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Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

EM BUSCA DA PESSOA DE ANTES

Autoria de Matheus Silva

Minha história é um pouquinho complicada.

Tenho 20 anos e sou estudante de medicina. Quando criança, na casa de meus parentes, tinha o apelido de “Geladeira”, pois não conseguia ficar parado, indo olhar a cozinha de cinco em cinco minutos. Eu cresci e com 11 anos comecei a me sentir triste e angustiado com o passar do dia, mesmo em períodos de férias. Descobri que tinha hipotireoidismo e em questão de alguns meses a depressão foi corrigida. Quando fui para o Ensino Médio, a fama de disciplina rígida da minha escola fez-me sofrer muito por antecipação nas primeiras semanas, perdendo noites a fio simplesmente por medo, mesmo tendo notas muito boas. Essas cessaram com o passar do curso.

Quando passei no vestibular, eu me mudei para outra cidade para fazer o curso com que sempre sonhei. Nas primeiras semanas sofri muito, mesmo já tendo ficado longe dos meus pais e lidado de certa forma bem com isso. Com o passar do tempo, eu me adaptei, porém, as manias de inquietação sempre permaneceram. Um litro de café na minha mão não durava mais que alguns minutos. Não conseguia comer como as outras pessoas, sempre muito rápido e compulsivamente (hoje já consegui manter meu peso e corpo em boa forma com academia e exercícios físicos). Além disso, qualquer prova em meu calendário já era motivo para virar a noite estudando, preocupado com o resultado, seguido de alguns dias de preocupação com a espera das notas.

Nos dias normais eu não me sentia triste, mas sentia que faltava aquele brilho e motivação que algumas pessoas trazem, já que tinha dificuldades para fazer amigos e falar em público, bem como motivação para ir a festas e interagir-me com pessoas (embora eu ficasse confortável nessa situação). Não demorou muito tempo e eu comecei a fumar maconha, o que me ajudou no sono, mas como um meu amigo disse, estava apenas colocando meus problemas debaixo do tapete, não estava a resolvê-los. Após cinco meses usando maconha todos os dias, resolvi dar um basta, parei e, quando retornei pra casa em um feriado, fui a um psiquiatra para tentar resolver isso.

O psiquiatra receitou-me escitalopram na primeira semana. Quando retornei para casa comecei a utilizar o genérico (a greve dos caminhoneiros zerou o estoque da marca que ele havia pedido). A primeira semana foi muito boa, lembro-me de que falei pro meu pai que “nunca estive tão bem na minha vida”, afinal, após sofrer muito, consegui passar em uma monitoria, ganhar bolsa da faculdade, além de ter pais maravilhosos que sempre me ajudaram. Na semana seguinte fui a uma festa em que bebi muito, coincidindo com o período em que aumentei a dosagem do antidepressivo, conforme prescrição do psiquiatra. Após três dias dessa mudança, caíram sobre mim efeitos colaterais terríveis que me fizeram perder pelo menos duas noites de sono seguidas. O psiquiatra acabou me receitando Alprazolam. Pensei: não quero isso pra minha vida, mais remédios e agora um tarja preta (tudo isso em meio a angústia, calafrios, inquietação, sudorese, turvidez na visão, taquicardia e palpitação). Parei com o escitalopram após mais ou menos 10 a 12 dias de uso.

Os sintomas melhoraram, porém nunca retornei a ser a pessoa de antes. Perdi motivação e sono. A angústia e a ansiedade continuaram e fiquei assim até o início dessa semana (fiquei um mês e meio nesse marasmo, sentindo em grau mais leve os mesmos efeitos do medicamento), quando resolvi retornar à medicação. Hoje é o terceiro dia. Durante o dia sinto-me um pouco melhor, mas à noite a angústia e o nó na garganta insistem em retornar de maneira mais severa. Ainda não sinto motivação para fazer as coisas. Amanhã vamos viajar para aproveitar um pouco as férias, tomara que isso me ajude a ocupar minha cabeça.

