Arquivos da categoria: Crônicas

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TERRA E LUA BRINCANDO DE CORRUPIO (II)

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Desde a antiguidade sabe-se e percebeu-se que as marés mais altas e também as mais baixas, ocorrem tanto na lua cheia quanto na lua nova. Essas marés são chamadas de marés de sizígia. Esta palavra, usada até hoje pelas marinhas, já era usada pelos gregos e mais tarde pelos romanos, antes da nossa era. Sizígia que dizer conjunção ou alinhamento. Tanto na lua cheia quanto na nova, Terra, Sol e Lua estão em conjunção, isto é, aproximadamente alinhados. Quando se olha para a lua cheia, toda branca, redonda e iluminada, no horizonte, tem-se o Sol exatamente na sua nuca. Quando é lua nova, nosso satélite natural fica bem na direção do Sol e, por isso, ofuscado pelo brilho desse, a menos que passe bem na frente dele. Neste caso teremos, além de lua nova, um eclipse do Sol. Do ponto de vista da Física, com linguagem matemática, é simples a explicação para o fenômeno das marés. Aqui, no entanto, espero fazer com que o leitor possa entender este fato curioso e importante, usando a experiência que temos de nossas vidas diárias, sem o uso de fórmulas matemáticas ou físicas.

 Se não existissem a Lua e o Sol, não haveria o efeito das marés. As águas ao redor da Terra teriam sempre uma distribuição esférica. O nível do mar permaneceria sempre o mesmo. Comecemos por tratar de entender o efeito da presença da Lua como a maior causa para as marés. Você já deve ter visto ou sabido de uma brincadeira de crianças que se chama corrupio. Em meu tempo de infância, no Rio de Janeiro, essa brincadeira era comum entre pares de meninas. A brincadeira consiste em um par rodopiar de mãos dadas. À medida que as meninas rodopiam, uma ao redor da outra, as mãos dadas seguram para que elas não se separem. Se ambas têm o mesmo peso (a rigor, mesma massa), as duas farão voltas iguais, ao redor do centro (de massa) do par, exatamente na metade da distância que separa as duas. Imaginemos agora que uma delas é bem mais pesada que a outra. Agora, a menor fará voltas maiores e a maior fará voltas menores, mas no mesmo tempo. Se uma delas for muito mais pesada, elas continuarão a fazer suas voltas em tempos iguais. Também as forças com que cada uma puxa a outra são iguais. No entanto, aquela que é muito mais pesada fará um movimento muito menor, enquanto a mais leve fará uma volta muito maior.  A maior fará também voltas, só que ao redor do centro de massa que agora está muito mais perto dela. Pode até esse centro estar tão próximo dela, da mais gorda, quero dizer da mais pesada, que seu movimento vai se reduzir a uma espécie de “rebolado” ou bamboleio.

Essa brincadeira imaginária servirá para ajudá-lo a entender o fenômeno das marés. As meninas brincando de corrupio representam a Terra e a Lua.  As duas têm pesos (massas) muito diferentes. No caso, a Terra, em termos de massa, equivale a aproximadamente 80 vezes a Lua. Isso significa que seriam necessárias 80 Luas para equilibrar uma Terra, se puséssemos as duas em uma imaginária balança de pratos iguais. As meninas brincando de corrupio se mantinham unidas pela força que ambas fazem mutuamente unidas. A Terra e a Lua se mantêm unidas pelos “braços” invisíveis da mútua atração gravitacional. O fato de a Terra ter massa muitas vezes maior que a da Lua faz com que seu movimento seja muito menor, como a menina mais pesada no corrupio. Enquanto a Lua faz uma volta muito maior, a Terra faz apenas uma espécie de “rebolado” ou bamboleio ao redor do centro de massa das duas. Isso porque o centro de massa do sistema Terra-Lua está dentro da Terra, mais próximo à superfície.

