Arquivos da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

ADOLESCÊNCIA E TRANSTORNO DE ANSIEDADE

Autoria de Lucas Alves Assunção

Conheci este site quando estava procurando por informações sobre o oxalato de escitalopram que estou tomando e me identifiquei muito com as histórias e os comentários de todos aqui. Fiquei na dúvida se deveria ou não compartilhar minha experiência com vocês também, até que resolvi falar um pouco, pois talvez ajude alguém passando pelas mesmas situações.

Tenho 19 anos e acho que tenho ansiedade desde criança, pois me lembro de sentir muito medo, sem ataques de pânico naquela época, apenas medo. Achava normal, ainda mais depois que cresci, afinal, qual criança não sente medo? Até que quando tinha uns 13/14 anos tive meu primeiro ataque de pânico. Foi tão ruim que a única coisa que consegui fazer depois foi me deitar e dormir, pois não sabia o que estava sentindo, tudo era estranho para mim. Pouco tempo depois comecei a ter ataques de pânico regularmente, não entendia ainda o que tudo aquilo era, nem sabia o que era “ansiedade” e muito menos “um ataque de pânico”.

Fui diagnosticado com o transtorno de ansiedade. Por incrível que pareça, busquei ajuda médica achando que estava com câncer por causa das paranoias da ansiedade. Logo após, marquei consulta com um psicólogo. Fui duas vezes às consultas e pulei fora, achei uma coisa bem inútil. Não acho que falar da minha vida pra alguém ajude em alguma coisa, pra mim, no final das contas, não tenho nenhum trauma ou algo do tipo. Aprendi a controlar minha ansiedade aos poucos. Isso durou uns 3/4 anos e, quando tinha 17 anos, pararam completamente os ataques. Aprendi a controlar perfeitamente, tão bem que até conseguia me forçar a ter um ataque de pânico, caso quisesse, por mais que isso pareça loucura ou estupidez, mas, enfim, fiquei sem sentir nada de ansiedade até final do ano passado.

No último Natal eu, por estupidez própria, resolvi experimentar maconha. Estava sentindo tédio e achei que seria algo como ficar bêbado, ou sei lá. Tive um ataque de pânico instantâneo após usar a droga. Achei que era tudo efeito da maconha, pois depois do ataque vieram os efeitos dela mesmo (desculpe eu estar citando drogas aqui, mas para contar toda a história tenho que falar disso). Achei que nada mais aconteceria depois que o efeito passou, até que começou tudo de novo. Ataques de pânico fortíssimos, não conseguia comer, sentia o mesmo nó na garganta de quando tinha 14 anos, até que resolvi buscar ajuda médica.

Fui a uma psiquiatra que me receitou citalopram e alprazolam de 4 em 4 horas. Tive muitos efeitos colaterais com o citalopram. Tive o ataque de pânico mais forte da minha vida que durou das duas da tarde às 11 horas da noite. Comecei a sentir uma pressão na cabeça que virou uma dor fortíssima, parecia que minha cabeça iria explodir. Cheguei ao pico de tudo, eu acho. Não sabia que poderia durar tanto tempo, o medo de ficar louco, medo da morte, medo do medo. Foi insano, até que voltei à psiquiatra, contei a ela sobre o ataque e os efeitos e ela me passou o escitalopram no lugar do citalopram.

Desde que mudei a medicação, eu me sinto muito melhor, contando os dois remédios tomados, faz 14 dias que estou sob a medicação (cinco dias com o escitalopram). Não tive mais ataque de pânico e minha ansiedade quase que sumiu. Ainda sinto um pouco daquela pressão na cabeça, mas bem mais fraca, passa quando eu coloco gelo. Obviamente não disse à psiquiatra sobre o uso da droga (que não usarei novamente), não acho que é algo cabível de ser dito, pois sei que, no fundo, foi culpa minha tudo isso estar acontecendo, mas todos nós cometemos erros, o negócio é se aprendemos com eles ou não.

Eu sou um músico. Na verdade não me considero músico, eu mesmo e a própria ansiedade também me fazem buscar uma perfeição extrema quanto a isso. Eu vivo minha vida pela música, larguei tudo para estudá-la e tocá-la. Também escrevo, assim como você em seu blog, Lu, por isso, também me identifiquei com você. Não me considero um escritor também. Muitas pessoas já leram coisas que escrevi e todas dizem que tenho talento, mas eu sempre continuo na minha própria busca pela perfeição que eu sei que não existe, mas quem sabe um dia eu chegue lá. Assim é que eu me sinto feliz, vivendo por um único objetivo. Ironicamente eu escrevo sem nunca ter lido um livro em toda a minha vida. Acho que a vida em si é um livro em branco que aprendemos a ler e escrever ao mesmo tempo, sendo ele o mais importante.

Ainda tenho um pouco de medo de estar ficando louco e de morrer, mas deve ser por causa da medicação estar no começo, pois sei que causa esse efeito. Até brinco dizendo que tenho o melhor ofício para ser louco… ser guitarrista! Loucura faz parte do contrato, não que eu ache que o que eu faço é um trabalho, pois a arte vale muito mais que o ouro. Meu desejo é que as pessoas me escutem e possam se sentir felizes, nem que seja apenas por um breve momento.

Acho que já escrevi demais! Deixo aqui meu relato, espero que ajude alguém e não cometam o mesmo erro que eu, que, para dizer a verdade, não me arrependo de tê-lo cometido, mas não o faria de novo.

Nota: Guitarra e Violino, obra de Leonid Afremov

TENHO DEPRESSÃO E FOBIA SOCIAL

Autoria de João Resende

A depressão e a fobia social sempre me trouxeram problemas. Desde muito jovem eu já sofria com isso, mas, há uns dez anos, eu tive uma crise depressiva mais séria e precisei procurar um psiquiatra, coisa que nunca tinha feito até então. Para o tratamento, o médico receitou rivotril em doses que chegaram a 6 mg por dia. O problema é que durante o tratamento eu tive uma série de situações ruins e acabei associando-as ao remédio. Eu tinha variações bruscas de humor, crises de raiva, irritava-me com qualquer coisa e, além disso, passava os dias com uma sensação de sono tão forte, que cheguei a dormir em reuniões de trabalho e cochilei também no volante (não sei como não sofri um acidente na época). No fim das contas, interrompi o tratamento e hoje vivo com os medos que sempre me acompanharam e também com medo de tentar um novo tratamento.

Eu sempre tive a esperança de que isso melhoraria com o passar do tempo, mas o problema é que já estou com quase 40 anos e, ao longo desse tempo, eu já perdi muitas oportunidades profissionais por causa da minha condição.  Além de evitar todo o tipo de interações sociais, eu sofro especialmente com o medo de lidar com pessoas em posição de autoridade. Não consigo explicar este meu comportamento.  O medo é tanto que quando eu preciso abordar pessoas em posições hierárquicas mais altas, a voz chega a sumir, o coração dispara, a respiração fica ofegante, o suor brota na testa e daí por diante a situação vai piorando. É como se fosse uma bola de neve. Falar em público também é uma situação impossível para mim. Prefiro a morte! Deve ser algum trauma vivido, mas tão forte que eu não consigo nem explicar sua origem.

Eu tento entender o que me leva a tal fobia, mas não consigo. Sei que, sob o viés da lógica, essas situações não oferecem perigo algum, contudo não consigo controlar as minhas reações. Tenho também muita dificuldade de concentração. Não consigo focar em nada sem que a cabeça fique pensando mil coisas ao mesmo tempo. Morro de vergonha por carregar estes problemas e tento escondê-los das pessoas, simplesmente evitando as situações e jogando fora toda e qualquer oportunidade que surge na minha vida. Fico vendo alguns colegas de trabalho e admirando como eles são serenos, autoconfiantes e levam a vida com grande prazer. Meu sonho é ser assim…

Qual será a classificação para o meu transtorno? Será que existe tratamento para isso? Será que o período que tomei remédios e tive a sensação de que tudo piorou foi só um erro do médico na prescrição? Por favor, deem-me uma luz!

Nota: Melancolia, obra de Edvard Munch

SÍNDROME MENTAL E VIDA A DOIS

Lívia Cristina Linhares

Mais uma vez estou aqui para agradecer por este espaço e para falar um pouco de mim.

Estou na minha terceira crise. Sofro de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Síndrome do Pânico (SP) ao longo de nove anos. O meu desespero se dá, principalmente, porque tenho muita idealização suicida e despersonalização. Eu sinto pânico somente em pensar que possa fazer algo contra mim numa hora de extremo desespero. Sei que muitas pessoas passam por isso, podendo, assim, avaliar como me sinto.

Meus pais são idosos. Ambos já perderam um filho repentinamente e eu acompanhei o estado de sofrimento em que eles ficaram. No que depender de mim não quero nunca trazer essa dor para eles, mas quando estou com crise de depressão, tudo que eu quero é acabar com a minha vida, embora isso seja totalmente contra minha religião, mas minha cabeça pira e tenho dificuldades em lidar com isso. Quando sou atingida pela despersonalização, aí é que fico achando que pirei de vez… Nada parece real, nada faz sentido e me desespera estar vivendo neste mundo louco que minha cabeça criou. Tenho a sensação de que estou presa lá dentro e que jamais irei sair.

Não posso dizer que já estou bem, ou que já voltei a ser como era. Ainda não sinto alegria ou vontade de viver. Tudo tem sido muito difícil para mim, mas já sinto os pensamentos suicidas e a despersonalização menos vezes. O pânico tenta se arrastar por mim algumas vezes por dia, porém já o controlo um pouco mais, consigo mudar o foco da minha mente. Apesar de tudo, continuo insistindo em sair (hoje fui pintar o cabelo e as unhas, mesmo sem vontade), a fim de desanuviar a cabeça.

Fiquei alegre ao ler aqui neste espaço sobre maridos/companheiros de mulheres que sofrem de depressão (ou de qualquer outro transtorno mental) e eles as compreendem e ajudam no tratamento. Na minha segunda crise depressiva, em 2010, decidi que não queria me envolver com mais ninguém. Não achava justo eu arrastar uma pessoa para viver comigo, uma mulher doente, tendo que me aturar nas crises, quando o remédio parasse de fazer efeito. Esta é minha maneira de pensar e de enxergar a minha situação, o que deixa minha vida ainda mais sem sentido.

A minha família sempre fala que é um “saco” e um “inferno” quando estou depressiva. Por isso, decidi que ficaria sozinha, porque não sou merecedora de alguém. Já faz oito anos que estou completamente sozinha. Na verdade, eu nem lembro mais como é ter alguém ao meu lado no que diz respeito ao amor. E aí aparecem pessoas nos comentários deste blogue que me mostram que posso ter uma vida “normal”, que existem parceiros com compreensão e companheirismo na hora do sufoco ou do sossego, dando sempre a maior força. Isso me transmitiu uma esperança, um sentimento que já não tinha há muitos anos. Além de tudo que aqui recebo, agradeço por isso também, por me mostrarem uma maneira diferente de ver a vida, dizendo-me que posso ter alguém afetivamente ao meu lado numa vida a dois.

Enfim, hoje foi mais difícil do que ontem, mas menos difícil do que alguns dias atrás. Gostei da ideia da Lu para eu fazer um diário, pois é bom ver o nosso progresso, vou tentar adotar esta ideia. Um beijo enorme no coração de todos que aqui vêm. Obrigada pela força! Todos vocês são para mim muito especiais.

Nota: Os Amantes de Vence, obra de Marc Chagall

TRABALHANDO OS PENSAMENTOS NEGATIVOS

Autoria de Rene Pinheiro

Tenho me sentido melhor em relação ao meu quadro geral relativo ao combate ao transtorno mental que me afeta: a ansiedade. Muitos dos efeitos colaterais que tive no início do tratamento encontram-se agora bastante reduzidos. Ainda sinto um efeito adverso, brando, na língua que provoca o bocejo (não se trata de sono, mas somente do ato de bocejar). Esses bocejos reduziram bastante também. A libido está voltando aos poucos. A ansiedade ainda se apresenta, geralmente à noite, mas em ondas mais fracas.

O que tem me ajudado, além de outras ações e atitudes, é questionar ou refletir sobre os meus pensamentos. Por exemplo: quando vem a sensação física da ansiedade – que inclui certa tensão muscular nos ombros, coração acelerado, pressão no peito e às vezes na cabeça – em geral, na sequência, vem um pensamento estranho junto. Muitas vezes trata-se de um pensamento negativo, que acaba se conectando, por assim dizer, com a sensação física, e dessa união resulta o aumento da sensação desagradável da ansiedade.

Comecei a perceber que é de suma importância examinar o pensamento que vem junto: “O que estou pensando é verdade? É útil para mim? Existe alguma coisa que eu possa fazer sobre o que estou pensando agora?” Percebi que, muitas vezes, os pensamentos ou eram sobre situações irreais ou inúteis, ainda que tivessem alguma dose de verdade. Em razão disso eu tomei uma decisão. Uma vez que não é possível bloquear tal pensamento (ele já está lá, vem sem avisar), é melhor deixar que venha e saber que não é preciso tecer um “diálogo” com ele. Ele vem… e se vai. O pensamento é temporário. É como um sino que toca de repente no silêncio. O som que surge tem um início, uma duração e um fim. O silêncio permanece em paz. O silêncio é cada um de nós. Dessa forma, a sensação física incômoda não tem como se “alimentar”, por assim dizer, do pensamento negativo, e então ela não cresce e acaba desaparecendo. Resumindo, eu não ofereço resistência. E sem resistência não há luta.

Tenho experimentado uma melhora significativa toda vez que faço este trabalho com os pensamentos indesejáveis que a mim chegam. Não “corto” o pensamento inoportuno de forma brusca. Apenas testemunho o seu aparecimento e renuncio à sua continuidade, conscientemente. Às vezes, faço isso por meio da mudança de foco no que estou fazendo no momento. Outras vezes, mudo de atividade, se for preciso. Na maioria das vezes,  eu aplico a respiração consciente (volto a atenção para a respiração mais lenta, expandindo a barriga para inspirar, contraindo para expirar, mantendo a atenção no ar que entra e no ar que sai, passando pelo meu corpo).

As ações e técnicas são portas de entrada para o “aqui e agora”, o único lugar e tempo real, de fato. Podem ser outras ações também, contanto que me tragam para o momento presente. Estou sempre aceitando a presença temporária da ansiedade, como ela se apresenta, mas sabendo que eu não sou a ansiedade. Ela vem e vai. Eu fico! Eu permaneço! Os sintomas vão ficando mais brandos e se vão bem mais rapidamente, sempre que eu consigo impedir, gentilmente, a conexão deles com os pensamentos negativos, inverídicos ou apenas inúteis. Com essa prática, o próprio ato ou efeito de pensar negativamente vai se tornando menos frequente, assim como a ligação entre a sensação desagradável e o pensamento disfuncional.

Compartilho essas experiências porque elas realmente funcionam comigo e na esperança de que, de alguma forma e em algum nível, elas possam ajudar ou apontar caminhos para outros companheiros que sofrem da mesma situação.

Muita paz a todos!

VÍTIMA DE UM VAMPIRO POSSESSIVO

Autoria de Celina Hohmann

Tive o desprazer de ter cruzado com um possessivo doentio, cujo maior prazer é a tortura. O indivíduo possessivo é tão perspicaz quanto um vampiro e nisso está seu trunfo.

Nunca nos imaginamos enfrentando um possuidor mórbido, indivíduo que se julga o dono absoluto de tudo e de todos, inclusive dos pensamentos de outra pessoa. É cruel, impertinente, magoa pelo prazer e, ao final, faz-se de vítima. Para chegar aonde se sente confortável não poupa esforços em destruir a imagem do outro. Ele é quem domina, o dono absoluto da verdade. Infiltra-se como água na areia e vai destruindo pedaço por pedaço de quem tomou como vítima. E diz amar!

Sabemos que a esse tipo de gente falta o amor próprio, o reconhecimento de que precisa mudar, pois caso contrário terá como fim o desprezo, uma consequência por tudo o que criou, após chegar e fazer o estrago. Tais pessoas chegam com uma carinha de gente boa e preocupadas com o bem-estar do outro, mas, na verdade, estão afiando as garras para rasgar vidas, o que fazem muito bem. Quem se encontra sob o seu domínio perde o controle de tudo, principalmente de suas próprias ações. É um jogo perigoso.

O maior perigo do possessivo está no fato de ele chegar sorrateiramente, dando-nos bons motivos para vê-lo como alguém especial. É especial, sim! Tão maldosamente especial que o mundo de quem está sob seu domínio fica à deriva. O complicado é que a vítima, na ânsia de não criar atritos, anula-se, culpa-se e odeia-se… Aí é que reside o fortalecimento do possessivo! Consegue seu alvo. Destrói e não se culpa, mas ao contrário, joga a culpa no outro e ainda faz a clara observação de que é “por amor”. Amor que mata! Amor que não faz bem! Amor que machuca! Não, isso não é amor, mas terrorismo!  Viver sob tal domínio é angustiante, é como pisar em ovos, ter medo do que fala e, quase sempre, deixar de ser o que se é!

Possessivos são doentes, jogadores sem escrúpulos. Para que se afirmem, fazem de quem está próximo (e sempre há uma vítima preferida) um doente como eles são. Sua capacidade está na anulação do outro com o objetivo de aumentar o próprio poder, até que, numa escorregadela, o oprimido percebe,  ainda que com certa relutância, que o problema não está em suas ações, palavras ou gestos, mas na maquiavélica capacidade de ser manipulado pelo outro ? um doente que culpa os demais por sua incapacidade. Perigosos, eles podem, num surto ou acesso de raiva, ferirem fisicamente, depois de terem sugado o psiquismo até a última gota. São as pragas da humanidade que, junto a muitas outras, fazem a vida de muitos se transformar num inferno diário.

Hoje, após um tempo que pareceu uma eternidade, percebi que eu era a vítima, mas as sequelas ficaram visíveis: ainda o medo, ainda culpas que jamais seriam culpas, ainda o tatear no escuro. O livrar-se de um possessor não é tarefa das mais simples. Há que se ter muito amor próprio, pois o possessivo escolhe suas vítimas, normalmente já fragilizadas (e pessoas fragilizadas são alvos fáceis), mas, até que reencontrem seu equilíbrio, passarão por maus bocados. Se não tiveram alguém que sutilmente as orientem, poderão, sem dúvida alguma, anular-se por completo e, num perigoso jogo, caírem na caverna desses vampiros para sempre.

PALAVRAS PARA LAURA

Autoria de Celina Telma Hohmann

Laura!

Do latim laurus, significando “Vitorioso”, “Triunfal”. Já trouxe no nome a força e, hoje, em plena fase de abrir todas as portas e janelas, às voltas com os tormentos do existir. Você tem a facilidade da escrita, que é o que há de mais difícil, posto que nem todos são detentores deste poder que é grande. Se escreve tão bem e faz pesquisas com um quase assustador meio de decifrar-se, tem o discernimento para descobrir que faz consigo o que muitos – e aí me incluo – usam da autossabotagem para não prosseguir, como uma preguiça que dói e nos prende ao nada.

Laura, você dispõe dos recursos que a muitos não é acessível. Sobra em si uma sabedoria formal, até além daquela que sua idade permite, adquirida, ao que demonstra, pela sua facilidade em aprender, mesmo quando cita que o ensino foi algo a que nem deu muito valor. Primeira das suas negativas é essa. Você soube extrair do ensino o melhor que ele lhe ofereceu, mesmo não dispondo das sonhadas “ferramentas fornecidas pela Prefeitura”. Não nos tornamos melhores ou piores se faltam ou sobram possibilidades. Não as tendo, podemos encontrá-las em nós mesmos, não esperando ou culpando fracassos (que não é o seu caso) pela falta de oportunidades. Oportunidades são exatamente o quê? Já fui jovem. Já tive vinte anos e, como você, também me senti perdida, sabe por quê? Porque eu estava acima da média, como muitos estão, mas dentro da mesmice que nos chateia…

Meu primeiro trabalho foi aos treze anos e nunca mais parei, até que, parando, veio o vazio real. Obviamente vocês, jovens de hoje, têm menos chances de um trabalho formal, considerando que nosso país não oferece muito aos jovens que estão à busca de trabalho, mas isso não os põem na condição de inúteis, vazios…Vocês não são isso, exceto se desejarem! O olhar para o passado é bom, mas olhar só para justificar o caos do presente é destruir a semente que já está germinando. Abra-se para o novo, minha linda! Arregace as mangas, descubra-se capaz (e o faça com fidelidade absoluta)! Colha, depois, o que plantou, pois, se plantar amarguras, terá uma colheita sofrida.

Entendo como você se sente, Laura, ao não saber qual direção tomar. Cada um de nós, aqui neste cantinho, veio com lágrimas, por vezes reprimidas, mas com tanta necessidade de sair do casulo, que o passo, por vezes tão doloroso, resultou não no remédio imediato, mas na compreensão, que é o que buscamos. Colocamos nossas histórias em trechos, por vezes desrespeitando a concordância, a regência, o correto uso da escrita, mas na busca desesperada por um ombro amigo que parecia distante.

A vida é uma sinfonia, Laura, na qual se encontram partes que poderão nos deliciar com as mais suaves notas e outras que nos farão sofrer. Um dedilhar descuidado, um ouvido não atento ou um coração em compasso desajustado não resultará em harmonia, embora ela seja tão procurada e na maior parte das vezes tão menosprezada. Existe, mas não a ouvimos e se ouvimos, não conseguimos decifrar o novo som… Nossa capacidade em afastar o que nos faz bem é grande. Carregamos o poder de destruir nossos sonhos.

Laura, não existe vida sem sonhos! Vegetar não faz parte do nosso processo, não, em seu estado mais natural! Sei que deveria lhe dar o colo que precisa, olhar em seus olhos, segurando suas mãos e dizer: menina, siga! Não estão no mundo as respostas que busca. O mundo se basta a si mesmo. Ele é e pronto! Fazer dele bom ou mau depende de cada um de nós. E aqui, é importante esclarecer que não podemos culpar os outros, ou esperar dos outros, ou pelos outros que nossos caminhos se abram. Quando nossas primeiras células, de forma maravilhosa foram se duplicando, multiplicando, fazendo-nos um humano, já estava escrito o que seríamos: uma pessoa!

Você é GENTE, Laura, portanto, seu compromisso consigo mesma é descobrir seu melhor lado e com ele explorar todo o potencial que tem – e tem muito – e fazer o gol (obviamente chutando a bola) e correr para o abraço. A vida precisa que você dê a ela o valor que ela lhe deu, criando-a perfeita em todas as suas faculdades físicas e intelectuais. Através dela, você recebeu a bênção de ser alguém especial. Quando houver conflitos de sentimentos, considere-se normal, mas jamais, em hipótese alguma se dê o direito de julgar-se mais sofrida ou inferior a quem quer que seja. Se no calor que sufoca buscamos a sombra e no frio exagerado o mais quentinho dos abrigos, então, na sofreguidão da alma e nas buscas por respostas, façamos o mesmo! Sempre haverá, num cantinho, por vezes ainda não explorado! Não se sinta só!

Um abraço quente, uma compreensão meio durona, mas um carinho à doce fase da juventude!

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, Mulher Adormecida com Persianas.