Arquivos da categoria: Decifrando Provérbios

Provérbios eruditos, populares e expressões idiomáticas de nossa cultura e de outras.

VOCÊ JÁ SERVIU DE BOI DE PIRANHA?

Autoria de LuDiasBH

boi

Estaria minha amiga Thaiz com a razão? Hoje, notei que estava precisando que alguém a ouvisse. E não me fiz de rogada. Deixei que lavasse a alma, dizendo tudo que sentia. Percebi que ela servira de “bucha de canhão” e se sentia injustiçada. Um resumo de suas palavras:

– Hoje, eu me peguei pensando nas vezes sem conta em que me usaram, ou em que eu tenha permitido que me usassem, como um verdadeiro “boi de piranha”. E pior, eu não sou devorada viva como acontece com o pobre animal, mas esfacelada paulatinamente. A dor é tão grande, que tenho a sensação de que vou me desintegrar em meio ao caos que assola minha alma. Mas, depois, nasce uma força estranha dentro de mim, e sinto-me forte, especial, como a fênix que renasce das cinzas. Os outros, ou seja, as piranhas que tentaram me devorar, não estarão bem por muito tempo, pois tudo na vida tem o seu reverso. Portanto, entrego tudo nas mãos do tempo. O importante é que minha consciência esteja tranquila. O importante é caminhar, sempre!

Certíssima em entregar a contrapartida dos reveses ao tempo, minha amiga saiu da conversa bem mais leve, e eu fiquei curiosa para saber a origem da expressão boi de piranha, à qual ela se referiu com tanta mágoa. Vamos lá:

Quando os boiadeiros vão atravessar com suas boiadas os rios da Bacia Amazônica e do Pantanal, quase sempre infestados por piranhas (peixes carnívoros), pegam o boi mais velho e cansado ou o mais doente da manada, e o sacrificam, colocando o pobre infeliz num lugar acima ou abaixo de onde se dará a travessia. De modo que, enquanto as piranhas devoram a pobre vítima, os boiadeiros aproveitam para atravessar o rebanho bovino, sem perigo algum. Esta expressão popular é genuinamente brasileira.

Transposta para a linguagem popular, segundo o nosso Aurélio, trata-se da pessoa que, em um grupo, é submetida ou se submete a um sacrifício ou experiência para favorecer os companheiros. Não é fácil servir de “boi de piranha” contra a vontade.

Nota: Imagem copiada de globoesporte.globo.com

VIVENDO AO DEUS-DARÁ

Autoria de LuDiasBH

mendigo

Eu fico cá pensando com os meus botões, qual será o porquê de alguns poucos indivíduos viverem no bem bom, enquanto grande parte da humanidade vive ao deus-dará, se vivemos neste planeta apenas como hóspedes, e ainda por cima por um curto tempo. Não adianta abocanharmos tudo que podemos, perdendo a noção da brevidade de nossa vida. Na verdade, não somos absolutamente donos de nada. Tudo nos é emprestado por um determinado tempo. Logo deixaremos essa bagagem para outrem. E os ladrões do erário público ainda acham que enganam a morte, ao jogar na rua da amargura tantos desvalidos, privando-os de saúde, educação e comida.  Mas Deus dará a eles o que merecem. Não perdem por esperar!

A expressão “deus-dará” que o Aurélio explica como “à toa; a esmo; ao acaso; à ventura; a Deus e à ventura” possui duas explicações para a sua origem:

Lá pelo século XVII, em Recife (PE), os soldados eram providos pela Fazenda Real. Mas, por isso ou por aquilo, alguns não eram abastecidos, de modo que os necessitados se viam obrigados a recorrer ao comerciante Manoel Álvares. E, se por acaso faltava ao bom homem as mercadorias necessárias, esse consolava os soldados dizendo: “Deus dará!”. E tanto repetia a expressão, o que significa que ele estava sempre com falta de mercadorias, que foi apelidado pelos soldados de “Deus Dará”, apelido esse que, com o passar do tempo, foi agregado a seu nome próprio: Manuel Álvares Deus Dará. O mais interessante é que o acréscimo também passou para seus descendentes como sobrenome.

