Arquivo da categoria: Crônicas

Abrangem os mais diversos assuntos.

O MAL FEITO AOS ANIMAIS RETORNA AOS HOMENS

Autoria de Marguerite Yourcenar


Vivemos num grande ecossistema que é o planeta Terra, onde os reinos animais e vegetais convivem numa fantástica simbiose. O homem é o único ser no planeta que é capaz de alterar toda a diversidade, destruindo seu habitat como se não fizesse parte desta teia da vida. (Hernando Martins)

Uma teoria diferente viria pôr-se a serviço daqueles para quem o animal não merece qualquer auxílio e encontra-se destituído da dignidade que, em princípio, pelo menos, e no papel, concedemos a todos os homens. Na França e nos países influenciados pela cultura francesa, o animal-má­quina de Descartes tornou-se artigo de fé tanto mais fácil de ser aceito quanto favorecia a exploração e a indiferença. Também aqui podemos perguntar se a asserção de Descartes não terá sido aceita em seu nível mais baixo.

O animal-máquina, de acordo, mas em pé de igualdade com o próprio homem que não passa também de máquina, destinada a produzir e a ordenar ações, pulsões e reações que constituem as sensações de calor e frio, fome e satisfação digestiva, os impulsos sexuais, bem como a dor, o cansaço, o terror, que os animais experimentam da mesma forma como nós. O animal é máquina; homem também, e foi sem dúvida o temor de blasfemar contra a alma imortal que impediu Descartes de ir abertamente longe nessa hipótese, quando teria estabelecido as bases de uma fisiologia e de uma zoologia autênticas. Leonardo da Vinci, se Des­cartes tivesse podido conhecer seus Cadernos, ter-lhe-ia segredado que, em última análise, o próprio Deus é o “primeiro motor”.

Evoquei um tanto longamente o drama do animal e suas causas primeiras. No estado atual da questão, numa época em que nossos abusos se agravam nesse ponto como em tantos outros, podemo-nos perguntar se uma Declaração dos Direitos do Animal iria ser útil. Acolho-a de bom grado, mas já ouço algu­mas boas almas que murmuram: “Há quase duzentos anos foi proclamada a Declaração dos Direitos do Homem, e o que resul­tou daí?

Nenhuma época tem sido mais concentracionária, mais levada às destruições maciças de vidas humanas, mais pronta a degradar, até nas próprias vítimas, a noção de humanidade. Seria o caso de se promulgar em favor do animal um outro documento desse tipo, que será – já que o homem em si mes­mo não terá mudado – tão inútil quanto a Declaração dos Direitos do Homem?” Creio que sim. Creio que sempre con­vém promulgar ou reafirmar as Leis verdadeiras que não dei­xarão por isso de ser menos infringidas, mas que provocarão por vezes no transgressor o sentimento de haver agido mal. “Não matarás.” Toda a história, de que tanto nos orgulhamos, é uma perpétua infração dessa lei.

“Não farás os animais sofrerem, ou tudo farás para que sofram o menos possível. Eles têm seus direitos e sua digni­dade como tu mesmo”, é sem dúvida uma admoestação bas­tante modesta; no estado atual dos espíritos, ela é, ai de nós, quase subversiva. Sejamos subversivos. Revoltemo-nos contra a ignorância, a indiferença, a crueldade que aliás se voltam tão frequentemente contra o homem depois de terem-nas exercido grandemente sobre os animais. Lembremo-nos, pois é necessário estarmos sempre nos chamando a atenção, que haveria menos crianças mártires se tivesse havido menos animais torturados; menos vagões lacrados levando para a morte as vítimas de uma ditadura qualquer, se não tivéssemos nos acostumado com os furgões em que os animais agonizam sem alimentação e sem água a caminho dos matadouros; menos caça humana teria sido abatida a tiros se o gosto e o hábito de matar não fosse o apanágio dos caçadores. E, na humilde medida do possível, mudemos (quer dizer, melhoremos se possível) a vida.

Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira

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A PERVERSA MATÉRIA PRIMA ANIMAL

Autoria de Marguerite Yourcenar

A horrível matéria­ prima animal é um produto novo, como a floresta aniquilada que fornece a pasta necessária aos nossos jornais diários e hebdomadários, repletos de anúncios e de falsas notícias; como os oceanos em que os peixes são sacrificados aos petroleiros.

