Arquivos da categoria: Corpo e Mente

Filosofias e conjunto de práticas físicas, psíquicas e ritualísticas que buscam um estado de harmonia e equilíbrio físico e mental.

O QUE É SER NORMAL?

Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos fala sobre o que realmente é ser normal.

Se você responder que sua cura é voltar a ser normal, eu ainda lhe pediria que meditasse um pouco sobre o que é ser normal. O que você chama de normal?

Esta pergunta não tem recebido resposta plenamente satisfatória. Ninguém pode dizer com infalibilidade o que é ser normal ou quem é normal. O critério considerado mais científico é o estático, segundo o qual o normal é tudo aquilo que está dentro da norma, isto é, da faixa do mais frequente numa coletividade ou numa coleção. O anormal é o oposto, isto é, o menos frequente. Na loura Finlândia, por exemplo, um negro é uma anomalia. Nas selvas da Nigéria, um louro também o é.  Jesus, Sócrates, Gandhi, Luther King, por exemplo, foram “marginais” ou anormais nos ambientes e nos tempos em que viveram. Todo marginal cria problema: sejam os de baixo (delinquentes) sejam os anormais de cima, isto é, os santos e os sábios.

Aquele que é normal é geralmente bem ajustado à coletividade, pois se acomoda à mesmice dominante; afina-se pela vulgaridade; tem o mesmo comportamento, os mesmos interesses, as mesmas limitações, os mesmos defeitos, os mesmos gostos da maioria e até mesmo os mesmos ideais.

É ponto pacífico em ciência dizer-se que, em maior ou menor grau, somos todos neuróticos. Assim, o comportamento neurótico, pode-se concluir, é normal na sociedade. Não lhe cause isto alarma ou protestos, pois, na verdade, quanto mais econômica, técnica e politicamente desenvolvida uma sociedade, mais grave sua condição neurótica. Em “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”. Erich From começa por demonstrar, estatisticamente, ser a frequência de suicídios, homicídios e alcoolismo, bem maior (normal, diríamos) nos países como os EE. UU., altamente desenvolvidos em tecnologia e cujo padrão de vida do povo é muito alto. Para ele, a sociedade contemporânea está doente e todo indivíduo bem ajustado a ela não deixa de, consequentemente, ser um doente. Seu livro é um tratado sobre a patologia da normalidade.

Ao dizer tudo isto, pretendi fazer você deixar de lamentar-se por sentir-se anormal. Problemas psíquicos e orgânicos não são privilégios seus. Seus contemporâneos, seus familiares, seus colegas de escritório, o homem da rua e até possivelmente seu conselheiro espiritual, pelo fato de viverem na mesma cultura, porque não passam de meros seres humanos, também são tíbios e vulneráveis a assaltos de angústia, sofrem de carências e imperfeições, cometem erros e deslizes, têm certas fobias, padecem desgostos e algumas vezes fracassam. Esta é a norma. O normal é a instabilidade da saúde orgânica, o desajuste e insatisfação psíquica e o sofrimento moral.

O que tem tirado sua coragem, sua vontade, a esperança e o respeito por si mesmo pode ser um estado de espírito, um vício que, embora você não saiba, é normal entre os seus companheiros de humanidade. Não ligue para quem (inclusive você mesmo) farisaicamente lhe apontar o dedo duro, acusando-o de fraco, pecador, neurótico, errado, desajustado…

Todos, dentro de certos limites, somos frutos do meio em que vivemos. É preciso ser muito vigilante, hábil e corajoso para conseguir salvar-se da normalidade enfermiça, isto é, da mesmice niveladora e tiranizante. Quando a sociedade elevar o padrão de suas normalidades, então seremos por ela ajudados a evoluir em nós mesmos. Mas esta sociedade sã, infelizmente, ainda é utopia.  Por enquanto, o que nos convém mesmo é acautelarmo-nos contra um ajustamento exato e automático, cômodo e inconsciente a esta sociedade na qual estamos inseridos. O que nos protege não é exatamente sermos normais. E preferível muitas vezes o desajuste do que a acomodação cega ao ambiente. Ser diferente é profilaxia contra a normalidade doentia.

