Arquivos da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

PALAVRAS PARA LAURA

Autoria de Celina Telma Hohmann

Laura!

Do latim laurus, significando “Vitorioso”, “Triunfal”. Já trouxe no nome a força e, hoje, em plena fase de abrir todas as portas e janelas, às voltas com os tormentos do existir. Você tem a facilidade da escrita, que é o que há de mais difícil, posto que nem todos são detentores deste poder que é grande. Se escreve tão bem e faz pesquisas com um quase assustador meio de decifrar-se, tem o discernimento para descobrir que faz consigo o que muitos – e aí me incluo – usam da autossabotagem para não prosseguir, como uma preguiça que dói e nos prende ao nada.

Laura, você dispõe dos recursos que a muitos não é acessível. Sobra em si uma sabedoria formal, até além daquela que sua idade permite, adquirida, ao que demonstra, pela sua facilidade em aprender, mesmo quando cita que o ensino foi algo a que nem deu muito valor. Primeira das suas negativas é essa. Você soube extrair do ensino o melhor que ele lhe ofereceu, mesmo não dispondo das sonhadas “ferramentas fornecidas pela Prefeitura”. Não nos tornamos melhores ou piores se faltam ou sobram possibilidades. Não as tendo, podemos encontrá-las em nós mesmos, não esperando ou culpando fracassos (que não é o seu caso) pela falta de oportunidades. Oportunidades são exatamente o quê? Já fui jovem. Já tive vinte anos e, como você, também me senti perdida, sabe por quê? Porque eu estava acima da média, como muitos estão, mas dentro da mesmice que nos chateia…

Meu primeiro trabalho foi aos treze anos e nunca mais parei, até que, parando, veio o vazio real. Obviamente vocês, jovens de hoje, têm menos chances de um trabalho formal, considerando que nosso país não oferece muito aos jovens que estão à busca de trabalho, mas isso não os põem na condição de inúteis, vazios…Vocês não são isso, exceto se desejarem! O olhar para o passado é bom, mas olhar só para justificar o caos do presente é destruir a semente que já está germinando. Abra-se para o novo, minha linda! Arregace as mangas, descubra-se capaz (e o faça com fidelidade absoluta)! Colha, depois, o que plantou, pois, se plantar amarguras, terá uma colheita sofrida.

Entendo como você se sente, Laura, ao não saber qual direção tomar. Cada um de nós, aqui neste cantinho, veio com lágrimas, por vezes reprimidas, mas com tanta necessidade de sair do casulo, que o passo, por vezes tão doloroso, resultou não no remédio imediato, mas na compreensão, que é o que buscamos. Colocamos nossas histórias em trechos, por vezes desrespeitando a concordância, a regência, o correto uso da escrita, mas na busca desesperada por um ombro amigo que parecia distante.

A vida é uma sinfonia, Laura, na qual se encontram partes que poderão nos deliciar com as mais suaves notas e outras que nos farão sofrer. Um dedilhar descuidado, um ouvido não atento ou um coração em compasso desajustado não resultará em harmonia, embora ela seja tão procurada e na maior parte das vezes tão menosprezada. Existe, mas não a ouvimos e se ouvimos, não conseguimos decifrar o novo som… Nossa capacidade em afastar o que nos faz bem é grande. Carregamos o poder de destruir nossos sonhos.

Laura, não existe vida sem sonhos! Vegetar não faz parte do nosso processo, não, em seu estado mais natural! Sei que deveria lhe dar o colo que precisa, olhar em seus olhos, segurando suas mãos e dizer: menina, siga! Não estão no mundo as respostas que busca. O mundo se basta a si mesmo. Ele é e pronto! Fazer dele bom ou mau depende de cada um de nós. E aqui, é importante esclarecer que não podemos culpar os outros, ou esperar dos outros, ou pelos outros que nossos caminhos se abram. Quando nossas primeiras células, de forma maravilhosa foram se duplicando, multiplicando, fazendo-nos um humano, já estava escrito o que seríamos: uma pessoa!