Agora imagine que a “menina maior”, muito gorda, redonda, tem um “vestido”, o mar, que lhe envolve todo o corpo e dentro do qual ela pode se mover livremente. A menina menorzinha não está envolvida por nenhuma roupa (mar ou atmosfera). A atração entre as duas não tem nada para deformar na menina menor, mas tem na maior. O “vestido da maior”, do lado da menor será puxado para ela, isto é, fica com uma saliência voltada para a menor. Do lado oposto seu “vestido” fará também uma saliência, devida ao seu “rebolado” ou bamboleio. Em resumo: a menina menor não tem nenhum vestido para ser deformado. A maior, no entanto, tem um vestido que envolve todo seu corpo “gordo” e redondo. Esse “vestido” deformável, dentro do qual ela se move apresentará duas saliências iguais e opostas: uma voltada para a “menina” menor e outra em direção contrária ou “para trás”.

Entendido o corrupio das duas meninas, fica mais fácil entender o fenômeno das marés. A menorzinha das meninas, a Lua, não tem qualquer “vestido” que possa ser deformado na direção da “gorda”, a Terra. Esta, sim, é envolvida por um “vestido”, o mar que lhe cobre quase três quartas partes do “corpo” bem redondo. Se não houvesse essa “brincadeira”, o “vestido” da Terra, a água que lhe cobre quase todo o corpo teria uma distribuição esférica. A atração mútua em rodopio deforma a distribuição esférica do “vestido” de água da Terra. Com isso a distribuição das águas ao redor da Terra, em vez de esférica, assume uma forma de elipsoide cujo eixo mais longo fica na direção Terra-Lua (veja a figura no início do texto). Elipsoide é uma forma que lembra uma “bola” de futebol americano.

Nota: leia também: (links)

A IMPORTÂNCIA DAS MARÉS (I)
A LUA EXERCE EFEITO SOBRE OS SERES VIVOS? (III)

A LUA EXERCE EFEITO SOBRE OS SERES VIVOS?

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

A quantidade total da água existente na Terra é sempre a mesma. Se se acumula água em dois lados opostos da Terra, obrigatoriamente vai baixar a água nos dois lados perpendiculares. Essa deformação na distribuição das águas fica sempre direcionada para a Lua, girando lentamente (uma volta = 1 mês).  Ao mesmo tempo, a Terra está girando: uma volta a cada 24 horas, isto é, um dia. Imagine agora que cravamos uma grande estaca no fundo do mar, na posição 1. A estaca tem divisões para que se possa verificar a fundura, o nível da água. A escala da estaca na posição 1 vai marcar “maré- cheia”. Independente da deformação da massa líquida na direção da Lua, a Terra está girando: uma volta a cada 24 horas. Então, daqui a seis horas, a Terra deu um quarto de volta e a estaca passou para a posição 2. Aí a vara vai encontrar “maré-baixa”. Depois de mais seis horas a vara passou para a posição 3. Ela vai encontrar novamente “maré- cheia”. Passadas mais seis horas, a vara cravada na Terra estará na posição 4. Aí ela encontrará outra vez “maré-baixa”. Ao completar 24 horas a vara terá voltado à posição 1, de onde partiu.

Dessa maneira, marés-baixas e marés-cheias estariam separadas por um tempo de 6 horas e se repetiriam sempre às mesmas horas. Acontece que, quando a vara tiver voltado para a posição 1, a Lua já se deslocou um pouco mais e a deformação  continua voltada para ela. Por isso, a vara, para voltar à posição de maré-cheia, terá que se deslocar um pouco mais para encontrar o topo da deformação líquida. Esse tempo a mais é de aproximadamente 1 hora. Por essa razão, em lugar de o tempo entre marés- cheias e vazantes ser de 24 dividido por 4, que daria seis horas, será um pouco maior. Será de aproximadamente 25 horas divididas por 4. Isso dará ao redor de 6 horas e um quarto.  Se esse tempo fosse de exatamente 6 horas, as marés se repetiriam sempre às mesmas horas, o que não acontece.

Agora já deve ter ficado claro como a Lua e o Sol participam do fenômeno das marés. É ainda interessante notar que o efeito produzido pelo Sol é bem menor que o produzido pela Lua. A contribuição do Sol como causa das marés é um pouco menos da metade do efeito produzido pela Lua. Isso se deve à distância brutalmente (cerca de 400 vezes) maior do Sol. Na quadratura ou quartos (crescente e minguante), Lua e Sol estão em direções perpendiculares. É quando vemos a Lua bem pela metade. Nessa ocasião, Lua e Sol produzem efeitos perpendiculares sobre a distribuição das águas ao redor da Terra. Por isso seus efeitos se subtraem. As marés de quadratura têm amplitudes menores: as marés-cheias são menos altas e as marés-baixas são menos baixas.

O efeito das fases da Lua sobre as marés fez com que muita gente acreditasse num forte efeito da Lua sobre os seres vivos. A argumentação que tenho encontrado é mais ou menos a seguinte. É verdade que a Lua exerce um forte efeito sobre as águas na Terra? – É verdade! – É verdade que o corpo humano é constituído principalmente por água? – É verdade! – Então deve ser verdade que a Lua tem uma forte influência sobre o corpo humano e sobre os demais seres vivos, por serem eles constituídos principalmente por água? – Neste caso a resposta é “Não”.  O efeito das marés é um efeito sobre a distribuição das águas ao redor da Terra. Não é um efeito devido a qualquer propriedade da água. Voltando ao exemplo das duas meninas brincando de corrupio (visto no texto II), poderíamos dizer que as saliências que aparecem no “vestido” da maior não dependem da qualidade do tecido de que ele é feito. O efeito de maré é um efeito mecânico, pelo fato de a água recobrir quase todo o planeta de forma quase contínua.

É importante lembrar esse aspecto de continuidade na distribuição da massa líquida que envolve a Terra. Num lago, todo constituído de água, não se observa qualquer variação perceptível por conta da Lua. Não há marés nos lagos. Já na atmosfera também ocorrem variações parecidas às marés. Mesmo o corpo sólido da Terra sofre um esforço que tende a deformá-lo, como numa maré. Planetas e satélites podem até ser rompidos pelo esforço devido a marés, quando num campo gravitacional muito intenso. Isso acontece quando o campo gravitacional em que está um corpo é muito forte e muito diferente de um lado e do outro. Então lados opostos ficam submetidos a forças muito diferentes, podendo levar aquele corpo à ruptura.

Tudo isso também não significa que a Lua não tenha alguma influência sobre a vida e os seres vivos de modo geral.  Mas como? O Sol é a grande fonte de energia vital na Terra. É dele que vem a energia, em forma de luz, que através da fotossíntese dá origem aos compostos que originam e alimentam as cadeias de vida na Terra. Como a luz da Lua é um pouco da Luz do Sol refletida, nas noites de luar é um pouco mais de luz do Sol que a Lua nos proporciona. E’ inegável, portanto, que há alguma influência da Lua sobre nossas vidas. Nada, entretanto, como muitas crenças populares pretendem. Em quase todas as culturas, a Lua foi a grande medida do tempo decorrido: um mês é uma lunação. Para quem vive nos lugares mais ermos ou nas florestas, faz grande diferença poder enxergar o caminho à noite. Talvez o maior efeito da Lua sobre a vida humana seja como inspiração para os poetas e para os amantes. Poucas coisas poderiam ser mais poéticas e inspiradoras que um luar no sertão.

Nota: leia também: (links)
A IMPORTÂNCIA DAS MARÉS (I)
TERRA E LUA BRINCANDO DE CORRUPIO (II)

DIA DAS CRIANÇAS – ABRAÇAR OU PRESENTEAR?

Autoria de Celina Telma Hohmann
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Comemorar o Dia das Crianças é muito bom, principalmente para as indústrias de brinquedos que aumentam ainda mais seus robustos proventos, mas convenhamos, é tão bom um dia dedicado às crianças, mesmo que saibamos, na prática, que todos os dias são dias dessas pequenas criaturas adoráveis e algumas vezes perigosamente manipuladoras. O próprio dia dedicado a elas foi proposital. Houve oportunismo! E para variar, do lado político, claro! Um deputado esperto que só, levantou o lencinho acenando para que a data fosse proclamada como um dia especial, isso lá nos idos de 1920! Demorou um pouquinho, mas foi oficialmente declarada data nacional o “dia 12 de outubro”, como o Dia das Crianças!

O Brasil foi o primeiro a criar esta homenagem. Em outros países há diferentes datas e cada um com seu jeito peculiar de agraciar os pequenos e por vezes nem tão pequenos, mas, enfim, a data está aí e eu aqui, neste abençoado dia, relembrando os fatos da minha infância e de como não o comemorava. E filho de pobre tem Dia das Crianças? E nem fui criança pobre, apenas tive pais que só comemoravam o Natal e a Páscoa. Sorte que em idade escolar, as professoras supriam essa dolorosa falta.

Hoje temos como data importante o Dia dos Pequenos! E saímos em desabalada correria atrás dos brinquedos que já são monstros em preço e diversidade! Os pimpolhos cobram, contam quantos dias faltam para receberem os presentes que, claro, serão mais que um, afinal, pais e parentes têm a função de homenageá-los. E compramos fantásticos presentes que, por vezes, em menos de um dia já estão em frangalhos, seja pela ofegante necessidade que os pequenos têm em descobri-los, inclusive por dentro, ou pela doce habilidade dos fabricantes em construí-los com a certeza de que não serão para durar. Pobres adultos! Sorridentes, as crianças, com o sorriso em agradecimento aos presentes, ganham ainda nosso doce abraço e a sensação do “Pude agradá-los, Graças a Deus!”.

Quem fica indiferente à carência dos presentes que os pequenos tanto querem? Ninguém! Há campanhas para arrecadar brinquedos aos menos favorecidos, deslocamento de viaturas oficiais para fazer a entrega em lares onde elas estão. A festividade começa nas primeiras luzes do dia. Afinal é o dia delas! E que hoje, mais ainda que em outros dias, sintam-se amadas, queridas, realizadas e com saúde, pois se há doença, pode haver o presente, mas em nós, adultos, estará a tristeza. O pequeno doente, por vezes, estará impedido de tocar em seu brinquedo. Isso dói! E que aos pais caiba a responsabilidade de tentar incutir em todas essas puras cabecinhas, o valor do abraço, do respeito e do amor.

Crianças! Nossa certeza do sorriso puro, da bondade, mesmo que haja alguns pontapés certeiros, uns vacilos na elegância, um esbaldar-se em birras, ainda assim, crianças! Enfeites da vida! Certeza de que ainda há esperança! Parabéns a todas vocês! Hoje nem bolo é necessário. Uma boa tarde no parque (com seus brinquedos) e o cansaço à tarde, após muitas descobertas, muitos jogos nos novos celulares, iphones de última geração, ostentação aos amiguinhos das maravilhas ganhas e alguns arranhões pelos tombos na nova bicicleta, ou no chute errado do amigo/irmão!

Crianças, sejam felizes!

