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Estudo sobre os grandes nomes da pintura mundial, incluindo o estudo de algumas de suas obras

O PERCUSSIONISTA NANÁ VASCONCELOS

Autoria de LuDiasBH

nana

Aperreei tanto batendo nas panelas e caçarolas de casa que meu pai me deu um bongô, umas maracas e um afoxé. (Naná Vasconcelos)

Fama é besteira. A fama só importa na cabeça de camarão (Naná Vasconcelos)

O pernambucano Naná Vasconcelos (1944-1916) foi eleito oito vezes o melhor percussionista do mundo e ganhador de oito “Grammy”. Seu nome verdadeiro era Juvenal de Holanda Vasconcelos, mas gostava de ser chamado pelo apelido que a mãe, dona Petronila, deu-lhe: Naná. Seu pai, Pierre, era tocador de manola, em Recife. E o filho, mesmo aos 11 anos de idade, já desejava ser percussionista (naquele tempo não se falava “percussionista”). Aos 12 anos, ele recebeu autorização do Juizado de Menores para tocar na banda, desde que obedecesse a condição de jamais descer do palco. Ao terminar o ginásio, Naná, um autodidata que nunca frequentou escolas de música, tocava boleros, mambos e chá chá chá para as pessoas dançarem nos bailes.

Ao perder seu pai, o músico entrou para a Banda Municipal de Recife, no lugar dele, onde trabalhava como arquivista e distribuía partituras para os músicos, mas o fato de não tocar incomodava-o. Para Naná, o ritmista vinha depois do baterista. Comprou então uma bateria à prestação, e deu início a seus ensaios nas suas horas vagas, sem professor, no camarim do teatro. A música a que tinha acesso era a que ouvia através do rádio, em sua casa, na emissora A Voz da América. O garoto, contudo, repassava para o samba aquilo que ouvia pelo rádio. No primeiro festival de bossa nova em Recife, Naná, com apenas 17 anos, foi aceito como baterista que sabia tocar e solar “Adriana” (canção de Roberto Menescal e Lula Freire). E acabou na conta de melhor baterista do ano.

Mais tarde, junto com três músicos, Naná formou o “Quarteto Yansã”, indo tentar a sorte em Portugal. Na cidade de Lisboa, ele se encontrou com o cantor Agostinho Santos, que se uniu ao grupo, pois também se encontrava em apuros. Fizeram muitos shows, tendo muito sucesso. Ao voltar ao Brasil, Naná procurou Capiba, dizendo-lhe que era o único capaz de tocar o maracatu que ele compusera, para apresentar Pernambuco no festival “O Brasil Canta no Rio”. E para lá partiu, levando apenas passagem de ida e volta. Ao se despedir da mãe, ela lhe disse, com os olhos molhados: “Você não volta mais. Deus o Abençoe!”.

No Rio de Janeiro, tornou-se amigo de Geraldo Azevedo e, com ele, foi até a casa de Milton Nascimento, sendo convidado a gravar com o mineiro (a pegada percussionista de “Sentinela” é dele). Depois de participar de alguns grupos de MPB, recebeu um convite para fazer shows em Buenos Aires, onde se aprimorou no berimbau. De lá, com Gato Barbieri, saxofonista argentino, foi para Nova York, onde morou um ano com o cineasta brasileiro Glauber Rocha, convivendo com os cineastas Bertolucci e Jean Luc Godard. Tocava no famoso Village Vanguard, onde era muito aplaudido. E assim, junto com Airton Moreira, que tocava com o trompetista Miles Daves, expandia o sucesso da percussão brasileira pelo mundo. Ao fazer uma turnê pela Europa, Naná ali resolveu permanecer, fixando residência em Paris, onde veio a gravar mais de 30 discos, além de muitas trilhas sonoras para cinema e balé. De Paris foi trabalhar em vários países, como Japão, Dinamarca, etc. Foi depois para os Estados Unidos.