Você é GENTE, Laura, portanto, seu compromisso consigo mesma é descobrir seu melhor lado e com ele explorar todo o potencial que tem – e tem muito – e fazer o gol (obviamente chutando a bola) e correr para o abraço. A vida precisa que você dê a ela o valor que ela lhe deu, criando-a perfeita em todas as suas faculdades físicas e intelectuais. Através dela, você recebeu a bênção de ser alguém especial. Quando houver conflitos de sentimentos, considere-se normal, mas jamais, em hipótese alguma se dê o direito de julgar-se mais sofrida ou inferior a quem quer que seja. Se no calor que sufoca buscamos a sombra e no frio exagerado o mais quentinho dos abrigos, então, na sofreguidão da alma e nas buscas por respostas, façamos o mesmo! Sempre haverá, num cantinho, por vezes ainda não explorado! Não se sinta só!

Um abraço quente, uma compreensão meio durona, mas um carinho à doce fase da juventude!

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, Mulher Adormecida com Persianas.

EU NÃO TENHO SONHOS!

Autoria de Laura Alencar

Eu tenho 20 anos, não estudo, não trabalho e não tenho sonhos, nem objetivos. Os planos mudam tão rápido de lugar. Minha luta,  vulgarmente, escorre pelos meus dedos. Vejo-me tão líquida e obscura no chão, uma poça de desespero e insatisfação. Parece que estou em desvantagem, presumo que seja por causa da minha condição socioeconômica, que impossibilitou a oportunidade de eu estudar em uma escola bem equipada para poder aflorar meus talentos, assim como não havia tanta cobrança por parte de minha avó, quem me criou, devido à ausência dela para com os meus estudos.

Estudar ou não, não era uma obrigação, era algo que dependia de mim e, como eu era muito criança, eu não fazia as atividades nem me esforçava, nem o corpo docente público podia dar suporte a tantos alunos devido à falta de ferramentas fornecidas pela prefeitura.

Minha sina é tão imprecisa. Tenho tanto medo de ficar acomodada, levando uma vida insignificante. Quero me movimentar, entretanto me desvio e perco o foco na caminhada. Já tive tantos planos. Em questão de segundos, dias, semanas já fui tanta coisa, mas não consigo prosseguir com meus deveres, pois, logo me sinto letárgica.

Vivo a fazer pesquisas sobre meus possíveis transtornos psicológicos e em busca de um diagnóstico para, por sua vez, ter um tratamento mais preciso e ser uma adulta decidida, constante e responsável. Não sei de nenhum histórico de transtorno mental em minha família, a não ser depressão. Não fui diagnosticada com nada. Uma vez meu antigo psiquiatra disse que eu tinha vestígios de SP. E foi só isso. Já meu atual psiquiatra, que não o vejo há 3 meses, pois ele tinha sofrido um acidente e, quando voltou às atividades, a fila de espera para a consulta estava enorme, uma vez que faço tratamento pelo SUS, e a demanda de pacientes no Caps AD (álcool e drogas)  é realmente significante – e cá entre nós, preocupante.

Ao invés de esperar pelo atendimento psiquiátrico, opto por um pedido manuscrito por minha psicóloga, baseado nos remédios prescritos pelo meu psiquiatra no nosso último encontro, pra ser “autenticada” pelo médico do posto de saúde local, para assim eu pegar meus remédios no CAF (Centro de Abastecimento Farmacêutico). Mesmo que eu tome  amitriptilina,  fernegam e carbamazepina – para dormir e controlar meu humor inconstante – eles parecem não funcionar, porque tenho crises em que não consigo controlar meus pensamentos e meus impulsos autodestrutivos como fortes ideações suicidas, mutilações e pensamentos distorcidos sobre tudo, todos e sobre mim.

Atualmente ando me sentindo muito bem e confiante. Todavia, subitamente, sinto como se a atmosfera das coisas mudassem ao meu redor, é quase palpável, porque sinto medo e nervosismo caindo sobre meu cálido e eufórico corpo e mente. É como se eu estivesse num sonho, ou como se eu não tivesse controle total sobre meus sentimentos, ou como se eu tivesse altamente chapada de maconha – não fumo mais.  Eu fazia psicoterapia, mas deixei de ir a, aproximadamente, 2 meses, pois parecia que as consultas e minha vida estavam empacadas, embora minha psicóloga tenha me ajudado bastante desde então. Penso em procurar outra psicóloga e/ou psiquiatra, mas é difícil e demorado conseguir uma consulta que não seja paga.

