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Nova interpretação das histórias infantis

CINDERELA E O PRÍNCIPE PODÓLATRA

Autoria de LuDiasBH

sapcris

A história de Cinderela é mais um dos dramas que acontecem com as meninas excessivamente bonitas, filhas de pais viúvos. O mesmo ocorreu com a sua amiguinha de infância Branca de Neve. Também não sei que fogo é esse que leva tais pais a contraírem novas núpcias e deixarem as filhas sofrendo neste mundo de meu Deus.

Como a vida pode ser cruel, às vezes. Com tanta madrasta boa no caminho, lá se foi o pai de Cinde procurar uma matrona já com duas filhas bem taludas. E, como se não bastasse o sofrimento causado por tais companhias, mal ele se casou e já foi batendo as botas, deixando a mocinha com a malévola e seus dois rebentos feios de fazer dó, parecendo praga de urubu magro.

É fato que a tal senhora apossou-se de toda a herança do pai de nossa amiguinha. Mas isso não lhe era suficiente. Queria também a formosura da pequena para suas despeitadas moçoilas. Como não havia ainda cirurgião plástico no reino, o jeito foi tirar Cinde de circulação. E, para isso, nada melhor que fincá-la na cozinha. Ali, a bela lavava e chorava, passava e chorava, limpava e chorava, cozinhava e comia o pão que o diabo amassou com o rabo.

O rei daquelas plagas precisava casar o seu filho que já estava bem maduro, quase caindo do cacho. Para alcançar tal intento, convidou todas as moças casadoiras do reino para uma festança no palácio, de modo a escolher a futura consorte (ou com azar) do príncipe, que tinha um vício guardado a sete chaves pelos palacianos e que por ora não ouso contar, pois não estou aqui para contar segredo de ninguém.

O convite para a escolha de uma esposa para o príncipe herdeiro botou em polvorosa todas as mães do reino, em especial a mãe das duas horroríficas criaturas, irmãs de nossa mocinha que, impedida de ir ao baile, derramava todas as águas dos oceanos pelos olhos. Mas eis que de repente, assim que a trinca da maldade deixou a casa, uma fada madrinha aterrissou na cozinha para consolar Cinde. Vinha das bandas de Avatar. Com sua varinha de condão transformou a jovem na mais luminosa donzela de todo o reino. E, por cima, ainda lhe presenteou com um deslumbrante par de sapatinhos de cristal. Como transporte, transformou uma abóbora, que estava sobre a mesa, numa carruagem; dois ratinhos, que tudo observavam,  viraram cavalos e o cãozinho da pequena, tornou-se seu cocheiro. Só havia um porém: como tudo na vida é passageiro, o encantamento só duraria até as 12 badaladas noturnas. Ou seja, a vida dá com uma mão e tira com a outra.

Cinde, ao chegar à festa, fez resplandecer o salão real. O futuro rei só tinha olhos para seus pezinhos tão delicados como os pés de um guainumbi. E, é claro, ela não foi reconhecida pelo trio malvadeza. Mas o ponteiro do relógio andava tão veloz que a lindinha mal teve tempo de sair dos braços do embasbacado príncipe. Tanto é que, na pressa, um sapatinho ficou para trás, sendo posteriormente entregue ao futuro nubente por um dos empregados.

O príncipe apaixonou-se pelo sapatinho de cristal hemisferoédrico. Não apenas dormia com ele, como não o soltava em tempo algum. Ficava horas e horas mirando aquela belezura contra a luz do sol, sob a luz da lua ou em frente às lamparinas reais. No palácio, já corria o boato de que ele tinha ficado lelé da cuca e que, se não encontrasse o outro pé de tamanha formosura, seria internado no sanatório real, onde viviam outros parentes seus. A rainha, embora tenha sido injustamente omitida na história ao longo dos anos, resolveu salvar a pele do filho. Pediu ao arauto do palácio que fosse de casa em casa para encontrar o pé faltoso, e que também trouxesse a dona dele, de modo a livrar o filho da loucura e das línguas viperinas de seu reino.

Nem é preciso dizer que somente o pezinho de Cinde coube no sapatinho de cristal e que as três perversas morreram de inveja. Acalmem-se, meus amados leitores, pois a história ainda não é finita. Sei que nunca lhes contaram toda a verdade, que me foi passada por minha amiga Cinderela, assim que o marido bateu as botas, deixando-a com uma dúzia de rebentos, também filhos, por extensão, dos sapatinhos de cristal.