Durante milênios, o homem tem considerado o animal como propriedade sua, só que subsistia um estreito contato entre ambos. O cavaleiro amava, embora dela abusando, a sua mon­taria; o caçador de antigamente conhecia as condições de vida de sua caça, e “amava” à sua maneira os animais que se sen­tia glorioso em abater. Uma espécie de familiaridade se entre­meava com o horror: a vaca enviada ao matadouro depois de totalmente exaurida de seu leite, o porquinho que era sangra­do no Natal (a mulher do camponês da Idade Média sentava-se tradicionalmente sobre as patas do animal para impedi-lo de espernear), eram a princípio “os pobres animais” para os quais se ia cortar capim ou se preparava uma ração de restos.

Para muitas mulheres do campo, a vaca contra a qual se apoiavam para ordenhar era uma espécie de amiga muda. Os coelhos nas gaiolas não estavam mais que a dois passos do guarda-comida onde iriam acabar, “picadinhos como carne de pastel”, mas enquanto isso não ocorria, eram animais que gostávamos de ver remexendo as narinas róseas quando através das grades lhes estendíamos uma folha de alface.

Modificamos tudo isto: as crianças das cidades jamais vi­ram uma vaca ou uma ovelha; e não podemos amar estes seres dos quais nunca tivemos ocasião de nos aproximar ou a que jamais acariciamos. O cavalo, para um parisiense, não passa desse animal mitológico, dopado e arrastado além de suas for­ças, que nos faz ganhar algum dinheiro quando acertamos no páreo de um “grande prêmio”.

Exposta em fatias cuidadosa­mente envoltas em papel celofane num supermercado, ou con­servada em latas, a carne deixa de ser sentida como tendo sido a de um animal vivo. Ousamos mesmo dizer que nossos açou­gues, onde pendem de ganchos quartos de animais que mal se acabaram de abater, de aspecto tão atroz para quem não está acostumado a isto a ponto de certos amigos meus, estrangeiros, mudarem de calçada, em Paris, quando os percebem de longe, talvez até sejam um bem, na medida em que testemunham a violência que o homem inflige aos animais.

 Da mesma forma, os casacos de pele apresentados com cuidados especiais nas vitrines das grandes peleterias parecem estar a mil léguas da foca trucidada na banquisa, a golpes de matraca, ou da nútria que apanhada na armadilha rói a pata tentando recuperar a liberdade.

A bela mulher que se maquia não sabe que seus cosméticos foram testados em coelhos ou cobaias que morreram sacrificados ou cegos. A inconsciência, e consequentemente a boa consciência, do comprador ou da com­pradora é total, como é total, por ignorância do que se fala e por falta de imaginação, a inocência dos que se dão ao traba­lho de justificar os gulags* de toda espécie, ou daqueles que preconizam o emprego da arma atômica. Uma civilização que cada vez mais se distancia do real tende a fazer cada vez mais vítimas, inclusive a si própria.

*campos de trabalhos forçados.

Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira

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CARTA ABERTA A DALLAGNOL

Autoria de Eugênio Aragão *

Porque nada é mais difícil e nada exige mais caráter que se encontrar em aberta oposição a seu tempo e dizer em alto e bom som: Não! (Kurt Tucholsky)  

Meu caro colega Deltan Dallagnol

Acabo de ler por blogs de gente séria que você estaria a chamar atenção, no seu perfil de Facebook, de quem “veste a camisa do complexo de vira-lata”, de que seria “possível um Brasil diferente” e de que a hora seria agora. Achei oportuno escrever-lhe está carta pública, para que nossa sociedade saiba que, no ministério público, há quem não bata palmas para suas exibições de falta de modéstia. Vamos falar primeiro do complexo de vira-lata. Acredito que você e sua turma são talvez os que têm menos autoridade para falar disso, pois seus pronunciamentos têm sido a prova mais cabal de SEU complexo de vira-lata. Ainda me lembro daquela pitoresca comparação entre a colonização americana e a lusitana em nossas terras, atribuindo à última todos os males da baixa cultura de governação brasileira, enquanto o puritanismo lá no norte seria a razão de seu progresso.

Talvez você devesse estudar um pouco mais de história, para depreciar menos este País. E olha que quem cresceu nas “Oropas” e lá foi educado desde menino fui eu, hein… talvez por isso não falo essa barbaridade, porque tenho consciência de que aquele pedaço de terra, assim como a de seu querido irmão do norte, foram os mais banhados por sangue humano ao longo da passagem de nossa espécie por este planeta. Não somos, os brasileiros, tão maus assim, na pior das hipóteses somos iguais, alguns somos descendentes dos algozes e a maioria somos descendentes das vítimas.

