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Estudo sobre os grandes nomes da pintura mundial, incluindo o estudo de algumas de suas obras

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

Autoria de LuDiasBH

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Para Não Dizer Que Não Falei de Flores trata-se de uma canção com letra altamente subversiva, atentatória à Soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas… (General Luís de França Oliveira – Secretário de Segurança da Guanabara)

A canção Caminhando, mais conhecida como Para Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, participou do III FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo, em 1968. Foi exibida na segunda eliminatória paulista, classificando-se entre as seis daquela fase, que concorreriam à final paulista.

Havia por parte dos organizadores uma preocupação com a música de Geraldo Vandré, em razão da ditadura militar que dirigia o país. Contudo, a organização do festival não acreditava que ela fosse longe, ficando pelo meio do caminho, ou seja, não seria capaz de indispor os militares com o III FIC. Mas não foi isso que aconteceu. A plateia não demorou em aprender seu refrão: Vem vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer. A canção também ganhou as ruas. Portanto, não foi surpresa que ela se encontrasse entre as seis classificadas na 1ª final paulista. E, posteriormente se tornasse uma da seis classificadas paulistas para o festival nacional.

A canção Caminhando foi apresentada na segunda eliminatória nacional, sendo tão aplaudida, que Vandré, emocionado, chegou a passar mal fora do palco. Tudo indicava que estaria entre as candidatas a finalistas.

A direção do Festival recebeu um comunicado, vindo dos militares, dizendo que duas canções deveriam ser vetadas: América, América (Cesar Roldão Vieira) e Caminhando (Geraldo Vandré). Sem saber que decisão tomar, a direção do III FIC decidiu deixar o barco correr solto, mas no fundo torcendo para que Caminhando não fosse a vitoriosa. Dentre as canções que concorriam à final estava justamente ela. Ao ser apresentada, além de ser ovacionada pela plateia, ainda era cantada por ela.

Quando foi dado o resultado, Caminhando era a segunda colocada, perdendo apenas para Sabiá, de Tom Jobim. Foi uma revolta generalizada. O público queria Caminhando em primeiro lugar. Cynara e Cybele, que defendiam Sabiá, nem mesmo conseguiram apresentá-la, de tão ensurdecedora que era a vaia. Ao tentar acalmar a plateia, Vandré tornou célebre a frase:

– Olha, tem uma coisa só, a vida não se resume em festivais.

A seguir, começou a tocar e cantar junto com um coro de mais de 20 mil vozes. Ali estava a resposta para mostrar qual era realmente a canção vencedora. O compacto com Caminhando era o mais procurado, por isso, a polícia do estado da Guanabara mandou apreendê-lo, enquanto Marina Ferreira, Chefe da Censura estadual, dizia não haver ordem para a apreensão dos discos. Depois de muitas idas e vindas, afirmações e desmentidos de censura, Caminhando tornou-se proibida. Não poderia ser tocada em rádios e locais públicos de todo o país. Mesmo assim, ela continuava ser cantada em casas, durante reuniões.

O fato é que Caminhando foi proibida durante 20 anos, mas tornou-se um hino das contestações, cantado até os dias de hoje. Vandré ficou sob a mira dos radicais da ditadura. Com a decretação do AI-5, passou a ser procurado. Escondeu-se na casa de Marisa Urban e depois de dona Araci (viúva de Guimarães Rosa). Ajudada por um delegado de polícia, dona Araci e seu filho, que o acompanhavam num automóvel, ajudaram-no a se exilar. Vandré, que se encontrava envelhecido através de rinsagem no cabelo e maquiagem, atravessou, no carnaval de 1969, a fronteira com o Paraguai, indo para o Chile. De lá viajou para outros lugares, inclusive Paris. Contudo, não conseguiu se adaptar a lugar nenhum, sempre saudoso do Brasil.

Geraldo Vandré contou com a ajuda de um Coronel do exército para voltar ao Brasil. Aqui chegando, em pronunciamento, renegou qualquer elo com os adversários do regime militar. E nunca mais voltou a ser o que era antes. O que terá lhe acontecido? Eis a questão. São muitas as hipóteses, inclusive a de lavagem cerebral. Mas não há nenhuma confirmação.

