Arquivos da categoria: Corpo e Mente

Filosofias e conjunto de práticas físicas, psíquicas e ritualísticas que buscam um estado de harmonia e equilíbrio físico e mental.

CONHECENDO A MUSICOTERAPIA

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos fala sobre as maravilhas da música.

Você que está querendo melhorar dos nervos não pode ignorar o que se chama musicoterapia, ou seja, a terapêutica com o auxílio da música. Não é apenas a nós que a música tem o poder de comover. Na Índia, experiências revelaram que as plantas tratadas com música mostraram mais vigor, maior crescimento e produtividade. Conta a mitologia grega que Orfeu, músico e poeta da velha Trácia, fascinava com seus cânticos à lira, não somente as pessoas, mas os animais, as plantas e até mesmo as pedras. A musicoterapia, apenas em nome, é recente. Conta a Bíblia que, quando o espírito mau tomava o Rei Saul, era David que, com sua harpa, praticava o exorcismo, e o espírito mau tendo se afastado, dava lugar à saúde e à paz do rei.

Já no século VI antes de Cristo, o sábio e misterioso Pitágoras para alguns, o Divino Pitágoras, aos olhos felizes de seus discípulos, para quem “a alma era tida como a harmonia do corpo; a virtude, a harmonia da alma; a saúde, a harmonia de cada um dos elementos da vida corpórea”, prescrevia música e ginástica como elementos propiciadores da felicidade humana. E, segundo narração do escritor italiano Boethius, um dia um jovem, sob um forte ataque de ira, tentou atear fogo na casa. Por um amigo foi levado à presença de Pitágoras. Esse fez com que se mudasse o tom de certa canção que estava sendo cantada e isto foi o bastante para fazer o colérico readquirir a sobriedade. Pitágoras curava ira, medo, ambição, vaidade, violência, depressão, usando música, pois com ela conseguia rearmonizar o ânimo. Era formado um círculo com pessoas a cantar e no centro, um tocador de lira. Aí se processava o milagre da rearmonização das almas e, consequentemente, a melhora de sintomas físicos.

Desde os tempos mais recuados até hoje, os Mestres de Yoga, na Índia, ensinam mantrans (vibrações sonoras) a seus discípulos, os quais, devidamente emitidos, produzem efeitos em diversos planos da criação, em razão da onipresença da vibração sonora. São muito variados os propósitos dos mantrans. Vão desde a adoração da divindade à obtenção de poderes paranormais; ao afastamento dos maus espíritos e à preparação de águas curativas; à influência sobre o pensamento e a ação de terceiros; ao controle sobre homens, animais… até a purificação do corpo humano e cura de doenças.

Voltemos ao conceito de musicoterapia. “A crença nas forças mágicas da música foi manifestada de modo curioso entre os gregos antigos. Os sacerdotes que exerciam também a medicina, incluíram a música em seu processo de tratamento, desenvolvendo-se então a doutrina ético-musical. Etos – significa estilo de música, no seu caráter tonal, na sua faculdade de influir no equilíbrio corporal e psíquico do homem. O Etos deu origem ao diastáltic, que induzia a ações heroicas; ao hesicástico que objetivava a conservação do estado de equilíbrio espiritual; e ao sistáltico que suprimia a vontade consciente e abria caminho livre às paixões violentas. Associados em um só grupo, destinavam-se à musicoterapia e, nas especulações pitagóricas, eles foram relacionados com corpos celestes, com as nove musas, com o temperamento e com entidades cósmicas e místicas…” — (Hebe Machado Brasil, “Musicoterapia”)

A doutrina ética foi continuada pelos povos do Islã. Os árabes curavam temperamentos sanguíneos, linfáticos e fleumáticos com as vibrações do alaúde de quatro cordas. Na atualidade, destaca-se o trabalho do Instituto de Terapia Musical, dirigido por Aleks Pontvick, na Suécia. O mesmo médico aproveitou uma igreja velha que os metodistas haviam abandonado e instituiu um repouso de fim de dia para os homens fatigados. Ao crepúsculo, um organista executa Bach, somente Bach, que o magnânimo Pontvick considera o melhor remédio para o relax nervoso. Em quartos individuais acusticamente isolados, as pessoas ouvem música através de alto-falantes disfarçados, pois faz parte do tratamento não identificar a fonte musical. O “medicamento” mais usado é Bach. No entanto, em casos especiais, também são administradas “doses” de Mozart, Beethoven e Haydn.