Outros, porém, contam que “deus-dará” tem a ver com os sovinas que se recusavam a dar esmolas. Quando um mendigo tinha o desprazer de estender a mão, em busca de um auxílio, a um desses unha de fome, ouvia logo a resposta: “Deus dará!”. E assim, o coitado ficava abandonado à própria sorte, aguardando que Deus socorresse-o.

Fontes de pesquisa:
A Casa da Mãe Joana / Reinaldo Pimenta
http://ninitelles.blogspot.com.br

Nota: Imagem copiada de tmsfrainha.blogspot.com

OS BICHOS NA FALA DAS GENTES

Autoria de LuDiasBH

bich

Sirvo-me dos animais para instruir os homens. (La Fontaine)

Os animais sempre serviram como fonte de aprendizagem para a humanidade, a começar pela presença desses nas fábulas de Esopo, Fedro e La Fontaine, entre outros escritores. A natureza foi sempre um imenso laboratório para o conhecimento humano. E quanto mais observador for o indivíduo, mais aprenderá com os ensinamentos que ela lhe repassa, inteiramente de graça. São inúmeras e preciosas as lições que ali se encontram à nossa disposição. E, segundo o pesquisador Pe. Paschoal Rangel, “A vida dos animais são metáforas de nossa vida.”.

Eis alguns provérbios sobre animais:

  1. Filho de peixe, peixinho é.
  2. Boi sonso a marrada é certa.
  3. Cada macaco no seu galho
  4. Cão que ladra não morde.
  5. De noite todo gato é pardo.
  6. Desse mato não sai coelho.
  7. Ovo de cobra não gora.
  8. Uma cobra engole a outra.
  9. Um gambá cheira o outro.
  10. Tudo que vem na rede é peixe.
  11. Para quem é, bacalhau basta.
  12. Passarinho na muda não canta.
  13. Bode velho gosta de capim novo.
  14. Uma andorinha só, não faz verão.
  15. Abelha que muito voa não faz mel.
  16. Quem não tem cão, caça com gato.
  17. Os cães ladram e a caravana passa.
  18. A cavalo dado não se olha os dentes.
  19. Camarão que fica parado a onda leva.
  20. Cobra que não anda não engole sapo.
  21. Enquanto o gato dorme, o rato passeia.
  22. Galinha ciscadeira acaba achando cobra.
  23. Quem nasceu para tatu, morre cavando.
  24. Uma ovelha má põe o rebanho a perder.
  25. Caititu fora da manada é comida de onça.
  26. Todo galo valentão para a galinha é capão.
  27. Em terra de sapo, mosquito não dá rasante.
  28. Xexéu e vira-bosta, cada qual do outro gosta.
  29. Em terreiro de galinha, barata não tem razão.
  30. Galinha que acompanha pato morre afogada.
  31. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.
  32. Papagaio come milho e periquito leva a fama.
  33. Sapo não pula por boniteza, mas por precisão.
  34. Quando um burro fala, o outro baixa a orelha.
  35. Praga de urubu magro não mata cavalo gordo.
  36. Em casa de Gonçalo canta a galinha e cala o galo.
  37. Quem anda com perereca tem que aprender a pular.
  38. Antes burro que me leve, que cavalo que me derrube.
  39. Urubu quando está de azar, o de baixo suja no de cima.
  40. Deus te dê ao que deu ao bode: catinga, barba e bigode.
  41. Se tamanho fosse documento, elefante era dono de circo.