Agora conheçam a letra e ouçam a canção que nos arrepia até hoje.

Caminhando (Para dizer que não falei de flores)
Autor: Geraldo Vandré
Intérprete: Geraldo Vandré

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

(bis)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

(Refrão)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

(Refrão)

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão

(Refrão)

https://www.youtube.com/watch?v=PDWuwh6edkY

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

SAVEIROS

Autoria de LuDiasBH

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O primeiro Festival Internacional da Canção (FIC) aconteceu em 1966, na TV Rio. Ao todo, o FIC teve sete edições, entre 1966 e 1972, realizadas na cidade do Rio de Janeiro. Ele continha duas fases: a nacional, com suas eliminatórias e a final; e a internacional que concorria com a vencedora da fase nacional.

Na fase nacional foram inscritas 1.956 canções, sendo 36 as escolhidas para a fase final, que seriam apresentadas em dois grupos de 18 canções, de onde sairiam 14. Mas as finalistas só seriam apresentadas após as duas eliminatórias, oferecendo um leque maior de opções para o corpo de jurados, sem a necessidade de escolher sete em cada eliminatória, inclusive contribuindo para uma escolha mais apurada.

Saveiros, com letra de Nélson Motta e música de Dori Caymmi, foi a terceira canção a ser apresentada, dentre as 14 finalistas, sendo defendida por Nana Caymmi, irmã de Dori, que foi muito aplaudida pelo público. Mas, de modo geral, as canções eram muito lentas, sem aquela alegria capaz de levantar as torcidas. Sem falar na péssima acústica do Maracanãzinho, onde se realizava o festival, que tornava inaudível, muitos trechos das músicas.

Gal Costa, totalmente desconhecida à época, chamou a atenção pela afinação da voz ao cantar Minha Senhora, de Gilberto Gil e Torquato Neto. Muitos olheiros de gravadoras e programas de tevê ficaram de olho na moça simplesinha, com sua voz maviosa.

Na final, dentre as 14 selecionadas, as mais aclamadas pelo público eram: Dia das Rosas (Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo) defendida por Maysa e O Cavaleiro (Geraldo Vandré e Tuca) defendida por Tuca.

Antes de apresentar as três finalistas, alguns números internacionais estavam sendo apresentados para distrair a plateia, dando tempo ao júri para contabilizar o resultado, mas as pessoas presentes gritavam eufóricas: “A Banda! A Banda!”, vencedora de um festival passado. Chico Buarque foi obrigado a deixar seu lugar de jurado e, com um violão emprestado, cantá-la, sendo acompanhado por toda a plateia do Maracanãzinho e ovacionada ao final.

As três finalistas foram:
1º lugar – Saveiros (defendida por Nana Caymmi)
2º lugar – O Cavaleiro (defendidas por Tuca)
3º lugar – Dia das Rosas (defendida por Maysa)

Ao público não agradou o resultado em relação à primeira colocação, levando Nana Caymmi a receber uma das maiores vaias da história dos festivais. Naquela época, os artistas mais prestigiados pela mídia e artistas internacionais eram Chico Buarque, Elis Regina e Maysa.

Em confronto com a fase internacional do I FIC, Saveiros ficou em segundo lugar, perdendo para Frag den Wind, de Helmut Zacharias e Carl J. Schaubler, interpretada por Brueck.

Vejam, abaixo, a letra da canção Saveiros e sua interpretação com Nana Caymmi:

Saveiros
Letra: Nélson Motta
Música: Dori Caymmi
Intérprete: Nana Caymmi

Nem bem a noite terminou
Vão os saveiros para o mar
Levam no dia que amanhece
As mesmas esperanças
Do dia que passou
Quantos partiram de manhã
Quem sabe quantos vão voltar
Só quando o sol descansar
E se os ventos deixarem
Os barcos vão chegar
Quantas histórias pra contar
Em cada vela que aparece
Um canto de alegria
De quem venceu o mar

https://www.youtube.com/watch?v=N3YpHfm5xDM

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

DISPARADA

Autoria de LuDiasBH

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A machinha A Banda revivia a pureza de espírito das cidades do interior nos anos 30. (Zuza Homem de Mello)