Mas essa sua teorização de baixo calão não diz tudo sobre SEU complexo. Você à frente de sua turma vão entrar na história como quem contribuiu decisivamente para o atraso econômico e político que fatalmente se abaterão sobre nós. E sabem por que? Porque são ignorantes e não conseguem enxergar que o princípio fiat iustitia et pereat mundus nunca foi aceita por sociedade sadia qualquer neste mundão de Deus. Summum jus, summa iniuria, já diziam os romanos: querer impor sua concepção pessoal de justiça a ferro e fogo leva fatalmente à destruição, à comoção e à própria injustiça.

E o que vocês conseguiram de útil neste País para acharem que podem inaugurar um “outro Brasil”, que seja, quiçá, melhor do que o em que vivíamos? Vocês conseguiram agradar ao irmão do norte (Estados Unidos) que faturará bilhões de nossa combalida economia e conseguiram tirar do mercado global altamente competitivo da construção civil de grandes obras de infraestrutura as empresas nacionais. Tio Sam agradece. E vocês, Narcisos, se acham lindinhos por causa disso, né?

Vangloriam-se de terem trazido de volta míseros dois bilhões em recursos supostamente desviados por práticas empresariais e políticas corruptas. E qual o estrago que provocaram para lograr essa casquinha? Por baixo, um prejuízo de 100 bilhões e mais de um milhão de empregos riscados do mapa. Afundaram nosso esforço de propiciar conteúdo tecnológico nacional na extração petrolífera, derreteram a recém reconstruída indústria naval brasileira.

Claro, não são seus empregos que correm riscos. Nós ganhamos muito bem no ministério público, temos auxílio-alimentação de quase mil reais, auxílio-creche com valor perto disso, um ilegal auxílio-moradia tolerado pela morosidade do judiciário que vocês tanto criticam. Temos um fantástico plano de saúde e nossos filhos podem frequentar a liga das melhores escolas do País. Não precisamos de SUS, não precisamos de Pronatec, não precisamos de cota nas universidades, não precisamos de bolsa-família e não precisamos de Minha Casa Minha Vida. Vivemos numa redoma de bem-estar. Por isso, talvez, à falta de consciência histórica, a ideologia de classe devora sua autocrítica.

E você e sua turma não acham nada de mais milhões de famílias não conseguirem mais pagar suas contas no fim do mês, porque suas mães e seus pais ficaram desempregados e perderam a perspectiva de se reinserirem no mercado num futuro próximo. Mas você achou fantástico o acordo com os governos dos EEUU e da Suíça, que lhes permitiu, na contramão da prática diplomática brasileira, se beneficiarem indiretamente com um asset sharing sobre produto de corrupção de funcionários brasileiros e estrangeiros. Fecharam esse acordo sem qualquer participação da União, que é quem, em última análise, paga a conta de seu pretenso heroísmo global e repassaram recursos nacionais sem autorização do Senado. Bonito, hein?

Mas, claro, na visão umbilical corporativista de vocês, o ministério público pode tudo e não precisa se preocupar com esses detalhes burocráticos que só atrasam nosso salamaleque para o irmão do norte (Estados Unidos)! E depois fala de complexo de vira-lata dos outros!

O problema da soberba, colega, é que ela cega e torna o soberbo incapaz de empatia, mas, como neste mundo vale a lei do retorno, o soberbo também não recebe empatia, pois seu semblante fica opaco, incapaz de se conectar com o outro.

A operação de entrega de ativos nacionais ao estrangeiro, além de beirar alta traição, esculhambou o Brasil como nação de respeito entre seus pares. Ficamos a anos-luz de distância da admiração que tínhamos mundo afora. E vocês o fizeram atropelando a Constituição, que prevê que compete à Presidenta da República manter relações com estados estrangeiros e não ao musculoso ministério público. Daqui a pouco vocês vão querer até ter representação diplomática nas capitais do circuito Elizabeth Arden, não é?