Naná Vasconcelos viveu 5 anos em Paris e 27 nos Estados Unidos, mas terminou voltando para Recife, onde nos carnavais regia um grupo com mais de 500 batuqueiros, originários de diversas nações do maracatu. Possuía uma carreira vitoriosa, tendo ganho 8 “Grammy”, e recebido o apelido de “Fenômeno”. Fez parcerias com músicos famosos em diversas partes do planeta. O guitarrista Pet Metlieny chama-o de “Doctor”; o percussionista indiano Trilok Gurstú apelidou-o de “Paxá”; a revista Down Beat tinha-o com “o melhor percussionista do mundo”.

Naná Vasconcelos, o Doctor,  morreu hoje, 09/03/2016, aos 71 anos, deixando um grande vazio na música brasileira e também na internacional. Também foi um dos responsáveis pela trilha sonora da animação brasileira “O Menino e o Mundo”, que concorreu ao Oscar deste ano.

Fonte de pesquisa
Folha de São Paulo/ 12-05-2013

FILHOS DE CANTORES – TALENTO OU OPORTUNISMO

Autoria de LuDiasBHdorothy123456

Uma coisa, que me vem me chamando a atenção há muito tempo, é o número de filhos de cantores seguindo a carreira musical do pai ou da mãe. Trata-se de algo nunca visto com tanta frequência no mundo das artes, em qualquer lugar do mundo. E aí me vem uma séria indagação: será que se trata de talento ou meramente de oportunismo? Tenho certeza absoluta de que o leitor responder-me-á que, na quase totalidade, trata-se do mais puro oportunismo.

Este assunto veio-me à baila, quando dias atrás, em razão de uma forte gripe, tive que ficar acamada. Inquieta, comecei a mudar de canal o tempo todo. E, para minha surpresa, deparei-me com uma dupla sertaneja (Dablio & Phillipe) em que Nathan Phillipe é filho de Luciano Camargo, que canta com seu irmão José de Camargo, que por sua vez tem uma filha cantora de nome Vanessa Camargo. Ou essa família foi brindada com tão forte dom musical, ou os filhos estão procurando se deitar na fama dos pais. Pelo visto, ninguém quer dar duro, achando que o sobrenome é um passaporte para o sucesso.

Em razão da surpresa exposta acima, comecei a elencar nomes de filhos de cantores famosos que seguem a mesma profissão. Vejamos alguns, Luiza Possi, filha de Zizi Possi; Jairzinho e Luciana Rodrigues, filhos de Jair Rodrigues (falecido em 2014); Nana Caymmi, Dori Caymmi e Danilo Caymmi, filhos de Dorival Caymmi; Diogo Nogueira, filho de João Nogueira (morto em 2000); Pedro Leonardo, filho do sertanejo Leonardo; Tiago, sobrinho de Leonardo e filho de Leandro (morto em 1998); Maria Rita, filha de Elis Regina (falecida em 1982); Martinália, filha de Martinho da Vila; Sandy e Júnior, filhos de Xororó e sobrinhos de Chitãozinho; Aline Lima e Alison Lima, filhos de Chitãozinho e sobrinhos de Xororó e primos de Sandy e Júnior; Pipo Marques e Rafa, filhos de Bell Marques; Lucas, filho de Péricles (Exaltasamba); Fiuk, filho de Fábio Júnior; Cláudio Lins, filho de Ivan Lins e Lucinha Lins; Victor, filho de Rick (Rick&Renner); Preta Gil, filha de Gilberto Gil; Marcelo, filho de Gian (Gian&Giovani); Moreno, filho de Caetano Veloso e sobrinho de Maria Betânia. Pelo menos Chico Buarque não colocou nenhuma das filhas para seguir seus passos. Palmas para ele. Vou parar por aqui, para não cansar o leitor, mas ainda há muita gente para entrar na lista.

O Brasil é um país com 201 milhões de habitantes e, como dizem, há gostos para todos os tipos. Até mesmo para as “cacas”. Enquanto existe gente talentosíssima entre os citados, alguns parecem zombar do público, pois não cantam absolutamente nada. Dentre esses, de baixíssima qualidade, alguns apenas se limitam a fazer uma segunda voz da mais baixa categoria. Ninguém merece isso num país tão carente de grandes valores e exemplos. Nosso povo precisa aprender a distinguir entre o que realmente vale a pena ser ouvido e aquilo que lhe é empurrado por uma mídia, cuja medida de qualidade é unicamente o sobrenome da família do “artista”. Enquanto grandes talentos não possuem vez, por não possuírem padrinhos e dinheiro, outros, sem autocrítica, deitados na cama do sobrenome, sem uma gotícula de talento, ganham grande espaço na mídia. E pior, seus pais fingem ignorar que os filhos são desprovidos de aptidão para tal arte, pois o que lhes importa é a fama e mais dinheiro.

Dias atrás, ouvi alguém perguntar o porquê de o país não contar mais com grandes cantores. A resposta é “elementar, meu caro Watson”, basta questionar o que leu acima. Some-se a isso a ausência dos festivais, responsáveis por trazer à tona talentos como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Tom Zé, Gal Costa, Marília Medalha, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Taiguara, Paulo Diniz, Tom Jobim, e tantos outros.

A nossa música sertaneja de raízes morreu. Quanta tristeza! O que ouvimos agora são músicas paupérrimas, de duplo sentindo, cujas letras apresentam um amor melodramático e doentio, que normalmente se escoram em refrãos paupérrimos, com os passos desengonçados dos supostos cantores. Ai que saudade de Pena Branca e Xavantinho, Jacó e Jacozinho, Milionário e Zé Rico, Alvarenga e Ranchinho, João Mineiro e Marciano, e tantos outros que enriqueceram este país com suas canções de qualidade. Até quando seremos obrigados a conviver com tanto lixo? Possivelmente, enquanto houver as tão presentes “macacas de auditório” e gente que não valoriza o que é bom.

O Brasil já chegou a ser famoso por sua música popular. Referência em várias partes do mundo. Portanto, caro leitor, temos que dizer não a um monte de “titicas” que está por aí. Não compremos alhos por bugalhos. Valorizemos o dinheiro, fruto de nosso trabalho, fazendo boas escolhas. Não enriqueçamos essa gente sem talento algum, que surge na mídia feito erva daninha, e depois aparece podre de rica, sem nenhum compromisso com seu povo e seu país. Que eles trabalhem como nós.

BR – 3

Autoria de LuDiasBH

br

O V FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo aconteceu em 1970. Na eliminatória paulista foram classificadas 5 canções. Entre elas estavam Sermão (Baden Powell e Paulo Cézar Pinheiro) interpretada por Cláudia, Rio Paraná (Ary Toledo e Chico de Assis) defendida por Tonico e Tinoco.

Concorrendo à final, em duas fases, estavam 41 canções, onde se encontravam compositores novatos como Beto Guedes, Ivan Lins, Luis Gonzaga Júnior, etc. Havia também um júri oficial e outro popular, que tinha Chacrinha como presidente.

Na primeira eliminatória, Ivan Lins foi o vencedor, pelo júri popular, com a canção O Amor é o meu País, interpretada pelo próprio compositor. E Paulo Diniz cantando seu sucesso Quero Voltar Para Bahia, num dos dois shows apresentados naquela noite, foi o mais aplaudido.

Na segunda eliminatória, Martinho da Vila mexeu coma plateia ao cantar o samba Meu Lairaraia. Tonico e Tinoco foram vaiados ao defender Rio Paraná. Até os jurados fizeram pouco da apresentação dos dois. Dentre as muitas músicas que passaram, a décima segunda canção do compositor e cantor Taiguara, Universo no Teu Corpo, foi a que mais empolgou a plateia. Depois dele veio BR–3 defendida por Tony Tornado, acompanhado do Trio Ternura. O negrão maravilhoso deu um show, lembrando o cantor James Brown. Por ter sido muito aplaudido, desmaiou de emoção nos bastidores. A última canção da noite foi Eu Também Quero Mocotó (Jorge Bem) interpretada pelo maestro Elton Chaves, que saiu aplaudidíssimo.

Na finalíssima, muitos tinham como certo a vitória de Quero Mocotó com Elton Chaves ou BR–3 com Toni Tornado. A apresentação de Tony Tornado foi um show à parte, a começar pelo visual, com botas de cano e um sol dourado pintado no peito, e a sua performance fantástica. Os aplausos pipocaram de todos os lados. Não havia mais para ninguém.

Antes de ser oferecida a Tony Tornado para ser interpretada, os autores de BR–3 (Tibério Gaspar e Antônio Adolfo) ofereceram-na a Simonal, que alegou que a música não era de acordo com as música alegres que ele gostava de cantar. Buscaram Tim Maia, mas esse estava preso pela Philips. Só então foram atrás de Toni Tornado, que cantava num inferninho, atendendo à sugestão do cantor Orlan Divo. E, para fechar o festival, Erlon Chaves também deu um show com Eu Também Quero Mocotó.

A homenagem da noite foi a Luís Gonzaga.

Colocação Final:
1º BR -3
2º Amar é meu País
3º Encouraçado

Taiguara com sua belíssima canção ficou em oitavo lugar. Na final internacional BR -3 ficou em terceiro lugar.

Infelizmente, acontecimentos posteriores mostraram o quanto sofreram os dois cantores negros, Erlon Chaves e Tony Tornado, simplesmente por serem negros. O primeiro, desencantado teve um ataque cardíaco e morreu ao 40 anos, enquanto o segundo foi posto para fora do país pelos “homens”. O V FIC mostrou, sobretudo, o quanto o racismo era forte no país. Também tornou clara a “docilidade” da TV Globo com o regime militar.

Abaixo, letra e vídeo com Tony Tornado:

BR-3
Autores: Tibério Gaspar e Antônio Adolfo
Intérpretes: Tony Tornado e Trio Ternura

A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
E a gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)
Há um foguete
Rasgando o céu, cruzando o espaço
E um Jesus Cristo feito em aço
Crucificado outra vez
A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
A gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)
Há um sonho
Viagem multicolorida
Às vezes ponto de partida
E às vezes porto de um talvez
A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
A gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)
Há um crime
No longo asfalto dessa estrada
E uma notícia fabricada
Pro novo herói de cada mês
Na BR-3

https://www.youtube.com/watch?v=KfMekHN6x7w/

SINAL FECHADO

Autoria de LuDiasBH

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O V Festival da TV Record, ocorrido em 1969, teve como primeira colocada a canção Sinal Fechado, defendida pelo próprio compositor Paulinho da Viola.

A música traz um diálogo entre duas pessoas, paradas num sinal fechado, em seus respectivos carros, e, que não conseguem concluir o diálogo, feito de frases dispersas.

Embora os censores da ditadura não tivessem percebido, tratava-se de uma canção de forte conotação política, refletindo a mordaça da comunicação naqueles tempos de ditadura, com muitos artistas brasileiros vivendo no exterior e a sensação de medo presente nas conversas.

Paulinho da Viola ficou tão emocionado ao vencer o V Festival da TV Record que não teve condições nem de dar entrevistas, à época.

Tem sido comum muitas pessoas creditarem a Chico Buarque a canção Sinal Fechado, porque o cantor e compositor, em 1974, gravou um disco e deu a ele o nome da música de Paulinho da Viola: Sinal Fechado.

Abaixo a letra e o vídeo da canção:

Sinal Fechado
Autor: Paulinho da Viola
Intérprete: Paulinho da Viola

– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é… Quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa, rapidamente…
– Pra semana…
– O sinal…
– Eu procuro você…
– Vai abrir, vai abrir…
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!

https://www.youtube.com/watch?v=w9JWuQPeaW0/

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Música Popular Brasileira Hoje/ Publifolha

CANTIGA POR LUCIANA

Autoria de LuDiasBH

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O IV FIC (Festival Internacional da Canção) foi realizado pela TV Globo, em 1969. No IV FIC, a Globo tentou sanar vários problemas, inclusive o do som horroroso do Maracanãzinho. Houve também a desistência, na última hora, de 10 atrações internacionais. Havia boatos de que os artistas brasileiros, exilados no exterior, estavam boicotando o Festival, aludindo ao clima de terror imposto pela ditadura no Brasil.

Nas duas eliminatórias para classificar as 20 finalistas, as nota foram substituídas apenas por “Sim” ou “Não”. Somente na final houve notas, entre 1 e 10, qualificando as 10 canções primeiras colocadas. Ao contrário dos outros festivais, as músicas não mais traziam mensagens políticas. Wilson Simonal, muito prestigiado à época e um excelente comunicador, foi convidado para presidir o júri. Ele daria o voto de minerva, caso houvesse algum empate.

A primeira fase eliminatória contou com 21 concorrentes. As mais cotadas foram: Madrugada, Carnaval e Chuva (Martinho da Vila), Visão Geral (César Costa Filho, Rui Mauriti e Ronaldo M. de Souza) Cantiga por Luciana (Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) e Juliana (Antônio Adolfo e Tibério Gaspar). Na segunda fase destacaram-se Serra Acima (Sílvio da Silva Júnior e Aldir Blanc), Ave Maria dos Retirantes (Alcivando Luiz e Carlos Coqueiro), Charles Anjo 45 (Jorge Ben), tida como precursora do rap, gênero que só surgiria muito tempo depois, Beijo Sideral (Marcos e Paulo Sérgio Valle) e O Mercador de Serpente (Egberto Gismont).

O resultado da final foi muito bem recebido pela plateia. Cantiga por Luciana (Eduardo Souto e Paulino Tapajós), defendida por Evinha, foi a vitoriosa, e também ganhou o primeiro lugar na final internacional. As premiadas nacionalmente foram:

1º – Cantiga por Luciana
2º – Juliana
3º – Charles Anjo 45
4º – Gotham City

Pode-se dizer que essa foi a noite de Wilson Simonal, que realizou um show fantástico, antes de ser apresentado o resultado do júri, acompanhado por 20 mil vozes. Abaixo, a letra e o link com a canção:

Cantiga para Luciana
Autoria: Eduardo Souto e Paulinho Tapajós
Intérprete: Evinha

Manhã no peito de um cantor
Cansado de esperar só
Foi tanto tempo que nem sei
Das tardes tão vazias por onde andei
Luciana, Luciana
Sorriso de menina dos olhos de mar
Luciana, Luciana
Abrace essa cantiga por onde passar
Lara lá
Nasceu na paz de um beija-flor
Em verso em voz de amor
Já desponta aos olhos da manhã
Pedaços de uma vida
Que abriu-se em flor
Luciana Luciana
Sorriso de menina dos olhos de mar
Luciana Luciana
Abrace essa cantiga por onde passar
Lara lá

https://www.youtube.com/watch?v=PKNO92o4nKo/

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Música Popular Brasileira Hoje/ Publifolha

FIO MARAVILHA

Autoria de LuDiasBH

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O VII FIC (Festival Internacional da Canção) foi realizado pela TV Globo, em 1972. Foram 1920 músicas inscritas. Seus autores não podiam ser reconhecidos pelos cinco membros responsáveis pela escolha das canções, para evitar qualquer tipo de proteção. Era o primeiro ano em que o FIC estava sendo apresentado em TV a cores. Durante a fase nacional seriam realizadas duas eliminatórias, apresentando cada uma 15 canções, sendo selecionadas 12 dentre essas. A final nacional escolheria 2 entre as 12 classificadas nas duas fases anteriores, para concorrer com as internacionais. Nesse festival havia muitos compositores novatos. Dentre eles estavam Oswaldo Montenegro, ainda um goroto de 16 anos, Hermeto Paschoal, Walter Franco, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Maria Alcina, etc. Nomes que viriam a ter grande influência na música popular brasileira.

A canção Viva Zapátria (Murilo Antunes e Sirlan Antônio de Jesus) causava preocupação aos organizadores, tanto é que Murilo teve que comparecer à Polícia Federal, junto com Sirlan, para explicar a letra. E lá, dando uma de bobo, explicou que a letra da música não passava de uma homenagem ao filme Viva Zapata mas, como já havia uma música com o mesmo nome, eles optaram por Viva Zapátria. E pôs-se a falar do filme num linguajar bem caipira. E assim, fingindo-se de inocentes, conseguiram liberar a canção.

A Censura Federal listou um monte de coisas que deveriam ser evitadas no festival, inclusive o gesto de punho cerrado erguido para o alto (símbolo do poder negro) e os decotes avantajados das intérpretes. Se houvesse desobediência, o programa sairia do ar. Na primeira eliminatória foram classificadas:

Serearei (Hermeto Paschoal)
Nó na Cana (Ari do Cavaco e César Augusto)
Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo (Raul Seixas)
Cabeça (Walter Franco)
Diálogo (Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Fio Maravilha (Jorge Ben)

Nara Leão, que foi escolhida como presidente do júri, ficou insatisfeita com a exclusão de Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio), canção que viria depois a fazer um tremendo sucesso.

Na segunda eliminatória foram classificadas:

Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas e Edith Wisner)
Flor Lilás (Luli)
A volta do Ponteiro (Roberto L. da Silva e Roberto F. dos Santos)
Viva Zapátria (Sirlan e Murilo)
Mande um Abraço pra Velha (Os Mutantes)
Carangola (Futoti e Fauzi Arap)
Liberdade, Liberdade (Oscar Toledo)

A última música entrou em razão de um empate. Também incluíram Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio), para contemplar Nara Leão. Assim, passaram a ser 14 concorrentes, e não mais 12, para a fase final.

Antes de chegar à final, os militares exigiram a saída de Nara Leão do júri, por não terem gostado de uma entrevista dela ao Jornal do Brasil, onde criticava a situação de nosso país. Para contornar a situação, a direção do FIC resolveu trocar o júri nacional por um internacional. O clima ficou tenso, ainda mais porque os jurados acharam que era uma tentativa de não permitir a escolha da música Cabeça, fazendo com que Maria Alcina, escolhida pela Globo, fosse a intérprete finalista. Os jurados não aceitaram, inclusive pela dificuldade dos gringos em conhecer a língua portuguesa. Fizeram um manifesto que entregam à imprensa.

O júri estrangeiro estava mais perdido do que cego em tiroteio, principalmente ao ouvir canções com gírias. Houve muita confusão, som desligado, algumas músicas impedidas de serem cantadas, palavras cortadas ao microfone, etc. O ex-jurado Roberto Freire conseguiu ir até ao palco para contar o ocorrido, mas foi arrastado pelos seguranças da TV Globo que, violentamente, entregaram-no nas mãos da repressão ali presente, alegando que se tratava de um comunista e que devia apanhar. Os homens bateram muito no rapaz, que ficou com inúmeras fraturas e todo deformado.

Nara Leão, ao ver o amigo assim, enfrentou Boni e os diretores da TV Globo, ameaçando invadir o palco, mesmo que todos fossem espancados. Boni então pediu que tirasse a  parte do manifesto que falava mal da Globo, e o comunicado foi lido, deixando os milicos espantados. No comunicado estavam também os nomes das duas canções eleitas pelo júri anterior: Cabeça (Walter Franco) e Nó na Cana (Ari Cavaco e César Augusto). Contudo, o “júri dos gringos” elegeu Diálogo (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) e Fio Maravilha (Jorge Ben)

Na fase internacional participaram 14 canções, incluindo as duas brasileiras. Vazou o comentário de que No Body Calls Me a Prophet já estava escolhida. Ao tomar conhecimento disso, o artista grego Demis Roussos deixou o Maracanãzinho, só voltando após muita conversa. Ao final, o júri internacional deu como vencedora a música Sweat and Tears (David Clayton Thomas), embora a Globo quisesse que fosse dada a vitória a Fio Maravilha (Maria Alcina)

O VII FIC foi muito importante para Raul Seixas que se tornou uma revelação, tornando-se depois a maior figura do rock brasileiro. A Censura Federal, contudo, pegou firme no pé do mineiro Sirlan, um dos compositores de Viva Zapátria, impedindo que suas músicas fossem liberadas e gravadas, matando sua carreira musical.

Vejam abaixo a letra e a canção nacional finalista , com Maria Alcina como intérprete:

Fio Maravilha
Autor: Jorge Bem
Intérprete: Maria Alcina

Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão e gol
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol
Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho Maravilha!

https://www.youtube.com/watch?v=AYucUeksWPA

Fontes de Pesquisa:
A Era dos Festivais/ Zuza Homem de Mello
Música Popular Hoje/ Publifolha