A moderna moda de viola Disparada pintava com cores nunca antes percebidas a vida de um boiadeiro. (Zuza Homem de Mello)

O júri pode decidir o que quiser. Eu não quero levar esse prêmio sozinho. Se a A Banda for a primeira, eu devolvo o prêmio em público. (Chico Buarque)

O Festival reconduziu a canção brasileira ao único lugar de onde pode sair e para onde deve ir: o povo, a rua. (Franco Paulino)

Para o II Festival da TV Record, em 1966, 36 canções foram selecionadas, saídas das 2.635 inscritas. Elas seriam apresentadas em três eliminatórias mediante sorteio. Em cada envelope constava o nome da canção, dos autores e o do cantor ou cantora que iria defender a canção sorteada. Os responsáveis pela escolha das 36 canções concorrentes desconheciam seus autores, de modo a não favorecer nenhum conhecido. Os envelopes não traziam nomes. Mesmo assim, o compositor Adoniran Barbosa cometeu uma indiscrição ao dizer para Raul Duarte, um dos responsáveis pela escolha, qual era o nome de sua música inscrita. Chateado, Raul Duarte respondeu-lhe que não deveria ter feito aquilo, comprometendo-o na sua escolha. E que iria alegar suspeição para não votar na sua canção. E assim o fez. A canção de Adoniran não entrou nem no rol das 36 escolhidas. De fora também ficaram nomes importantes da música brasileira. Zé Kétti, que chegou a inscrever 16 canções, teve apenas uma selecionada.

Disparada de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues, acompanhada pelo Trio Marayá e pelo Trio Novo foi a música mais aclamada na primeira eliminatória. Ela trazia duas novidades em seu arranjo: o uso de uma queixada de boi, que dava a impressão de um som de chicotada e o som da viola caipira. A entrada de Jair no palco pegou o público de surpresa. Quando iniciou a canção toda a plateia ficou em silêncio. Jair que era muito brincalhão ao apresentar samba, cantou toda a música totalmente sério. Foi muito aplaudido. Ele parecia ter nascido para cantar aquela canção. Roberto Carlos defendeu Anoiteceu, de Francis Hime e Vinicius de Moraes, ficando indignado por não se encontrar entre as quatro classificadas.

Na segunda eliminatória, A Banda, de Chico Buarque, defendida por Nara Leão, ficou entre as quatro classificadas. Como Nara tivesse uma voz muito fraquinha, sendo pouco ouvida na primeira eliminatória, foi sugerido a Chico que cantasse junto com ela da seguinte forma: ele cantaria a música toda, acompanhado pelo violão e Nara repeti-la-ia depois, acompanhada pela bandinha. Chico Buarque assim o fez, mesmo a contragosto, o que deu certo, aumentando o número daqueles que torciam pela canção. Até então Chico era visto como um cantor de “músicas de protesto”. Para o festival, ele procurou fazer uma música mais leve, que fugisse a esse lugar comum.

Na terceira eliminatória, já estava claro que nenhuma das outras classificadas tinha força suficiente para disputar com A Banda e Disparada. Elas já eram cantadas em todo o país, numa disputa acirrada, movida por muitas apostas, como num jogo de futebol.

A final do festival transformou-se num acontecimento especial na história da MPB, onde disputavam as canções A Banda e Disparada, parando cinemas, teatro e o país. Todo mundo queria assistir à final. O país dividiu-se, esperando o resultado. Disparada foi a primeira música sorteada, abrindo a última fase do festival. Ao final, metade da plateia gritava “Já ganhou!”. Quando foi a vez da apresentação de A Banda o clima foi o mesmo. A plateia estava dividida. A tensão pairava no ar.

