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Causos engraçados e anedotas

A MULHER NUNCA MENTE

Recontada por LuDiasBH

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Certo dia, uma dona de casa levava uma garrafa de vinho para o almoço quando, ao atravessar uma pequena ponte, o vinho caiu no rio. A mulher suplicou a Deus que a ajudasse. Ele então lhe apareceu e perguntou-lhe:

  – Por que você está chorando, minha filha?

Senhor, porque minha garrafa de vinho caiu no rio. – respondeu a mulher.

Deus entrou no rio, de onde tirou um CHATEAU PETRUS, indagando-lhe:

– É este o seu vinho?

A nobre mulher respondeu:

– Não, Senhor meu Deus, não é esse.

Deus entrou novamente no rio e tirou um DONA MÉCIA TINTO.

– É este o vinho perdido?

– Também não, Senhor! – respondeu a dona de casa.

O Todo Poderoso voltou ao rio e tirou dali um vinho nacional, bem baratinho, e perguntou-lhe:

– É este teu vinho, minha filha?

– Sim! É este, meu senhor! – respondeu ela.

O Criador estava muito contente com a sinceridade daquela mulher, que não se deixou levar pela mentira, e  mandou-a de volta para casa, dando-lhe os três vinhos de presente.

Num outro dia, a mesmíssima senhora e seu amantíssimo marido estavam passeando nos campos, quando ele tropeçou e caiu no rio. A infeliz novamente suplicou ao Criador, pedindo-lhe socorro. Ele apareceu e perguntou:

– Mulher, por que você está chorando?

Ela explicou-lhe que seu esposo caíra no rio. E imediatamente Deus mergulhou e tirou o Rodrigo Santoro, perguntando-lhe:

– É este seu marido, minha filha?

– Sim, sim! – respondeu ela sem pestanejar.

Deus se enfureceu com o seu comportamento:

– Mulher mentirosa! – exclamou

Mas a mulher rapidamente se explicou:

– Meu Deus, perdoe-me, foi um mal-entendido. Se eu dissesse que não, então o Senhor tiraria o Gianecchini do rio; depois, se eu dissesse que não era ele, o Senhor tiraria meu marido; e quando eu dissesse que sim, era ele, o Senhor mandaria que eu ficasse com os três. Mas eu sou uma humilde mulher, e não poderia cometer “trigamia”. Só por isso eu disse ‘Sim’ para o primeiro deles.

E o Senhor achou sua explicação justa e a perdoou.

Moral da história:
Mulher mente de um jeito que até Deus acredita.

Nota:  imagem de Artesanato do Vale do Jequitinhonha/ blogdobanu.blogspot.com

CABARÉ LEVA IGREJA À JUSTIÇA

Autoria de LuDiasBH

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O bicho homem é mesmo patusco, em qualquer que seja a época. Se estroinice pagasse imposto em terras tupiniquins, brasileiros andariam com a burra abarrotada. É cada maluqueira que acontece por aqui, capaz de deixar careca com o cabelo em pé. Vejam essa que me mandou o meu amical Julmar, vulgo Ju, à qual me dou o direito de tafulhar umas palavras por aqui e acolá, com rima e tudo, de modo a tornar mais perspícuo o entendimento.

Numa certa cidade, cujo nome eu jamais diria que é Aquiraz, situada na região metropolitana de Fortaleza, a distinta dona Trazíbia Sexyteira, responsável pelo lazer dos homens aquirazenses e dos visitantes da cidade, quando em necessidades copulatórias, resolveu ampliar o seu “cabaret” (em francês, mesmo, tamanha é a importância do órgão a nível nacional e internacional), uma vez que a demanda pelos serviços era bem superior à ambiência em questão. Pois há momentos em que toda veniaga exige certo sigilo entre comprador e ofertante. Daí a necessidade de agraudar a edificação, criando um anexo subordinado ao órgão central, para atender os femeeiros.

Tudo teria transcorrido no correntio de sempre, se o “cabaret” não fosse vizinho de certa igreja neopentecostal, que via nos serviços empresariados por dona Trazíbia Sexyteira, um chamamento para o diabo e seu séquito. Se os ditos não fossem bons pagadores, tenho certeza de que a empresária acoitá-los-ia de bom grado, mas não era esse o caso dos chifrudos. Iriam se esbaldar sem pagar um vintém furado à dona de tão macróbio comércio.

