Arquivos da categoria: Decifrando Provérbios

Provérbios eruditos, populares e expressões idiomáticas de nossa cultura e de outras.

QUANDO A ESMOLA É DEMAIS…

Autoria de LuDiasBH

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“Quando a esmola é demais o santo desconfia” trata-se de um dos provérbios mais conhecidos em território brasileiro. Quem não conhece entre seus contatos uma pessoa que, necessitada de um favor, debulha-se em mil e um salamaleques para com o indivíduo capaz de realizar seu intento? Os tolos caem fácil na zumbaia, sentindo-se importantes com tamanha bajulação, mas os espertos não caem nesse rapapé, fazendo ouvidos de mercador. Existe uma fábula interessante que define muito bem este provérbio. Vamos a ela.

Certo cão levava sua vidinha rotineira, vigiando os pertences de seu dono desde o cair da noite até o alvorecer. E o fazia de bom grado, pois se tratava de um amo muito generoso, que lhe permitia dormir a sono solto no dia seguinte. Durante a sua vigia, sempre passava pela calçada, onde ficava a casa de seu senhor, certo fulano assobiando, sem ao menos lhe lançar um olhar. Mas eis que um dia, já na calada da noite, lá estava o dito lançando-lhe nacos de carne, tentando acariciá-lo. Esperto que era, logo intuiu que o sujeito estava querendo o seduzir com o objetivo de roubar o seu dono. Uma vez com a boca cheia, ficava incapacitado de latir ou morder. O fiel cão então disse ao ladrão:

– Olá, se queres trancar a minha boca para eu não avisar o meu dono sobre tua presença, estás totalmente enganado, pois jamais cairei nesta tua imprevista generosidade. O melhor que tu fazes é cair fora, antes que eu lhe arranque um naco das pernas.

E assim é a vida, meus amigos. Há muita gente por aí que tenta nos fazer de tolos, usando-nos a bel-prazer, manobrando-nos de acordo com seus interesses. Resta-nos ficar espertos, pois “quando a esmola é muito grande, o santo desconfia”.

VOLTANDO À VACA FRIA…

Autoria de LuDiasBH

vaca

Dona Faustina, carne com unha com a minha avó, era uma mulher e tanto, alicerçada pelos mais altos valores da fé cristã, ia à missa dia sim e outro também. Ajoelhava-se no seu genuflexório feito de peroba, enfeitado com uma almofadinha de seda vermelha e rodeada de crochê, onde descansava os joelhos já gastos pelo reumatismo. Era daquele tipo de devota que levava o sermão aprendido na igreja para dentro de sua vivência. Por uma palavrinha dita fora do lugar, ela catequizava o desatento por horas a fio, com sua vozinha baixa e arrastada.

De uma feita, surgiu na cidade o boato de que o senhor Horácio Borges, esposo da personagem tão glorificada acima, estava encafifado com certa sirigaita da roça. Ninguém sabe se aquilo era verdade, ou como foi cair nos ouvidos de dona Faustina, sempre tão preocupada com a vida religiosa. O fato é que ela transformou o assunto num sermão diário, onde quer que se encontrasse, e quem quer que fosse o pobre ouvinte.

A nossa fervorosa personagem não tinha outro tema para versar, a não ser falar sobre o “santo sacramento do matrimônio” e sobre as punições que aguardavam, no inferno, o adúltero.  E, se o senhor Horácio Borges estivesse por perto, tudo tomava um ar de indiretas, deixando o visitante corado de vergonha, sem saber onde enfiar a cara, uma vez que o infiel era um homem sério, autoridade na cidade e membro de irmandades e coisa e tal.