Entre os membros do júri o clima era tão tenso quanto na plateia. O resultado foi de 7 x 5, consagrando A Banda como a campeã. Ao tomar conhecimento de que sua canção seria a vencedora, Chico Buarque mandou um recado para o júri, dizendo que se negava a receber o prêmio, se ela fosse a vencedora, pois considerava Disparada melhor do que a sua. Ou A Banda empatava com Disparada, ou ele se recusaria, publicamente, a receber o prêmio. Perguntado se topava dividir o valor da premiação, Chico disse que sim. O júri não teve alternativa senão declarar o empate das duas canções, num 6 x 6. Chico só pediu que nunca fosse dito que A Banda havia sido a finalista e que houvera depois um acordo. E, na sua nobreza de caráter, até o dia de hoje, Chico Buarque nunca comentou ter sido ele o responsável pelo empate. E se lhe perguntam sobre a história, diz que Disparada ganhou por méritos próprios, pois era a melhor música do festival. Tempos depois é que membros do júri deixaram a história escapar.

Quando os finalistas, Nara Leão, Chico Buarque e Jair Rodrigues, adentraram no palco foi uma alegria geral. Tudo terminou em festa, tanto no teatro quanto em todo o país.

Vejam abaixo a letra de Disparada e a canção sendo defendida por Jair Rodrigues no festival. E se arrepiem!

Disparada
Autoria: Geraldo Vandré e Théo de Barros
Intérprete: Jair Rodrigues

Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar.

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu.

Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei.

Então não pude seguir valente em lugar tenente
E dono de gado e gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar, não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar.

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu.

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei.

https://www.youtube.com/watch?v=82dRs2z6iQs&feature=kp

Fonte de pesquisa:
Chico Buarque de Holanda/ Abril Coleções
Chico Buarque/ Wagner Homem
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil

SÃO, SÃO PAULO MEU AMOR

Autoria de LuDiasBH

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O IV Festival da TV Record aconteceu em 1968. Das mais de mil músicas inscritas, 36 seriam escolhidas como semifinalistas. Além do júri oficial foi criado também um júri popular, a pedido dos compositores, portanto, haveria duas premiações.

Amedrontados com as vaias, muitos intérpretes antigos como Hebe Camargo, Agnaldo Rayol e Roni Von recusaram-se a participar. O que deu oportunidade a uma nova leva de cantores, dentre os quais se destacava Gal Costa. Outro problema a ser contornado era a censura às letras das canções, imposta pela ditadura militar, obrigando os compositores a negociar “palavras”.

As 36 músicas, divididas em duas apresentações de 18+18, transcorreram sem incidentes e vaias, quando apresentadas ao público, mas ainda não se encontravam em julgamento. Os organizadores estavam achando o clima tão chocho que sentiram saudades das vaias de outros festivais. Mas ainda não eram as eliminatórias. Eles não perderiam por esperar.

A primeira eliminatória trouxe 12 concorrentes. Tudo transcorreu na maior calmaria. Até demais! Mas na 2ª eliminatória o clima mudou. Elza Soares levantou a plateia com Sei Lá Mangueira (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho). Divino, Maravilhoso (Gilberto Gil e Caetano Veloso) interpretada por Gal Costa também foi muito aplaudida. Na terceira eliminatória o clima pegou fogo, com direito a sopapo e xingamento entre os que defendiam a concorrente tradicional, representada pelo samba, e os que eram a favor da revolucionária, representada pelo tropicalismo. Martinho da Vila conquistou a plateia com o samba partido-alto Casa de Bamba. Por sua vez, Tom Zé foi aplaudido de pé ao apresentar São, São Paulo Meu Amor. Não houve euforia por parte da plateia quando Chico Buarque cantou Benvinda. E assim foram escolhidas as 18 músicas que iriam para a final.

Tom Zé e Gal Costa eram os cantores mais aplaudidos daquele festival. O prêmio seria dividido entre os seis primeiros classificados, por cada um dos júris. Se o compositor tivesse a sorte de estar presente na lista dos dois júris, ganharia em dobro. Haveria também outros prêmios.

Na grande final, São, São Paulo Meu Amor foi a sétima a ser apresentada. Por ali passaram Chico Buarque, cantando Benvinda, Milton Nascimento defendendo Sentinela, Taiguara interpretando A Grande Ausente, Os Mutantes cantando 2001, Gal Costa defendendo Divino, Maravilhoso, entre outros.