À vezes eu penso que entrei em uma enrascada, pois afinal eu não era tão triste assim, como minha mãe dizia eu era só “um pouco ansioso”. Isso me consome muito e me esgota. Passo boa parte do dia pensando, até o momento que chega a noite. Às vezes choro. No momento em que escrevo isto está de dia e sinto-me um pouco mais controlado, mas na certeza de que à noite vou sofrer, à medida que o sol vai embora (tomo Donarem, às vezes, para dormir melhor, mas ainda acordo muito cedo com o coração palpitando). Marquei com outro psiquiatra, desta vez na cidade em que estudo, para a qual vou retornar em três semanas. Espero ate lá estar me sentindo melhor.

Nota: O Enigma sem Fim, obra de Salvador Dalí

MEU EX-MARIDO É BIPOLAR

Autoria de Magdaline Santiago

Descobri que meu marido era bipolar quando ele teve um surto, após nossa primeira separação dentro do casamento, porque nos cinco anos de namoro foram inúmeras. Ele estava na fase de mania: andava irritado, falando coisas ao mesmo tempo, com o humor lá nas alturas, querendo curtir a vida loucamente, gastando exageradamente com coisas banais, bebendo muito e dirigindo alcoolizado. A busca por ajuda médica nem passava por nossa cabeça (minha e da família dele) que não sabíamos que se tratava de um transtorno mental. Além disso, ele tinha uma resistência muito grande para consultar médicos, imagine ter que ir a um médico PSIQUIATRA. Tínhamos também a falsa ideia de que a bipolaridade trazia mudanças repentinas de humor (do dia pra noite) e isso não acontecia com ele. Apesar de eu ter percebido que ele vivia em ciclos, nunca imaginei que teria Transtorno Bipolar, achava que suas mudanças eram relativas à sua personalidade e jeito de ser.

Certo dia, nós brigamos por ele ter saído na noite anterior para curtir. Ele me agrediu com palavras, extremamente nervoso, quebrando coisas à volta. Fui embora para a casa da minha mãe. No terceiro dia ligaram-me dizendo que ele estava mal, surtado, sem dormir, perdendo-se nos lugares e sem conseguir trabalhar. Queimou algumas roupas minhas, quebrou coisas dentro de nosso quarto e o levaram ao psiquiatra que lhe deu o diagnóstico de bipolaridade e 15 dias de atestado, além de prescrever medicamentos. Ele precisava fazer um exame de sangue para saber se prescreveria já o Lítio, mas ele não quis fazê-lo e nem continuar o tratamento. Tínhamos uns 10 anos juntos, entre namoro, noivado e casamento. Aquele diagnóstico fazia todo sentido.

Meu ex-marido sempre tinha uma desculpa para não fazer o tratamento. Dizia que não aceitava ser bipolar e que o médico estava enganado no seu diagnóstico. Tempos depois, por estar extremamente depressivo e irritado, aceitou ir a uma médica que lhe passou remédios para controlar o humor, a irritabilidade e o sono (ele tinha fases de muita insônia e pesadelos). Porém, alguns dos medicamentos, a princípio, pioraram os sintomas e ele quis parar, não quis voltar à médica, colocando vários defeitos nela. Possivelmente estava passando pelos efeitos adversos, além disso, os medicamentos são também testes, sendo que cada pessoa tem uma reação diferente que precisa ser comunicada ao médico para que ele faça mudanças, quando necessárias.

Os ciclos pelos quais passava meu ex-marido eram bem longos: meses com uma mania leve, meses ou semanas com uma mania mais forte e meses ou semanas com depressão que, curiosamente, era sempre nos últimos meses do ano para os primeiros do ano seguinte. Na época de festas, férias e verão, ele estava sempre triste, calado, sem querer ver ninguém. Havia começado terapia devido à depressão, mas sempre parava… Quando ainda não sabíamos do que se tratava, e ele se encontrava na fase de mania leve, ficávamos todos felizes, torcendo para que isso durasse. Nossa maior preocupação era com a depressão, porém, após o surto e o diagnóstico de bipolaridade, a mania mais severa começou a nos preocupar muito.