Eu já tinha visto alguns artigos deste blog, porém não sabia que havia colaboradores. Sendo assim, venho pedir ajuda: Existe alguém que já se sentiu assim como eu, mas que hoje vive uma vida satisfatória, com boa carreira, bons amigos, faz viagens, etc. Se tem alguém assim, por favor, me ajude a enxergar oportunidades, além da morte que me assombra com o seu sopro de desesperança nesse mausoléu existencial.

Nota: pintura chamada “Angústia”, de Cristina Alquicira Palácios

DEPRESSÃO, ANSIEDADE E FÉ

Autoria de Celina Telma Hohmann

A depressão e a ansiedade sempre existiram. Delas se origina uma sequência desavergonhada de outros transtornos que nos tolhem e massacram. Fazem-nos sentir a vida, quando nos encontramos nesse turbilhão, como sendo um grande tormento. A religião, quando nos culpabiliza, ao atravessarmos essa supliciante batalha, em nada nos ajuda.  Ao contrário, aumenta o nosso suplício. E nos cobramos ainda mais, piorando um quadro que já está absurdamente fora do normal. Deus não nos desampara, mas sejamos sinceras, crer num Ser Superior é facilitador para respondermos aquilo que nunca saberemos com exatidão. Não estou, em absoluto, questionando a existência de Deus, pois isso poria fim a uma única certeza que tenho e sinto. Deus existe! Olhemos ao redor e não há como não sentir que Essa Presença é a Maior e mais passível de ser real. Demos-lhe um nome. Sentimos Deus em todos os instantes, mesmo nos mais complicados. Ainda, assim, nós precisamos buscar os meios de ajuda que temos ao nosso redor.

O extremismo dos que julgam que só estamos passando por crises existenciais, porque nos afastamos de Deus, com toda certeza, trata-se da mais pura ignorância. Essas pessoas têm a sorte de não terem um gene que floresceu, não num repente, mas em anos de idas e idas… Fora que nós, os que cobram a perfeição, senão dos outros, mas de nós próprios, somos os que mais caminham para desenvolver síndromes que afetam nossa mente. Inicialmente, elas aparecem apenas como um vento forte prenunciando tempestade. Depois vem aquele olhar para o tudo e não ver nada mais adiante.  Estacionamo-nos na espera de que seja só um momento ruim. Na verdade é! Mas é um momento tão malandro que toma muitos de nossos dias e noites, deixando-nos péssimos.

Quando a tempestade chega, nós nos desesperamos de todas as formas: a paralisia, a aparente preguiça, a sonolência excessiva, depois a insônia que nos impede de dormir, e aquela tristeza que só quem a sente sabe a dimensão que tem. O sorriso, se existir, será um rasgo, um faz de conta. O olhar fica meio perdido, como se buscasse uma solução que não vem assim tão rapidamente, e lá se vão nossos dias. Perdidos, com certeza, mas que depois, recuperamos, pois, afinal, na vida tudo passa. E o transtorno mental com suas recidivas, num dia também se vai e aí, olhamos de volta para a beleza de um pôr do sol, a maravilha que é o desabrochar de uma flor, a deliciosa sensação de que Deus esteve sempre conosco. Compreendemos que não nos encontramos sob a sujeição de uma obra maligna, como pensam os estúpidos ignorantes.

O medicamento é necessário e o profissional que o prescreve, idem. Aqueles, que nunca sentiram o sofrimento trazido pelos transtornos mentais, poderão até nos julgar quando estamos no meio de uma crise, mas precisam saber que nos fazem sentir piores do que já nos encontramos, o que é uma grande falta de amor ao próximo. Esquecem-se de que somos apenas seres humanos que atravessam períodos de extremo desconforto. E precisamos muito de amor, ou, pelo menos, respeito. Precisamos nos fortalecer na fé de que se estamos no caminho da dor e que ela passará. O Criador sabe que somos capazes de suportar e sair disso melhor do que entramos.