Ainda quanto a um Brasil diferente, devo-lhes lembrar que “diferente” nem sempre é melhor e que esse servicinho de vocês foi responsável por derrubar uma Presidenta constitucional honesta e colocar em seu lugar uma turba envolvida nas negociatas que vocês apregoam mídia afora. Esse é o Brasil diferente? De fato é: um Brasil que passou a desrespeitar as escolhas políticas de seus vizinhos e a cultivar uma diplomacia da nulidade, pois não goza de qualquer respeito no mundo. Vocês ajudaram a sujar o nome do País. Vocês ajudaram a deteriorar a qualidade da governação, a destruição das políticas inclusivas e o desenvolvimento sustentável pela expansão de nossa infraestrutura com tecnologia própria.

E isso tudo em nome de um “combate” obsessivo à corrupção. Assunto do qual vocês parecem não entender bulhufas! Criaram, isto sim, uma cortina de fumaça sobre o verdadeiro problema deste País, que é a profunda desigualdade social e econômica. Não é a corrupção. Esta é mero corolário da desigualdade que produz gente que nem vocês, cheios de “selfrighteousness” (justiça própria), de pretensão de serem justos e infalíveis, donos da verdade e do bem estar. Gente que pode se dar ao luxo de atropelar as leis sem consequência nenhuma. Pelo contrário, ainda são aplaudidos como justiceiros.

Com essa agenda menor da corrupção vocês ajudaram a dividir o País, entre os homens de bem e os safados, porque vocês não se limitam a julgar condutas como lhes compete, mas a julgar pessoas, quando estão longe de serem melhores do que elas. Vocês não têm capacidade de ver o quanto seu corporativismo é parte dessa corrupção, porque funciona sob a mesma gramática do patrimonialismo: vocês querem um naco do Estado só para chamar de seu.

Ninguém os controla de verdade e vocês acham que não devem satisfação a ninguém. E tudo isso lhes propicia um ganho material incrível, a capacidade de estarem no topo da cadeia alimentar do serviço público. Vamos falar de nós, os procuradores da república, antes de querer olhar para a cauda alheia.

Por fim, só quero pontuar que a corrupção não se elimina. Ela é da natureza perversa de uma sociedade em que a competição se faz pelo fator custo-benefício, no sentindo mais xucro. A corrupção se controla. Controla-se para não tornar o Estado e a economia disfuncionais. Mas esse controle não se faz com expiação de pecados. Não se faz com discursinho falso-moralista. Não se faz com homilias em igrejas. Se faz com reforma administrativa e reforma política, para atacar a causa do fenômeno e não sua periferia aparente. Vocês estão fazendo populismo, ao disseminarem a ideia de que há o “nós o povo” de honestos brasileiros, dispostos a enfrentar o monstro da corrupção feito São Jorge que enfrentou o dragão.

Você e eu sabemos que não existe isso e que não existe com sua artificial iniciativa popular das “10 medidas” solução viável para o problema. Esta passa pela revisão dos processos decisórios e de controle na cadeia de comando administrativa e pela reestruturação de nosso sistema político calcado em partidos que não merecem esse nome. Mas isso tudo talvez seja muito complicado para você e sua turma compreenderem.

Só um conselho, colega: baixe a bola. Pare de perseguir o Lula e fazer teatro com PowerPoint. Faça seu trabalho em silêncio, investigue quem tiver que investigar sem alarde, respeite a presunção de inocência, cumpra seu papel de fiscal da lei e não mexa nesse vespeiro da demagogia, pois você vai acabar ferroado. Aos poucos, como sempre, as máscaras caem e, ao final, se saberá quem são os que gostam do Brasil e os que apenas dele se servem para ficarem bonitos na fita! Esses, sim, costumam padecer do complexo de vira-lata!

Um forte abraço de seu colega mais velho e com cabeça dura, que não se deixa levar por essa onda de “combate” à corrupção sem regras de engajamento e sem respeito aos costumes da guerra.

CARTA PÚBLICA AOS PROCURADORES DA LAVA JATO

Autoria de Eugênio Aragão*

Sangro na alma sempre que constato a monstruosidade em que se transformou o Ministério Público Federal. E vocês são a toxina que acometeu o órgão. São tudo que não queríamos ser quando lutamos, na Constituinte, pelo fortalecimento institucional. Esse desvio de vocês é nosso fracasso.

Sim. Ex-colegas, porque, a despeito de a Constituição me conferir a vitaliciedade no cargo de membro do Ministério Público Federal, nada há, hoje, que me identifique com vocês, a não ser uma ilusão passada de que a instituição a que pertenci podia fazer uma diferença transformadora na precária democracia brasileira. Superada a ilusão diante das péssimas práticas de seus membros, nego-os como colegas.