Segundo as más línguas, os neopentecostais de tal igreja armaram-se de prece, reza, oração, sentença, frase, período simples e composto para jogar por terra o empreendimento imobiliário sexualista de dona Trazíbia Sexyteira, em sessões oraçoeiras matutinas, vespertinas e “noitinas”, para cristão nenhum botar cafanga. Mas tudo isso foi sensabor para interromper o império sensorial da distinta dama. Assim sendo e sendo assim, o empreendimento continuava a todo vapor. Dona Trazíbia Sexyteira e suas distintas damas estavam em alvoroço com a finalização das obras. Faltava apenas uma semana para a inauguração de tão precípua ala. Os comes e bebes já estavam sendo providenciados para os festejos de comemoração.

Eis que o céu embruscou-se prenunciando uma trabuzana danada. Trovões peidavam por todo lado, parindo relâmpagos magruços e abespinhados. Não é que um deles, no seu afuzuamento escolheu logo o “cabaret” de Trazíbia Sexyteira para buscar vivenda?! O danado do tinhoso esfogueou as instalações de eletricidade, que por sua vez botaram mais lenha na fornalha, esbrasando tudo. Não sobrou nem uma peça de roupa de mulher-dama como lembrança para um macho apaixonado.

Abespinhada, enviperada, marfada e possessa, dona Trazíbia Sexyteira botou nas mãos da lei a dita igreja, seu pastor, os obreiros, pedreiros, ferreiros, leiteiros e toda a congregação, alicerçando-se no fato de que aquela gente, através de seus rogos obsessivos, foi a responsável pela destruição de seu empreendimento, ao clamar pela ingerência sobrecelestial, no que foi prontamente atendida, jogando-a num falimento total. Ela requeria um ressarcimento com premência.

A igreja, sem eira e muito menos beira, vivendo dos vinténs dos devotos, negou e renegou a sua participação no soçobro do cabaré (agora não mais afrancesado). Argumentou que gostaria que a distinta e desafortunada dama comprovasse as orações do pastor e seu rebanho, usadas para tal fim, assim como a participação divina, naquela desgraceira.

O desventurado juiz, depois de ler nos autos as peças da acusação e da defesa, desabafou:

Não sei como vou decidir neste caso, pois, pelo que li até agora, tem-se, de um lado, uma proprietária de puteiro que acredita firmemente no poder das orações e, do outro lado, uma igreja inteira que afirma que as orações não valem nada.

O fato continua em julgamento.

Nota: a ilustração é uma obra de Fernando Botero

DONA VALGINA – A NOVA DIRETORA

Autoria de LuDiasBH

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Todo professor do Ensino Fundamental (uma das etapas da educação básica, que possui nove anos de duração, sendo a matrícula obrigatória para todas as crianças com idade entre cinco e 14 anos) sabe que todo início de ano letivo é uma peleja dos diabos para botar a meninada no eixo. E não foi diferente na Escola Municipal Arquimedes Vida Boa, no município de Pirarucu. Ainda mais com as mudanças ocorridas.

Seguindo os engodos da politicagem, dona Valgina Pinto Cruz, tia de certo deputado da região, mal chegara à cidade acima citada, foi alçada ao cargo de diretora daquela escola, sob a alegação de que era uma distinta pedagoga, com muitos cursos disso e daquilo, tomando o lugar de Santinha Bezerra, tia do prefeito derrotado na última eleição.

A Escola Municipal de Arquimedes Vida Boa estava em polvorosa para receber a nova diretora, que se apesentaria na companhia do prefeito e do sobrinho deputado. Enquanto não chegava a hora de receber dona Valgina Pinto Cruz e tão notável comitiva, os professores encarregavam-se de preparar os pupilos para tão memorável ocasião, embora o salário não fizesse jus a tanto esforço.

A maior preocupação dos mestres era fazer com que os alunos recebessem bem a distinta diretora e, por isso, repetiam exaustivamente o seu nome, e lhes ensinavam a reverência a ser feita na presença da tal e das autoridades que adentrariam em cada sala da escola. Todos os alunos deveriam se levantar, em sinal de respeito, assim que a comitiva entrasse na sala, só devendo responder aquilo que fosse perguntado.

Peço licença ao leitor, para abrir um parêntese, e falar de uma figurinha tarimbada na escola em questão – Juvenal Pimenta, vulgo Piupiu, que só aparecia em sala depois de uma semana de iniciadas as aulas, sob a alegação de que “na primeira semana só havia embromação por parte dos mestres e alunos”. Portanto, o maroto apareceu na segunda-feira da segunda semana de aula e no exato dia da apresentação da diretora e seu staff, mais por fora das formalidades em decurso do que casca de coco.

Conforme o estabelecido, o prefeito entrou na sala, seguido por dona Valgina e seu sobrinho deputado, e fez as apresentações de praxe. A seguir, passou a palavra para a nova diretora. Querendo conquistar a simpatia da turma, cuja idade variava entre os 7 e 9 anos, a mulher começou com um joguinho de perguntas:

– Que crianças lindas! Aposto que vocês já têm conhecimento do que sou agora nesta escola maravilhosa, de alunos tão educados. Sabem ou não sabem?

– Sabemos! – respondeu em uníssono a meninada.

Então me falem.

Diretora! – bradou a criançada.

Será que já sabem o meu nome?

– Sabemos! – retumbou a turma.

– Então eu vou escolher alguém, entre vocês, para dizer o meu nome. Posso? – perguntou a nova diretora, percorrendo um por um dos alunos, com seus óculos de fundo de garrafa e seu sorriso desengonçado.

– Pooddee! – cantou a sala inteira.

Uni dune tê o escolhido foi você… – indicou a questionadora.

O leitor, com certeza, já faz ideia de quem foi o escolhido. Exatamente o nosso Piupiu, o último da fila, lá no fundo da classe, que não fazia a menor ideia do que se passava e, muito menos de qual era o nome daquela mulher que ele nunca vira em toda a sua vida. Só lhe restava pedir ajuda ao coleguinha do lado, seu melhor amigo. Despistadamente, enviou-lhe um olhar desesperado de socorro.

Welerson, vulgo Soin, juntou as duas mãozinhas, unindo os dedos polegares e os indicadores, deixando um pequeno espaço no meio, e sussurrou entre dentes para o amigo em apuros:

– Bota um “l” no meio!

Juvenal Pimenta levantou-se altivo, certo de que tinha a resposta na ponta da língua. Olhou para os colegas e sorriu, como se lhes pedisse atenção, e se voltou para as excelências que aguardavam a resposta, já com certo ar de constrangimento. Somente a professora Lucinha Matos, vermelha como um pescoço de peru, sabia que um tsunami estava a caminho, pois o moleque já era afamado na escola. E veio a bomba:

– Dona Bucleta! – gritou Juvenal.

A turma toda perdeu a compostura, tão arduamente ensaiada durante uma semana, e caiu numa estriptosa gargalhada. Até o prefeito não se conteve, e fingiu pegar um faneco de giz no chão. O deputado e dona Lucinha tentavam o engolir o riso, sem êxito. Somente dona Bucleta, digo, Valgina, ficou séria. Virou-se para o quadro e lá escreveu seu nome em letras garrafais.

O CONTO DO VIGÁRIO

Autoria de Fernando Pessoa

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Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.

Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: “Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.” “Deixa ver”, disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: “Para que quero eu isso?”, disse; “isso nem a cegos se passa.” O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efetuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado…), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira… E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar. Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres Vigário, que, ouvindo atônito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. “E se eu tivesse pago em notas de cem”, rematou o Vigário “nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.” E, como era de justiça foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do “conto de réis do Manuel Vigário” passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Maquiavel ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

O FIEL ESCUDEIRO

Autoria de Alfredo Domingos

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Não há outro aio igual ao coelho Ladislau! (até rimou)
Usando apurada sagacidade, segue livrando-se de qualquer encrenca. Um bom expediente aqui e outro acolá, sem perder o humor e a disposição em servir. Quando o seu dono não consegue resolver alguma dificuldade, lá vem Ladislau com a solução. Por hábito, fornece ideias por meio de perguntas, evitando o comprometimento direto, para colocar o patrão bem à vontade, sem melindres com as propostas apresentadas por ele, dando chance à reflexão e à percepção de que o teor da conclusão é exclusivamente dele. Deixa estar, no entanto, que Ladislau induz para aquilo que julga ser o melhor, exercendo peremptoriamente o princípio da lealdade.

O coelho, nos seus botões, sabe do valor da sua influência, mas dispõe de arte bastante para fazer com que o aconselhado fique orgulhoso da possibilidade de sozinho chegar a bom termo. Várias histórias têm final feliz em consequência da sábia assessoria do coelho. Estão selecionadas, porém, apenas duas para representarem a discreta e eficaz interferência do nosso amigo:

A primeira
– Irei à cidade, mas parece que o céu desabará, de tanta chuva que virá (outra rima). Não sei se levarei o incômodo guarda-chuva – expôs dúvida o dono do coelho.

Mais que depressa, Ladislau atalhou:

– Meu senhor, não carece de preocupação por questão tão banal. Não precisa levar o guarda-chuva, elemento por demais atrapalhante. O senhor não acha que vestindo a capa plástica estará protegendo-se do frio, que tanto o incomoda, e ao mesmo tempo preparando-se para a chuva, se ela vier?

– Deixe-me raciocinar, fiel escudeiro… Realmente, cabe o uso da capa, pois ela estará abrigando-me dos dois malefícios da natureza, além de permitir livres movimentos, sem que precise carregar o embaraçoso equipamento. Será o que farei!

A segunda
– Penso em demitir o capataz da fazenda. O homem está velho e, além disso, recebe o maior salário de todos. Meus cofres não estão suportando tamanha despesa. Dividirei as suas atividades pelos outros trabalhadores, que obterão resultado semelhante, continuando com os seus mesmos salários. Terei, assim, alívio financeiro – levantou a hipótese o chefe.

– Tenho observado todas as provas de fidelidade e dedicação por parte do capaz, que conhece como ninguém o andamento da lida, liderando o grupo com competência, além de ter pessoalmente salvado um dos seus bezerros, arriscando a própria vida, quando o animal jogou-se no rio. O homem não está velho, imprestável; na verdade, possui larga experiência. Acrescento, ainda, que não podemos esquecer que a filha do capataz é cozinheira de mão cheia, de cujo fogão saem delícias para o seu regalo, meu patrão. Fica a pergunta: o senhor está avaliando a perda de um valoroso auxiliar e, também, a falta que Rosinha lhe fará por não estar mais à frente dos maravilhosos quitutes? Reconheço, contudo, que as finanças da fazenda são da sua alçada. O que sabe um desavisado coelho sobre contas? – arrematou o ladino Ladislau.

Em seguida, o patrão alegou a necessidade de analisar com mais detalhes a decisão que estava por tomar. Havendo dúvida, a pessoa sensata pede tempo. Trata-se de excelente medida. Dar tempo ao tempo é uma das saídas inteligentes para qualquer tema, a não ser que seja providência de momento, inadiável. Para fechar o assunto, claro, que o capataz não foi demitido!

Moral da história: a opinião pode surtir efeito ou não, basta ser fundamentada em argumentos pertinentes. Cabe ao aconselhado avaliar e decidir, sem pressão, ficando confortável quanto a sua decisão, que tem cunho estritamente pessoal. A partir daí, pronto, quem aconselhou fica isento. O segredo é permitir ao outro a oportunidade de refletir e por si só encontrar o caminho a seguir.

Nota: imagem tirada de www.pequenopolisba.com.br

A NASCENÇA DO ET DE VARGINHA

Autoria de LuDiasBH

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A cidade entrou em polvorosa como nunca tinha acontecido em toda a sua existência. As pessoas acorriam afoitas para o pequeno hospital a fim de ver o bizarro natimorto. Algumas chegavam com a língua de fora, tamanha era a pressa. Outras, bisbilhoteiras, vinham pelos caminhos fazendo conjeturas. O fato é que somente as crianças de colo e os entrevados permaneciam em casa, enquanto toda a população, literalmente, tomava o rumo da maternidade. A polícia tentava, em vão, conter a balbúrdia. Coscuvilhices já se espalhavam, contando que muitos doentes à beira da morte haviam se levantado, após a chegada do funambulesco ser. E, que o médico que acompanhara a parturiente, encontrava-se em estado de choque, pois o pequenino mirara-o com um olhar de piedade, antes de dar seu último alento.

O único telégrafo da cidade não parava de mandar sinais para a capital. Os sabichões diziam que o fato já chegara ao exterior e que o governo brasileiro já estava negociando o corpinho com os Estados Unidos por uma soma fabulosa. Padre, pastores, mães-de-santo e benzedeiros disputavam a primazia dos rituais. A diretora do grupo escolar dizia ter recebido um telegrama da irmã, funcionária federal, onde dizia que uma comitiva nacional e internacional estava se dirigindo para a cidade de Varginha. Vendedores de pastel, coxinha, pamonha, broa, refresco e cachaça alojavam-se nas calçadas, pois as mulheres pareciam não ter interesse algum em fazer o almoço naquele dia.

Peço desculpas ao leitor, se me delonguei na descrição do acontecimento, deixando a mãe da cria, responsável mor pelo acontecido, relegada a um segundo plano. Retorno-me a Iracilda, para não o deixar ainda mais curioso e irritado com meu palanfrório. Mas vamos aos finalmentes.

Jovaldison vivia com Iracilda há cerca de cinco anos. A cidade inteira dava conta do afeiçoamento que ela devotava ao moço, como se nada mais lhe importasse no mundo. Os vizinhos cochichavam entre si, falando sobre os miados de gata no cio que da casa subiam todas as noites, embora jamais fosse visto por ali algum felino. A mulher carregava um chamego arreitado por seu homem. Era um embeleco que deixava muita gente de olho gordo. Deve ser por isso que Jovaldison aceitou o convite para trabalhar nas Arábias, deixando Iracilda chorosa, mas com muitas promessas de riqueza e xodó dobrado e redobrado na volta.

Um ano se passou, e mais outro e mais outro e nada de Jovaldison cumprir a promessa feita. Iracilda já estava prestes a escalar o Pico da Bandeira, tamanha era a sua premente necessidade de um sumbaré mais afervorado. E foi numa noite de lua cheia, quando ela suava por todos os poros, não sei se por isso ou por aquilo, que resolveu dormir desvelada como viera ao mundo. A cidade jazia num silêncio lúgubre. Um ou outro cão uivava na madrugada morna enquanto as corujas piavam notas fúnebres. Mesmo assim, Iracilda dormia com um sorriso zombeteiro, sonhando com os braços roliços de seu homem e com sua enguia serpenteforme.

Dois meses depois, Iracilda passou a estranhar a falta da escorrência, antes tão certeira quanto caxaramba num boteco. Aos quatro, teve certeza de que a barriga engrossava. Aos cinco, percebera que estava prenhe, como confirmara posteriormente uma velha parteira. Mas, como poderia dar luz a um rebento sem a que a semente de um homem tivesse sido implantada em sua caverna? Ela sempre fora uma mulher honesta, com os pensamentos voltados só para seu macho. Não encontrava resposta para seu desatino. Na rua era chamada de quenga, rameira e puta. Como ninguém acreditava em sua honradez e nem ela mesma sabia por que estava embarrigada, Iracilda acabou enlouquecendo.

A posição do bebê e seu peso impossibilitaram um parto normal. Para salvar a pobre louca e sua cria, era preciso uma cesariana de urgência. Foi depois de aberto o útero de Iracilda que a cidade veio abaixo: ali estava uma criança cor de jambo, com dois olhos vermelhos como rubi; no alto da testa encontravam-se dois tenros cornos; uma cauda cheia de uma penugem aveludada prolongava sua coluna vertebral e os pezinhos tinham a forma de dois cascos de bode. Apesar de tudo, a criança esquipática parecia sorrir.

Depois do nascimento do esdrúxulo rebento, as línguas viperinas, comuns em todo lugar, passaram a acreditar que Iracilda falara a verdade, quando dizia não ter fornicado com cambondo algum. E danaram a espalhar que ela havia se acasalado com o tinhoso, o maligno, o excomungado, o coisa ruim.

Faz sete anos que o corpo do pequenino foi transportado secretamente pelo SNI para um local ultrassecreto. Iranilda passou a vagar pelas ruas com um boneco nos braços. O médico fundou uma seita, onde diz ter testemunhado a chegada do anticristo e encontra-se podre de rico com os dízimos. O hospital virou um hotel para turistas em busca de mistérios. Jovaldison morreu num acidente de trabalho em Dubai, muito antes do ocorrido. As línguas peçonhentas continuam retransmitindo o acontecido. A cidade é visitada por ufólogos e místicos de todas as partes do mundo.

A fatídica história acabaria por aqui, meu caro leitor, se fontes da mais alta credibilidade da Segurança Nacional deste país não tivessem deixado vazar que o filho de Iranilda com o íncubo está vivinho da silva, tendo fugido de um local de segurança máxima das nossas Forças Armadas e voltado para o lugar onde nasceu – Varginha. O internacionalmente conhecido ET de Varginha é, portanto, o filho da pobre mulher. Quem quiser mais informações, busquem-nas na cidade mineira em questão.

Nota: imagem copiada de http://leolopes108.multiply.com