O Pilgrim State Hospital de Nova York é o maior centro mundial onde se faz musicoterapia. Nele, a música pode ter como propósitos: “acalmar e descansar, aliviando tensões; uma oportunidade satisfatória para a autoexpressão, além de oportunidade para o desenvolvimento de um interesse ativo e construtivo; eliminar preocupações do paciente consigo mesmo e levar sua mente a realidades mais ativas; estimular a capacidade de concentração; criar uma influência socializadora em uma atmosfera agradável para ajudar o desenvolvimento da cordialidade e de reações aceitáveis, assim como para eliminar o procedimento antissocial; contribuir para o controle e coordenação muscular e, em certos casos, para o estímulo de atividade física, através do ritmo; tornar possível a eliminação de um isolamento imposto pela doença e ajudar o paciente a recuperar confiança e segurança, trabalhando com outros e ajudando outros, adquirindo, assim, orgulho pelo grupo e por si próprio; procurar constantemente firmar a música como uma animadora de experiência e de inspiração”.

Pode-se ler de Hebe Machado Brasil: “… a eficácia da musicoterapia é indiscutível, não só nas doenças emocionais, como também na pressão arterial que, segundo Thompson e Vicente, sofre influência da Música. Se repetimos uma mesma melodia, temos a estabilidade da pressão arterial. O que não sucederá se alterarmos bruscamente o andamento de uma peça musical – dar-se-á, então, uma queda brusca, tão grande que poderá ser fatal para o organismo humano”.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: Rapsódia Azul, obra de Leonid Afremov

O PODER DA ERGOTERAPIA

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos mostra que o vazio atrai o tédio.  

Enquanto o homem não inventara a agricultura e vivia somente da coleta, caça e pesca, tinha uma vida árdua e totalmente ocupada com o estômago e com o abrigo. Era obrigado a um viver nômade, sem pouso nem descanso. Inventada a agricultura, portanto, sentindo-se mais independente da natureza, à qual passou a obrigar a fornecer-lhe alimentos, em tribos e famílias, começaram os homens a fixar-se, iniciando-se dessa forma, a vida sedentária. O sedentarismo deu começo à civilização, pois proporcionava ao ex-nômade uma folga, um tempo de lazer, já que não era totalmente necessário lutar ininterruptamente pelo alimento e, assim, nos momentos de ócio, dedicou-se à arte. E o pensamento se desenvolveu.

Quem é obrigado a buscar o pão de cada dia, sem um pingo de folga, que possibilidades tem de meditar, de criar e de inventar algo melhor? O lazer do homem primitivo criou e desenvolveu a ciência, a filosofia e a arte. O mesmo tempo vago que impulsionou o ser humano para cultivar o espírito e desenvolver a mente tem sido hoje, no entanto, responsável pelo desequilíbrio dos nervos e sofrimento mental de muitas pessoas. Não é raro encontrar quem, ou por atitude neurótica ou por abastança financeira ou por educação errônea, nada ou pouco faz de útil. Os empregados fazem tudo. O tempo sobra, sobra demais. O vazio atrai o tédio. Assim como para a depressão do terreno correm as águas da chuva, o tédio corre para o coração do ocioso. Com o tédio pode vir, quase sempre, a distonia do simpático e a psiconeurose.

Sou conhecedor de muitos casos de oficiais das forças armadas que, aproveitando a suposta vantagem de uma reforma do serviço ativo quando ainda relativamente jovens, dentro de poucos meses de inatividade, viram-se presas do sentimento de inutilidade e frustração. Alguns arranjaram um novo emprego e, assim, conseguiram manter o equilíbrio emocional.

Se por quaisquer circunstâncias você está desocupado, vendo monótonos dias se arrastarem morosos e improdutivos, se o “fazer nada” está enchendo-o de tédio, recorra àquilo que é chamado de terapêutica ocupacional ou ergoterapia. “Ergo” significa trabalho. Assuma a responsabilidade por um afazer qualquer. Comece a sentir-se capaz. Trate de criar alguma coisa. Isto o aliviará. Adquira pincéis e tintas e pinte. Aprenda um instrumento e faça música. Cuide do canteiro. Arrume a casa. Mas a ocupação que lhe dará mais significativas e profundas horas de bem-estar, integração e equilíbrio psíquico é a que lhe der oportunidade de sentir-se útil e, melhor ainda, ser necessário a alguém.

 Garanto que uma senhora infeliz e inutilizada pela vida de conforto e lazer excessivos, gozará de grande alegria espiritual se dedicar seus dias à assistência social. Quem sentir sua presença fazendo nascer sorrisos em faces tristes e suas palavras transmitindo esperanças novas aos desalentados, ou quem, por necessidade de ajudar, surpreender-se pedindo a Deus que lhe dê forças para melhor prestar serviço, atingirá os planos onde a felicidade é autêntica e indescritível e forças lhe serão concedidas.

É o serviço inegoístico, o que liberta e integra o psiquismo. Trabalhar para si e para os seus evita o tédio. Mas somente seva, isto é, o servir aos outros em nome do Supremo é que nos conduz à bem-aventurança. A caridade que é tida por alguns como o único meio de salvação é diferente do que se chama Karma Yoga. Qualquer que seja o interesse egoístico que motive o servir aos outros, pode reduzir o valor espiritual do trabalho, mesmo que este interesse seja ganhar o céu.

Fazer “caridade” por ostentação, como “hobby”, porque está na moda ou por mero passatempo e mesmo para salvar-se e ganhar as bênçãos de Deus e galgar o céu, espiritualmente, é ação ainda frustradora por ser egoística. Mas, é bem melhor do que o ócio e a vadiagem. Ocupe seu ócio com o servir Deus, na pessoa de seu próximo. Isto sim é solução. Ofereça ao Senhor Supremo o fruto do seu agir. Não se reconheça credor de retribuições. Esta é a mais eficaz terapia ocupacional.

É legítimo e sadio, ganhar profissionalmente seu sustento. Mesmo que você receba remuneração pelo que faz, devote a Deus o que faz e faça tudo em Seu Santo Nome e para Sua Glória. Tire de sua ocupação o necessário para si, mas faça de suas obras, de seus atos, de seu agir no mundo oferendas ao Onipresente.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: Bailarina, obra de Anita Malfatti

INST. MUSICAIS E ESTADO D’ALMA

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos fala sobre as maravilhas da música.

Os instrumentos musicais causam efeitos específicos no ser humano e, por isso mesmo, segundo conclusões de Arosta: os melancólicos e linfáticos deveriam escutar solos de violino; os nervosos se beneficiariam com solo de contrabaixo ou de clarineta; a harpa seria indicada nos casos de histeria; os maníacos de perseguição se beneficiariam com a trompa; a flauta consolaria os apaixonados incorrespondidos; os excitados encontrariam calma com o violoncelo, os neurastênicos seriam estimulados pelo contrabaixo e o piano ajudaria a extravasão psíquica.

Mitcheli e Zanger, médicos londrinos, acham que os diferentes estilos também atuam de modo específico. Utilizando-nos de suas conclusões é que fazemos as sugestões seguintes: Escute o estilo clássico, a fim de enriquecer-se da sensação de segurança. Se pretende libertação emocional, escute peças românticas. O estilo impressionista, embora não tendo valor terapêutico nitidamente específico, estimula o interesse dos mais apáticos. A música contemporânea é irritante, mas consegue evadir o esquizofrênico de seu autismo, de seu isolamento, fazendo-o cair de dentro de si.

Você pode se utilizar do valor terapêutico da música:
a)compondo-a;
b) executando-a;
c) cantando-a;
d) ouvindo-a.

Quanto ao primeiro caso, deixo de comentar, pois se trata de algo muito especial e privilégio de poucos. Um instrumento musical tocado por nós mesmos, seja um pandeiro, uma guitarra, uma gaita de boca, seja um piano, violino ou harpa e, na pior das hipóteses, mesmo um assobio, é algo que nos alegra e nos faz esquecer, por um momento, alguma vicissitude, portanto, nos retempera, refresca e areja. Quando é o caso de um verdadeiro instrumentista, as horas de estudo se comparam em intensidade e concentração espiritual a uma eucaristia. No final não importa se o instrumento é um órgão e a obra é de Bach ou se é um simples cavaquinho nas mãos de um trabalhador tocando música popular junto à fogueira. O efeito da expressão musical de seu estado d’alma é o que importa. Se puser amor na execução, está fazendo musicoterapia.

Para efeitos terapêuticos, a melhor forma de escutar música é sentar-se em recolhimento, comodamente, fechar os olhos, aquietar-se, afrouxar o corpo e entregar-se à música. Se conseguir manter atenção ininterrupta, melhor. Isto nem todos conseguem. O que você deve evitar é fatigar-se lutando por concentrar-se. Pode deixar sua mente vagar. De quando em quando, sem luta, volte à música. Música faz bem até quando você presta atenção a outra coisa. Suas vibrações, de qualquer maneira, estão influenciando seu mundo interior e até mesmo o tom vibratório de suas células. Sempre que puder ouvir música suave e calmante, prefira-a à rítmica e agitada. Se por qualquer circunstância se sentir aborrecido e mentalmente fatigado, vá para sua música.

Alguns me perguntam se eu associo música às aulas de Yoga. A resposta é “não”. Principalmente nos exercícios de meditação e no relax procuro não depender de música, a fim de escutar o mundo interior que é também sonoro. Refiro-me ao som nada, provindo de vibrações de níveis universais muito quintessenciados. Ao fazer Yoga, procuro silêncio. Mas em todas as minhas classes, os alunos e eu cantamos a sílaba OM que, misticamente entendida, é o som fundamental do universo e o símbolo sonoro do Absoluto, enquanto que, para quem entende de eletrônica, é um “som branco”, isto é, de baixa frequência e consequentemente calmante. É induzente à vida interior.

Resta-me sugerir um excelente calmante para os nervos que são as vozes da natureza. Os pássaros, livres nas matas, cantando; o balido de ovelhas; o mugido das vacas; o vento soprando nas árvores; as ondas batendo na praia; o pio de uma gaivota vagabunda; as clarinadas dos galos dentro da madrugada; a disritmia sedativa dos chocalhos no pasto; a cantiga do regato nas pedras da encosta; finalmente toda uma sinfonia gostosa, calmante, enlanguecedora, pode ser buscada para serenar os nervos, numa forma de musicoterapia que existiu desde os primórdios da criação. Se não fosse por outros motivos, os fins de semana no campo se justificariam somente por esta musicoterapia propiciada pela natureza.

Aos que não têm casa de campo e, portanto, estão impossibilitados de aproveitar os valores terapêuticos das manifestações sonoras dos lugares aonde os ruídos industriais ainda não chegaram, o recurso é a excelente prática sedativa e quase hipnótica do nispandha bhava (ver pág. 327 do meu livro). Aos que não têm como se defender da ação arrasadora das músicas selvagens dos moços, assim como de toda a cacofonia dos ruídos de uma grande cidade e mesmo das vozes irritantes de pessoas com quem vivem, o Yoga ensina a prática de tapas (pág. 171) e lembre-se: a) “receba as coisas como lhe vêm”; b) “tudo é necessário”.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: Melodia sem Fim, obra de Leonid Afremov

A BENDITA TERAPIA DO PERDÃO

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos ensina o que significa perdoar.

Quando menino, um dia comi uns bagos de jaca e quase morri de indigestão. O alívio sobreveio quando vomitei o conteúdo maléfico do estômago. Em muitos casos de doenças psicossomáticas, o mesmo pode ocorrer. Basta que consigamos “vomitar o conteúdo maléfico” que está na mente, danificando nossa vida, criando sintomas. Ksahm é o nome de um milagroso remédio. Significa perdão, misericórdia.

Este “conteúdo maléfico que está na mente” é, muitas vezes, a mágoa ou o ressentimento. E consegue-se “vomitá-lo” com o ato de perdoar. Refiro-me a perdoar mesmo. Diz o escritor Maxwel Maltz em “Liberte Sua Personalidade” que a personalidade “tipo fracasso”, quando procura uma desculpa ou bode expiatório para seu malogro, quase sempre culpa a sociedade, a vida, a sorte. Ressente-se do êxito e da felicidade dos outros porque constituem para ele uma prova de que a vida o está “defraudando”.