Não desistamos, nunca! Todos nós somos vencedores!

Nota: O Grito, obra de Edvard Munch

SÍNDROME DO PÂNICO – EXPLICANDO AO FILHO

Autoria de Anna Paula Mattos

Minha história é como a de muitos aqui, cheia de profundo sofrimento.

Estava eu de férias, na praia com minha família, no início do ano. Estava tudo lindo, mas ao sair do mar tive um ataque de pânico. Visão turva, falta de ar e a sensação de morte, porém isto não foi o pior, pois após o ataque veio aquilo que minha médica chama de “ressaca pós-crise de pânico”.

Eu senti um vazio imenso, um medo tremendo, lágrimas que não paravam de vir e uma vontade de não viver mais, uma coisa horrível. Corri para o psiquiatra que me receitou fluoxetina, mas ao aumentar a dose não me explicou como devia tomar e eu, leiga no assunto, fiz uma super dosagem. Passei esse dia todo na cama, a voz não saia direito, meu corpo tremia e meu pai que é meu melhor amigo, permanecia ao meu lado, ouvindo da própria filha dizer que ela queria morrer.

Troquei de psiquiatra e também de medicação. Comecei a terapia e hoje posso dizer que minha vida já começa a caminhar para frente. Tenho um filho lindo de 10 anos e fui muito sincera com ele. Expliquei-lhe que eu tenho uma “doença” que não pode ser vista a olho nu, mas somente sentida. Disse-lhe que às vezes ele me veria chorar, mas que nesses dias eu precisaria de muitos abraços e carinho, pois esse seria “nosso remédio”. E assim foi feito. Ele entendeu perfeitamente. Percebeu que sua mamãe não chorava por causa dele e que ele, como parte de sua linda família, iria ajudá-la. Já se passaram 10 meses da crise mais forte da minha vida, mas posso dizer que não desejo esta dor a ninguém.

Todos nós, portadores de transtornos mentais, precisamos saber que a vida continua, temos que ter forças ao passar pelos momentos mais difíceis (sei que parece impossível), mas essa força nos ajuda a seguir em frente. E isso nos torna seres humanos melhores e mais sensíveis aos outros seres. Quando conheço alguém, que não tem vergonha de dizer que está passando por um problema psíquico, eu me solidarizo com ele, como se esta pessoa fosse da minha família. Sinto um orgulho enorme dela, pois sei que está lutando pela sua vida e está se fortalecendo e se transformando em alguém muito mais humano.

Ao final, tudo dará certo. Não devemos contar os dias para a cura (todos fazemos isso), mas viver um dia após o outro. Certamente uns dias serão bons e outros ruins, até mesmo de dar medo, mas todos passam. Tenhamos fé em Deus, na nossa família e principalmente em nós mesmos, pois todos nós somos capazes de vencer a batalha e encontramos  a paz.

Por aqui, comigo, a vida continua seguindo. Consegui um emprego novo onde me encontro muito feliz, vivendo um dia de cada vez, às vezes com pequenas angústias, mas isso é a vida. Sei que o que precisar encontro aqui no blog, conversando com os amigos e amigas de luta. Somos uma família POP e estamos sempre dispostos a ouvir e compartilhar os nossos desacertos e vitórias.

Nota: a ilustração é uma obra do pintor Edvard Munch.

TEPT – PALAVRAS PARA ALESSANDRO

Autoria de Celina Telma Hohmann

Ler seu relato nos transporta para dentro de um problema que não é mais seu, pois se tornou nosso. Aqui é um cantinho que meio sem querer transformou-se em nossa árvore, sob a qual, nas angústias, nós nos sentamos e choramos, sabendo que de alguma forma virá um pouco de alívio. Não vou me estender em tentar explicar o que você está sentindo, se é que conseguimos explicar algo, após um trauma que fez com que a vida, num repente, nos mostrasse um lado que julgávamos preparados para entender, mas que sabemos, nunca estivemos! Os sentimentos são ambíguos. Até culpa nós sentimos, como se fôssemos, de alguma forma, responsáveis pelo que ocorreu e transformou a vida de rotineira calma num aparente calabouço, onde se sabe que há saída, mas quando a encontraremos, nós não sabemos.