No plano do corpo, o conceito de normalidade é mais preciso e mais simples do que no plano psíquico. Quando as funções orgânicas se realizam em harmonia, cada órgão perfazendo a contento seu papel específico na economia orgânica, isto é, enquanto funcione bem a capacidade autorreguladora, autocurativa, auto energizante do corpo, o organismo estará reagindo ao meio interno e ao meio externo de maneira normal, e isto é saúde.

Na verdade, porém, não podemos falar separadamente em saúde mental e saúde orgânica. A divisão do homem em corpo e alma é hoje, já o sabemos, uma noção obsoleta. A ciência está dizendo que mente e corpo, matéria e espírito, constituem unidade. Reafirmo a conveniência de que você pense um pouco antes de cair presa da ânsia de ficar bom, de tornar-se normal, de superar logo suas imperfeições e fraquezas. Não seja intransigente com ninguém e principalmente consigo mesmo. Deixe de se horrorizar com suas quedas e crises. Lembre-se de que muita gente por você tida como curada, normal e mesmo perfeita também carrega uma cruz, também cai e levanta-se e novamente tropeça…

*Esse livro é encontrado em PDF no Google.

Nota: A Siesta, obra de Van Gogh

O PODER DA IMAGINAÇÃO

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ensina-nos o que fazer para nos livrarmos dos pensamentos negativos.

Vigiar a imaginação, procurando não a reprimir, mas conquistá-la, é fundamental para uma vida serena, produtiva e sã. A imaginação é a melhor serva, quando conquistada, mas é a mais tirânica e doida senhora, quando solta e impura. Ninguém desconhece as mil e muitas enfermidades que nascem e crescem, graças à imaginação mórbida. Não é este o caso dos hipocondríacos? Seus sintomas não são realmente imaginários. Eles existem mesmo e quem lhes dá existência é a imaginação perturbada do doente.

As preocupações que tanto martirizam os ansiosos, não são alimentadas pela imaginação? Não é o fato de ficarmos a imaginar que vai acontecer algo de mal que nos tira a calma? A maior parte de nossos sofrimentos antecipados (preocupações) é gratuita. Aquilo que tememos venha acontecer, que a imaginação diz que vai acontecer, muitas vezes só acontece pela força que a imaginação lhes dá.

Os preocupados geralmente são homens de imaginação fecunda. Os gênios, também. Nos primeiros, ela é destrutiva. Nesses, criadora. A imaginação, em si, portanto, não é nem construtiva nem destrutiva, a direção em que é usada é o que assim a faz. Não é isto que nos diz a psicocibernética? É só “carregar” o servo-mecanismo de nosso cérebro com um alvo negativo e nefasto, para que o mal ocorra, diz esta moderníssima ciência.

Conquiste sua imaginação. Não lute. Não tente reprimi-la. No entanto, oriente-a. Leve-a para a direção construtiva. Quando se surpreender “sonhando acordado”, isto é, realizando na imaginação tudo aquilo que, por isto ou por aquilo, não consegue realizar “de verdade”, desperte-se. Recuse-se a deixar-se enovelar nos caprichos deste hábito pouco sadio. Aprenda a perceber os momentos em que sua imaginação é quem está dirigindo você e não você a ela.

Sua imaginação é um instrumento precioso quando você a exerce na direção certa, a de sua libertação – a direção que há de levá-lo a integrar-se em si mesmo e integrar-se em Deus. Use o ilimitado poder da imaginação para fazer de si mesmo um retrato mental positivo. Imagine-se cada dia mais vitorioso, sereno, iluminado, forte, equânime, senhor de sua mente, cheio de saúde, de alegria, de amor universal, redimido.

Faça isto daqui para o resto de sua existência. A força imensa que a imaginação do hipocondríaco demonstra ao fazê-lo padecer é igual a que você tem a seu dispor para melhorar-lhe a saúde. A imaginação que tem força para desgraçar também tem o poder de salvar. Nunca deixe a imaginação solta arrastá-lo na direção errada. Mantenha-a sempre firme no rumo de sua redenção.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

O PODER DA AUTOSSUGESTÃO

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos adverte sobre o poder da autossugestão tanto para o bem quanto para o mal.