Nota: Imagem copiada de http://eu-sou-luz.blogspot.com.br

Fonte de pesquisa:
Provérbios e ditos populares/ Pe. Paschoal Rangel

MANTEIGA DERRETIDA

Autoria de LuDiasBH

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Existe coisa mais chata do que criança mimada excessivamente, que chora por qualquer coisa? As lágrimas já ficam ali, escondidinhas nos cantos dos olhos, prestes a desabar. Em hipótese alguma aceitam a palavra “não”, e pensam que tudo e todos estão a seu dispor. Mas minha raiva maior é dos pais, pois esses anjinhos chorões, pequeninos rebentos, vão amargar um futuro desastroso no contato com o mundo real, enchendo as burras dos terapeutas.

A minha priminha Juju é uma manteiga-derretida “hors-concours”. Se cisma que alguém olhou para ela de um jeito meio enviesado, corre para os braços da mãe ou do pai, fazendo o maior berreiro, quando não quebra tudo que encontra. Até as coleguinhas vêm se afastando dela, cansadas de sua denguice, pois afinal ninguém é de ferro para aguentar tanto chilique.

Dias desses, estava a dengosa brincando com uma amiguinha, quando começou um berraria inusitada. Corremos todos para o quarto da pequena, pensando que algum armário tivesse desabado sobre ela. A cena era patética: ela, a dengosa, estava deitada no chão, batendo pernas e braços, enquanto a amiguinha, encolhida num cantinho do quarto, trazia o rosto molhado de lágrimas meio silenciosas. A mãe, minha primona, tomou a birrenta no colo querendo saber o que lhe acontecera. Entre berros ela se explicou:

– Eu não quero brincar com a minha Barbie, quero a dela, e ela não quer me dar.

Imaginei que fosse uma boa hora para que a prima ensinasse à filha alguns limites, de modo a respeitar o que era da amiga. Mas não! Para agradar a chorona, disse-lhe:

– Não chore mais, filha, pois a mamãe vai lhe dar uma boneca igualzinha a essa. Não se importe com a boneca de sua amiga.

Enquanto a amiguinha ia embora envergonhada, sem receber uma palavra de atenção da mãe da chatinha, eu murmurei entre dentes:

– Cuidado prima, a gente cria filhos para o mundo e não para nós.

Ao que ela me respondeu:

– Ela é muito pequena ainda, vai chegar o seu tempo de aprender.

Dias desses fiquei sabendo que a manteiga-derretida deu o maior show no aniversário de uma de suas coleguinhas. Fazia birras porque queria um pedaço do bolo da aniversariante, antes da hora, sem esperar pelos parabéns. Não sendo atendida, puxou a toalha da mesa, espatifando tudo no chão. Envergonhados, os pais não sabiam onde enfiar a cara. Bem feito! Quem planta urtiga jamais colherá miosótis. É como diz o ditado: É de pequenino que se torce o pepino!

Já ia me esquecendo de falar sobre a expressão “manteiga-derretida”, uai. Trata-se de uma alusão ao chiado da manteiga, quando é levada ao fogo.

Nota: Imagem copiada de feiradesantacruz.com.br

VÁ PROS QUINTOS DO INFERNO!

Autoria de LuDiasBH

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É preciso estar com extremada raiva para mandar alguém para os quintos do inferno, lugar que ninguém sabe onde fica, e sendo o mandante incapaz de dar o endereço para o enviado. Quando somos brindados com um convite desse, o melhor é não perguntar pela passagem e ficar o mais longe possível do sujeito endiabrado que nos fez a oferta, pois, com certeza, trata-se do atrevido comandante da viagem. O bom mesmo é que ele vá sozinho.

Como surgiu a expressão Vá pros quintos do inferno já que ninguém até agora conseguiu o roteiro da viagem, pois quem foi, de lá não retornou? Voltemos ao tempo em que o Brasil era colonizado por Portugal, lá pelo século XVIII. Nosso ouro, principalmente, aguçava a cobiça dos portugueses da época, deixando todo mundo de olho grande no precioso metal e em outras coisitas mais. Na coleta de impostos entravam os nossos chorados 20% (1/5 da produção) do ouro extraído, também chamado de “Quinto”.