A nossa era é talvez uma das piores, pois enfrentamos desafios que não exigem somente coragem. Como somos humanos, e humanos são passíveis de tormentosas dores psíquicas e emocionais, descobrimos que não estamos livres de sermos a próxima presa dessa aniquilante apatia, medo e solidão, ainda que rodeados de pessoas. O mal-estar que derruba, o sono que some, os pesadelos que viram rotina… A gente passa grande parte da vida numa luta e enquanto estamos lutando, não há sentimento que se sobreponha exceto o de fazer o que devemos. O cérebro, e toda a química que nele contém, movimenta-nos. Um dia, porém, como aconteceu com você, vem o pior e a aparente coragem, o destemor, aquele sangue frio que sempre nos fez seguir, deixa-nos na mão. Cito aqui o pronome “nós”, aproveitando-me da condição de também, como você e tantos outros amigos, estar na luta contra um mal que tenta nos fazer sucumbir. Não é isso o que ocorrerá, eu lhe garanto, usando o conhecimento adquirido a longas e duras penas, de que tudo isso passa, graças a Deus!

Identifiquei-me com seu problema (e muitos também se identificaram), mesmo que os motivos sejam diversos, não tão dolorosos, mas traumatizante é tudo aquilo que vem forte demais, quando não se espera, quando nos falta o chão, quando mexe com nossa alma. E nesses dolorosos momentos nem mesmo a medicina ou conversas conseguem aliviar. Não de pronto, mas só com o tempo. Há um caminho, sempre haverá, mas até que cheguemos a ele passaremos por tantos penhascos, que depois, olhando de volta, veremos que conseguimos transpô-los, nesse ímpeto maravilhoso que é a luta pela vida. Hoje, tudo o que você consegue é sentir-se um enigma, inclusive para si próprio. Imagina não ser mais o pai, o profissional, o amigo, o “cara”. É comum esse tipo de julgamento partir de nós próprios em certos momentos de nossa vida. Na verdade, nada disso mudou. Houve uma ruptura, uma atormentada incapacidade em mudar o rumo da própria vida. Naquele instante, por motivos que desconhecemos, você foi poupado e isso, amigo, por vezes nos faz mal, paradoxalmente, pois trata-se de um bem que julgamos não merecer, não é assim?

Alessandro, você não deixou de ser pai, tampouco esposo, menos ainda amigo, nada disso! Você vive, por ora, num redemoinho de emoções que o fazem sentir-se um papel em meio ao vendaval. Não sabe o rumo, não se rasga, mas é um papel à deriva. Diferente? Nem um pouco! Está vivendo o que muitos vivemos e que garantimos não ser bom, nem gostoso, nem fácil ou simples! É muito difícil e nos parece que jamais findará! Erramos ao achar que nada mais será como antes! Algumas coisas mudarão, e isso é um alívio para nossa alma, mas só perceberemos isso quando a tempestade realmente tiver passado. Deixará marcas, fez seu estrago, deixou o medo, mas como presente nos mostrou que se temos uma chance de viver – e você a teve – e isso, amigo, é o farol lá no meio da ilha que, se vista por quem está em alto mar sem conhecer o oceano, parece a anos luz de distância. Pode ser sofrido enxergá-lo e ver nele a possibilidade de desbravar todos os mares, mas sabemos, é a nossa luz! O nosso guia, a direção que nos mostra que estamos vivos! Que venham marés altas, águas que molham até os ossos, mas chegaremos ao destino que almejamos e o seu destino, hoje, é livrar-se dessa estagnação que o psiquismo nos impõe como limite – temporário – mas limitante!

Seu caminho, Alessandro, é o que muitos percorreram, percorrem e alguns ainda percorrerão. O caminho escuro que tira a visão, embaça a alma, desnorteia, freia nossa capacidade de raciocínio lógico, mas é hoje o seu caminho. Não foi você, por incapacidade ou vocação, quem o traçou. A vida o fez. Nós, os que nos perdemos em meio ao medo e que antes achávamos “frescura”, nos vemos incrustados nesse medo e sem saber como tirá-lo de nosso peito, pensamento e vida. Mas é necessário que o façamos. Não é fácil e a psiquiatria, psicologia e toda a emaranhada corrente que tenta desvendar os mistérios da mente ainda tropeça em tais possibilidades.