Já há semanas venho sentindo náuseas ao ler suas mensagens, trocadas pelo aplicativo Telegram e agora reveladas pelo sítio The Intercept Brasil, num serviço de inestimável valor para nossa sociedade deformada pela polarização que vocês provocaram. Na verdade, já sabia que esse era o tom de suas maquinações, porque já os conheço bem, uns trogloditas que espasmam arrogância e megalomania pela rede interna da casa.

Quando aí estava, tentei discutir com vocês, mostrar erros em que estavam incidindo no discurso pequeno e pretensioso que pululava pelos computadores de serviço. Fui rejeitado por isso, porque Narciso rejeita tudo que não é espelho. E me recusava a me espelhar em vocês, fedelhos incorrigíveis.

A mim vocês não convencem com seu pobre refrão de que “não reconhecem a autenticidade de mensagens obtidas por meio criminoso”. Por muito menos, vocês “reconheceram” diálogo da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula, interceptado e divulgado de forma criminosa.

Seu guru, hoje ministro da justiça de um desqualificado, ainda teve o desplante de dizer que era irrelevante a forma como fora obtido acesso ao diálogo, pois relevaria mais o seu conteúdo. Tomem! Isso serve que nem uma luva nas mãos ignóbeis de vocês. Quem faz coisa errada e não se emenda acaba por ser atropelado pelo próprio erro.

Subiu-lhes à cabeça. Perderam toda capacidade de discernir entre o certo e o errado,  entre o público e o privado, tamanha a prepotência que os cega. Não têm qualquer autocrítica. Nem diante do desnudamento de sua vilania, são capazes de um gesto de satisfação, de um pedido de desculpas e do reconhecimento do erro. Covardes, escondem-se na formalidade que negaram àqueles que elegeram para seus inimigos.

Esquecem-se que o celular de serviço não se presta a garantir privacidade ao agente público que o usa. Celulares de serviço são instrumentos de trabalho, para comunicação no trabalho. Submete-se, seu uso, aos princípios da administração, entre eles o da publicidade, que demanda transparência nas ações dos agentes públicos.

Conversas de cunho pessoal ali não devem ter lugar e, diante do risco de intrusão, também não devem por eles trafegar mensagens confidenciais. Se houver quebra de confidencialidade pela invasão do celular, a culpa pelo dano ao serviço é do agente público que agiu com pouco caso para com o interesse da administração e depositou sigilo funcional na rede ou na nuvem virtual.

Pode por isso ser responsabilizado, seja na via da improbidade administrativa, seja na via disciplinar, seja no âmbito penal por dolo eventual na violação do sigilo funcional. Não há, portanto, que apontarem o dedo para os jornalistas que tornaram público o que público devesse ser.

De qualquer sorte, tenho as mensagens como autênticas, porque o estilo de vocês – ou a falta dele – é inconfundível. Mesmo um ficcionista genial não conseguiria inventar tamanha empáfia. Tem que ser membro do MPF concurseiro para chegar a tanto! Umas menininhas e uns menininhos “remplis de soi-mêmes”, filhinhas e filhinhos de papai que nunca souberam o que é sofrer restrições de ordem material e discriminação no dia a dia.

Sempre tiveram sua bola levantada, a levar o ego junto. Pessimamente educados por seus pais que não lhes puxaram as orelhas, vocês são uns monstrengos incapazes de qualquer compaixão. A única forma de solidariedade que conhecem é a de uma horda de malfeitores entre si, um encobrindo ao outro, condescendentes com os ilícitos que cada um pratica em suas maquinações que ousam chamar de “causa”. Matilhas de hienas também conhecem a solidariedade no reparto da carniça, mas, como vocês, não têm empatia.

Digo isso com o asco que sinto de vocês hoje. Sinto-me mal. Tenho vontade de vomitar. Ao ler as mensagens trocadas entre si em momentos dramáticos da vida pessoal do ex-presidente Lula, tenho a prova do que sempre suspeitei: de que tem um quê de psicopatas nessa turma de jovens procuradores, uma deformação de caráter decorrente, talvez, do inebriamento pelo sucesso. Quando passaram no concurso, acharam que levaram o bilhete da sorte, que lhes garantia poder, prestígio e dinheiro, sem qualquer contrapartida em responsabilidade.

Sim, dinheiro! Alguns de vocês venderam  sua atuação pública em palestras privadas, em troca de quarenta moedas de prata. Mas negaram ao ex-presidente Lula o direito de, já sem vínculo com a administração, fazer palestras empresariais. As palestras de vocês, a passarem o trator sobre a presunção de inocência, são sagradas. Mas as de Lula, que dão conta de sua visão de Estado como ator político que é, são profanas. E tudo fizeram na sorrelfa, enganando até o corregedor e o CNMP.

Agora, a cerejinha do bolo. Chamam Lula de “safado”, fazem troça de seu sofrimento, sugerem que a trágica morte de Dona Mariza foi queima de arquivo… chamam o luto de “mimimi” e negam o caráter humano àquele que tão odienta e doentiamente perseguem!

Só me resta perguntar: onde vocês aprenderam a ser nazistas? Pois tenho certeza que o desprezo de vocês pelo padecimento alheio não é diferente daqueles que empurravam multidões para as câmaras de gás sem qualquer remorso, escorando-se no “dever para com o povo alemão”. Ao externarem tamanha crueldade para com o ex-presidente Lula, vocês também invocarão o dever para com o Brasil?

Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga. A mão à palmatória pode redimi-los, desde que o façam com a humildade que até hoje não souberam cultivar e empreendam seu caminho a Canossa, para pedirem perdão a quem ofenderam.

Do contrário, a história não lhes perdoará, por mais que os órgãos de controle, imbuídos de espírito de corpo, os queiram proteger. A hora da verdade chegou e, nela, Lula se revela como vítima da mais sórdida ação de perseguição política empreendida pelo judiciário contra um líder popular na história de nosso país. Mais cedo ou mais tarde ele estará solto e inocentado, já vocês…

Despeço-me aqui com uma dor pungente no coração. Sangro na alma sempre que constato a monstruosidade em que se transformou o Ministério Público Federal. E vocês são a toxina que acometeu o órgão. São tudo que não queríamos ser quando lutamos, na Constituinte, pelo fortalecimento institucional. Esse desvio de vocês é nosso fracasso. Temos que dormir com isso.

*Eugênio Aragão é jurista e advogado, integrou o Ministério Público Federal de 1987 a 2017 e foi ministro da Justiça em 2016, no governo Dilma Rousseff

PUC – MONSENHOR SALIM

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

 Era junho de 1953. Minha proposta de mudar meu trabalho de consultoria de São Paulo para Campinas havia sido aceita. Minha mudança para Campinas estava condicionada à certeza de que poderia continuar meu curso de Matemática na PUC de Campinas. A Secretaria dessa instituição me encaminhou para uma entrevista com o reitor Monsenhor Dr. Emilio José Salim. De forma muito afável e atenciosa ele deslindou os aspectos burocráticos de minha transferência.  Dele me despedi com a certeza de que podia decidir pela minha definitiva mudança para a cidade natal de Carlos Gomes.

Frequentar a PUC, ou melhor, a Faculdade de Filosofia, era topar quase todos os dias com Monsenhor Salim. Ele era não só o Reitor da PUC desde sua fundação, mas a encarnava e a dirigia pessoalmente, como pai. Isso significava e implicava sua presença constante, tanto para controlar as finanças e os “costumes da casa” quanto para escolher e contratar os professores. A PUC de Campinas ainda era muito jovem e ele a dirigia com cuidados e relações paternais. O fato de ser eu oriundo de uma transferência da PUC do Rio via USP e de ter meu processo passado inteiramente por suas mãos conferiam-me alguma notoriedade como aluno: era um “caso” único.

A montagem do telescópio e o parcial custeio por parte da PUC propiciaram meu contato mais próximo com sua administração e, portanto, com Monsenhor Salim pessoalmente. Seu acolhimento de minhas ideias relacionadas à Astronomia e à satisfação por ser a PUC a primeira instituição a ter um aparelho daquele porte aumentaram meu prestígio junto a ele. Daí resultou seu convite para que eu criasse e fosse o primeiro professor de COSMOGRAFIA, além de professor assistente do idoso e venerando Prof. Aníbal de Freitas, titular da Cadeira de Física.

Depois de março de 1964 em muitas ocasiões aconteceram movimentos estudantis de repúdio ao Regime Militar de 64. Algumas vezes os ânimos exaltados de movimentos estudantis produziram confrontos e agitações. Mesmo durante os momentos mais acalorados e de confronto, jamais o reitor Mons. Salim solicitou ou permitiu que a polícia entrasse no “Pátio dos Leões” ou fizesse alguma intervenção em qualquer dependência da PUC de Campinas. Em 1967 o governo militar impunha uma reestruração que forçava para uma radical mudança na estrutura da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, produzindo inevitáveis consequências na estrutura de poder da instituição e alguns atritos entre o diretor, o corpo discente e o corpo docente. A Congregação elegeu uma Comissão de Reestruturação. Eu fui um de seus integrantes.   

Em 1968, a Ditadura apertava o cerco político às instituições universitárias e às lideranças estudantis em todo o Brasil: logo viria o AI 5. Numa discussão acalorada com um líder estudantil dentro da Faculdade de Filosofia, seu diretor, sobrinho do Reitor, expulsou sumariamente o estudante. Isso acirrou ânimos e levou os estudantes à ocupação do “Pátio dos Leões”. Expulso sumariamente, o líder estudantil me procurou para que o defendesse.  Respondi que não poderia defendê-lo pessoalmente, mas, que poderia defender o DIREITO dele e de QUALQUER UM a um JULGAMENTO. Esse fato deu lugar a uma crise maior, também corroborada pela crise NACIONAL, e até internacional, envolvendo a maioria das instituições de ensino superior.

Essa histórica crise de 1968 colocou-nos em lados opostos: a mim, para isso eleito pela Congregação, e ao Reitor, a autoridade maior da PUC. Eu defendia para o aluno o DIREITO a um julgamento contra a sumária expulsão. Ele defendia seu DIRETOR que havia feito a expulsão. No calor da crise tentei explicar ao caro Reitor que ninguém queria ameaçar sua autoridade: a PUC por ele criada desde seu nascimento havia crescido; tornara-se adulta e desejava alguma participação na gestão de seus próprios destinos. Eu, nesse momento, tinha cinco filhos, já chegando à adolescência e bem sabia da “rebeldia” dos filhos contra a legítima, mas às vezes excessiva autoridade dos pais. Foi nessa altura que a saúde do Monsenhor Salim, já abalada por vários infartos muito anteriores, cedeu e o levou ao hospital. Seu passamento foi um choque para todos que tinham nele o “pai” da PUC de Campinas, homem culto que dedicou grande parte de sua vida a essa instituição.

Em outra ocasião, muitos anos antes, eu havia sido chamado à Reitoria para uma “conversa”. Já como recente professor das disciplinas de Cosmografia e de Exercícios de Física eu havia promovido uma série de conferências do filósofo Huberto Rhoden no Centro de Ciências, Letras e Artes, o “CCLA” de Campinas. O tema seria “A Filosofia Universal”. Como esse filósofo, autor de muitos livros, havia sido padre católico, ele era um “apóstata”, isto é, alguém que havia “saído” ou “deixado” a Igreja Católica. Sua presença em Campinas era considerada uma “apostasia” e vista com desagrado pelas autoridades da Igreja. O Reitor queria saber se era de fato uma “iniciativa de um professor da PUC?”, eu. Apesar de as razões da conversa serem sobre a “surpresa” da Direção da PUC com o patrocínio de um “nosso” professor, o nível da conversa foi de “alta consideração”. Num tom quase paternal, para que eu pudesse mais facilmente “voltar” ao “caminho da fé”, fui presenteado com um de seus livros que era usado na formação dos seminaristas de então: “Ciência e Religião”. Mesmo com esse episódio relembro com grata memória nossas conversas, nossos “encontros” e um “desencontro”.

CAPITALISMO SELVAGEM E INDIFERENÇA

Autoria de LuDiasBH


Segundo o Aurélio, a acídia, também conhecida por acedia, significa abatimento do corpo e do espírito, moleza, frouxidão. Traduzindo, para uma linguagem mais próxima de nosso tempo, é o “não se importar” com nada ou ninguém, é a indiferença. É o comportamento carregado de amargura ou cinismo em relação à vida. É o fastio, o enfado, a indolência, a passividade, a indiferença, a languidez proveniente do tédio, ou a omissão no tratar com o mundo.

O capitalismo selvagem – sistema econômico em que o consumismo abunda – tem sido um campo fértil para que a indiferença se propague. De certa forma, o tédio, a omissão e o niilismo (aniquilamento, descrença absoluta) estão impregnados de um desespero mudo. Muitos já nem possuem mais a percepção de que parte do mundo agoniza, tão voltados que estão para o  próprio umbigo. São incapazes de ver além de si mesmos. E por mais que tenham, sempre querem ter mais, indiferentes ao resto do mundo.

O conhecido psicólogo e escritor Erich Fromm acredita que a cultura contemporânea tem sido responsável pelo aumento do tédio que avassala a humanidade. Segundo ele, as pessoas entediadas são gélidas. Não sentem alegria, mas também não sentem tristeza ou dor. Perdem a capacidade de posicionarem-se diante de fatos importantes, pois carregam pela vida uma indiferença total e absoluta, como se dela não fizessem parte. E muitos são entediados por possuírem em excesso, de modo que nenhuma conquista traz-lhes prazer. Tudo leva a crer que o homem moderno vive uma epidemia de tédio, tão grande é o seu descompromisso para com o planeta como um todo. Ele passa por uma profunda crise de valores e de imaginação. Vem se tornando cada vez mais solitário e triste, porque está desaprendendo compartilhar e interferir no que passa ao seu redor. Não tem compromisso com o mundo à sua volta. É cada vez mais omisso.

A espécie humana tem vivido a cultura do “não estou nem aí”. Totalmente indiferente em relação ao destino da Terra, como se não houvesse nada que pudesse fazer, ou se não tivesse nenhum poder de interferência, ou  se vivesse numa outra dimensão, num outro planeta. Nem percebe mais que é parte integrante da natureza, de modo que não pode pilhá-la, explorá-la e violá-la sem que pague por isso até mesmo com  a vida, e isso sem levar em conta seus descendentes – correm o risco de viver num planeta totalmente exaurido.

A humanidade tem amargado um preço muito alto por sua postura de alienígena no planeta Terra. Este aniquilamento e desprazer de viver têm suas raízes fincadas no desdém pela natureza, ao envenenar rios e mares, desnudar montanhas, extinguir a vida selvagem, poluir a atmosfera, aumentar a temperatura do planeta, ignorando que é parte de um único corpo. Esquece-se de que aquilo que deixamos de fazer, muitas vezes, pode ser muito mais importante do que aquilo que fazemos. Parvo é quem pensa que, ao se omitir, fica com a consciência limpa, sem culpa no cartório. A não ação, também é um tipo de ação, ainda que ao contrário, como provou Ghandi. Só que, no caso do indiano, ela foi usada positivamente, enquanto agora floresce como uma erva daninha, um produto da inércia e da omissão.

A civilização atual está promovendo um ecocídio ao acabar com o equilíbrio entre o humano e o não humano. A ligação entre as duas partes, além de ser fator de bem-estar moral e espiritual, é imprescindível para a sobrevivência do planeta. O homem não pode ser autossuficiente a ponto de desprezar os outros seres que coabitam consigo. A ética é muito mais ampla de que se imagina. Ela deve estar não apenas nas relações entre os seres humanos, como na relação com o ambiente e as demais espécies. Somente o respeito às diferentes formas de vida poderá salvar a Terra.

A cultura atual vem levando ao pé da letra o conceito de antropocentrismo. O homem está imbuído do convencimento e da vaidade de que tudo na Terra foi criado para beneficiá-lo. Ironicamente, ao ignorar os direitos dos outros seres, ele está construindo o seu próprio caos. Engana-se ao pensar que não é interdependente com os outros elementos do planeta. Desconhece o sentido da palavra humanidade (húmus = terra, em latim). O planeta Terra é o nosso lar, é a nossa terra, ainda que finjamos não compreender isto. Subestimá-lo é transformá-lo, em curto prazo, num hospital de humanos doentes de corpo e de alma.

É bom que todos nós, diante do ecocídio perpetrado por governantes insanos e por humanos ignorantes e vis, afeitos apenas ao “ter”, saibamos que a complacência sem limites é tão nociva quanto a intolerância. A omissão contrapõe-se à justiça, quando cruzamos os braços, ao ver que nossa civilização está destruindo águas, solos, árvores nas cidades e florestas, e outras espécies, num ritmo nunca visto. Tenhamos a certeza de que pagaremos um grande preço, pois a toda ação corresponde uma reação. Não perdemos por esperar. Precisamos botar um freio no capitalismo selvagem que está destruindo o planeta, quando o lucro fácil passa a ser a parte mais importante de tudo, sem nenhuma forma de remorso.