“A principal missão do homem em sua vida é dar a luz a si mesmo, é tornar-se aquilo que ele é potencialmente”. (ErichFromm, em “Análise do Homem”.) Esta é a linguagem de um psicólogo ilustre. É bem igual à linguagem de um yogui. “Cada alma é potencialmente divina. O fim é manifestar este íntimo divino para controlar a natureza externa e interna. Faça isto pelo trabalho ou pela adoração, pelo controle psíquica ou filosófico ou por um ou mais ou todos esses caminhos, e seja livre. Este é papel da religião. Doutrinas ou dogmas, ou rituais, ou livros, ou templos, ou imagens são somente detalhes secundários” (Vivekananda, Works).

Desde os anos de nossa infância aprendemos que somos todos “filhos do pecado”, que “degradados” somos frágeis, imperfeitos e indignos de olharmos para Deus. Supondo e pretendendo em nós cultivar a virtude da humildade, piedosos instrutores religiosos encheram-nos desta funesta autodepreciação e, para mais acentuá-la, ensinaram-nos também ser Deus algo infinitamente diferente, distanciado e absolutamente fora de nosso alcance.

Colocar Deus tão alto, lá no inacessível e, simultaneamente, nós mesmos no mais tenebroso pélago da inferioridade, tem nos feito tanto mal! Por isso, Deus tem sido temido, mas não amado. Está tão longe que não temos a audácia de pensar esteja ao alcance de nossa busca. E, não obstante enunciemos sua onipresença, vivemos na convicção do contrário. E, assim, nos sentimos desamparados.

O desalento resultante da inacessibilidade à Bem-Aventurança Suprema faz-nos ficar parados onde estamos ou mesmo regredir, tornando-nos ainda mais frágeis e pecadores (cheios de erros). O que imaginamos que somos, somos. Afirmar imperfeições e concentrar a consciência sobre inferioridades só tem conseguido conduzir ao padecimento, à falência. Ninguém desconhece o poder da autossugestão, seja para curar, melhorar, elevar ou, ao contrário, seja para enfermar, inferiorizar e piorar. Tudo depende de seu conteúdo ser positivo ou negativo.

O ocidental, mercê de tão bem intencionado, mas funesto ensino religioso generalizado, tem enraizado no subconsciente a autossugestão “eficaz” que diz ser mísero pecador. Esta sugestão tem dado seus frutos: sofrimento, doença, vícios, ansiedades, complexo de inferioridade e até amoralismo patológico.

O yoguin nunca se preocupa com seus pecados (erros) ou com o pecado. Prefere atender ao oposto e afirmar sua unidade com o Divino, imitando Jesus ao dizer: “Eu e o Pai somos um”. Jesus realizou isto. Convidados estamos nós a imitá-lo. Potencialmente, somos divinos. E a existência nos foi dada para que possamos atualizar esta potencialidade. Divinizar-nos é o desafio.

Religiosos – dogmáticos fanáticos – acharão mesmo que comete profanação quem não se humilha, quem não se afirma degradado e pecador. Acreditar-se herdeiro do Absoluto é tido por irreverência e pecado, aos olhos de muitas vítimas da nociva pedagogia religiosa da autodepreciação piedosa. Tais pessoas precisam aprender de Ramakrisna que “nenhum orgulho que exprima a glória da Alma chega a ser orgulho. Nenhuma humildade que procure humilhar nosso Ego verdadeiro merece o nome de humildade”.

Para tais pessoas que confundem humildade com humilhação autodestrutiva, um dia escrevi: “Quando eu disse ao caroço de laranja que dentro dele dormia um laranjal inteirinho, ele sorriu e zombou de mim e se mostrou estupidamente incrédulo”.

Um tolo todos os dias batia no peito e repetia contrito: eu pecador… Eu pecador… Eu pecador… Acabou sendo. Um sábio, até mesmo ao cair, repetia: “Eu e Deus somos um… Deus e eu somos um… Eu e Deus somos um… Acabou sendo.” (Hermógenes, do livro “Mergulho na Paz”).

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: pintura do artista ucraniano Oleg Shuplyak

O SER HUMANO É UM TODO

Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos explica que o ser humano não é uma dualidade.

