinha. Quando chega a casa, Jesse descobre que sua única e melhor amiga havia morrido afogada, ao atravessar o riacho, pois a corda rebentou-se e ela caiu – naquela época o riacho estava com as águas muito altas – desmaiando e afogando-se ao bater com a cabeça em uma das pedras.

(OC) – No início, a relação de Jesse com sua professora era simplesmente platônica, demonstrando a sua incapacidade e insegurança de aproximar-se do seu objeto de desejo e obter sua gratificação tão sonhada. Inicialmente, com a ajuda de Leslie, ele inicia as primeiras aproximações com a professora, enfrentando a timidez. Aos pouco vai ganhando confiança e começando a se arriscar. Quando aceita o convite da professora para ir a um museu, sem a autorização explícita dos pais (posicionamento autônomo), vai abandonando a posição passiva em relação ao pai, começando a expressar-se mais ativamente, o que é percebido pelo pai e não rechaçado.

Durante o filme é muito interessante ver como os diretores enfocaram bem as melhorias vitais em Jesse. O olho dele vai apresentando mais brilho, seus desenhos começam a representar suas vivências de forma mais completa, com um contexto.  Começa a não mais aceitar as agressões na escola e ver com outros olhos as relações com as pessoas, que não são tão monstruosas como pareciam. Ele vai ao museu sem convidar Leslie, e isso mostra que já começa a se achar pronto para andar com as próprias pernas e lutar pelos seus objetivos. Demonstra mais confiança e maturidade, arrisca-se e começa a experimentar uma vida mais colorida. Vê que pode aprender as coisas de maneira diferente, com alegria, e não só como uma obrigação mórbida pela repressão paterna. Ele começa a desvincular-se da trama neurótica de sua família.

A morte de Leslie simboliza a necessidade de finalização do tratamento e que Jesse agora se encontra pronto para encarar a realidade de forma autônoma. No início com um pouco de angústia, passa depois a se sentir devedor, por não ter convidado sua amiga. Passado o luto da antiga condição, ele começa a se reerguer e construir a ponte, mostrando-se agora apto para amar e aceitar o amor de outras pessoas de forma madura. Sente que é hora de retribuir tudo isso ajudando sua irmã mais nova, levando-a para esse novo mundo, que agora, pela experiência vivida, já domina, deixando a posição de analisando para analista.

*Psicanalista Clínico e Didata, Membro da Sociedade Psicanalítica de Orientação Contemporânea Brasileira

20ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

Autoria de Luiz Cruz

          

Tiradentes abrigou a 20ª Mostra de Cinema, com muito sucesso! A história do cinema na cidade vem de longe. O primeiro cinema existiu na casa do inconfidente padre Carlos Correia de Toledo e Melo, atual Museu Casa Padre Toledo, já em atividade na década de 1920. Segundo Antônio Faustino da Cruz, o cinema atraia muitas pessoas, e aos cinco anos de idade ele vendia pastel, antes das exibições. Um documento de 1944, no Arquivo Central do IPHAN/RJ, registra a demolição da cabine cinematográfica e do palco, quando o imóvel passou pela primeira obra de restauro.  Outro cinema funcionou na sede do Aimorés Futebol Clube, na década de 1960, uma iniciativa de José do Nascimento, o “Zé da Olinda”, com apoio de Eros Miguel Conceição. Fez sucesso, mas deixou de existir. No final da década de 1970, Yves Alves ofertou um projetor de cinema 16mm para o IHGT-Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes e, em sua antiga sede, foram exibidos alguns filmes. Com o apoio de Eros Conceição, houve várias apresentações cinematográficas na EEBG – Escola Estadual Basílio da Gama. Na década de 1980, quando foi criada a Semana do Meio Ambiente, muitos filmes foram exibidos no Largo das Forras e na EEBG. Através do contato com o crítico de arte Mark Bercowitz, conseguimos os filmes emprestados no ICBEU-Instituto Cultural Brasil Estados Unidos. Os carretéis com as películas eram colocados em sacos de tecido e trazidos para Tiradentes em ônibus da linha Rio de Janeiro/São João del-Rei. O Centro Cultural Yves Alves-SESI mantém uma programação semanal de cinema e com boa qualidade, desde 2010. Toda exibição é gratuita para os tiradentinos e visitantes.