Este é o tipo ressentido que lê em voz alta uma reclamação em cada página do livro da vida, que tem uma queixa a fazer contra cada um de seus semelhantes. Tive um aluno assim. Seu ressentimento era tão permanente e presente que se tornava antipático a todos que o conheciam, os quais, como imagem refletida num espelho, tratavam-no também de maneira pouco simpática, fazendo-o assim mais ressentido.

Tal é a vida do “zangado com os outros”. A todos mostra sua carranca magoada e, em troca, recebe também carranca, o que o faz ainda mais franzir a cara. Círculo vicioso perfeito. O ressentido é geralmente portador de complexo de superioridade. Está sempre reclamando. Faz como se intimamente dissesse: “Logo eu, tão bom, tão importante, é que sou tratado assim?!” As pessoas, contra as quais tem queixa, são-lhe todas muito inferiores, segundo seu julgamento.

No fundo, ressentimento é uma desculpa para um autofracasso em qualquer aspecto da vida. Enquanto alguém fizer de sua mente ou de seu coração um depósito de queixas, ressentimento ou ódio estará sempre doente. Seus nervos sempre lhe serão um tormento. É a mesma coisa que guardar veneno ou esconder dentro de si mau cheiro de carniça. Neste caso, só o perdão terapêutico resolve.

O verdadeiro perdão – o terapêutico – é tão raro que muitas pessoas, a quem foi ensinado perdoar como quem toma remédio, acabam por dizer: “Perdoei, mas não melhorei!”. O perdão terapêutico não é tíbio, limitado ou parcial. Ao contrário, é generoso, bravo e total. Tão completo que quem perdoa esquece o ato ofensivo e nem mais se lembra de que perdoou. Quem diz “Eu perdoei, mas não consigo esquecer o que tu fizeste!” realmente não perdoou. Só há perdão quando já não se sabe mais o que foi perdoado. Também não perdoa aquele que diz: “Não te esqueças de quanto fui bom ao te perdoar!”.

“O perdão que é lembrado, mantido no pensamento, infecciona de novo a ferida que pretendemos cauterizar. Se você se sente muito orgulhoso de seu perdão ou o relembra frequentemente, isto é porque, com certeza, acha que a outra pessoa deve-lhe alguma coisa por você a ter perdoado. Você perdoa-lhe uma dívida, mas ao fazê-lo incorre em outra, mais ou menos como acontece com as pequenas companhias de financiamento que reformam uma promissória de duas em duas semanas.” (Maltz; Opus cit.).

Perdoe também a si mesmo. Conheço, entre meus alunos, senhoras e senhores que levaram uma longa vida de austeridade e retidão, sendo impolutos e honrados. Através de tremendos sacrifícios frequentes evitaram cometer os mínimos enganos ou pequenos deslizes. Lá um dia, por invigilância ou por outro qualquer motivo próprio da natureza humana, erraram o passo, praticando um pequeno desvio do dever e aí se sentiram como que destruídos perante si mesmos, caíram em arrasador abatimento, do que resultou sofrimento moral e, consequentemente, distúrbios funcionais orgânicos.

Sem hombridade, sem honradez e sem retidão este mundo será um inferno. É preciso que existam aqueles em quem se pode acreditar. A humanidade sem pessoas de caráter nobre viraria pântano de mau cheiro e incerto. Abençoados os honrados que dão estrutura e consistência à sociedade. Que a probidade deles, no entanto, não lhes seja tormento. Que a retidão não lhes pese como um sacrifício. Que sua inflexibilidade não os arrisque à brusca destruição diante de um pequeno pecado. Que a austeridade não lhes venha a ser prejudicial. Desde que somos seres humanos e vivemos num mundo humano (ou desumano), precisamos dosar nossa obsessão pelo dever com a prudência de não sermos demasiadamente severos diante de nossas quase inevitáveis quedas.