Quando o homem adoece, adoece todo. É um erro considerar uma gripe apenas um mal físico. A predisposição para resfriar tem causas tanto físicas como psíquicas, morais e até filosóficas. Os germes patogênicos não conseguem grandes êxitos quando assaltam uma pessoa bem nutrida, de moral forte, confiante em si mesma, entregue a Deus, que não tem tempo ocioso para ficar na cama. Hipocondríacos e histéricos, ao contrário, são criaturas doentes, fracas, vulneráveis, e exatamente o são por motivos psíquicos e até mesmo filosóficos. Creem mais na sua fraqueza e no poder das doenças do que no oposto, isto é, na imunidade e nas extraordinárias capacidades autoterapêuticas da mente e do organismo.

Todos reconhecem e as estatísticas confirmam a existência de sujeitos “azarados”, isto é, aqueles que, se um tijolo cai de um andaime é precisamente em sua cabeça. São pessoas predispostas a acidentes e marcadas pela fatalidade. Para tais indivíduos vale dizer que bateram com o carro ou fraturaram a perna num tombo de banheira graças a uma causa psíquica. A ciência psicossomática tem feito bons progressos no estudo da chamada “infortunística”. Freud, em sua psicopatologia da vida cotidiana, admitiu serem os conflitos interiores as causas dos acidentes diários. Ora, se moléstias infectocontagiosas e até acidentes (mesmo a agressão assassina) que em nada poderiam parecer dependentes do psiquismo e de nossas crenças filosóficas, frequentemente têm causa psíquica, que dizer da distonia neurovegetativa? Que dizer das dez mil roupagens dos distúrbios neuróticos?!

Um nervoso é um enfermo integral, como nenhum outro. Caiu doente em todos os planos de seu ser, não obstante serem mais nítidos seus sofrimentos físicos e psíquicos. O homem adoece todo, e seus males orgânicos têm causas nos níveis mais sutis de seu ser. Por isso, somente uma terapêutica integral pode, definitivamente, curar. Desde os primórdios da humanidade, a ciência de curar era psicossomática, isto é, não se cingia apenas a tratar do corpo. Os pajés, os feiticeiros, os xamãs de todas as tribos foram os precursores da moderna medicina psicossomática. Seus cerimoniais, amuletos, trabalhos de magia, tinham poder curador porque atuavam a partir do plano mais sutil e, por isto mesmo, mais poderoso: o psiquismo.

O tempo passou e a ciência médica atravessou, recentemente, uma fase em que se descuidou das causas sutis das enfermidades e dos estados psíquicos de seus doentes, concentrando- se em aliviar sintomas físicos e tratar do corpo ou parte dele. Mas veio a reação. Segundo Gomes de Araújo “A chamada Medicina Psicossomática surgiu efetivamente como uma reação compreensível, e por sinal salutar, àquela outra Medicina que, ainda no primeiro quartel deste século (séc. XX), obstinava-se em definir-se e apresentar-se como estrita examinadora ‘do corpo’, mantendo-se tenazmente esquecida, pelo menos na aparência, de que um corpo humano, estritamente observado como ‘corpo’, isto é, como coisa puramente física, só pode sê-lo depois da morte”.

A reação, ouso aventurar, precisa ampliar-se, completar-se.  Enquanto a moderna medicina psicossomática vir o homem apenas em seus níveis mais densos — o físico e o psíquico — ainda estará tratando de um homem incompleto. O homem integral é visto pelas escolas hinduístas como formado por cinco koshas ou revestimentos, que vão se quintessenciando a partir do corpo físico até atingir o mais sutil, onde não há nada de material e concreto, formal e pessoal, que é o plano da mais pura bem-aventurança.

*Esse livro é encontrado em PDF no Google.

Nota: Mulher Doente, obra de Jan Steen

ESTRESSE X RELAXAMENTO

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos fala sobre a necessidade de evitar o estresse.  