A primeira Mostra de Cinema de Tiradentes ocorreu em 1998, com a inauguração do Centro Cultural Yves Alves e em uma tenda de circo, instalada no Lago das Mercês. A Mostra consolidou-se e  tornou-se um dos eventos mais importantes do cinema no país. Tecnicamente houve um avanço surpreendente. Era curioso apreciar o vai e vem dos homens carregando os carretéis com as películas, filmes em 16mm e em 35mm. Assistimos as apresentações dos chamados “vídeos”, introduzindo a era digital. Com o avanço da tecnologia, tivemos oportunidade de acompanhar o grande salto da quantidade e da qualidade dos filmes brasileiros, associado à expansão das escolas de cinema em vários estados. Foram criando as mostras dentro da Mostra e os temas.

Na 20ª edição, o tema central foi “Cinema em Reação, Cinema em Reinvenção”. As homenageadas foram a atriz Helena Ignez e a atriz e diretora Leandra Leal. Foram exibidos 108 filmes, entre longas, médias e curtas metragens, com produções de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco, Paraná, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo, Paraíba e Distrito Federal. “Reação” e “Reinvenção” foram correlacionadas às questões de gênero, identidade,  transgressão, transexualidade e poder. Essa edição tornou-se um marco ao homenagear duas atrizes e a iluminar o tema mulher, sexualidade e  transexualidade, em contexto nacional. As minorias do Brasil e a violência que assola esses grupos, como as comunidades indígenas, mulheres, negros, transexuais, religiosos e outros.  Abriram-se muitas janelas do Brasil para  vermos o quanto grupos autoritários maltratam as minorias – historicamente – desde que esta terra tornou-se “Vera Cruz”, o nosso Brasil.

É lamentável ver como o Brasil desrespeita suas comunidades indígenas, expulsas por grileiros, madereiros, garimpeiros e agronegócio. É inconcebível tantos investimentos em hidrelétricas que desmantelam comunidades e destroem a fauna e a flora.  Lá se foi o tempo em que hidrelétrica era considerada energia “limpa”; pois, para exisitir, muitas vidas são dizimadas e compromete o meio ambiente. Tudo feito através de acordos escusos, sob o manto da falsa legalidade. Pior, nós brasileiros assistimos e consentimos essas barbaridades. Existe o silêncio de uma ONU e de uma UNESCO, que também figem como nós mesmos, que não está acontecendo nada. E, com isso, a devastação das florestas caminha, cada vez mais veloz.

“Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça” – a famosa frase do cineasta Glauber Rocha, foi importante para o Cinema Novo. Na contemporaneidade, perde consistência. Como exibido na 20ª Mostra de Tiradentes, houve avanço na qualidade dos filmes, os jovens aprenderam a fazer cinema. Porém, cinema não é só tecnologia, envolve muitos aspectos. Acima de tudo, cinema é emoção. Cinema é Arte. E, para que alcance bom resultado é preciso ser lapidado. Alguns filmes nos encantaram, devido ao conjunto de elementos constitutivos. Outros foram de doer a alma. Um dos mais aplaudidos foi “Entre os homens de bem” (SP) – dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. Apresenta o embate de Jean Wyllys, defensor da causa LGBT, com a bancada conservadora do Congresso Nacional. Quem achava que já conhecia o Congresso com a transmissão ao vivo da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, enganou-se. O filme “Entre os homens de bem” revela um Congresso conservador, corporativo, reacionário, fisiológico, sem ética e sobretudo desprovido de inteligência. As referências a um Congresso Nacional  bbb – “bala, bíblia e boi” – está longe de ser representação de uma nação com dimensões continentais e complexo como o Brasil. Esse filme foi um tiro certeiro e enriqueceu a proposta da Mostra.

À Mostra  desejamos longa vida. Os desafios ainda são muitos. O maior deles é o diálogo com a comunidade, pois inexiste. A Mostrinha deveria ter sessões diárias para que as crianças tenham mais participação e experiências cinematográficas. Os adultos locais só frequentam a Mostra quando há filmes produzidos na cidade. Portanto, investir na Mostrinha é investir num futuro apreciador do Cinema Brasileiro. A Mostra precisa se adequar às questões da acessibilidade, com vagas reservadas para cadeirantes e com os filmes legendados. Torna-se elementar trabalhar com as questões da segurança, principalmente no Cine-Tenda, que é de material inflamável. É necessário também que a Mostra se encontre com os outros eventos locais.

Fotos: Cine-Tenda e aspecto do filme “Entre homens de bem”, fotografias do autor.