A rainha, que sempre fora muito esperta e conhecedora de todas as ardilezas da alma masculina, viu que teria de usar de pulso forte para com o filho, para que ele se casasse com Cinde e desse um herdeiro ao reino. Disse-lhe que só lhe entregaria o outro pezinho de cristal, se ele lhe desse um neto. O príncipe aceitou a proposta, mas desde que Cinde usasse os sapatinhos na alcova, na hora H. Trato selado, casamento realizado e noites e noites afervoradas.

Mas um fato embaralha-me a razão: se tudo voltou ao normal após as 12 badaladas noturnas, por que é que o sapatinho de cristal também não retornou à sua origem? Teria a fada madrinha mentido sobre o feitiço, receosa de que Cinderela entregasse os sapatinhos e outras coisitas mais ao príncipe, antes do tempo?

O SOLDADINHO DE CHUMBO

Autoria de LuDiasBH

chumbo

Jailton sempre fora um rapaz atarracadinho, que só usava a camisa para dentro da calça, com a cintura separada do tórax por um cinto preto de fivela. Ainda menino, resolvera que seria soldado, para ajudar a impor a lei, de modo as gentes viverem em paz. O apelido de Soldadinho de Chumbo nascera durante os exercícios no quartel, quando tinha que ser suspenso pelos colegas. Sempre que podia, servia apenas de trampolim para uns e outros, tamanha era a sua força. Mas, quando se dava o inverso, todos reclamavam de seu peso. Ninguém poderia imaginar, olhando para ele, que pesasse tanto. Tinha a carnadura muito socada, como diziam seus amigos.

Jailton só compreendeu a periculosidade de sua profissão, quando foi emboscado com três de seus colegas, por um grupo de traficantes. Um deles morreu e ele levou um tiro no pé que o deixou manco por toda a vida. Por isso, foi rebaixado de cargo, restando-lhe apenas os serviços burocráticos de sua delegacia, embora amasse andar pelas ruas conversando com as pessoas, ensinando as crianças a atravessarem os cruzamentos com cuidado. Insatisfeito com as suas novas funções e com os baixos salários recebidos, resolveu deixar a corporação.

Mais cedo do que esperava, um bondoso senhor foi à sua procura para que tomasse conta do sítio de seu filho. E foi lá que Jailton conheceu Clarice, a serviçal da casa. Não demorou muito para que se apaixonassem. Como ela trabalhara num circo como bailarina, todas as noites dançava para ele, que ficava todo orgulhoso e mais apaixonado ainda. Mas, como a vida é cheia de imprevistos, o patrão trouxe para o local um rapaz  encarregado de fazer uma cerca e que, para tristeza do soldadinho, também se apaixonou por sua bailarina.

Certo dia, Clarice teve que ir à cidade fazer umas compras e, para se ver livre de Jailton, o novo empregado colocou um pó estranho no seu café, que o fez cair num sono profundo. O malvado. então. aproveitou para jogá-lo nas margens de um rio. Um grupo de menores marginais, reconheceu o soldado e, como vingança, jogou-o dentro de um bueiro, onde vivia um casal de ratazanas, que não querendo dividir seu espaço, empurrou-o para o rio. Ali, um pescador encontrou o soldado ainda vivo e foi pedir socorro exatamente no sítio onde ele morava. A bailarina reconheceu-o e, junto com os amigos da redondeza, ofereceu-lhe uma festa de boas-vindas.

Mas nem tudo estava bem para Jailton que ainda se encontrava meio abilolado. E o malfeitor, que lhe causara tantos danos, estava inconformado com a sua volta. Tinha que dar um jeito de acabar com seu rival. Assim, quando o fogo da lareira estava bem alto, sem que ninguém visse, jogou o soldadinho dentro. Clarice, que apareceu na hora, pulou na lareira atrás dele, para salvá-lo. Mas as chamas estavam muito altas e acabaram consumindo os dois, cujos esqueletos foram encontrados abraçados, ficando unidos para sempre.