Quem tentasse desviar o rumo da conversa enviesada de dona Faustina, cujo sujeito da observação era o seu cônjuge, dava com os burros n’água. Minha avó era uma dessas. Ela interrompia o falatório da amiga, falando sobre outros assuntos, de modo a descansar o ouvido do réu da palração, para não cair numa saia justa. Dona Faustina ouvia tudo atentamente, sem demonstrar a menor impaciência. Mas assim que minha avó se calava, ou por falta de assunto ou para respirar, a supostamente traída senhora recomeçava:

– Voltando à vaca fria, existe homem que desrespeita um sacramento divino, não sabendo que as portas do inferno estão abertas para ele…

Como pode observar o meu querido leitor, a antiquíssima expressão “voltar à vaca fria” é usada quando, por um motivo ou outro, alguém saiu do assunto principal da conversa e quer retomá-lo. Os franceses usam a palavra “moutons” (carneiros), que na tradução para o português virou “vaca”. Sendo que o uso da palavra “vaca” pode estar ligado ao fato de que, em Portugal, era costume servir, antes das refeições, um prato frio feito com carne de gado. Há também uma versão de que um advogado de defesa, para defender seu cliente, fazia longas digressões, viajando, inclusive pela mitologia grega, quando o juiz, já cansado de tanta embromação, cortava o palavrório:

– Tudo isto é muito bonito, mas voltemos à vaca fria.

Nota: Imagem copiada de desce1lead.wordpress.com

VOCÊ JÁ SERVIU DE BOI DE PIRANHA?

Autoria de LuDiasBH

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Estaria minha amiga Thaiz com a razão? Hoje, notei que estava precisando que alguém a ouvisse. E não me fiz de rogada. Deixei que lavasse a alma, dizendo tudo que sentia. Percebi que ela servira de “bucha de canhão” e se sentia injustiçada. Um resumo de suas palavras:

– Hoje, eu me peguei pensando nas vezes sem conta em que me usaram, ou em que eu tenha permitido que me usassem, como um verdadeiro “boi de piranha”. E pior, eu não sou devorada viva como acontece com o pobre animal, mas esfacelada paulatinamente. A dor é tão grande, que tenho a sensação de que vou me desintegrar em meio ao caos que assola minha alma. Mas, depois, nasce uma força estranha dentro de mim, e sinto-me forte, especial, como a fênix que renasce das cinzas. Os outros, ou seja, as piranhas que tentaram me devorar, não estarão bem por muito tempo, pois tudo na vida tem o seu reverso. Portanto, entrego tudo nas mãos do tempo. O importante é que minha consciência esteja tranquila. O importante é caminhar, sempre!

Certíssima em entregar a contrapartida dos reveses ao tempo, minha amiga saiu da conversa bem mais leve, e eu fiquei curiosa para saber a origem da expressão boi de piranha, à qual ela se referiu com tanta mágoa. Vamos lá:

Quando os boiadeiros vão atravessar com suas boiadas os rios da Bacia Amazônica e do Pantanal, quase sempre infestados por piranhas (peixes carnívoros), pegam o boi mais velho e cansado ou o mais doente da manada, e o sacrificam, colocando o pobre infeliz num lugar acima ou abaixo de onde se dará a travessia. De modo que, enquanto as piranhas devoram a pobre vítima, os boiadeiros aproveitam para atravessar o rebanho bovino, sem perigo algum. Esta expressão popular é genuinamente brasileira.

Transposta para a linguagem popular, segundo o nosso Aurélio, trata-se da pessoa que, em um grupo, é submetida ou se submete a um sacrifício ou experiência para favorecer os companheiros. Não é fácil servir de “boi de piranha” contra a vontade.

Nota: Imagem copiada de globoesporte.globo.com

VIVENDO AO DEUS-DARÁ

Autoria de LuDiasBH

mendigo

Eu fico cá pensando com os meus botões, qual será o porquê de alguns poucos indivíduos viverem no bem bom, enquanto grande parte da humanidade vive ao deus-dará, se vivemos neste planeta apenas como hóspedes, e ainda por cima por um curto tempo. Não adianta abocanharmos tudo que podemos, perdendo a noção da brevidade de nossa vida. Na verdade, não somos absolutamente donos de nada. Tudo nos é emprestado por um determinado tempo. Logo deixaremos essa bagagem para outrem. E os ladrões do erário público ainda acham que enganam a morte, ao jogar na rua da amargura tantos desvalidos, privando-os de saúde, educação e comida.  Mas Deus dará a eles o que merecem. Não perdem por esperar!