Filme – O MENINO E O MUNDO

Autoria de LuDiasBH

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Nosso filme nasceu como um grito sincero de liberdade e de amor, um grito político, latino-americano. Mas, sobretudo, um grito contra o sufoco que a grande indústria cria aos potenciais artísticos, poéticos e de linguagem da animação. E acho que este grito ecoou onde precisava ecoar. Um momento importante onde filmes de animação mais autorais concorrem ao prêmio maior da indústria de cinema. (Alê Abreu)

O cinema brasileiro concorre ao Oscar deste ano com a animação O Menino e o Mundo, obra do diretor paulistano Alê Abreu, que vê seu filme como zebra, não em relação à sua qualidade, mas ao orçamento com que foi feito, o que tem deixado muita gente boquiaberta num universo em que os gastos com filmes vêm se tornando estratosféricos. A animação brasileira teve um orçamento (US$ 500 mil) considerado baixíssimo. Foi com emoção que Alê Abreu desabafou:

– Somos a zebra do ano, com o maior orgulho de ser zebra, e vamos trabalhar forte para trazer o careca dourado para o Brasil! Vitória! Airgela! Viva a animação brasileira!

Desde que estreou em 2014, O Menino e o Mundo vem fazendo bonito. Recebeu 44 prêmios, inclusive o de melhor animação, no Festival Annecy, na França, prêmio concedido tanto pelo júri quanto pelo público presente.  O Prêmio Cristal é considerado o maior prêmio da categoria em todo o mundo. E mais, foi aplaudido de pé.

O Menino e o Mundo conta a história de um garoto que deixa seu pequeno universo em busca do pai, que foi obrigado a sair de casa em busca de trabalho. Na sua jornada, o menino depara com um mundo caótico, que lhe é totalmente desconhecido, marcado pela desigualdade e perda de valores, pelo consumismo, pela tirania industrial e pela destruição aterradora do meio ambiente, ainda assim, encontra solidariedade pelo caminho. O mais interessante é que o filme não possui diálogos, e nos poucos trechos falados, fala-se em português, mas de trás para frente. A trilha sonora é responsável por dar vida ao filme, complementando-se com uma deslumbrante apresentação visual. Gustavo Kurlat e Ruben Feffer assinam a trilha sonora que possui a participação do percussionista Naná Vasconcelos e do rapper Emicida.

O cineasta Alê Abreu (44 anos), que em 2007 criou a animação Garoto Cósmico, com a qual fez sua estreia, diz que sua preocupação maior, ao fazer O Menino e o Mundo, era fugir um pouco dos elementos digitais, e trabalhar também com elementos aparentemente simples, em 2D, usando mais colagens, aquarela, canetinhas, tinta acrílica, etc. Com isso, seu trabalho segue uma rota totalmente diferenciada do universo de 3D, tão comum aos dias de hoje, e traz um desenho com um visual maravilhoso e com uma trama comovente.

Talvez a originalidade de O Menino e o Mundo, na qual se misturam técnicas de animação com a predominância de um traço simples, seja a responsável por levar esse menino pobre a desfilar pelo tapete vermelho do Oscar, fazendo com que todo o povo brasileiro sonhe e torça pare que ele encontre não apenas o pai, mas também o Oscar de melhor animação.

A animação brasileira concorre ao lado de “Anomalisa”, “Shauan, O Carneiro”, “Divertida Mente” e “Quando estou com Marnie”.

VEJAM UM PEDACINHO DA ANIMAÇÃO

Ficha técnica
Direção: Alê Abreu
Duração: 80 minutos
Recomendação: Livre
País: Brasil
Ano: 2013

COMO SE ESCOLHE O OSCAR

Autoria de LuDiasBH oscaritos
Cerca de 6.000 membros da Academia, das mais diversas nacionalidades, são os responsáveis pela escolha dos premiados. Os votantes são divididos em 14 categorias:

• Atores
• Diretores de arte
• Fotógrafo
• Diretores
• Executivos
• Montadores
• Músicos
• Produtores
• Relações públicas
• Curta-metragem
• Animação
• Som
• Efeitos especiais
• Roteiristas

Como se processa a votação:

1. Na primeira etapa, cada associado vota nos finalistas da categoria a que pertence, para escolher os 5 melhores do ano anterior. Ou seja, atores votam em atores, diretores em diretores, músicos em músicos, etc.

2. Depois de serem anunciados os 5 finalistas de cada categoria, todos os membros da Academia votam nas 14 escolhidas anteriormente, indiferentemente de pertencer a essa ou àquela categoria.

3. As demais categorias são votadas pelo comitê de direção da Academia.

4. Para a escolha dos finalistas em Filmes Estrangeiros, Documentários e Curtas só podem votar os que assistirem a todos os concorrentes.