Chama-se relaxamento o estado oposto à tensão, isto é, a ausência de contrações e esforços. Estando relaxados os músculos, os nervos que os comandam não transmitem mensagem alguma. Inativos, feito fios elétricos desligados, por eles não transitam impulsos, possibilitando, assim, repouso aos centros nervosos. Nesta condição, os reflexos se acalmam. O corpo fica igual a um aparelho elétrico desligado da corrente. Relaxar é remédio eficaz.

Sem pertinaz treinamento não é possível relaxar. Digo-o para que o neófito, necessitado de boa-fé, não venha a se desanimar perante as dificuldades iniciais que vai encontrar. A prática conjugada de técnicas predisponentes ao relaxamento é a maneira que descobri de ajudar alunos a vencer tais dificuldades. A contribuição das outras frentes yogaterápicas (filosófica, psicológica, fisiológica e moral) ainda mais facilitará a redução do eretismo generalizado da pessoa tensa e necessitada de repouso. Relaxar-se afrouxar. E desligar-se. É abandonar-se. É derramar-se passivamente. Ausentar-se por uns instantes da ansiedade e da luta. Relaxar é economizar esforços. É despojar-se da normal e eficiente estressora autoafirmação. Relaxar é gozar repouso. É amolecer-se. É desfrutar os inefáveis prazeres do fazer absolutamente nada.

Para um neurótico inquieto e ansioso, relaxar é difícil. Representa um ato de coragem, de crença, de segurança que ele exatamente não tem. Entregar-se todo, sem restrições, sem preocupação com um sistema de segurança é difícil para ele que vive exausto, em guarda, a defender-se de misterioso e supostamente presumível assalto. Ele não consegue, com facilidade, mandar dormir todas as sentinelas que tem colocado ao redor para sua defesa. Se ele conseguir aprimorar a arte de relaxar-se, consequente e simultaneamente estará se libertando da neurose. Estará vencendo o medo, acalmando a ansiedade, ganhando coragem e estímulos de vida.

Os centros da base do cérebro, principalmente o hipotálamo, têm a seu cargo a regulação das funções vegetativas, isto é, aquelas como a digestão, tensão sanguínea, ritmo cardíaco, assimilação e muitas outras que nos fogem ao controle voluntário. Tais centros, por muitas causas e razões, inclusive a fadiga, a toxidez, traumas psíquicos, perturbam-se em seus deveres e passam a emitir comandos neurais bem disparatados e impróprios, mercê de verdadeiros curtos-circuitos ou ligações anômalas, provocando, assim, mil e um transtornos funcionais, não obstante os órgãos estejam normais. Estas ligações errôneas podem ser corrigidas. Mas a vida de tensão, ao contrário, dá-lhes condições de ser. Reativam-se. Reafirmam-se. Revigoram-se.

O relaxamento pode apagar tais sulcos, desfazer tais ligações, corrigir os defeitos instalados nesses centros nervosos. A dose diária de minutos de inatividade por relaxamento, pouco a pouco, não só reduzirá os efeitos, mas suas próprias causas. De maneira semelhante, o relaxamento atua sobre a glândula hipófise, a maestrina de todo sistema endócrino e, assim, consegue fazer as demais glândulas retomarem o ritmo de saúde.

Não é apenas sobre os centros de comando neuro-hormonal que o relaxamento atua, corrigindo-os. Age também sobre os músculos, glândulas, vísceras e órgãos sobre os quais tais centros exercem comando. Quando em relaxamento, um órgão comporta-se como um soldado dormindo e, assim, não cumpre a ordem estapafúrdia de um superior hierárquico meio perturbado. Em outras palavras, os tecidos em estado de yoganidra (letargia) não reagem aos comandos anormais e perturbadores. Ficam quase inertes e amolecidos. E, assim, os sintomas não conseguem se manifestar.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google (ver na página 259 do livro a descrição de várias técnicas de relaxamento).

Nota: imagem copiada de Depositphotos

MENTE E SINTONIA ESPONTÂNEA

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos ensina o que fazer para nos livrarmos dos pensamentos negativos.

O espaço está constantemente saturado de vibrações invisíveis. As ondas de rádio são um exemplo. De milhares de estações de todos os países partem vibrações, as quais, captadas por um aparelho receptor, transformam-se em som. Chama-se de sintonia o ato de pôr o receptor em consonância vibratória com a emissora.