Todo o ouro arrecadado nos impostos, em nossas terras, era levado para Portugal através do mar. E, como os portugueses consideravam o Brasil como o “fim do mundo”, tamanha era a distância entre a colônia e a metrópole, resultando em meses e meses a fio de navegação, assim que as naus portuguesas, levando as riquezas brasileiras, apontavam, os portugueses em terra comentavam festivamente:

– Lá vem a nau dos quintos do inferno!

Que inferno danado de bom era o nosso Brasil, que enviava tamanha riqueza para além-mar!

Outras fontes dizem que a expressão nasceu do ódio que o povo brasileiro sentia ao ter que pagar o malfadado “Quinto”, e, por isso, apelidou-o de “O Quinto dos Infernos”. E bota “infernos” nisso! Os coitados dos brasileiros aqui suando, comendo o pão que o diabo amassou, para ver seus tesouros partindo para um lugar que nem sabiam onde ficava.

Outra versão é a de que a dona Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI, não morria de amores por nossa terra, cheia de pernilongos e silvícolas, além de morrer de raiva por viver distante da corte. E, por isso, a não tão bela referia-se ao Brasil como o “quinto dos infernos”.

Seja de uma forma ou de outra, o fato é que “o quinto dos infernos” não é um lugar muito apreciado, não constando no roteiro de nenhuma companhia de turismo, embora esteja sempre em evidência. E, se nos oferecerem uma passagem de graça para tal lugar, o melhor mesmo é agradecer e pedir ao doador que faça tal viagem com a sua família.

Nota: Imagem copiada de www.efecade.com.br

O FATALISMO NOS PROVÉRBIOS

Autoria de LuDiasBH

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O que deve ser, será. (Shakespeare em Romeu e Julieta)

Os provérbios trazem em seu cerne traços marcantes da cultura da qual brotaram. E não poderia deixar de sê-lo, pois a linguagem reflete a nossa maneira de pensar e o modo como vemos o mundo, normalmente dentro do contexto em que nos encontramos inseridos. Nos provérbios, pequenas frases amontoam em si uma enormidade de conceitos, tendo o ouvinte que os destrinchar para compreendê-los melhor. E, como a vida não é apenas isto ou aquilo, eles se apresentam das mais diferentes maneiras: irônicos, humorísticos, maliciosos, cáusticos, benevolentes, fatalistas…

Filosoficamente falando, o Aurélio define o fatalismo como: Atitude ou doutrina que admite que o curso dos acontecimentos está previamente fixado, nada podendo alterá-lo. Sendo o fatalista aquele que acredita que existe um destino e, que tudo já está predeterminado para acontecer, por mais que se tente mudar o rumo das coisas. As ações humanas e as decisões da vontade não possuem peso nenhum diante da sorte inevitável para os adeptos das fatalidades.  Tudo acontece como tem de ser e ponto final, pensam eles. Mas, se todos cressem no fatalismo, a humanidade ainda estaria vivendo nas cavernas. Como o sentimento de destino está mais ligado às pessoas supersticiosas e ao pouco conhecimento científico que elas possuem sobre o mundo, os provérbios fatalistas são mais encontrados entre os ditos populares.

Provérbios fatalistas:

  1. O que tem de ser será.
  2. O que é bom dura pouco.
  3. Tanto faz como tanto fez.
  4. O que tem de ser traz força.
  5. Ninguém morre de véspera.
  6. O homem põe e Deus dispõe.
  7. Vida gemida, vida comprida.
  8. O que tem de ser, não precisa empurrar.
  9. Desgraça é como banana, só dá em penca.
  10. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
  11. A corda sempre arrebenta do lado do mais fraco.
  12. Espinho que tem de fincar, de pequeno traz a ponta.

Nota: Imagem copiada de http://www.circulosdeleitura.org.br/site/2012/10/02/romeu-e-julieta-william-shakespeare/

Fonte de pesquisa:
Provérbios e ditos populares/ Pe. Paschoal Rangel