Como manter o sigilo e a imparcialidade:

1. As cédulas são enviadas, via correio, para a casa dos votantes. Eles têm duas semanas para enviar o voto.
2. Os envelopes são devolvidos à Academia, sem nenhuma alusão ao remetente.
3. Os computadores são responsáveis por fazer a apuração dos votos.
4. O resultado é colocado em envelopes rigorosamente lacrados.
5. Os envelopes só poderão ser abertos na hora da premiação.

Categorias

À medida em que a indústria cinematográfica foi se desenvolvendo, o número de categorias foi sendo alterado. No primeiro ano de existência do Oscar foram 11 categorias. Atualmente são 24, assim divididas:

I – Principais categorias

1. Melhor filme
Parece ser o ponto x da premiação. E para ele convergem todas as atenções. Talvez por englobar um universo maior. O filme precisa ser falado em inglês. O prêmio é entregue ao diretor da obra premiada.

2. Melhor diretor
Refere-se especificamente ao trabalho do diretor. Os votantes levam em conta a forma como ele transformou o roteiro em filme e o seu trabalho com os atores no desenrolar da história.

3. Melhor ator
Artistas de todos os países podem concorrer ao prêmio. São indicadas apenas as performances nos papéis principais da trama.

4. Melhor atriz (idem)

5. Melhor ator coadjuvante (papel secundário)
Participam artistas que atuaram em papéis secundários. Atores de todas as nacionalidades podem competir.

6. Melhor atriz coadjuvante (idem)

7. Melhor roteiro original/argumento original
É premiada a melhor obra escrita exclusivamente para se tornar um filme de cinema.

8. Melhor roteiro adaptado/argumento adaptado
O roteiro não pode ter sido feito especificamente para um filme, mas adaptado de uma obra, normalmente de livros.

9. Melhor filme de animação
Essa categoria é nova na história do Oscar (2002). As animações podem ser feitas com qualquer tipo de técnica.

10. Melhor filme em língua não-inglesa
O filme pode ser falado em qualquer língua, desde que não seja a inglesa. Pode, inclusive, ser produzido em países de língua inglesa, mas desde que a língua falada não seja o inglês.

II – Categorias secundárias

1. Melhor documentário
O documentário deve abordar temas científicos, sociais, culturais, artísticos, históricos, econômicos, etc. Não pode ser uma ficção. É permitido o uso de reconstituições e cenas retiradas de arquivos.

2. Melhor documentário de curta-metragem
Deve obedecer aos mesmos critérios do documentário de longa-metragem. A única diferença é o tempo de duração, que não pode ultrapassar os 40 minutos.

3. Melhor curta-metragem
Só podem concorrer nessa categoria, produções com até 40 minutos de duração (incluindo os créditos). Curtas de todos os países podem participar, caso preencham os requisitos propostos pela Academia.

4. Melhor curta-metragem de animação
Trata-se de animações realizadas com quaisquer tipos de técnicas. Também não podem ultrapassar os 40 minutos de duração.

5. Melhor trilha sonora/banda sonora
Concorrem apenas as músicas instrumentais compostas especialmente para cada filme.

6. Melhor canção original
A música deve ser composta especificamente para o filme. Também se olha a letra e interpretação vocal.

7. Melhor edição de som/montagem sonora
O som da obra deve obedecer a regras específicas estipuladas pela Academia. Ganha aquele que responder melhor aos quesitos exigidos.

8. Melhor mixagem de som/mistura sonora
É avaliado o melhor processo de combinar os vários sons do filme (harmonia) a partir de gravações separadas.

9. Melhor direção de arte/direção artística
Engloba a ambientação do filme, o cenário e demais artefatos usados para contar a história por parte do diretor de arte.

10. Melhor fotografia
É o prêmio para a excelência da fotografia (iluminação e enquadramento dentro dos sets de filmagens) para uma obra.

11. Melhor edição/montagem
A gravação de um filme não é linear. As cenas normalmente não são gravadas em ordem cronológica, seguindo o roteiro. Depois de todo o material pronto é que se faz a montagem, muitas vezes descartando partes julgadas desnecessárias. O prêmio é ganho pela melhor montagem feita.

12. Melhor figurino/guarda-roupa
O figurino é muito importante para retratar um filme num determinado tempo, assim como para caracterizar os personagens de uma obra. Vemos essa parte com mais clareza em filmes de ficção científica e épicos.

13. Melhor maquiagem/caracterização
É outra premiação que também desperta muito interesse. Escolhe-se, dentre os filmes concorrentes, aquele que apresenta a maquiagem de um personagem (ou personagens) que mais chama a atenção por sua criatividade e perfeição.