A expressão “deus-dará” que o Aurélio explica como “à toa; a esmo; ao acaso; à ventura; a Deus e à ventura” possui duas explicações para a sua origem:

Lá pelo século XVII, em Recife (PE), os soldados eram providos pela Fazenda Real. Mas, por isso ou por aquilo, alguns não eram abastecidos, de modo que os necessitados se viam obrigados a recorrer ao comerciante Manoel Álvares. E, se por acaso faltava ao bom homem as mercadorias necessárias, esse consolava os soldados dizendo: “Deus dará!”. E tanto repetia a expressão, o que significa que ele estava sempre com falta de mercadorias, que foi apelidado pelos soldados de “Deus Dará”, apelido esse que, com o passar do tempo, foi agregado a seu nome próprio: Manuel Álvares Deus Dará. O mais interessante é que o acréscimo também passou para seus descendentes como sobrenome.

Outros, porém, contam que “deus-dará” tem a ver com os sovinas que se recusavam a dar esmolas. Quando um mendigo tinha o desprazer de estender a mão, em busca de um auxílio, a um desses unha de fome, ouvia logo a resposta: “Deus dará!”. E assim, o coitado ficava abandonado à própria sorte, aguardando que Deus socorresse-o.

Fontes de pesquisa:
A Casa da Mãe Joana / Reinaldo Pimenta
http://ninitelles.blogspot.com.br

Nota: Imagem copiada de tmsfrainha.blogspot.com

OS BICHOS NA FALA DAS GENTES

Autoria de LuDiasBH

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Sirvo-me dos animais para instruir os homens. (La Fontaine)

Os animais sempre serviram como fonte de aprendizagem para a humanidade, a começar pela presença desses nas fábulas de Esopo, Fedro e La Fontaine, entre outros escritores. A natureza foi sempre um imenso laboratório para o conhecimento humano. E quanto mais observador for o indivíduo, mais aprenderá com os ensinamentos que ela lhe repassa, inteiramente de graça. São inúmeras e preciosas as lições que ali se encontram à nossa disposição. E, segundo o pesquisador Pe. Paschoal Rangel, “A vida dos animais são metáforas de nossa vida.”.

Eis alguns provérbios sobre animais:

  1. Filho de peixe, peixinho é.
  2. Boi sonso a marrada é certa.
  3. Cada macaco no seu galho
  4. Cão que ladra não morde.
  5. De noite todo gato é pardo.
  6. Desse mato não sai coelho.
  7. Ovo de cobra não gora.
  8. Uma cobra engole a outra.
  9. Um gambá cheira o outro.
  10. Tudo que vem na rede é peixe.
  11. Para quem é, bacalhau basta.
  12. Passarinho na muda não canta.
  13. Bode velho gosta de capim novo.
  14. Uma andorinha só, não faz verão.
  15. Abelha que muito voa não faz mel.
  16. Quem não tem cão, caça com gato.
  17. Os cães ladram e a caravana passa.
  18. A cavalo dado não se olha os dentes.
  19. Camarão que fica parado a onda leva.
  20. Cobra que não anda não engole sapo.
  21. Enquanto o gato dorme, o rato passeia.
  22. Galinha ciscadeira acaba achando cobra.
  23. Quem nasceu para tatu, morre cavando.
  24. Uma ovelha má põe o rebanho a perder.
  25. Caititu fora da manada é comida de onça.
  26. Todo galo valentão para a galinha é capão.
  27. Em terra de sapo, mosquito não dá rasante.
  28. Xexéu e vira-bosta, cada qual do outro gosta.
  29. Em terreiro de galinha, barata não tem razão.
  30. Galinha que acompanha pato morre afogada.
  31. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.
  32. Papagaio come milho e periquito leva a fama.
  33. Sapo não pula por boniteza, mas por precisão.
  34. Quando um burro fala, o outro baixa a orelha.
  35. Praga de urubu magro não mata cavalo gordo.
  36. Em casa de Gonçalo canta a galinha e cala o galo.
  37. Quem anda com perereca tem que aprender a pular.
  38. Antes burro que me leve, que cavalo que me derrube.
  39. Urubu quando está de azar, o de baixo suja no de cima.
  40. Deus te dê ao que deu ao bode: catinga, barba e bigode.
  41. Se tamanho fosse documento, elefante era dono de circo.