Assim ficou o resultado, levando em conta os dois júris, em que três canções foram duplamente premiadas.

Júri Oficial
6 – Benvinda (Chico Buarque)
5 – Dia da Graça (Sérgio Ricardo)
4 – 2001 (Tom Zé e Rita Lee)
3 – Divino, Maravilhoso (Gil e Caetano)
2 – Marta Saré (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri)
1 – São, São Paulo Meu Amor (Tom Zé)

Júri Popular
6 – A Grande Ausente (Francis Hime e Paulo César Pinheiro)
5 – São, São Paulo Meu Amor (Tom Zé)
4 – Bonita (Geraldo Vandré e Hilton Acioly)
3 – A Família (Ary Toledo e Chico Anísio)
2 – Marta Saré (Edu Lobo e Guarnieri)
1 – Benvinda (Chico Buarque)

A plateia ficou satisfeita com a colocação do Júri Oficial, o que realmente foi levado em conta pela mídia.

Sei Lá Mangueira, de Hermínio e Paulinho da Viola, não se classificou entre as seis de nenhum dos júris, mas se transformou num grande sucesso. Anos depois, Paulinho cantou sua amada Portela em Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida. E Martinho da Vila iniciou aí sua carreira de sucesso com Casa de Bamba, mesmo sem ter sido classificada.

Conheçam agora a letra e ouçam a música finalista do IV Festival da Record:

São, São Paulo
Autor: Tom Zé
Intérprete: Tom Zé

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

SABIÁ

Autoria de LuDiasBH

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,O III FIC (Festival Internacional da Canção) promovido pela TV Globo, em 1968, acontecia em meio à revolta geral dos jovens contra a voracidade do sistema capitalista. No Brasil, o inimigo mais voraz era a ditadura militar. Em todo o mundo surgiam líderes estudantis como Vladimir Pereira, Luís Travessos, José Dirceu e José Arantes, no Brasil; e Daniel Cohn-Bendit, na França. A Passeata dos Cem Mil, contando com a participação de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento, foi realizada com estrondoso sucesso. Apesar de tudo isso, um grupo tentava organizar o III FIC, procurando selecionar 24 músicas entre as 1.008 inscritas, na fase paulista.

Nas duas fases paulistas foram selecionadas 12 músicas. Dessas, foram classificadas seis para as vagas atribuídas a S. Paulo, que concorreriam à grande finalista nacional.

Nesta primeira fase, o que chamou a atenção foi o modo esdrúxulo com que Caetano Veloso apresentou-se, num exotismo para lá de louco. Ao reapresentar sua música É Proibido Proibir, classificada, recebeu vaias e tomates. Nem era possível ouvi-lo.

A novidade da segunda fase foi a desclassificação de Questão de Ordem, de Gilberto Gil, mostrando que plateia e júri não viam com bons olhos o tropicalismo, apresentado pelos gurus da Tropicália (Gil e Caetano).

Havia também uma preocupação com a música de Geraldo Vandré, Caminhando, em razão da ditadura militar. Imaginava a organização do Festival que ela não iria longe, mas não era o que parecia, pois seu refrão logo se tornou cantado pela plateia (Vem, vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer).

No final da fase paulista, quando seriam escolhidas as seis finalistas para o festival nacional, o clima pegou fogo. Os Mutantes foram os primeiros a serem vaiados. Ao cantar Caminhando, Vandré viu a plateia atritar-se, os grupos brigando entre si, sendo necessária a intervenção policial. Por sua vez, os estudantes mais politizados criticavam a postura de Caetano e Gil, que não se opunham à ditadura, e ainda apareciam como se estivessem participando de um folguedo, sem nenhuma postura política, ao contrário de Geraldo Vandré (mas o futuro traria outra mensagem).

Quando Caetano Veloso foi apresentar É Proibido Proibir, além de sua vestimenta bizarra, rebolava e imitava o ato sexual, provocando a plateia, onde muitos lhe viraram as costas. Em vez de cantar, ele passou a fazer um discurso inflamado, criticando a juventude, mas ninguém conseguia ouvir nada. E vieram ovos, tomates, bananas, papel… e até um pedaço de madeira voou e atingiu Gil, abraçado a Caetano, no palco.

