Arquivo da categoria: Crônicas

Abrangem os mais diversos assuntos.

PUC – MONSENHOR SALIM

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

 Era junho de 1953. Minha proposta de mudar meu trabalho de consultoria de São Paulo para Campinas havia sido aceita. Minha mudança para Campinas estava condicionada à certeza de que poderia continuar meu curso de Matemática na PUC de Campinas. A Secretaria dessa instituição me encaminhou para uma entrevista com o reitor Monsenhor Dr. Emilio José Salim. De forma muito afável e atenciosa ele deslindou os aspectos burocráticos de minha transferência.  Dele me despedi com a certeza de que podia decidir pela minha definitiva mudança para a cidade natal de Carlos Gomes.

Frequentar a PUC, ou melhor, a Faculdade de Filosofia, era topar quase todos os dias com Monsenhor Salim. Ele era não só o Reitor da PUC desde sua fundação, mas a encarnava e a dirigia pessoalmente, como pai. Isso significava e implicava sua presença constante, tanto para controlar as finanças e os “costumes da casa” quanto para escolher e contratar os professores. A PUC de Campinas ainda era muito jovem e ele a dirigia com cuidados e relações paternais. O fato de ser eu oriundo de uma transferência da PUC do Rio via USP e de ter meu processo passado inteiramente por suas mãos conferiam-me alguma notoriedade como aluno: era um “caso” único.

A montagem do telescópio e o parcial custeio por parte da PUC propiciaram meu contato mais próximo com sua administração e, portanto, com Monsenhor Salim pessoalmente. Seu acolhimento de minhas ideias relacionadas à Astronomia e à satisfação por ser a PUC a primeira instituição a ter um aparelho daquele porte aumentaram meu prestígio junto a ele. Daí resultou seu convite para que eu criasse e fosse o primeiro professor de COSMOGRAFIA, além de professor assistente do idoso e venerando Prof. Aníbal de Freitas, titular da Cadeira de Física.

Depois de março de 1964 em muitas ocasiões aconteceram movimentos estudantis de repúdio ao Regime Militar de 64. Algumas vezes os ânimos exaltados de movimentos estudantis produziram confrontos e agitações. Mesmo durante os momentos mais acalorados e de confronto, jamais o reitor Mons. Salim solicitou ou permitiu que a polícia entrasse no “Pátio dos Leões” ou fizesse alguma intervenção em qualquer dependência da PUC de Campinas. Em 1967 o governo militar impunha uma reestruração que forçava para uma radical mudança na estrutura da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, produzindo inevitáveis consequências na estrutura de poder da instituição e alguns atritos entre o diretor, o corpo discente e o corpo docente. A Congregação elegeu uma Comissão de Reestruturação. Eu fui um de seus integrantes.   

Em 1968, a Ditadura apertava o cerco político às instituições universitárias e às lideranças estudantis em todo o Brasil: logo viria o AI 5. Numa discussão acalorada com um líder estudantil dentro da Faculdade de Filosofia, seu diretor, sobrinho do Reitor, expulsou sumariamente o estudante. Isso acirrou ânimos e levou os estudantes à ocupação do “Pátio dos Leões”. Expulso sumariamente, o líder estudantil me procurou para que o defendesse.  Respondi que não poderia defendê-lo pessoalmente, mas, que poderia defender o DIREITO dele e de QUALQUER UM a um JULGAMENTO. Esse fato deu lugar a uma crise maior, também corroborada pela crise NACIONAL, e até internacional, envolvendo a maioria das instituições de ensino superior.

Essa histórica crise de 1968 colocou-nos em lados opostos: a mim, para isso eleito pela Congregação, e ao Reitor, a autoridade maior da PUC. Eu defendia para o aluno o DIREITO a um julgamento contra a sumária expulsão. Ele defendia seu DIRETOR que havia feito a expulsão. No calor da crise tentei explicar ao caro Reitor que ninguém queria ameaçar sua autoridade: a PUC por ele criada desde seu nascimento havia crescido; tornara-se adulta e desejava alguma participação na gestão de seus próprios destinos. Eu, nesse momento, tinha cinco filhos, já chegando à adolescência e bem sabia da “rebeldia” dos filhos contra a legítima, mas às vezes excessiva autoridade dos pais. Foi nessa altura que a saúde do Monsenhor Salim, já abalada por vários infartos muito anteriores, cedeu e o levou ao hospital. Seu passamento foi um choque para todos que tinham nele o “pai” da PUC de Campinas, homem culto que dedicou grande parte de sua vida a essa instituição.

Em outra ocasião, muitos anos antes, eu havia sido chamado à Reitoria para uma “conversa”. Já como recente professor das disciplinas de Cosmografia e de Exercícios de Física eu havia promovido uma série de conferências do filósofo Huberto Rhoden no Centro de Ciências, Letras e Artes, o “CCLA” de Campinas. O tema seria “A Filosofia Universal”. Como esse filósofo, autor de muitos livros, havia sido padre católico, ele era um “apóstata”, isto é, alguém que havia “saído” ou “deixado” a Igreja Católica. Sua presença em Campinas era considerada uma “apostasia” e vista com desagrado pelas autoridades da Igreja. O Reitor queria saber se era de fato uma “iniciativa de um professor da PUC?”, eu. Apesar de as razões da conversa serem sobre a “surpresa” da Direção da PUC com o patrocínio de um “nosso” professor, o nível da conversa foi de “alta consideração”. Num tom quase paternal, para que eu pudesse mais facilmente “voltar” ao “caminho da fé”, fui presenteado com um de seus livros que era usado na formação dos seminaristas de então: “Ciência e Religião”. Mesmo com esse episódio relembro com grata memória nossas conversas, nossos “encontros” e um “desencontro”.

CAPITALISMO SELVAGEM E INDIFERENÇA

Autoria de LuDiasBH


Segundo o Aurélio, a acídia, também conhecida por acedia, significa abatimento do corpo e do espírito, moleza, frouxidão. Traduzindo, para uma linguagem mais próxima de nosso tempo, é o “não se importar” com nada ou ninguém, é a indiferença. É o comportamento carregado de amargura ou cinismo em relação à vida. É o fastio, o enfado, a indolência, a passividade, a indiferença, a languidez proveniente do tédio, ou a omissão no tratar com o mundo.

O capitalismo selvagem – sistema econômico em que o consumismo abunda – tem sido um campo fértil para que a indiferença se propague. De certa forma, o tédio, a omissão e o niilismo (aniquilamento, descrença absoluta) estão impregnados de um desespero mudo. Muitos já nem possuem mais a percepção de que parte do mundo agoniza, tão voltados que estão para o  próprio umbigo. São incapazes de ver além de si mesmos. E por mais que tenham, sempre querem ter mais, indiferentes ao resto do mundo.

O conhecido psicólogo e escritor Erich Fromm acredita que a cultura contemporânea tem sido responsável pelo aumento do tédio que avassala a humanidade. Segundo ele, as pessoas entediadas são gélidas. Não sentem alegria, mas também não sentem tristeza ou dor. Perdem a capacidade de posicionarem-se diante de fatos importantes, pois carregam pela vida uma indiferença total e absoluta, como se dela não fizessem parte. E muitos são entediados por possuírem em excesso, de modo que nenhuma conquista traz-lhes prazer. Tudo leva a crer que o homem moderno vive uma epidemia de tédio, tão grande é o seu descompromisso para com o planeta como um todo. Ele passa por uma profunda crise de valores e de imaginação. Vem se tornando cada vez mais solitário e triste, porque está desaprendendo compartilhar e interferir no que passa ao seu redor. Não tem compromisso com o mundo à sua volta. É cada vez mais omisso.

A espécie humana tem vivido a cultura do “não estou nem aí”. Totalmente indiferente em relação ao destino da Terra, como se não houvesse nada que pudesse fazer, ou se não tivesse nenhum poder de interferência, ou  se vivesse numa outra dimensão, num outro planeta. Nem percebe mais que é parte integrante da natureza, de modo que não pode pilhá-la, explorá-la e violá-la sem que pague por isso até mesmo com  a vida, e isso sem levar em conta seus descendentes – correm o risco de viver num planeta totalmente exaurido.

A humanidade tem amargado um preço muito alto por sua postura de alienígena no planeta Terra. Este aniquilamento e desprazer de viver têm suas raízes fincadas no desdém pela natureza, ao envenenar rios e mares, desnudar montanhas, extinguir a vida selvagem, poluir a atmosfera, aumentar a temperatura do planeta, ignorando que é parte de um único corpo. Esquece-se de que aquilo que deixamos de fazer, muitas vezes, pode ser muito mais importante do que aquilo que fazemos. Parvo é quem pensa que, ao se omitir, fica com a consciência limpa, sem culpa no cartório. A não ação, também é um tipo de ação, ainda que ao contrário, como provou Ghandi. Só que, no caso do indiano, ela foi usada positivamente, enquanto agora floresce como uma erva daninha, um produto da inércia e da omissão.

A civilização atual está promovendo um ecocídio ao acabar com o equilíbrio entre o humano e o não humano. A ligação entre as duas partes, além de ser fator de bem-estar moral e espiritual, é imprescindível para a sobrevivência do planeta. O homem não pode ser autossuficiente a ponto de desprezar os outros seres que coabitam consigo. A ética é muito mais ampla de que se imagina. Ela deve estar não apenas nas relações entre os seres humanos, como na relação com o ambiente e as demais espécies. Somente o respeito às diferentes formas de vida poderá salvar a Terra.

A cultura atual vem levando ao pé da letra o conceito de antropocentrismo. O homem está imbuído do convencimento e da vaidade de que tudo na Terra foi criado para beneficiá-lo. Ironicamente, ao ignorar os direitos dos outros seres, ele está construindo o seu próprio caos. Engana-se ao pensar que não é interdependente com os outros elementos do planeta. Desconhece o sentido da palavra humanidade (húmus = terra, em latim). O planeta Terra é o nosso lar, é a nossa terra, ainda que finjamos não compreender isto. Subestimá-lo é transformá-lo, em curto prazo, num hospital de humanos doentes de corpo e de alma.

É bom que todos nós, diante do ecocídio perpetrado por governantes insanos e por humanos ignorantes e vis, afeitos apenas ao “ter”, saibamos que a complacência sem limites é tão nociva quanto a intolerância. A omissão contrapõe-se à justiça, quando cruzamos os braços, ao ver que nossa civilização está destruindo águas, solos, árvores nas cidades e florestas, e outras espécies, num ritmo nunca visto. Tenhamos a certeza de que pagaremos um grande preço, pois a toda ação corresponde uma reação. Não perdemos por esperar. Precisamos botar um freio no capitalismo selvagem que está destruindo o planeta, quando o lucro fácil passa a ser a parte mais importante de tudo, sem nenhuma forma de remorso.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Autoria de LuDiasBH

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Ah! Desgraçados!

Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: “a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando”.
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguém se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça. (Bertolt Brecht)

A data de hoje nenhum significado terá se não servir de reflexão para homens e mulheres livres em todo o mundo civilizado, quanto à vida de tantas outras mulheres nos mais diversos cantos do planeta, totalmente subordinadas a um sistema de escravidão e sem ninguém que olhe por elas ou que lhes ofereça um grão de esperança.

É sabido que – mesmo em muitas partes do chamado mundo civilizado – mulheres ainda ocupam um papel subalterno dentro da sociedade, sendo reprimidas por seus companheiros, preteridas em vários empregos, fazendo o mesmo trabalho, mas ganhando bem menos que o homem. Contudo, nada é tão gritante como o que se vê em certas culturas orientais, onde o ódio à mulher é escancarado, como se ela representasse toda a malignidade da espécie humana. Onde é vista num patamar inferior a um cachorro.

Em muitas culturas, a fêmea é indesejada e mutilada sob o pretexto de não sentir prazer, a fim de não desviar o macho das sendas da pureza. Tais mulheres vivem em casamentos forçados, sem direito à instrução e ao próprio corpo, sendo que certos ciclos naturais de seu corpo são tidos como prova de sua impureza. São humilhadas, espancadas e mortas, sem que vozes se levantem em sua defesa. São policiadas tanto pelas famílias, quanto pelo Estado, numa miséria humana que parece não ter fim – unicamente pelo fato de ser MULHER.

O mundo dito civilizado observa o cativeiro dessas mulheres num mutismo hipócrita.  Assim, muitos países – sob o pretexto de respeitarem culturas diferentes – numa atitude repleta de farisaísmo, principalmente quando tem negócios com os países que castram a liberdade feminina, admitem que imigrantes continuem a humilhar, tiranizar, brutalizar e matar suas mulheres, como se elas estivessem no seu país de origem – tudo em nome de um Estado laico e democrático. Fazem ouvidos moucos ao sofrimento das mulheres.

Nenhum país civilizado pode permitir que – quando sob a sua tutela – mulheres sejam submetidas às mesmas barbáries sofridas nos países de onde vieram. Seria a negação absoluta dos direitos humanos, direitos esses que o torna diferenciado dos países inimigos das mulheres. Valorizar a vida na Terra é dar aos indivíduos – homens e mulheres – direitos e liberdades iguais, protegidos por um Estado que não aceita a subordinação, a violência e a crueldade sob o teto de suas leis e que não tem medo de ser acusado de racista.

Há que se respeitar as diferenças culturais, mas onde os valores da cultura não preservem a pobreza, a tirania e a corrupção moral contra a vida. Os governantes ocidentais não podem continuar fingindo que as violações das mulheres de certas culturas cessam quando elas deixam seus países originários. Sabemos que isso não é verdade, mesmo em países como a Holanda e a França. Faz-se necessário proteger as mulheres imigrantes.

Todas nós, mulheres, temos que lutar pela liberdade de expressão, pelo direito de pensar e explicitar o nosso pensamento. Este é o princípio básico da liberdade que nos livra do cativeiro e da submissão, vistos em outras partes do planeta. Este é o pilar que sustenta uma sociedade democrática, onde homens e mulheres tornam-se iguais. Sobretudo, não deixemos de clamar liberdade e respeito por todas as mulheres cativas – em quaisquer lugares em que se encontrem – mesmo que nos acusem de contar histórias tristes e cansativas.

Nota: Imagem copiada de http://myrianrios.com.br/blog/dia-internacional-da-mulher/

A MULHER ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de LuDiasBH

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No começo, sem dúvida nenhuma, era o homem a sua própria besta de carga – exceto quando casado. (Will Durant)

Quem pariu Mateus que o balance. (Provérbio popular)

As mulheres foram criadas para o trabalho. Elas armam nossas tendas, fazem nossas roupas, remendam-nas, conservam-nos quentes durante a noite… Por isso, não podemos dispensá-las numa viagem. Elas fazem tudo e custam pouco; e porque passam a vida cozinhando, quando chega o tempo de escassez contentam-se em lamber os dedos. (Certo cacique)

Alguns historiadores dizem que o homem difere dos animais unicamente pela educação que pode ser definida como “a técnica de transmitir a civilização”. No entanto, apesar das diferenças naturais entre os gêneros, é difícil compreender o que difere o homem da mulher a ponto de essa ter sido desprezada desde os primórdios da civilização.

Desde a vigência do clã, a mulher já desempenhava a maior parte das funções que cabiam aos homens em relação aos filhos. A existência do pai era na verdade um mero acidente de percurso de seus espermatozoides. Eles – os homens e não os espermatozoides – nem ao menos tinham noção da causa que levava uma mulher a ficar grávida. A presença do pai era extremamente superficial. A mulher e os filhos viviam juntos no clã, na companhia do irmão mais velho. O pai era muitas vezes desconhecido.

O mais aterrador era perceber que a mulher era tida como inferior, principalmente por ter que dar mais assistência aos filhos e por passar por períodos menstruais, o que diminuía a sua participação no manejo das armas e nas guerras. O macho não levava em consideração o fato de que era ela quem formava os futuros guerreiros da tribo e sem os seus cuidados não haveria homens para lutar num futuro muito próximo.

No estágio da caça, todo o trabalho caseiro era de responsabilidade da mulher. Nos intervalos das caças ou das guerras, os machos limitavam-se apenas a descansar. Nada mais faziam a não ser ficar de papo para o ar. Durante as guerras, cabia às mulheres levar todo o equipamento de sobrevida – exceto as armas – atrás de seus homens, para que esses não ficassem cansados na hora do ataque, além de lhes servir como fonte de prazer nos intervalos da luta e deles cuidar.

A mulher foi muito importante nas sociedades primitivas, sendo que o progresso econômico foi muito mais fruto dela que do homem. Ela foi responsável pela agricultura, iniciada ao redor dos acampamentos, pelas artes caseiras e pela transformação dessas em indústria, foi responsável pela domesticação de animais – preparando os alicerces para a civilização.

Embora a realidade prove a importante função feminina em qualquer aspecto social, mostrando a real necessidade que os homens têm das mulheres, alguns machos ainda se gabam de sua superioridade em relação à fêmea. Mesmo naquela época, casos excepcionais mostram mulheres na chefia de algumas tribos e, em outras, havia um conselho de mulheres mais velhas. Mas não nos esqueçamos de que a regra geral foi sempre a sujeição feminina.

Ainda é desesperadora a situação das mulheres em certas culturas que, atreladas a rigores religiosos arcaicos, tratam-nas com a mais escancarada humilhação, negando-lhes importância na continuação da espécie e no desenvolvimento da civilização, tendo elas um longo caminho pela frente na busca por sua dignidade.

Nota:  imagem de Artesanato de Santana do Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha.

MULHERES QUE CURAM

Autoria de Mani Alvarez*

            

Erveiras, raizeiras, benzedeiras, mulheres sábias que por muito tempo andaram sumidas, ou até mesmo escondidas. Hoje retornam com um diploma de pós-graduação nas mãos e um sorriso maroto nos lábios. Seu saber mudou de nome. Chamam de terapia alternativa, medicina vibracional, fitoterapia, práticas complementares… são reconhecidas e respeitadas, tem seus consultórios e fazem palestras.

As mulheres curadoras fazem parte de um antigo arquétipo da humanidade. Em todas as lendas e mitos, quando há alguém doente ou com dores, sempre aparece uma mulher idosa para oferecer um chazinho, fazer uma compressa, dar um conselho sábio. Na verdade, a mulher idosa é um arquétipo da “curadora”, também chamada nos mitos de Grande Mãe.

Não tem nada a ver com a idade cronológica, porque esse é um arquétipo comum a todas as mulheres que sentem o chamado para a criatividade, que se interessam por novos conhecimentos e estão sempre a procura de mais crescimento interno. Sua sabedoria é saber que somos “obras em andamento’, apesar do cansaço, dos tombos, das perdas que sofremos… A alma dessas mulheres é mais velha que o tempo, e seu espírito é eternamente jovem.

Talvez seja por isso que, como disse Clarissa Pinkola, “Toda mulher se parece com uma árvore. Nas camadas mais profundas de sua alma ela abriga raízes vitais que puxam a energia das profundezas para cima, para nutrir suas folhas, flores e frutos. Ninguém compreende de onde uma mulher retira tanta força, tanta esperança, tanta vida. Mesmo quando são cortadas, tolhidas, retalhadas, de suas raízes ainda nascem brotos que vão trazer tudo de volta à vida outra vez.”

Por isso, entendem as mulheres de plantas que curam, dos ciclos da lua, das estações que vão e vêm ao longo da roda do sol pelo céu. Elas têm um pacto com essa fonte sábia e misteriosa que é a natureza. Prova disso é que sempre se encontram mulheres nos bancos das salas de aula, prontas para aprender, para recomeçar, para ampliar sua visão interior. Elas não param de voltar a crescer…

Nunca escrevem tratados sobre o que sabem, mas como sabem coisas! Hoje os cientistas descobrem o que nossas avós já diziam – as plantas têm consciência! Elas são capazes de entender e corresponder ao ambiente à sua volta. Converse com o “dente-de-leão”, comunique-se com as plantas de seu jardim, com seus vasos, com suas ervas e raízes, o segredo é sempre o amor.

Minha mãe dizia que as árvores são passagens para os mundos místicos e que suas raízes são como antenas que dão acesso aos mundos subterrâneos. Por isso, ela mantinha em nossa casa algumas árvores que tinham tratamento especial. Uma delas era chamada de “árvore protetora da família” e era vista como fonte de cura, de força e energia. Qualquer problema, corríamos para abraçá-la e pedir proteção.

O arquétipo de ‘curadora’ faz parte do feminino, mesmo que seja vivenciado por um homem. Isso está aquém dos rótulos e definições de gênero. Faz parte de conhecimentos ancestrais que foram conservados em nosso inconsciente coletivo.

Perdemos a capacidade de olhar o mundo com encantamento, mas podemos reaprender isso prestando atenção nas lendas e nos mitos que ainda falam de realidades invisíveis que nos rodeiam. Um exemplo? Procure saber mais sobre os seres elementais que povoam os nossos jardins e as fontes de águas… fadas, gnomos, elfos, sílfides, ondinas, salamandras… As “curadoras” afirmam que podemos atrair seres encantados para nossos jardins! Como? Plantando flores e plantas que atraiam abelhas e borboletas, gaiolas abertas para passarinhos e bebedouros para beija-flores.

Algumas plantas “convidam” lindas borboletas para seu jardim, como milefólio, lavanda, hortelã silvestre, alecrim, tomilho, verbena, petúnia e outras. Deixe em seu jardim uma área levemente selvagem, sem grama, pois os seres elementais gostam disso. Convide fadas e elfos para viverem lá. Lembre-se: onde você colocar sua percepção e sua consciência, a energia vai atrás.

* Coordenadora do curso de pós-graduação em Práticas Complementares em Saúde

Nota:
Fotos de Maria Helena Gomes, raizeira, benzedeira e estudiosa sobre o assunto.
Contato para palestras: helenadoshelenos@yahoo.com.br

QUEM NÃO CONHECE UM SABE-TUDO?

Autoria de LuDiasBH

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A mais vasta parcela do que sabemos é menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. (Montaigne)

Convicções são inimigas da verdade, mais perigosas que as mentiras. (Nietzche)

Nunca se sabe tão pouco, como quando se acha que se sabe muito. Por isso, humildemente devemos nos curvar diante dos inúmeros questionamentos que habitam a nossa mente, para os quais jamais encontraremos respostas, pois mal uma questão é respondida, outras mil nascem à deriva da razão.

Existe um tipo de pessoa com o qual é dificílimo conviver: o sabe-tudo. É possível encontrá-lo como colega de trabalho, parente, vizinho ou até mesmo como companheiro de viagem. O sabichão é um chato de galocha, pois pensa concentrar em si mesmo toda a sapiência do mundo. Ele não concorda com nada do que você diz, só para poder desfiar a sua verborragia, mostrando que é o bambambã do pedaço, quando na verdade é um maçante, uma companhia desagradável e indesejável, da qual ficamos ansiosos para nos livrarmos. É incapaz de entender que existem muitas coisas que apenas soem ser compreendidas quando a modéstia habita em nós.

Quanto mais observamos o mundo, mais percebemos o quão distante nos encontramos de sua compreensão. Somos como um cão que tenta abocanhar o rabo, sem jamais consegui-lo. Em cada ínfimo de conhecimento que se agrega a nós, ramificam centenas de indagações e dúvidas. É preciso que fiquemos alertas contra as crenças que podem nos transformar em servos fieis da ignorância, pois a verdade não pode nascer da crença, seja ela qual for.  É preciso olhar qualquer hipótese com cautela, desconfiando de nossas próprias verdades, principalmente quando fomentadas pelos sentimentos. Somente a desconfiança pode nos levar à lucidez do questionamento, uma vez que a probabilidade não pode ser tomada como juízo imperativo.

Amedrontam-nos os pedantes que acham que nada têm a aprender. É melhor a companhia dos ponderados, dos cautelosos, dos equilibrados, dos que navegam na vigilância da suspeição e na possibilidade de estarem equivocados. A ciência jamais teria chegado até aqui, se não fossem os questionadores, os insatisfeitos com as respostas obtidas. A motivação para se buscar a verdade encontra-se na dúvida. E somente os humildes admitem a possibilidade de estarem errados, pois os que pensam saber tudo estão embotados pela arrogância, incapazes de navegar pelo universo da chamada “atitude crítica”.

O filósofo diz sabiamente: “o que sei é que nada sei”!