Nota: Imagem copiada de http://eu-sou-luz.blogspot.com.br

Fonte de pesquisa:
Provérbios e ditos populares/ Pe. Paschoal Rangel

MANTEIGA DERRETIDA

Autoria de LuDiasBH

manre

Existe coisa mais chata do que criança mimada excessivamente, que chora por qualquer coisa? As lágrimas já ficam ali, escondidinhas nos cantos dos olhos, prestes a desabar. Em hipótese alguma aceitam a palavra “não”, e pensam que tudo e todos estão a seu dispor. Mas minha raiva maior é dos pais, pois esses anjinhos chorões, pequeninos rebentos, vão amargar um futuro desastroso no contato com o mundo real, enchendo as burras dos terapeutas.

A minha priminha Juju é uma manteiga-derretida “hors-concours”. Se cisma que alguém olhou para ela de um jeito meio enviesado, corre para os braços da mãe ou do pai, fazendo o maior berreiro, quando não quebra tudo que encontra. Até as coleguinhas vêm se afastando dela, cansadas de sua denguice, pois afinal ninguém é de ferro para aguentar tanto chilique.

Dias desses, estava a dengosa brincando com uma amiguinha, quando começou um berraria inusitada. Corremos todos para o quarto da pequena, pensando que algum armário tivesse desabado sobre ela. A cena era patética: ela, a dengosa, estava deitada no chão, batendo pernas e braços, enquanto a amiguinha, encolhida num cantinho do quarto, trazia o rosto molhado de lágrimas meio silenciosas. A mãe, minha primona, tomou a birrenta no colo querendo saber o que lhe acontecera. Entre berros ela se explicou:

– Eu não quero brincar com a minha Barbie, quero a dela, e ela não quer me dar.

Imaginei que fosse uma boa hora para que a prima ensinasse à filha alguns limites, de modo a respeitar o que era da amiga. Mas não! Para agradar a chorona, disse-lhe:

– Não chore mais, filha, pois a mamãe vai lhe dar uma boneca igualzinha a essa. Não se importe com a boneca de sua amiga.

Enquanto a amiguinha ia embora envergonhada, sem receber uma palavra de atenção da mãe da chatinha, eu murmurei entre dentes:

– Cuidado prima, a gente cria filhos para o mundo e não para nós.

Ao que ela me respondeu:

– Ela é muito pequena ainda, vai chegar o seu tempo de aprender.

Dias desses fiquei sabendo que a manteiga-derretida deu o maior show no aniversário de uma de suas coleguinhas. Fazia birras porque queria um pedaço do bolo da aniversariante, antes da hora, sem esperar pelos parabéns. Não sendo atendida, puxou a toalha da mesa, espatifando tudo no chão. Envergonhados, os pais não sabiam onde enfiar a cara. Bem feito! Quem planta urtiga jamais colherá miosótis. É como diz o ditado: É de pequenino que se torce o pepino!

Já ia me esquecendo de falar sobre a expressão “manteiga-derretida”, uai. Trata-se de uma alusão ao chiado da manteiga, quando é levada ao fogo.

Nota: Imagem copiada de feiradesantacruz.com.br