A linha de equilíbrio e da saúde corre, na vida, equidistante da autoseveridade dos probos e da autocomplacência dos canalhas. Para tanto, é preciso que o austero aprenda a necessidade de perdoar a si mesmo e não somente aos outros. Remorso ou autocondenação em demasia causam tanto mal como o mal que pretendem evitar.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: imagem copiada de gethashtags.com

DEPRESSÃO E CELEBRIDADES

Autoria de LuDiasBH

Qualquer pessoa pode ter depressão, mas muita gente jura de pé junto que não tem. O preconceito é o maior dos problemas. (Paula Fernandes)

 Depressão é uma doença que atinge qualquer pessoa e nada tem a ver com a fé. (Pe. Marcelo Rossi)

 Enxerguei que o mais importante é ter pessoas que você ama por perto e procurar ajuda profissional. (Rebeca Gusmão)

 Eu não me sentia confortável com o trabalho. Isso se juntou ao sentimento de inadequação. Eu estava confuso, em crise com a profissão, sentindo-me mau ator, feio e triste. (Selton Mello)

 Depressão é o segredo que toda família tem. (Andrew Solomon)

Nós, seremos humanos comuns, temos a tendência de glamorizar a vida dos famosos. Achamos que por terem dinheiro e fama são também contemplados com a felicidade absoluta, como se deuses do Olimpo fossem ou afilhados desses. Engano absoluto! Muitas vezes, a luta para manter o sucesso a qualquer preço – num mundo extremamente competitivo e de flagrantes altos e baixos – é um desencadeador dos mais diferentes transtornos mentais, sendo a depressão uma constante.  Alguns famosos menos informados tentam manter a doença escondida, achando que torná-la pública poderá afetar sua imagem, mas a maioria relata-a até mesmo como uma forma de ajudar as pessoas comuns.

Não são poucos os famosos que já sofreram depressão ou que ainda se encontram em tratamento. Dentre esses podemos citar: a cantora sertaneja Paula Fernandes que se viu acometida por tal transtorno ainda na sua infância; a ex-nadadora Rebeca Gusmão; o ator e diretor Selton Mello; a atriz Adriane Esteves; a cantora Selena Gomez; o jornalista Jorge Pontual; o padre e cantor Marcelo Rossi; a cantora e atriz Demi Lovato; o ator e comediante Jim Carrey; a cantora Deborah Blando; J.K.Rowling, autora de Harry Potter; o cantor Justin Bieber; a atriz Cassia Kiss; a cantora Lady Gaga; o escritor Andrew Solomon  e a falecida princesa inglesa Diana, dentre muitos outros.

Todos os famosos que vieram a público falar de seu transtorno depressivo deixaram bem claro que a melhor forma de combater (ou até mesmo conviver) uma doença que acomete uma fatia cada vez maior de pessoas em todo o mundo é desmistificá-la.  Em razão disso alertam que a depressão não é uma tristeza “muito grande”, mas, sim, uma doença que precisa ser tratada. Segundo a psicóloga Andréa Ferreira “A depressão é mais complexa que a tristeza. Ela se caracteriza como um fenômeno interno do indivíduo, e possui sintomas e uma duração maior que uma tristeza”.

A sociedade precisa compreender que a pessoa acometida pela depressão não pode ser vista como alguém que tem preguiça de melhorar. Segundo o escritor Andrew Solomon, um estudioso da depressão e que faz palestras sobre o assunto em todo o mundo, o depressivo sabe que algo está errado consigo, mas ele não tem forças para agir diante dos sintomas. Assim explica Solomon (autor de O Demônio do Meio Dia): “Sabemos que isso é ridículo. Sabemos disso, quando a vivenciamos. Sabemos que a maioria consegue ouvir as mensagens, almoçar, tomar banho, sair de casa, e que não é nada demais. Ainda assim, você fica inerte e incapaz de pensar em uma saída”.

Depois de lerem este artigo, caro leitores, vocês não mais pensarão que o transtorno depressivo é uma doença que acomete apenas os seres mortais comuns, jamais iluminados pelos holofotes da fama, pois O a depressão é uma doença democrática que aflige anônimos e famosos. Quando os últimos expõem suas histórias de sofrimento com o transtorno depressivo, dão um grande exemplo àqueles que acham que são os únicos a lutarem contra esta doença que afeta, cada vez mais, um grande número de pessoas em todo o mundo.

Nota: Abandono, obra de Oswaldo Goeldi

Fonte de pesquisa
Guia 301: Dicas para não ter depressão / Editora Online

DEPRESSÃO E PAPEL DA FAMÍLIA

Autoria de LuDiasBH

As pessoas deprimidas podem despertar sentimentos de culpa, raiva, impotência e frustração nos familiares, que podem ficar ressentidos e com dificuldades de entender o que está acontecendo com a pessoa. (Dra. Andrea Ferreira)

Tem sido muito comum o recebimento de comentários neste espaço de pessoas com transtornos mentais que se dizem incompreendidas por suas famílias. Enquanto algumas das famílias minimizam o problema, achando que o doente não necessita de ajuda médica, outras partem para o deboche, chamando o transtorno de chilique, faniquito nervoso, fricote, denguice, vitimização, bobagem e por aí vai. Sabemos que isso se dá, não por indiferença, mas por conta da falta de informação no que diz respeito às doenças mentais. Urge que os governos façam campanhas na mídia para que tais doenças sejam compreendidas e, consequentemente, deixem também de ser estigmatizadas, como ainda acontece.

A família tem um papel fundamental na vida de uma pessoa depressiva, pois a doença  torna-a mais arredia, com a autoestima baixa e faz com que tenha dificuldades para viver em grupo, achando que não é bem quista.  Essa rejeição – que muitas vezes só acontece na cabeça do doente – exige afeto redobrado para que ele se sinta aceito e amado, minorando, assim, o seu sofrimento. Ao compreender que a depressão é uma doença séria que jamais pode ser subestimada, a família caminha junto com o ente querido, vítima do transtorno, em busca de uma vida com qualidade. Assim que perceber os primeiros sintomas, ela deverá ajudá-lo a buscar tratamento, pois quanto mais cedo fizer isso, menor será o sofrimento da vítima do transtorno mental.

O isolamento é um comportamento típico dos depressivos, contudo, a família não pode agir do mesmo jeito, deixando o doente no “seu cantinho”, dizendo não querer incomodá-lo, vendo isso como uma escolha de vida pessoal. A psicóloga Pamela Magalhães explica: “Muitas vezes, o depressivo pode ficar mais irritadiço e, dessa forma, acabar se isolando, o que faz parte da patologia. A família precisa entender que não pode entrar nessa dinâmica”. Os familiares em volta também jamais deverão agir com agressividade, o que somente agravará os sintomas, tornando a pessoa ainda mais arredia e sem esperança. Quanto mais carinho e compreensão, melhores serão os resultados.

É comum o fato de muitas famílias usarem o parente doente com transtorno mental para justificar o não cumprimento de seus compromissos, o que o faz sentir-se como um peso. A psicóloga Andréa Ferreira explica: “A família deve manter sua rotina dentro do possível, envolver-se em atividades que interessem e manter os compromissos sociais, ciente de que não deve se sentir culpada pelo estado da pessoa, mas, sim, apoiá-la para que supere esse estado”. Além disso, os familiares devem acompanhar de perto o tratamento do doente, demonstrando interesse e zelando para que ele não abra mão da medicação e da terapia (quando esta for indicada), conforme prescrição médica.

A família deve estar atenta a alguns pontos, tais como:

  • Ajudar o familiar depressivo a compreender o momento pelo qual passa, incentivando-o a buscar ajuda médica, pois se trata de uma doença séria.
  • Respeitar o doente, sem jamais minimizar o problema, dizendo que “não é nada”. Deve lhe mostrar que sabe que seu sofrimento é real, mas que terá ajuda.
  • Estar sempre pronta a ouvir o familiar, quando ele quiser se manifestar, procurando ouvir mais e falar menos.
  • Compreender seus momentos de introspecção, ao não querer expor seus sentimentos num determinado momento.
  • Acompanhar as mudanças no seu comportamento, principalmente no início do tratamento, levando ao conhecimento de seu médico aquilo que notar que não se encontra dentro do esperado.
  • Deverá envolver o familiar doente em afeto e compreensão, servindo sempre de suporte emocional.

Nota: A artista e sua Modelo, obra de Edvard Munch

Fonte de pesquisa
Guia 301: Dicas para não ter depressão / Editora Online