Confesso, os remédios, pela química que possuem, auxiliam. A conversa com o psiquiatra é o caminho para a condução de um tratamento medicamentoso e há mais para buscarmos. Contudo, amigo, a compreensão do outro e o nosso afeto para conosco são o que de melhor há. Olhe o rostinho de seus filhos, mesmo que lhe pareça não os ver, mas a alma enxerga melhor que os olhos. Ponha-se em pé e dispute consigo próprio o seu convalescimento, pois precisará muito de ajudar-se e essa capacidade você a tem! Não se culpe ou não julgue, pois há uma Mão Protetora (a mesma que o colocou em outra direção no dia da tragédia), protegendo-o.  Dela emanam gotas de doçura, mansidão, paz e serenidade. Você receberá de volta o homem que sempre foi. Sua insegurança atual é fruto de sua capacidade de emocionar-se, quedar-se perante a partida de amigos diários e a sensibilidade tão própria dos seres do bem.

Amigo, cuide-se e escreva tudo o que lhe vai à alma. É bom desabafar, jogar as dores pelo caminho e, sem que perceba, o que hoje pesa, logo será somente uma lembrança. Lembranças não se apagam, mas doem menos quando as tomamos como ensinamentos. Seja sempre sábio e verá que nada é em vão, mesmo que pareça terrível! Se tivermos que passar pelo fogo, que passemos, mas que o chamuscado seja uma marca de uma história valorosa. Deixo um afago em seu coração e a doce certeza de que logo nos dirá: VENCI! Agradeço por ter conseguido, tão ricamente, expor-se e fazer-nos refletir que não somos uma única estrela no Planeta. Somos muitas e cada uma com seu valor e finalidade! Fique em paz! Liberte-se! Se cair, não ligue, é assim mesmo. Imagine-se o menininho lá do passado, nas suas primeiras tentativas de descobrir o mundo. Tropeçou muitas vezes, mas aprendeu. Agora não é mais o menininho, mas o homem a quem a vida concedeu o dom de VIVER!

Nota: a ilustração é uma obra de Vincent van Gogh

TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Autoria de Alessandro Queiroz

Passei por uma grave situação no trabalho, onde, por questões de segundos, minha vida não se foi junto com a de meus companheiros, enquanto combatia crimes ambientais numa terra Indígena, em Roraima, este ano. Para que todos possam compreender melhor o que me ocorreu e desencadeou minha situação, relato-lhes:

Em três de julho deste ano, eu e mais quatro colegas do IBAMA (Alexandre, Olavo, Lazlo e Júnior) empreendemos ação em conjunto com a PF e Exército no combate ao garimpo ilegal dentro da TI Yanomami, em Roraima. Garimpeiros de diversos pontos do Brasil bem como de países vizinhos, em especial da Venezuela, invadiram essa Terra Indígina (TI), usurpando a abundante riqueza existente no interior dessa área protegida. Tais povos indígenas ainda vivem de maneira bastante isolada, dependendo tão somente do que a floresta e rios lhes provêm. A contaminação por mercúrio tem lhes trazido graves prejuízos socioambientais e coube a nós, enquanto União, defendê-los.

Eu e meus colegas, citados acima, tínhamos locadas, pelo Exército, duas aeronaves civis, tipo “teco-teco”, para nos transportar de Boa Vista até o interior da TI. Contudo na hora do embarque percebemos que toda a logística a ser transportada não seria possível em tão somente dois aviões. Foi providenciada uma terceira aeronave. Por motivos que desconheço, e me apegando demais à intervenção divina com toda certeza, vi-me afastado de meus colegas de trabalho, entrando na primeira aeronave com os quatro agentes da PF. Não posso deixar de dizer que, por praxe, temos que  permanecer com nossas equipes, ficando sempre juntos, ao participarmos de algum evento, seja ele fiscalizatório ou não. Nós nos mantemos próximos uns dos outros. Acho que é da natureza humana o fato de os iguais se aglutinarem.