A ESCOLA DEVE ENSINAR A APRENDER E A AGIR

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

O que tradicionalmente entendemos por “escola” é o lugar em que formalmente nos ensinam conhecimentos. Quero me referir aqui a uma coisa que já tenho chamado em outra ocasião de protoeducação. Há um grande número de coisas que aprendemos sem que ninguém nos tenha dito que deveriam ser dessa ou daquela maneira; sem que nada de formal nos tenha sido dito. São coisas que, mesmo sem que alguém nos tenha falado, incorporam-se aos nossos hábitos e à nossa maneira de ser e de agir. Isso, no entanto, faz-se pelo convívio em um “ambiente” em que esses valores presentes se incorporam pelo hábito e pelo exercício. Esse exercício deveria ser proporcionado desde a pré-escola, mas nossa pré-escola, quase sempre, limita-se, quando existe, a cuidados de higiene e alimentação, quando não apenas de “depósito” temporário.

Desde cedo, nós precisamos adquirir ou consolidar hábitos de respeito às pessoas, às coisas, especialmente públicas, à gestão de nossas coisas e às normas de convivência. Deveria começar aí um convívio com pessoas preparadas para esse nível da EDUCAÇÃO. Não é incrível que, para que os animais adquiram hábitos que deles esperamos, sejam empregadas pessoas com formação específica, e não exigimos qualquer preparação específica para que os professores saibam ensinar seres humanos a viver em sociedade e construir seu próprio conhecimento?

O crescimento cada vez mais vertiginoso do conhecimento e das tecnologias força-nos numa direção de que a escola, no mais das vezes, nem sequer se deu conta. Não vamos poder continuar a pensar na escola como o lugar em que ensinamos todos os programas. Programas rapidamente se tornarão obsoletos ou inúteis. A escola deverá ENSINAR a APRENDER e a AGIR (empreender) em lugar de fazer os inúteis discursos sobre conteúdos e, pior ainda, inúteis discursos sobre como deveremos agir. Curiosamente a EDUCAÇÃO como instituição é a que menos se tem atualizado e a que mais resiste a compreender uma coisa simples: não aprendemos a nadar ouvindo discursos sobre natação, ainda que fossem feitos por campeões olímpicos.

Na nossa escola de Ensino Fundamental existe um descalabro reinante. Esse baixíssimo rendimento se deve basicamente ao despreparo tanto na competência docente quanto na postura frente aos alunos. Esses fatos ficam muito agravados pela permissividade da escola aos maus hábitos trazidos da rua.  A ESCOLA, por falta de preparo docente e institucional, se tornou permissiva e tolerante com a burla, com as pequenas fraudes e com a violação das regras de convívio civilizado. Em lugar de a escola irradiar cultura ela passou a ser invadida pela cultura da rua.

Muitas vezes se cultiva o “mito do alto nível”, a ideia de que se está estudando algo muito complicado pela incapacidade de fazer as coisas mais entendíveis. Parece que se cultiva o complicado pelo “status” conferido pelas coisas “difíceis”. Muitas vezes também os alunos ajudam a cultivar esse “mito do alto nível”. Coisas complicadas parecem conferir “status” a quem as ouve, mesmo que as não entenda. Essa é uma postura que indica e acentua o “sub” desenvolvimento. Até altos índices de reprovação ajudam, às vezes, a cultivar o mito do “alto nível”. Física e Matemática são áreas que sofrem particularmente dessas “enfermidades”. Uma das razões para os altos índices de rejeição dessas disciplinas é a abordagem inadequada e frequentemente devida ao pouco preparo docente.

Nosso ensino é feito quase que exclusivamente pelo discurso do professor. Quase nada fica do quase tudo que pensamos ter ensinado, quando se usa o “método” apenas discursivo ou de copiar do quadro negro. Lamentavelmente, a única coisa que não sofreu qualquer modernização no último século, especialmente no mundo “sub” desenvolvido, é a forma da aula. A presença de computadores ou de modernos meios de “multimídia” não significa muito, se não estiverem presentes aqueles ingredientes indispensáveis à construção ativa do conhecimento. Construção do conhecimento exige vontade do educando, desafio à sua inteligência, alguma forma de ação, o prazer lúdico da descoberta, discussão, verbalização dos próprios argumentos. Aprender a calar para ouvir argumentos dos outros também faz parte desse processo de construção que deve ser orientado pela necessária competência do professor.

Nota: texto extraído do livro “Nossa Escola Quase Inútil”, 2006, inédito

Imagem: pormenor de A Escola de Atenas, obra de Rafael Sanzio.

 

A IMPORTÂNCIA DAS MARÉS (I)

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Você já deve ter ouvido falar em marés.  Maré é a subida e descida do nível do mar que acontece de maneira regular e periódica. Por que nos pode interessar saber sobre isso? Há várias razões de ordem prática muito importante. A primeira tem a ver com a operação de todas as embarcações que estão operando próximo da costa e que podem encalhar se estiverem navegando em lugar cuja profundidade é menor ou igual que o seu calado (distância vertical entre a linha de flutuação e a parte inferior da embarcação). É uma questão de segurança, tanto mais importante quanto maior o tamanho da embarcação. Para um pequeno barquinho, que você pode arrastar, isso pode não ter nenhuma importância. Para uma embarcação comum isso pode significar, pelo menos, sofrer sérias avarias, além de encalhar. Para um grande navio isso pode frequentemente condená-lo a morte. Se você imagina o enorme peso de um grande petroleiro carregado, bem pode imaginar e dificuldade de arrastá-lo se encalhado. Mais grave ainda é o comprometimento de sua estrutura, projetada e feita para que seu peso seja uniformemente distribuído ao longo de todo seu corpo. É por essas razões que as autoridades marítimas publicam todos os anos uma tábua das marés com as horas e alturas da maré em todos os portos de seus países e em muitos outros.

Essas publicações que se chamam tábuas das marés são publicadas para o ano seguinte e preveem a hora e o minuto tanto da preamar (maré cheia) quanto da baixa-mar. Essa previsão é feita para a hora e o minuto do ano seguinte e com uma precisão de decímetro. Isso quer dizer que a tábua das marés prevê para cada porto, um ano antes, se a preamar  vai ser, por exemplo, de 1,5m ou 1,6m. Em relação à hora, a previsão tem a precisão do minuto: se vai acontecer às 11:52h ou 11:53h, por exemplo. Esses dados só importam quando se está  navegando em águas cuja profundidade pode ser igual ou menor que o calado de nossa embarcação. Quando se está navegando em águas oceânicas e muito profundas não se percebe nem importam as marés. Se estamos navegando em águas que tem centenas ou milhares de metros de profundidade não se percebe nem importa a alteração de profundidade devida às marés.

Todos os seres vivos, que habitam a orla marítima, sempre sentiram a forte influência das marés. Há uma grande quantidade de vida que habita os limites entre o mar e a terra e que se desenvolve em função do fluxo (avanço) da maré e de seu refluxo (recuo). A amplitude desse movimento e sua duração condicionam a sobrevivência de muitas espécies. Os pescadores e sua relação de intimidade com o mar e com o comportamento dos peixes tem tudo a ver com as marés. Todos os povos que têm vivido na orla do mar têm seus costumes e sua cultura muito ligados aos ciclos das marés. Em algumas desembocaduras de grandes rios, como no Amazonas, as marés produzem também um ruidoso e violento embate entre as águas do rio e do mar: é a pororoca.

Todos os nossos ancestrais que viveram a beira-mar sempre conheceram o fenômeno das marés. Desde a antiguidade também se havia percebido uma estreita relação entre as marés e as fases da Lua. No entanto, a explicação científica só se tornou possível a partir da equação da gravitação de Newton (Isaac Newton (1642-1727). Essa equação diz: dois corpos se atraem na razão direta de suas massas e na razão inversa do quadrado da distância que os separa. Essa foi a mais retumbante de todas as descobertas feitas pelo gênero humano. Nenhuma outra teve tantas consequências e desdobramentos. Com ela ficavam explicados muitos fatos até então misteriosos e não entendidos. Ficava claro, física e matematicamente um grande número de fenômenos importantes para se entender o funcionamento do Mundo. A partir daí se podia entender a queda dos corpos, a razão por que os copos celestes são esféricos, porque a Lua se mantém em órbita da Terra, porque a Terra e os planetas orbitam ao redor do Sol, porque cometas têm órbitas tão excêntricas e muitas outras coisas. Entre essas outras coisas estava também a explicação para o fenômeno das marés.

Nota: leia também: (links)

TERRA E LUA BRINCANDO DE CORRUPIO (II)

A LUA EXERCE EFEITO SOBRE OS SERES VIVOS? (III)

O QUE FALTA AO POVO BRASILEIRO?

 Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Temos e somos o BRASIL. Temos e somos a cultura brasileira. Esta cultura inclui muitas diferentes características no sentir, no olhar, no fazer e nas relações. Estas características resultam das muitas variáveis reunidas pelas circunstâncias de nossa história. Somos o que somos por muitas razões. Uma dessas razões é a nossa história que não podemos mudar. Esta história produziu-nos uma CULTURA com muitas qualidades. Algumas dessas nos ajudam, mas há outras que nos retardam e podem até nos conduzir ao caos.

Ao longo de nossa história, nós, brasileiros, habituamo-nos, muitas vezes, à desconsideração pelas normas de ordenamento civilizado e respeito às instituições. Também de nada nos adianta culpar a história por nossos defeitos. O que poderíamos fazer é mudar seu curso futuro. Para isso, no entanto, temos que, em primeiro lugar, reconhecer nossos problemas em relação a culturas cujos benefícios também queremos alcançar. Em segundo lugar teríamos que estar dispostos a fazer um grande esforço para mudar o rumo da história futura. Já não podemos confiar naquele ufanismo tolo que pregava o destino obrigatoriamente glorioso do Brasil. Também não nos valerá a esperança de que seremos salvos sem “fazer força” porque “Deus é brasileiro”.

Hoje sabemos que a riqueza de um país depende muito pouco de seus recursos naturais e muito mais da competência (EDUCAÇÃO) e trabalho de sua gente. A verificação disso pode ser evidenciada tanto por países cheios de riquezas naturais e subdesenvolvidos quanto por países ricos que são pobres de recursos naturais. Entre os grandes problemas que teríamos que reconhecer, aquele que está numa das raízes de nossa cultura e que se constitui, a meu ver, no maior deles: a falta de seriedade nas relações e, que resulta numa complacência ou tolerância com a burla, com as pequenas transgressões e com os pequenos delitos. Dele resultam a impunidade (aceita) e a muito difundida postura de querer “levar vantagem” em tudo. Chegou-se ao ponto de o cidadão honesto e cumpridor de seus deveres sentir-se um “otário”, envergonhado diante de tanta “esperteza”. Isso acaba por minar todas as relações e a comprometer quase todas as iniciativas e projetos que  poderiam resultar em uma sociedade mais produtiva, mais justa e mais segura.

Não nos faltam leis e normas de convívio. Falta-nos o exercício e o hábito de observá-las para o bem de todos. Isso só pode ser conseguido com EDUCAÇÃO. Esta não se resume a boas maneiras somadas a conhecimentos. A EDUCAÇÃO de que precisamos exige seriedade, competência e exercício de cidadania. Essas coisas, sabe-se, não são aprendidas simplesmente ouvindo discursos ou mesmo aulas sobre esses temas, mas exercitando esses valores diariamente, de modo especial na fase em que se formam nossos primeiros hábitos,  desde nossa primeira infância. O desejável seria que isso sempre ocorresse no meio familiar. Hoje sabemos que já não se pode contar com a família para que todos passem por esse tipo de EDUCAÇÃO. Por mais essa razão fica aumentada a responsabilidade e a importância tanto da ESCOLA quanto do PROFESSOR.

Nota: texto extraído do livro “Nossa Escola Quase Inútil”, 2006, inédito