Tivemos cinco anos de namoro entre muitas idas e vindas. Por muitas vezes, ele pôs fim no nosso relacionamento por estar confuso, querendo curtir a vida, sem limites para nada; noutras porque estava triste e qualquer coisa a mais seria um peso, pois nascera para viver sozinho; noutras vezes eu terminei por infidelidade dele, o que curiosamente acontecia na fase da mania, porém, era sempre previsível ele se arrepender e pedir para voltar, chorar, sofrer, emagrecer. Muitas vezes voltei por eu estar sofrendo; noutras por pena dele; algumas vezes por acreditar que mudaria. Ele sabia ser convincente e, por fim, criei uma dependência emocional. Eu tenho TAG que leva ao pânico e num dos nossos términos tive crises muito fortes de ansiedade, o suficiente pra criar dependência emocional. Achava que se não estivesse com ele iria sofrer sempre de pânico, porque eu não tratava bem esse transtorno mental, pois confundia os conflitos da mente com os sentimentos.

Graças a Deus não tivemos filhos. Até tentamos, porém, é complicado, porque na fase depressiva a comunicação é péssima.  Ele não falava comigo, não tinha libido. A essa altura, eu era mais mãe do que esposa dele, tentando animá-lo, fazê-lo caminhar, tomar sol, abrir-se. Marcava médicos, tentava fazê-lo tomar a medicação, sempre buscando saber o porquê de alguém, que não tinha o costume de fumar e beber, consumir vários cigarros e beber muito. Além de me preocupar com meus problemas psicológicos, com os trabalhos de faculdade, com a organização da casa, etc., e ainda me preocupava o tempo todo com ele. Meu maior medo, na fase depressiva dele, era um dia chegar em casa e dar de cara com uma cena traumática para minha vida. Quando ele pediu para se separar de mim, tirou um peso das minhas costas. Eu já estava tratando minha TAG com psicóloga e medicação e consegui passar muito bem pela separação.

É difícil, hoje, um homem (ou mulher) bipolar não ser “ex-” de alguém, quando não faz o tratamento. Chega uma hora em que não se aguenta mais. Comigo foi assim na última vez em que nos separamos. Já saturada de tantas idas e vindas, eu não quis voltar mais. Estava cansada das indefinições, incertezas e sofrimento. Os problemas maiores são os conflitos e também o fato de você fazer parte de um ciclo vicioso que parece não ter fim. Conheci inúmeras ex-mulheres de portadores do Transtorno Bipolar. Elas me relataram parte de suas vidas com seus ex-maridos que não aceitaram o diagnóstico e tampouco o tratamento, ou não deram continuidade ao mesmo. Eles interrompem o tratamento porque não têm paciência com os efeitos ruins de sua fase inicial. As mulheres são bem mais fáceis de aceitar o transtorno e de se tratarem. Elas podem tomar medicação a vida inteira e viver muito bem em família e em sociedade.

Deixo aqui um alerta aos homens com este transtorno. Se quiserem ser felizes com a família, trabalho e amigos precisam aceitar o tratamento. Não adianta se arrepender depois de ter perdido a pessoa (namorada, noiva ou esposa) que amava. Quando aceitam o tratamento, a mulher compreende sua doença, tem mais paciência e passa a redobrar seus cuidados com ele. Caso contrário, o único caminho é a separação.

Nota: Amizade, obra de Pablo Picasso.

ALERTA: TRANST. MENTAIS X CUIDADOS MÉDICOS

Autoria de Elaine Santos

Lu, quanto tempo! Eu continuo lendo todos os comentários novos e às vezes revejo os antigos, para me lembrar de que mais pessoas estão na mesma situação que eu. Nesse tempo que fiquei longe, muitas coisas aconteceram comigo: troquei de remédios três vezes, passei pelo neurologista e quase perdi minha vida pelo descaso dos médicos consultados.

Estava tomando o oxalato de escitalopram e melhorando aos poucos, mas de janeiro para cá comecei a ter alguns sintomas diferentes que começaram a atrapalhar a minha rotina. Fui piorando aos poucos. Passei por uma médica que trocou meu antidepressivo, achando que podia ser efeito do oxalato de escitalopram. Tomei o novo remédio durante um mês (não me lembro do nome), mas me sentia muito mal, cada vez pior. Já não andava direito e estava perdendo o movimento das pernas. Voltei à médica que o mudou para cloridrato de sertralina e mandou-me procurar um neurologista e assim fiz. Expliquei-lhe como estava me sentindo: fraqueza, formigamentos que me atrapalhavam andar (eu já arrastava a perna direita) e outros sintomas mais. Ele apenas disse que era estresse e me deu um remédio pra dormir que nem mesmo fez efeito.