14. Melhores efeitos visuais/efeitos especiais
É uma das categorias mais aguardadas pelo público, onde são usadas as mais diferentes técnicas de efeitos especiais.

Curiosidades

  • Participação brasileira (filmes indicados):
    1963 – O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte) – Melhor Filme Estrangeiro
    1996 – O Quatrilho (Fábio Barreto) – Melhor Filme Estrangeiro
    1998 – O Que É Isso Companheiro? (Bruno Barreto) – Melhor Filme Estrangeiro
    1999 – Central do Brasil (Walter Salles) – Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz
    2004 – Cidade de Deus (Fernando Meirelles) – Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia
  • O maior número de indicações ao Oscar é de Walt Disney: 64. Recebeu 26 deles.
  • Meryl Streep é a atriz recordista de indicações ao prêmio (16 no total). Recebeu 3 estatuetas.
  • Os filmes que mais receberam o prêmio foram: Ben-Hur, Titanic e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Onze estatuetas para cada um.
  • Brasileiros que podem votar na premiação do Oscar: Bruno Barreto, Walter Sales, Fernando Meirelles e Fernanda Montenegro.
  • A Argentina foi o único país latino-americano a receber um Oscar na categoria de “melhor filme de língua estrangeira”. Itália e França são as campeãs (12 vezes cada uma).
  • Apenas 3 filmes receberam os cinco principais prêmios da Academia: Aconteceu Naquela Noite (1934), Um Estranho no Ninho (1975) e O Silêncio dos Inocentes (1990)
  • Não é preciso ser sócio da Academia para concorrer ao prêmio. E uma indicação não torna a pessoa sócia automaticamente.
  • Em 1953 a premiação foi televisionada pela primeira vez.
  • Em 1989 a frase “And the winner is…” (E o ganhador é…) mudou para “And the Oscar goes to…” (E o Oscar vai para…), para que os demais indicados não se sentissem derrotados.

Fonte de Pesquisa:
http://pt.wikipedia.org/
ttp://www.bastaclicar.com.br/cinema/oscar2007/historia.asp
Revista Época, 1º de março/2010

30 BONS FILMES – ANTONIO VIANNA MONIZ

Autoria de LuDiasBH

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Eu tenho verdadeiro horror a essa história de quais são os dez mais! Já me pediram várias vezes, mas eu, por uma questão de educação, respondi. No fim de vinte anos, eu fui olhar as minhas listas e nenhuma era igual à outra. Havia alguns filmes que figuravam em todas. Mas é muito difícil dizer que esse filme é melhor do que esse outro! (Antonio Moniz Vianna)

Estrangeiros

1) Aurora (1927), de Friedrich Wilhelm Murnau
2) O delator (1935), de John Ford
3) Cidadão Kane (1941), de Orson Welles
4) No tempo das diligências (1939), de John Ford
5) Punhos de campeão (1949), de Robert Wise
6) Intolerância (1916), de David Wark Griffith
7) Depois do vendaval (1952), de John Ford
8) M, O vampiro de Dusseldorf (1930), de Fritz Lang
9) Soberba (1942), de Orson Welles
10) O martírio de Joana D’Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer
11) A doce vida (1960), de Federico Fellini
12) A última gargalhada (1925), de Murnau
13) Le million (1930), de René Clair
14) Consciências mortas (1943), de William A. Wellman
15) O homem que matou o facínora (1962), de John Ford
16) 8 e 1/2 (1963), de Federico Fellini
17) O tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston
18) Matar ou morrer (1953), de Fred Zinnemann
19) O sol brilha na imensidade (1953), de John Ford
20) Morangos silvestres (1957), de Ingmar Bergman

Brasileiros

1) O cangaceiro (1953), de Lima Barreto
2) Noite vazia (1964), de Walter Hugo Khoury
3) Amei um bicheiro (1953), de Jorge Ileli
4) Todas as mulheres do mundo (1966), de Domingos Oliveira
5) Ravina (1957), de Rubem Biáfora
6) O pagador de promessas (1962), de Anselmo Duarte
7) Mulheres&Milhões (1961), de Jorge Ileli
8) Ganga Bruta (1932), de Humberto Mauro
9) O corpo ardente (1966), de Walter Hugo Khoury
10) Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha

Nota: cenas de Aurora e de Deus e o Diabo na Terra do Sol na ilustração.

Fonte de pesquisa:
http://setarosblog.blogspot.com.br/2012/12/os-melhores-filmes-de-antonio-moniz.html