As seis classificadas paulistas para o festival nacional foram:
• Caminhando – Geraldo Vandré
• Oxalá – Teo de Barros
• América, América – Cesar Roldão Vieira
• Dança da Rosa – Chico Maranhão
• Canção do Amor Amado – Sérgio Ricardo
• É Proibido Proibir – Caetano Veloso

A final seria no Maracanãzinho. Dentre as canções cariocas que iam fazer parte da final, Salmo, Andança, Sabiá, Maré Morta, Meu Sonho Antigo e Dia de Vitória, eram as mais faladas pela imprensa. Caetano resolveu não participar. Os artistas estrangeiros estavam temerosos de participar do FIC, com medo de vaias, mesmo assim grandes nomes internacionais vieram ao país.

A primeira eliminatória nacional apresentou 23 canções. Saíram bem cotadas: Dia da Vitória (Marcos Valle), Andança (Danilo Caimmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), Na Boca da Noite (Toquinho e Paulo Vanzolini) e Caminhante Noturno (Os Mutantes).

Na segunda eliminatória nacional, Cynara e Cybele apresentaram Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque), sendo muito aplaudida. Caminhando (Geraldo Vandré) foi tão aplaudida, que Vandré ficou muito emocionado, chegando a passar mal fora do palco. Rainha do Sobrado (Eduardo Sousa Neto) foi também muito aplaudida, assim como Sonho (Egberto Gismonti) e América, América (Cesar Roldão Vieira).

A direção do Festival recebeu um comunicado, vindo dos mandantes da ditadura, que as canções Caminhando e América, América não poderiam ganhar o festival. Mas os notificados resolveram deixar as coisas acontecerem.

Na finalíssima, a plateia cantou junto a letra de Caminhando (ou Para Não Dizer Que Não Falei de Flores), Andança (Paulinho Tapajós) e Sabiá (Tom Jobim). E assim ficou a classificação final:

1ª Sabiá (Tom Jobim/ Chico Buarque)
2ª Caminhando (Vandré)
3ª Andança (Danilo Caimmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós)
4ª Pascalha (Quarteto 004)
5ª Dia de Vitória (Marcos Valle)
6ª Caminhante Noturno (Os Mutantes)

A maior parte do público contestou o resultado numa grande vaia, não aceitando Caminhando em segundo lugar. Era impossível ouvir Cynara e Cybele cantando Sabiá, após seu anúncio como finalista. (Vejam o vídeo abaixo). Conheçam agora sua letra e ouçam a belíssima canção:

Sabiá
Autores: música de Tom Jobim e letra de Chico Buarque
Intérpretes: Cynara e Cybele

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor talvez
Possa espantar as noites
Que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida
Já vai chegar
E que a solidão
Vai se acabar

https://www.youtube.com/watch?v=Zhxcu55PRHI/

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

LAPINHA

Autoria de LuDiasBH

Elis

A I Bienal do Samba da TV Record foi realizada em 1968, uma vez que vários compositores de samba encontravam-se chateados com os lugares reservados ao samba nos festivais de então, que sempre ocupavam as piores posições.

A I Bienal do Samba seguiria um processo diferente do que acontecia nos festivais. Uma comissão composta por 15 membros , sendo nove cariocas e seis paulistas, convidaria 36 compositores, escolhidos pelo trabalho já apresentado, e cada um deles deveria apresentar um samba inédito. A preferência seria dada aos compositores da velha guarda, havendo espaço também para os novos, como Chico Buarque, Zé Keti, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Tom Jobim, etc. O prêmio atingiria até a 6ª colocação.

Na primeira apresentação para a seleção das músicas que concorreriam aos prêmios, Elis Regina defendeu Lapinha, de Baden Powell e César Camargo Mariano, acompanhada pelos Originais do Samba. Foi amor à primeira vista com a plateia. Vieram a seguir os cantores Isaurinha Garcia, Germano Mathias, Milton Nascimento, Zé Keti, Demônios da Garoa, Chico Buarque e Toquinho, Noite Ilustrada e Jair Rodrigues, cada um defendendo um respectivo samba. O público aplaudia alguns e vaiava outros, como sempre acontecia nos festivais.