(*) Imagem copiada de www.portalsaofrancisco.com.br

ALICE NO PAÍS SEM MARAVILHAS

Autoria de LuDiasBH

alice

Alice sempre foi uma moça enxerida, metendo o nariz onde não era chamada e, que mais se parecia um detetive, dando conta da vida de todo mundo, apesar de sua mãe chamar a sua atenção dia sim e outro também:

– Filha, você ainda vai se dar mal com essa sua curiosidade. A qualquer hora irá quebrar a cara e eu não vou estar por perto para socorrê-la. Preocupe-se apenas com a sua vida e deixe a dos outros em paz.

Recomendação essa que entrava por um ouvido e saía pelo outro, pois a bisbilhotice de Alice só fazia aumentar. Ela queria mais era descobrir os segredos da vida das pessoas, seja lá onde se encontrassem. E a possibilidade de quebrar a cara, como lhe aconselhava a mãe, não lhe incomodava nem um pouquinho, ainda mais que mães são sempre exageradas. O fato é que a moçoila era o terror da vizinhança na indiscrição.

Certo dia, em que o calor trazia uma lombeira das bravas, e como havia comido mais do que a barriga podia acomodar, Alice não se sentiu encorajada a perambular pela freguesia. Recostou-se numa das árvores do quintal para aquietar o estômago que parecia querer explodir. Virava de um lado para outro, sem achar uma posição que lhe acalmasse a ânsia de vomitar. Já com a vista turvada pelo mal-estar, partiu em busca de umas folhas de hortelã, para aliviar o incômodo que sentia. Mal terminou de comer duas delas, caiu num estado diferente de consciência. Viu um coelho branco, muito abonecado, passar por ela gritando esbaforido:

– É tarde! É tarde!

Essa foi a deixa para que a moça esmiuçadora saísse no encalço do coelho janota, para saber aonde o animal se dirigia com tanto afobamento. E foi nessa que acabou tropeçando e caindo na toca do emperiquitado, buraco esse que parecia não ter fundo. Finalmente, a enxerida aterrissou numa sala em que tudo era pequenino. E ficou ali, entalada, esperneando, sem poder sair. Só conseguiu deixar aquela armadilha depois de tomar um líquido que encontrou numa certa garrafa, pensando que fosse um licor, que a fez minguar de tamanho, até  ficar proporcional às coisas da tal sala.

Um escalafobético jardim esperava por Alice do lado de fora. E ali estava ninguém menos que o coelho pimpão, a quem encheu de perguntas, coisa que lhe era bem peculiar, mas não recebeu nenhuma resposta por parte do pintalegrete. Começou então a se lembrar dos conselhos de sua mãe, mas agora era tarde para qualquer tipo de arrependimento. Mas como existe sempre um pouco de complacência neste mundo de meu Deus, uma lagarta se predispôs a ajudar a rapariga, dando-lhe algo que a fez crescer, ou melhor, voltar a seu tamanho anterior.

Alice pôs-se a caminho, em busca de uma saída, pois a enrascada era grande. Na sua andança, encontrou certa Lebre de Março, que passava o ano celebrando seu “desaniversário”, pois assim ganhava presente todos os dias do ano. Mais adiante, ela penetrou no jardim da rainha de Copas, que se encolerizava por qualquer coisa, de modo que seus soldados-cartas já ficavam à sua disposição para cortar a cabeça de quem a contrariasse. Foi convidada para jogar cartas com a dita, mas ao ver que ela trapaceava descaradamente, gritou Alice:

A rainha é trapaceira!

O que lhe valeu uma sentença de morte. Por isso, teve que fugir tresloucadamente, procurando uma saída daquele lugar horroroso. Quando imaginava que estava perdida para sempre, uma noz caiu sobre sua cabeça, trazendo-a à realidade.

A verdade é que Alice, incomodada com a perturbação estomacal, e já quase desmaiando, pegou três cogumelos alucinógenos, pensando que fossem folhas de hortelã. Ela não dormiu e tampouco sonhou, como apregoam certos escritores ao contar a sua história para criancinhas, mas teve um surto psicótico. E o que mais a deixa chateada é o fato de terem dado à sua história o título de “Alice no País das Maravilhas”. Que gente maluca! Na verdade, ela esteve no país das (des) maravilhas, com um coelho metido a biscoito de sebo, uma lagarta abilolada, uma lebre com mania de grandeza e uma rainha paranoica. O que não fazem esses escritores para ganhar dinheiro!

O fato é que Alice é hoje uma senhora bem diferente daquilo que foi em sua juventude. Tornou-se uma das mais fervorosas militantes do Exército da Discrição, embora continue trocando folhas de hortelã por cogumelos. Engano esse cometido pela vista cansada, conforme explica a matrona.

Nota: Imagem copiada de mastudopassa.blogspot.com

OS MÚSICOS DE BREMEN E O ROCK IN RIO

Autoria de LuDiasBH

 bremen

Fiel era muito fiel a seus donos como prova seu nome, mas isso não tinha significado muita coisa em sua vida de cão. Enquanto estava na flor da idade, ainda lhe faziam uns dengues, mas agora que a velhice chegara, quando não ignoravam sua presença, os membros ingratos daquela família punham-no, a vassouradas, para fora. Pelo que vira, a ingratidão fazia parte da genética humana. Por essa e por outras, resolveu botar o pé no mundo, abandonando aquela gente. Com certeza nem daria fé da sua ausência. E, além do mais, cacunda de otário é poleiro de esperto, de modo que não iria mais latir a noite toda para espantar bicho ruim e ladrão, pois cachorro mordido de cobra não come mais linguiça. Estava na hora de botar um fim naquele abuso.

Quando Fiel já havia caminhado um bom pedaço de chão, encontrou um burro que seguia cabisbaixo, parecendo não carregar muita crença na vida. Logo o companheiro contou-lhe que estava fugindo de uma olaria, onde trabalhava que nem sovaco de aleijado e, além disso, ainda servia de comida de chicote. Toda a raiva de seu dono era descontada nele, que nem tinha forças para reagir, pois, onde a razão não fala, doido é quem não se cala. Bastando ver na sua cacunda as lanhadas e as marcas das cargas que conduzia. Quando era novo, o dono chamava-o de Riqueza, mas agora que envelhecera, não tinha nome fixo. Numa hora era Preguiça, em outra Moleza, mas o mais comum era Desgraça. Ele precisava fugir dali, pois, quem se encosta a toco, não quer sombra.

Os dois puseram-se a caminho, sem lenço e nem documento, pensando no que poderiam fazer com a própria vida. Conversa vai, conversa vem, acabaram descobrindo que ambos gostavam de música. Fiel, quando jovem, era uma fera no tambor e Riqueza, quando estava muito sorumbático, afastava-se da casa para não incomodar o dono, e punha-se a tocar flauta. Assim, descobertas as habilidades, resolveram que poderiam fazer parte da Orquestra Municipal da cidade de Bremen, pois, o amanhã é sempre outro dia.

Os novos amigos já iam longe, tagarelando sobre o futuro, quando, no acostamento da estrada, depararam com um gato que era só couro e osso. O macambúzio animal também havia fugido de casa. Contou aos viajantes que, quando jovem, era a coqueluche de sua dona, tendo recebido o nome de Fofinho. Mas a mulher passou a parir mais do que dava conta, e não mais tinha tempo para ele, esquecendo até de lhe dar comida. Qualquer coisa que um dos seus moleques fazia, era ele quem pagava o pato, ou melhor, o gato. O marido da dita, com ar de gozação, deu-lhe um novo nome: Surrado. Só Deus sabe quantas surras tomava. Estava na hora de cair fora, pois sapo não pula por boniteza, e sim por precisão. Ao saber do plano dos novos companheiros, resolveu acompanhá-los, já que tocava trompete maravilhosamente bem.

O trio caminhava cheio de esperança numa vida melhor, quando encontrou um galo derribado e pensativo no mourão de uma cerca. Se não fosse pelos três terem chamado a sua atenção, não os teria visto.  Esperava ali o seu fim, já não aguentava o martírio de sua vida. Depois de ser coagido a lutar contra seus irmãos durante certo tempo, assim que começou a fraquejar nas lutas recebeu a sentença fatal: iria para a panela, portanto, só lhe restou fugir de tanta crueldade. Bem dizem que o limão depois de espremido é jogado fora. Sentiu-se constrangido por não saber tocar instrumento algum. Mas logo deram a Sansão a função de cantor. Tinha a certeza de que não faria feio.

Já cansados de tanto caminharem, e a noite também caindo, os quatro amigos avistaram uma casa ao longe, onde poderiam descansar da jornada. Mas, para tristeza do grupo, viram logo que estava habitada. Se fosse por gente de bom coração, que faz o bem sem olhar a quem, até poderia lhes oferecer um pernoitamento. Mas logo a esperança arrefeceu-se, ao descobrirem que ali se escondia uma perigosa quadrilha de ladrões. Só lhes restava tramar um bom plano para colocar os meliantes para correrem. A união faria a força.

Plano acertado. Leal subiu em Riqueza, Fofinho em Leal e Sansão em Fofinho, criando uma figura danada de pavorosa que a luz do lampião projetou na parede da sala, onde o bando jogava cartas. Diante da visão de tão esdrúxula figura, os ladrões saíram estabanados, caindo numa cisterna vazia, coberta com mato, de onde não conseguiram sair. A polícia foi avisada e os ladravazes presos, mas colocados na rua depois de dois anos de bom comportamento. Inclusive se converteram a certa seita no xilindró. Contudo, uma semana depois de soltos, arrombaram dois bancos, retomando a vida criminosa de antes. O comunicador Datena, que comanda um programa policial, mostrou a cara lavada do bando no último sábado. E, de novo, a polícia encontra-se atrás deles. Bem se diz que a impunidade é um convite a crimes maiores.

Mas a história não acaba por aqui, até por delicadeza para com os quatro animais. Com a prisão dos biltres, eles, os animais, tornaram-se manchete em todos os jornais nacionais e internacionais. Uma grande soma em dinheiro, que fora prometida a quem indicasse o paradeiro dos pilantras, seria entregue a eles. Seus antigos donos, na maior adulação e falsidade, tentaram trazê-los para suas respectivas casas, prometendo mundos e fundos. Mas gato, cão, burro e galo escaldados têm medo de água quente, de modo que o quarteto deu aos donos a bunda como resposta. Com o dinheiro montaram a própria banda. Hoje são famosos em todo mundo. A última notícia que saiu na mídia é que irão participar do próximo Rock in Rio. E outra, o galo, além de cantor, aprendeu a tocar guitarra.

Nota: Imagem copiada de www.viajeshoteles.net

PINÓQUIO, O POLÍTICO NARIGUDO

Autoria de LuDiasBH

pin

O senhor Gapeto, um homem bom e honrado, passava os dias fazendo brinquedos de madeira. Enquanto trabalhava, proseava com Grilo Falante sobre o desejo de encontrar, pelo menos uma vez na vida, um político honesto. Andava desanimado com a roubalheira que via de norte a sul e de leste a oeste de seu país, desde que se entendera por gente. Enquanto falava, ia pondo cores na roupa do boneco que trazia nas mãos. Foi aí que certa Fada Madrinha, ouvindo a conversa do bom homem com seu amigo, resolveu realizar o seu desejo de encontrar um político que tivesse ética e amasse seu povo, a ponto de trabalhar por ele cinco dias por semana, pelo menos, e o defendesse. E o que fez ela? Deu vida a Pinóquio, o boneco, e o dom da palavra.

 Pinóquio foi crescendo, ajudando o pai na oficina, enquanto à noite estudava. Lia muitos livros nas horas vagas, tentando conhecer tudo sobre política, coisa que parecia estar no seu sangue. Depois de ler sobre os filósofos da Antiguidade passou para os modernos. Foi chefe de turma, presidente do grêmio de sua escola, membro do conselho tutelar e depois vereador. Na câmara municipal fazia bonito, defendendo os desfavorecidos e elencando as obras necessárias à cidade. Seus discursos deixavam todos boquiabertos, tão grande era a sua sabedoria. Abominava as propagandas mentirosas e lutava para que o prefeito não gastasse verbas com aquilo que imaginava não passar de sua obrigação: fazer um bom governo. E que, ainda por cima, eram recheadas por grandes petas.

João e Gideão, dois importantes políticos do Estado de Pedras Preciosas, viram em Pinóquio um candidato ideal para trazer votos para a legenda do partido que abraçavam. E foi assim que os dois malandros, com muita conversa fiada e promessas descabidas, convenceram Pinóquio a se candidatar a deputado estadual. Uma vez eleito, o político deixou o pai e a cidadezinha onde ganhara vida, e se bandeou para a capital, onde veio a cair numa teia de aranha, num ninho de cobras, num covil de ladrões. A princípio, o moço apelava pela ética, mas acabava votando nas propostas mais bizarras do grupo, onde o que importava era levar vantagem acima de tudo. Acabou sendo eleito deputado federal, a ética virou éter e ele se tornou apenas um deles. Nada mais que isso.

Apesar do desagrado do pai e da indignação da Fada Madrinha, Pinóquio conseguiu ser eleito governador de Pedras Preciosas, desfraldando um monte de inverdades na mídia e atacando veemente qualquer oposição feita a ele. Quem não era ao seu favor, era seu inimigo. Essa era a tônica de seu governo. Mentia e mentia sobre tudo. Falava que as estradas de seu Estado eram as melhores, a Saúde estava maravilhosa, havia leitos para todos os enfermos, os funcionários estavam ganhando muito bem. Sobre a Educação, as inverdades eram ainda maiores: nenhuma só criança em seu Estado estava sem escola, os professores estavam felizes, porque eram os mais bem pagos do país e sua administração gozava da maior respeitabilidade. Tudo mentira. Tudo embuste. O pior é que comprara toda a mídia estadual, fiscalizada com olhos de lince, que só fazia repetir suas mentiras. O jornal que não rezasse na sua cartilha não recebia verba de propaganda. Todos de seu partido ajoelhavam-se a seus pés e só diziam “Amém”.

Gapeto foi procurar a Fada Madrinha, insatisfeito com o andar da carruagem. Ela lhe disse que não tinha como fazer Pinóquio voltar à vida de boneco, ainda mais porque parte do povo estava hipnotizada por sua astúcia.  O único castigo que poderia lhe dar era fazer seu nariz crescer, cada vez que mentisse. E, assim, o nariz do político foi crescendo, agigantando, avultando, alongando, espigando, expandindo… Pois, o homem não cansava de mentir. Ele lorotou tanto, que chegou um momento em que não mais conseguia ficar de pé, pois o peso do nariz desequilibrava o corpo. Virou um brinquedo maluco que não conseguia ficar de pé, ao contrário do João-teimoso. A princípio, alguns bajuladores seguravam-no pelos ombros, impedindo que caísse, mas, quando o nariz tornou-se tão grande, que ele não mais conseguia entrar nos carros e helicópteros, os puxa-sacos deram no pé, como se nunca o tivessem visto, com medo de que lhes acontecesse o mesmo castigo ou por se sentirem constrangidos a seu lado. O político passou a meter o nariz em tudo, coisa que lhe era peculiar, mas diante da situação em que se encontrava, havia ficado insustentável. Tentou uma cirurgia, só que no dia seguinte, após a plástica, o nariz amanhecia do mesmo tamanho em que estava antes de ser cortado.

Vendo seus planos de alçar voos mais altos na política naufragarem e sua locomoção pessoal ficar cada vez mais improvável, Pinóquio resolveu partir para o Pico da Bandeira, onde vive até hoje como monge. E, como não tem mais mentido, seu nariz vem diminuindo a cada dia. Mas um grande medo mora no coração dos pedras-preciosenses, o de que, quando estiver totalmente reabilitado, ele volte para a política, já que o povo tem memória curta, enquanto nos políticos ela é longa até demais, pois, o poder e a vida boa sempre deixam lembranças inesquecíveis. Logo…

Nota: Imagem copiada de www.portaldarte.com.br

O PATINHO FEIO E O PAI HOMOFÓBICO

Autoria de LuDiasBH

patinho

Dona Patonilda fazia parte de uma família extremamente radical e conservadora. Seu marido Patolísio era membro da assembleia federal de Patolândia e, além de arrogante, era um homofóbico perigoso, capaz das maiores crueldades contra aqueles que não rezassem de acordo com a sua cartilha. A senhora pata, ao lado do dito, esperava com muitas pompas o nascimento de seus trigêmeos. Fora lhe reservado um apartamento especial na maternidade que já se encontrava cheio de flores e presentes diversos, pois quem de nada precisa é quem mais recebe dos bajuladores.

Chegando o momento tão esperado, rodeada de uma enorme equipe médica, dona Patonilda nem precisou fazer força para que dois meninos botassem os pezinhos no mundo, num berreiro capaz de competir com as britadeiras. Mas o terceiro serzinho ficou lá, escondido num cantinho do útero, sem querer deixar aquele lugar, onde se sentia tão seguro, como se vaticinasse a sorte futura. Uma enfermeira, adivinhando  a sorte do pequenino, sapecou:

– Será que este molequinho está com vergonha de enfrentar a vida aqui fora?