Fui ficando tão doente, ao ponto de não conseguir sair da cama de tanta fraqueza. Todos os médicos consultados diziam que a causa era o Transtorno do Pânico. Contudo, um mês atrás, eu acordei tão mal que pedi pra me levarem ao pronto-socorro. A médica que me atendeu pediu logo um exame de sangue e constatou que eu estava com uma anemia gravíssima. Fui para a Santa Casa, onde precisei fazer transfusão de sangue imediatamente e voltei no mesmo dia para casa. No dia seguinte, porém, fui internada de novo para fazer outra transfusão e tratar uma grave pneumonia. O médico da equipe me olhou e disse que meu caso era muito difícil de reverter, pois meu estado era gravíssimo. Eu já estava pensando 53 quilos (pesava 67 antes), não comia uma refeição completa há quase um mês, mas apenas frutas. Mal conseguia ficar de pé.

Graças a Deus, por ter um convênio, os médicos da Santa Casa conseguiram salvar a minha vida (o SUS não aceitou o meu caso). Foram cinco bolsas de sangue no total, muito sofrimento, inúmeras picadas de injeção em diversos lugares, um mielograma muito dolorido e traumatizante, mas estou aqui, viva. Nesse tempo, eu tive que parar de tomar a sertralina, pois ela se misturava aos outros remédios e me fazia muito mal.

Hoje já faz um mês que não tomo nada. Encontro-me bem, trabalhando, mas perdi o semestre da faculdade por causa da doença. Sempre tive anemia crônica, mas nunca tinha passado por isso. Durante todo o tempo, eu ficava acreditando que todos os sintomas eram relativos ao transtorno do pânico e, por isso, quase perdi a vida. Só então percebi o quanto é grande o descaso e a incompetência dos médicos ao lidar com pessoas que tomam antidepressivos. É uma verdadeira falta de responsabilidade, de respeito e de amor ao paciente. Eles são incapazes de pedir exames físicos, achando que tudo diz respeito à mente. Se tivessem me pedido exames de sangue no começo, eu não teria passado por todo esse pesadelo.

Este meu texto tem como objetivo alertar as pessoas que sofrem de transtornos mentais. Elas precisam parar de ter vergonha e se esconder, para que possam ser atendidas com dignidade. Não podemos ser tratados de qualquer jeito, só porque temos uma doença  mental. Precisamos ser respeitados e não mandados para casa com um calmante por um médico que nem sequer olha na nossa cara. Precisamos exigir que eles também voltem o olhar para o nosso corpo como um todo, trabalhando com outras possibilidades em razão de alguns sintomas que surgem, não agregando tudo ao antidepressivo ou à síndrome mental. Precisam pedir um hemograma vez ou outra, conhecer um pouco do histórico de vida de cada paciente. Não há como ter uma mente sã num corpo doente. A medicina não pode ser tão esquartejada (dividida em compartimentos específicos) a ponto de comprometer a vida do paciente.

Eu quase perdi a minha vida por causa de uma anemia perniciosa, ou seja, por falta de vitamina B12. Quase deixei minha família e minha garotinha de três anos. Foram sete dias internada e sofrendo muito. Tudo teria sido resolvido com um simples exame de sangue. Ainda não descobriram o problema das minhas pernas, ainda estou com limitações para me locomover, mas estou viva e em tratamento, fazendo mais exames. Creio que logo tudo irá estar bem. Quanto ao antidepressivo, segundo a médica, tenho que tratar do corpo primeiro e depois da mente. Talvez eu volte ao oxalato escitalopram ou talvez nem precise mais dele, pois a falta de vitamina B12 causa tudo o que eu sentia, mas isso é somente ela quem decidirá. Agora só peço a Deus saúde e que tudo volte ao normal.

Lu, eu lhe agradeço pelo carinho de sempre.

Nota: Criança Doente, obra de Evard Munch

A ANSIEDADE E A MÚSICA EM MINHA VIDA

Autoria de Lucas Alves Assunção

Sempre tive vontade de aprender a tocar violão. Quando eu era criança, meu irmão tinha um violão, esse que hoje em dia é meu. Ele é velho, está bem ruim, mas não o troco por nada, somos unha e carne, afinal foi nele que aprendi meu primeiro acorde e que toquei minha primeira nota.

Quando tinha uns 11/12 anos, eu estava fuçando nas coisas do meu irmão e encontrei um CD, mal sabia ler o nome, pois não sabia inglês. Era o “Technical Ecstasy” do Black Sabbath. Não fazia ideia do que era rock naquela época. Coloquei o CD num rádio velho que meu irmão tinha e foi simplesmente um “boom”, como se tivesse levado uma porrada na cabeça. Eu me senti de uma forma que jamais sentira antes, como se tivesse nascido junto com aquilo. Naquele momento decidi que aquilo era o que queria fazer para o resto de minha vida. Aquela guitarra, aquele som que eu não sabia como se chamava… Foi difícil explicar para minha mãe e para meu irmão, pois os mesmos achavam que era apenas uma “fase rebelde” de adolescente e que iria passar, porém,  aquela música acordou algo em mim e eu estava decidido.

Um tempo depois, após muita insistência, minha mãe aceitou me colocar numa escola de violão. O professor era na verdade um músico “meia boca” que enganava os alunos e não ensinava quase nada, apenas a tocar certas músicas. Percebi isso logo no início, porém, ao invés de me desmotivar, motivou-me mais. E quanto mais o tempo passava, mais eu treinava, mesmo que fossem coisas estupidamente idiotas. Até que um dia, estava eu no meu quarto, quando do nada caiu uma revista no chão. Não me pergunte de onde surgiu essa revista, pois eu mesmo não tenho a mínima ideia, nem sequer lia essas coisas. Era uma revista sobre música que caiu aberta em certa página. Vi que se tratava de uma matéria sobre uma escola de música e tecnologia. Quando li aquilo, eu quis conhecer mais.

Tinha apenas 14 anos na época e tive que insistir muito até minha mãe aceitar me levar até aquela escola. Quando chegamos lá, tudo era diferente: guitarras de pessoas famosas na parede, loja de instrumentos logo na entrada, a escola era enorme e os alunos eram os típicos “filhinhos de papai”. Enfim, eu me apaixonei por ela. Fiz uma prova e percebi que não sabia nada, não consegui responder uma única pergunta. Só consegui fazer tocar “Stairway to Heaven”. Fiquei muito triste comigo mesmo na época, pois percebi que tudo que tinha feito nos dois anos anteriores havia sido em vão. Contudo, isso também não me desmotivou, naquele momento decidi que iria viver para estudar música, cada dia iria estudar mais, mesmo com minha ansiedade, que na época estava atacando a torto e a direito.

Minha mãe, percebendo meu entusiasmo, matriculou-me naquela escola de música imediatamente. Acho que foi o dia mais feliz de minha vida. Ela ainda achava que tudo era uma fase, porém, não queria me contrariar, eu acho. Lá estudei música, lá aprendi tudo que sei hoje, lá conheci muita gente, inclusive o Faíska, um guitarrista excelente. A guitarra por trás de “Evidências” de Chitãozinho e Chororó é dele.

Uma coisa que me deixou muito triste com a volta de meus ataques de pânico foi o fato de que era para eu estar me formando no próximo mês, mas tive que parar com as aulas e ainda tenho medo de ir até lá e acabar passando mal, pois a escola fica muito longe de minha casa. Eu comecei a ter os ataques antes da penúltima prova. Eu havia estudado tanto para ela. Lá nós temos aulas em turmas e eu fazia aula com outros dois alunos. Antes de cada prova temos um simulado e dentre os alunos de minha turma fui o único que não errou uma única questão, estava extremamente preparado. Se não fosse pela ansiedade, já estaria formado.

Fiquei muito triste, porém, eu já me conformei, afinal, estou treinando e estudando em casa. Quando estiver melhor, irei voltar, fazer minhas provas, formar-me e deixar o destino me guiar para o próximo passo, porque até agora eu fui guiado pela música e sei que as notas musicais irão traçar meu destino. Lá também me inscrevi num curso da escola chamado “setup” que ensina sobre equipamentos musicais. Foi usando o que aprendi ali que escrevi sobre o “auto tune” e sobre as ondas musicais. Quero aprender tudo sobre música, quero saber exatamente como cada pedacinho do som que ouvimos acontece.