Nossa mente, tal como o receptor de rádio, quando sintoniza com ondas de pensamento que cortam os espaços, ondas emitidas por outras mentes, recebe os pensamentos das pessoas. A transmissão do pensamento pode ser feita pelos meios mais densos e concretos como pelos meios mais sutis e quintessenciados.

A palavra é um meio de comunicação, aliás, o mais conhecido. Pela palavra, influímos na mente dos outros e, reciprocamente, somos influenciados. Em época nenhuma a mente humana foi bombardeada por tantas, tão veementes, tão variadas e contraditórias sugestões como agora. Isto é (mesmo!) uma agressão ao equilíbrio mental de cada indivíduo. A propaganda, cinemas e televisões, livros e discursos, as aulas e jornais constituem exércitos a invadir-nos a mente, a cada instante, onde nos encontramos.

Todo escritor, autor, publicitário, professor e ator, tem ansiedade profissional por tomar de assalto as mentes e injetar lá dentro novas ideias, necessidades, motivações, inclinações e ideais seus ou de seu interesse. Todos os líderes se empenham em dominar nosso mundo mental. As ideologias, a indústria, o comércio, a arte cresce na medida em que nos dirijam, envolvam-nos, condicionem-nos, comprometam-nos, convençam-nos e prendam-nos em suas malhas aliciadoras. Dos meios de interpsicologia há a destacar ainda a sugestão telepática.

O mundo mental, um dos planos da natureza, é mais sutil do que o da matéria. A mente individual de cada um de nós nele está mergulhada, dando e recebendo influências. As pessoas, por invigilantes e por não saberem se resguardar de tais influências, vivem como barcos desgovernados. Muitos perdem equilíbrio e saúde mental em meio à agitação “normal” neste mundo mental. Os milhões de mensagens e vibrações criam impressões e tendências de ser e de agir (samskarase vâsanas) que lhes dirigem o destino. E tudo isto vem como bombardeamento etéreo, impalpável, sutil, por isto mesmo incomparavelmente mais penetrante do que as sugestões do mundo material.

Assim como quem tem bom gosto e maturidade mental evita sintonizar o rádio (ou tevê) em certas estações vulgares e de mau gosto, dando preferência à programação refinada, educativa e bonita e, se não as encontra, desliga o aparelho, o yoguin também sabe se defender das nocivas mensagens verbais, visuais ou telepáticas que lhe queiram invadir o templo da mente, destinada sempre ao bem.

A pureza da mente deve ser defendida. Não é impura a mente onde um pensamento maldoso, perverso ou negativo assoma sem evocação voluntária. Trata-se de uma sintonia espontânea, uma captação involuntária de uma onda mental que não devemos aceitar. Nesta situação, não se oponha, não resista, não se sinta indigno, não se julgue dotado de mente suja. Simplesmente não dê guarida ao pensamento. Não aceite. Evite lutar contra ele. Apenas, não o aceite. Mantenha vigilância e, assim, resguarde sua mente. Procure aperceber-se de quando e como ocorrem tais nocivas sintonias involuntárias. Procure também sustar as associações de ideias ou de imagens inadequadas à saúde, à paz e ao bem maior.

As mentes vazias e ociosas são as que caem presas do medo, do erótico, da inveja, da doença, do crime, da corrupção e da angústia. Se a mente está em abandono e vaga, o pensamento deletério invade-a e nela se instala. Se ela está sintonizada com o bem, tal invasão não se dá. Transforme sua mente em emissora potente de bons pensamentos, de vibrações saudáveis, de sentimentos de paz, de fraternidade e de benevolência.

Vigie sua mente. Não a deixe ao léu, à disposição do que vier do plano mental. Não a alimente, mas não se esforce para expulsar o mau pensamento. Ocupe-se com pensamentos divinos e vibrações de paz. Passe à ofensiva e emita para este mundo necessitado suas vibrações poderosas, de tudo que é bom e condizente com a felicidade de todos os seres. A observância do que acabo de dizer, isto é, passar da mente passiva e descontrolada para a mente ativa e dirigida, é solução infalível para o encontro da felicidade.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: imagem copiada de laboratório espírita