Alguns minutos depois, nasceu o patinho, numa feiura de fazer dó. Mas dona pata olhou com carinho para seu filhote, imaginando que, com o tempo, ele haveria de se transformar num belo pato e, como o pai, haveria de ajudar a mudar o destino de seu povo galináceo, principalmente quanto a certas “modernidades”, que o marido tanto lutava para erradicar. É fato que ele era amado por uma minoria de seus concidadãos, e odiado pela maioria absoluta, que o via como um radical, um retrógrado, um patológico caso de insanidade.

O patinho crescia diferente dos demais irmãos, que tinham a mesma intransigência e despotismo do pato pai. Excetuando a mãe, todos se importavam com a aparente feiura pequeno, mas odiavam, sobretudo, seus gestos delicados e seu temperamento amistoso e conciliador. Diziam eles que aquilo não era comportamento de macho, mas de fêmea oferecida. O pai, por isso, castigava-o diariamente, inclusive na vista de terceiros. Enquanto dona Patonilda chamava-o de Patinho Feio, o pai e os irmãos apelidaram-no de Patinho Boiola.

Por todos os lados da mansão que o Patinho Feio passava, só ouvia zombarias, pois seu pai se encarregara de tornar público a sua ojeriza pelo filho, levando seus amigos a zombarem dele, achando que assim mudaria seu comportamento. Até pensara em consumir com ele durante uma pescaria, sob a desculpa de que morrera afogado, mas como se dizia temente a Deus e um grande defensor da família, pegaria mal se fizesse aquilo. O que pensariam seus fiéis e radicais eleitores? E, além do mais, todos sabem que patos nadam muito bem. Veria o que poderia fazer no futuro, para que o filho não derrubasse sua plataforma eleitoral.

Não mais suportando tanto castigo e sarcasmo, o patinho resolveu abandonar a vida de luxo que levava sua família, com o dinheiro público, é bom que se diga, e partir para um lugar onde fosse amado e respeitado, apesar de que o desconhecido sempre o apavorara. Mas nada poderia ser pior do que a vida que ora levava. Iria para um país chamado Suécia, onde, segundo lhe disseram, as pessoas eram respeitadas, indiferentemente de serem isso ou aquilo. E assim, com a ajuda da mãe, rumou para lá, em busca de uma vida nova.

Na Suécia, o pato em questão, arranjou um emprego numa fábrica de tecidos, onde passava o dia criando estampas para novas padronagens, pois sua criatividade era sem limites. Embora não fosse ridicularizado por ninguém, sentia-se muito só naquele país estrangeiro. E foi assim que resolveu aproveitar o domingo para conhecer um dos parques de Estocolmo, onde um lago de águas azuis enfeitava a paisagem de grande beleza.

O Patinho Feio começou a observar outros patos que ali se encontravam e reparou que todos eles tinham os mesmos movimentos delicados que ele, e não sentiam nenhuma vergonha de serem assim. Ao contrário, mostravam-se muito alegres. Eram belos e majestosos, além de sorrirem muito, como se o mundo fosse para eles um paraíso.  Alguns patos rodearam-no e lhe disseram:

– Você é um dos nossos!

– Não, não sou! Eu sou um pato desengonçado e esquisito. Meu pai até me chamava de “boiola”, porque sentia vergonha de mim – retrucou o patinho.

– Nada disso! – respondeu um dos presentes no grupo – Seu pai é um homofóbico. Um ser grosseiro e rude, fora de seu tempo, assim como os que o aplaudem.

O patinho, com os olhos marejados, tentava sorrir, ouvindo as explicações dos novos amigos. Um deles complementou:

– Companheiro, nós somos diferentes, é verdade. Nossos movimentos são graciosos e nossa beleza e inteligência chamam a atenção, onde quer que estejamos. Nós somos cisnes!

O Patinho Feio mirou-se nas águas azuis do lago e concluiu que também era um cisne. E se pôs a imaginar como seu pai poderia ocupar um cargo tão alto no seu país, em pleno século XXI, desrespeitando as diferenças, enquanto no país que escolhera para viver, a igualdade estava exatamente no reconhecimento e respeito pelas diferenças, o que tornava todos iguais diante da vida.

O patinho-cisne partiu de mãos dadas com o seu novo amigo. Talvez começasse ali uma linda história de amor.

(*) Imagem copiada de depressaoepoesia.ning.com