Nota: imagem copiada de Pinterest

ADOLESCÊNCIA E TRANSTORNO DE ANSIEDADE

Autoria de Lucas Alves Assunção

Conheci este site quando estava procurando por informações sobre o oxalato de escitalopram que estou tomando e me identifiquei muito com as histórias e os comentários de todos aqui. Fiquei na dúvida se deveria ou não compartilhar minha experiência com vocês também, até que resolvi falar um pouco, pois talvez ajude alguém passando pelas mesmas situações.

Tenho 19 anos e acho que tenho ansiedade desde criança, pois me lembro de sentir muito medo, sem ataques de pânico naquela época, apenas medo. Achava normal, ainda mais depois que cresci, afinal, qual criança não sente medo? Até que quando tinha uns 13/14 anos tive meu primeiro ataque de pânico. Foi tão ruim que a única coisa que consegui fazer depois foi me deitar e dormir, pois não sabia o que estava sentindo, tudo era estranho para mim. Pouco tempo depois comecei a ter ataques de pânico regularmente, não entendia ainda o que tudo aquilo era, nem sabia o que era “ansiedade” e muito menos “um ataque de pânico”.

Fui diagnosticado com o transtorno de ansiedade. Por incrível que pareça, busquei ajuda médica achando que estava com câncer por causa das paranoias da ansiedade. Logo após, marquei consulta com um psicólogo. Fui duas vezes às consultas e pulei fora, achei uma coisa bem inútil. Não acho que falar da minha vida pra alguém ajude em alguma coisa, pra mim, no final das contas, não tenho nenhum trauma ou algo do tipo. Aprendi a controlar minha ansiedade aos poucos. Isso durou uns 3/4 anos e, quando tinha 17 anos, pararam completamente os ataques. Aprendi a controlar perfeitamente, tão bem que até conseguia me forçar a ter um ataque de pânico, caso quisesse, por mais que isso pareça loucura ou estupidez, mas, enfim, fiquei sem sentir nada de ansiedade até final do ano passado.

No último Natal eu, por estupidez própria, resolvi experimentar maconha. Estava sentindo tédio e achei que seria algo como ficar bêbado, ou sei lá. Tive um ataque de pânico instantâneo após usar a droga. Achei que era tudo efeito da maconha, pois depois do ataque vieram os efeitos dela mesmo (desculpe eu estar citando drogas aqui, mas para contar toda a história tenho que falar disso). Achei que nada mais aconteceria depois que o efeito passou, até que começou tudo de novo. Ataques de pânico fortíssimos, não conseguia comer, sentia o mesmo nó na garganta de quando tinha 14 anos, até que resolvi buscar ajuda médica.

Fui a uma psiquiatra que me receitou citalopram e alprazolam de 4 em 4 horas. Tive muitos efeitos colaterais com o citalopram. Tive o ataque de pânico mais forte da minha vida que durou das duas da tarde às 11 horas da noite. Comecei a sentir uma pressão na cabeça que virou uma dor fortíssima, parecia que minha cabeça iria explodir. Cheguei ao pico de tudo, eu acho. Não sabia que poderia durar tanto tempo, o medo de ficar louco, medo da morte, medo do medo. Foi insano, até que voltei à psiquiatra, contei a ela sobre o ataque e os efeitos e ela me passou o escitalopram no lugar do citalopram.

Desde que mudei a medicação, eu me sinto muito melhor, contando os dois remédios tomados, faz 14 dias que estou sob a medicação (cinco dias com o escitalopram). Não tive mais ataque de pânico e minha ansiedade quase que sumiu. Ainda sinto um pouco daquela pressão na cabeça, mas bem mais fraca, passa quando eu coloco gelo. Obviamente não disse à psiquiatra sobre o uso da droga (que não usarei novamente), não acho que é algo cabível de ser dito, pois sei que, no fundo, foi culpa minha tudo isso estar acontecendo, mas todos nós cometemos erros, o negócio é se aprendemos com eles ou não.

Eu sou um músico. Na verdade não me considero músico, eu mesmo e a própria ansiedade também me fazem buscar uma perfeição extrema quanto a isso. Eu vivo minha vida pela música, larguei tudo para estudá-la e tocá-la. Também escrevo, assim como você em seu blog, Lu, por isso, também me identifiquei com você. Não me considero um escritor também. Muitas pessoas já leram coisas que escrevi e todas dizem que tenho talento, mas eu sempre continuo na minha própria busca pela perfeição que eu sei que não existe, mas quem sabe um dia eu chegue lá. Assim é que eu me sinto feliz, vivendo por um único objetivo. Ironicamente eu escrevo sem nunca ter lido um livro em toda a minha vida. Acho que a vida em si é um livro em branco que aprendemos a ler e escrever ao mesmo tempo, sendo ele o mais importante.

Ainda tenho um pouco de medo de estar ficando louco e de morrer, mas deve ser por causa da medicação estar no começo, pois sei que causa esse efeito. Até brinco dizendo que tenho o melhor ofício para ser louco… ser guitarrista! Loucura faz parte do contrato, não que eu ache que o que eu faço é um trabalho, pois a arte vale muito mais que o ouro. Meu desejo é que as pessoas me escutem e possam se sentir felizes, nem que seja apenas por um breve momento.

Acho que já escrevi demais! Deixo aqui meu relato, espero que ajude alguém e não cometam o mesmo erro que eu, que, para dizer a verdade, não me arrependo de tê-lo cometido, mas não o faria de novo.

Nota: Guitarra e Violino, obra de Leonid Afremov

TENHO DEPRESSÃO E FOBIA SOCIAL

Autoria de João Resende

A depressão e a fobia social sempre me trouxeram problemas. Desde muito jovem eu já sofria com isso, mas, há uns dez anos, eu tive uma crise depressiva mais séria e precisei procurar um psiquiatra, coisa que nunca tinha feito até então. Para o tratamento, o médico receitou rivotril em doses que chegaram a 6 mg por dia. O problema é que durante o tratamento eu tive uma série de situações ruins e acabei associando-as ao remédio. Eu tinha variações bruscas de humor, crises de raiva, irritava-me com qualquer coisa e, além disso, passava os dias com uma sensação de sono tão forte, que cheguei a dormir em reuniões de trabalho e cochilei também no volante (não sei como não sofri um acidente na época). No fim das contas, interrompi o tratamento e hoje vivo com os medos que sempre me acompanharam e também com medo de tentar um novo tratamento.

Eu sempre tive a esperança de que isso melhoraria com o passar do tempo, mas o problema é que já estou com quase 40 anos e, ao longo desse tempo, eu já perdi muitas oportunidades profissionais por causa da minha condição.  Além de evitar todo o tipo de interações sociais, eu sofro especialmente com o medo de lidar com pessoas em posição de autoridade. Não consigo explicar este meu comportamento.  O medo é tanto que quando eu preciso abordar pessoas em posições hierárquicas mais altas, a voz chega a sumir, o coração dispara, a respiração fica ofegante, o suor brota na testa e daí por diante a situação vai piorando. É como se fosse uma bola de neve. Falar em público também é uma situação impossível para mim. Prefiro a morte! Deve ser algum trauma vivido, mas tão forte que eu não consigo nem explicar sua origem.

Eu tento entender o que me leva a tal fobia, mas não consigo. Sei que, sob o viés da lógica, essas situações não oferecem perigo algum, contudo não consigo controlar as minhas reações. Tenho também muita dificuldade de concentração. Não consigo focar em nada sem que a cabeça fique pensando mil coisas ao mesmo tempo. Morro de vergonha por carregar estes problemas e tento escondê-los das pessoas, simplesmente evitando as situações e jogando fora toda e qualquer oportunidade que surge na minha vida. Fico vendo alguns colegas de trabalho e admirando como eles são serenos, autoconfiantes e levam a vida com grande prazer. Meu sonho é ser assim…

Qual será a classificação para o meu transtorno? Será que existe tratamento para isso? Será que o período que tomei remédios e tive a sensação de que tudo piorou foi só um erro do médico na prescrição? Por favor, deem-me uma luz!

Nota: Melancolia, obra de Edvard Munch