Neste caso em particular, contudo, abandonei meus companheiros, pensando ser o melhor para nossa equipe, pois o pequeno avião que transportava a PF partiria primeiro, um segundo avião partiria 10 minutos após levando os 700 kg de bagagens e o terceiro avião voaria com a equipe do IBAMA. Por experiência já vivida nesses anos junto à fiscalização, sabemos que os indígenas tem por hábito o interesse pelo “alheio”… E não os condeno, pois vivem de forma tão primitiva que uma simples colher lhes chama a atenção. Meu objetivo foi, portanto, chegar primeiro ao local e dar garantias de que nada na bagagem seria mexido.

Partimos por volta das 10h30min da manhã. Pousamos na TI e, após uns 15 minutos, pousou a segunda aeronave com material e equipamento. Transcorridas mais de 02 horas, já ciente de que algo havia ocorrido, contudo sem imaginar as reais consequências com as quais me depararia, e mesmo com o Exército dispondo de equipamento para uso em guerra, o contato com Boa Vista se mostrou muito dificultoso, face o isolamento da área em que estávamos, bem no meio da selva amazônica. Após muitas tentativas sem sucesso, obtivemos um retorno dizendo que a aeronave com meus amigos havia sofrido um acidente ainda na pista de decolagem e que havia mortos e feridos. Imediatamente fui removido do local por um helicóptero militar que ao fazer seu primeiro pouso para abastecimento, em uma área abrangida por sinal celular, comecei a receber incontáveis chamados telefônicos querendo saber de mim. Sou pai de duas crianças pequeninas (3 e 5 aninhos) e minha esposa, em estado de choque, conseguira contato telefônico comigo, tendo a plena certeza que eu não havia morrido, como já estavam divulgando por diversos meios de comunicação.

Restou a morte de três companheiros de trabalho, inclusive a de um amigo muito próximo, pois trabalhávamos na mesma unidade em Florianópolis, durante anos. Todos foram carbonizados em questão de minutos por conta da explosão da aeronave. Como Deus provê a cada um de nós seu próprio destino, por questões ainda desconhecidas, um de nossos amigos conseguiu sair do pequeno avião em chamas, quebrando uma porta com chutes em meio a gritos de sofrimento e desespero inimaginável. Suas sequelas atingiram enormes proporções corpóreas, contudo ele está vivo e se restabelecendo. Toda esta situação, vivida muito de perto por mim durante toda a semana após o transcorrido, disparou uma série de situações que até então jamais sonhara viver. Passei, sim, por inúmeras ocorrências com risco real de morte, nos moldes do que todos presenciaram nesta sexta-feira última, no município de Humaitá/AM, quando depredaram todo nosso patrimônio, além de outros órgãos parceiros.

Desde três de julho passado estou vivenciando um quadro que foi diagnosticado como TEPT (transtorno de estresse pôs traumático). Minha vida virou um verdadeiro inferno. Não tenho disposição para mais nada, mal interajo com meus filhos que tanto amo. Encontro-me muito mal organicamente e mentalmente falando. Mau humor fortíssimo e agressividade, frieza e vontade extrema de ficar deitado no quarto escuro, sem diálogo com ninguém. Hoje, particularmente, estou péssimo e quero crer que realmente estou passando pelos sintomas da abstinência medicamentosa, pois subitamente deixei de tomar tanto o SPRAN quanto o Roydhorm. Foi dobrada a dose do ESPRAN e trocado o Patz pelo Roydorm de 01 mg, mas não houve nenhuma resposta nesses quase 03 meses de tratamento. Estou há quase 15 dias sem tomar esses remédios, pois além de terem acabado e eu não ter pegado nova receita em, anteontem informei ao psiquiatra que nada estava adiantando. Outros psiquiatras me disseram que sob-hipótese alguma deveriam ter-me prescrito benzodiazepinico para TEPT.

Vou lhes relatando meus novos passos rumo ao encontro da medicação ideal para mim além da dosagem adequada, quem sabe poderei estar ajudando alguém na mesma situação.

Nota: pormenor de uma obra de Edvard Munch