Na primeira fase, os quatro sambas classificados foram:

Lapinha – (Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro) – interpretado por Elis Regina
Bom Tempo – (Chico Buarque) – interpretado pelo próprio Chico Buarque
Marina – (Synval Silva) – interpretado por Noite Ilustrada
Foi ela – (Zé Keti) – interpretada por Zé Keti e o Coral Bach que seria substituído por:
Coisas do Mundo, Minha Nega (Paulinho da Viola) – interpretado por Jair Rodrigues

A plateia chiou com a ausência do samba Mulher, Patrão e Cachaça – (Adoniran Barbosa) defendido pelos Demônios da Garoa. A cantora Aracy de Almeida homenageou Noel Rosa, ao cantar X do Problema, Feitiço da Vila e Com que Roupa.

Na segunda fase, foram classificados os sambas:

Tive Sim (Cartola) – defendido por Cyro Monteiro
Quando a Polícia Chegar (João da Baiana) – defendido por Clementina de Jesus
Quem Dera (Sidney Miller) – defendido por MPB4
Luandaluar (Sérgio Ricardo) – defendido por Marília Medalha

O pianista e compositor Sinhô foi o homenageado da segunda fase da I Bienal do Samba. Chico Buarque, seu grande fã, cantou alguns de seus sambas, como Gosto que me Enrosco e Jura.

Como parte de Foi Ela, samba de Zé Keti, classificado na primeira eliminatória, fizesse parte da trilha do filme Rio, Zona Norte (1957), ele foi desclassificado, entrando em seu lugar Coisas do Mundo, Minha Nega (Paulinho da Viola) defendido por Jair Rodrigues.

A terceira eliminatória classificou os sambas:

Rainha Porta Bandeira (Edu Lobo) – cantado por Márcia e Edu
Canto Chorado (Billy Blanco) – cantado por Jair Rodrigues
Protesto Meu Amor (Pixinguinha) – cantado por Clementina de Jesus
Pressentimento (Elton Medeiro e Hermínio Bello de Carvalho) – cantado por  Marília Medalha

Ary Barroso foi o homenageado da terceira fase da I Bienal do Samba, com alguns de  seus sambas interpretados por Cyro Monteiro.

Uma vez pronto o resultado das três eliminatórias, deu-se a finalíssima. A plateia já se via dividida entre as interpretações de Elis Regina e Jair Rodrigues, além de outros grupos que ostentavam faixas com o nome de suas canções escolhidas.

Ao somarem os votos, os jurados perceberam que os sambas Lapinha, de Baden Powell, defendido por Elis Regina e Os Originais do Samba e Bom Tempo, de Chico Buarque, defendido por ele mesmo, estavam empatados. Houve nova votação e, no desempate, o 1º lugar ficou com Lapinha.

Classificação dos sambas vencedores, em ordem decrescente:

Coisas do Mundo, Minha Nega
Tive Sim
Canto Chorado
Pressentimento
Bom Tempo
Lapinha

Agora conheçam a letra e ouçam o samba Lapinha, na voz maravilhosa de Elis Regina:

Lapinha
Autoria: Baden Powell e Paulo César Pinheiro
Intérprete: Elis Regina

Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Vai meu lamento vai contar
Toda tristeza de viver
Ai a verdade sempre trai
E às vezes traz um mal a mais
Ai só me fez dilacerar
Ver tanta gente se entregar
Mas não me conformei
Indo contra lei
Sei que não me arrependi
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Sai minha mágoa
Sai de mim
Há tanto coração ruim
Ai é tão desesperador
O amor perder do desamor
Ah tanto erro eu vi, lutei
E como perdedor gritei
Que eu sou um homem só
Sem saber mudar
Nunca mais vou lastimar
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Adeus Bahia, zum-zum-zum
Cordão de ouro
Eu vou partir porque mataram meu besouro

https://www.youtube.com/watch?v=UXPNfPhVIGg/

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem